Na velha e acolhedora Peçanha, onde o tempo vagaroso quase parava ao cumprimentar cada viva alma, morava o João Grandim, apelido vindo dos tempos em que era alto como um coqueiro e forte como um touro. Com a idade o corpo encolhera, mas continuavam a fama e a risada, como no tempo do cinema mudo e do forró na praça.
João Grandim era mestre em contar histórias. Não qualquer tipo de história, mas daquelas que a gente escuta e depois fica olhando para o nada, se perguntando: – “Será que foi verdade?” E é justamente aí que ele conquistava: na dúvida entre o real e o imaginário.
Contava, por exemplo, que ouvia conselhos de um sabiá; ou que um padre, nos anos 40, foi abduzido por um disco voador atrás da igreja; e uma vez viu um anjo se escondendo atrás da torre do relógio da matriz.
Mas a história que mais impressionava — e que nunca deixou de contar — era da mulher que se tornou seu grande amor, como nas lendas: Amália. Dizia que conheceu Amália num carnaval de 1963. Ela surgiu dançando no meio da praça da igreja, fantasiada de índia, com um sorriso que parecia luz de vaga-lume em noite de breu. “Ela pisava como quem flutuava” dizia, “e olhava como quem sabia de coisas que a gente nem sonha.” Dançaram, riram, tomaram quentão com gengibre e dormiram sob o céu de Peçanha, no alto do morro do Cruzeiro. Ficaram juntos três noites e dois dias, e depois ela sumiu. Sem deixar bilhete, rastro ou lembrança concreta. Só a saudade.
Os mais jovens riam:
– Ô João, essa mulher foi invenção sua, não foi?
Ele respondia com aquele jeito matreiro:
– Foi invenção de Deus, que presenteou-me por três dias e depois a levou de volta pra onde mora a poesia.
A cidade inteira conhecia essa história. Uns diziam que era invenção, outros achavam que era dor disfarçada. Mas ninguém conseguia ouvir sem sentir um nó na garganta — daqueles que a verdade disfarçada de mentira provoca. O tempo passou, João Grandim foi ficando mais quieto. Já não andava até a venda como antes, mas ainda balançava na cadeira da varanda, olhando pro céu de fim de tarde. Foi ali que, num dia qualquer, perto de completar 90 anos, ele partiu. Estava sentado, sorrindo, como quem espera alguém querido. Ao seu lado, um papel amarelado, escrito com letra trêmula:
– Amália voltou esta noite. Disse que estava na hora. Fomos dançar.
Peçanha parou. A notícia se espalhou pelas esquinas, pelos becos, pelas varandas. Uns riram com respeito, outros se emocionaram de verdade. Mas ninguém, ninguém mesmo, achou estranho demais. No velório, apareceu uma mulher desconhecida. Usava um vestido florido, um xale de crochê e um colar de contas vermelhas. Os cabelos eram escuros, os olhos serenos. Aproximou-se do caixão, encostou os lábios na testa de João Grandim e murmurou:
– Demorou, meu bem. Mas agora é pra sempre.
Virou-se, atravessou a multidão em silêncio e sumiu pela Rua do Quenta Sol. Nunca mais foi vista.
Depois disso, a história mudou de lugar: deixou de ser “mentira de João Grandim” e virou memória da cidade. A praça onde, segundo ele, dançaram pela primeira vez ganhou uma placa: “Aqui dançaram João Grandim e Amália. A mentira mais verdadeira que Peçanha já viu.“
E ninguém mais riu da história.
Porque, em Peçanha, aprendeu-se que há mentiras que carregam verdades tão grandes, tão bonitas, que merecem cadeira cativa no coração da gente. Que às vezes a verdade não precisa de prova, só de sentimento. E que o que é inventado com amor, lembrado com carinho e contado com brilho nos olhos, tem mais força que muita verdade fria por aí.
João Grandim partiu no corpo, mas ficou inteiro na lembrança. E toda vez que a banda toca na praça, quando o povo dança em volta da igreja e o céu se enche de estrelas, há quem jura que vê, no canto do coreto, um velho alto dançando com uma mulher de vestido florido.
Pode ser imaginação. Ou pode ser só mais uma mentira dessas que, em Peçanha, ninguém mais se atreve a duvidar.










Uma resposta
Maravilhosa estória! Grande João Grandim! Eh, Peçanha!