O dia em que pensei que tinha morrido

Publicado em: 31/10/2025 às 10:08

Atualizado em: 31/10/2025 às 12:39

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Bar do Baco, o ônibus na porta. 

Era fim de tarde, cheguei em casa, naquele momento em que o céu se despede do azul e começa a vestir o manto da noite. Morava com meus pais e irmãos numa casa espaçosa, do lado de cima da linha do trem — aquela que levava ao bairro Patrimônio.

Diziam que as terras do Patrimônio pertenciam à Igreja, mas foram ocupadas por moradores que, pobres ou nem tanto, tomaram posse e ergueram suas casas com coragem e tijolo. O bairro era um mosaico de histórias e personagens folclóricos: a Donana Lavadeira, o Tinim Gaiola, Calistão e outros que mereciam livro próprio.

Naquela tarde-noite, a casa estava às escuras e eu estava sozinho. Vasculhei a cozinha em busca de algo para comer, quando ouvi, vindo do alto-falante da igreja Matriz, a melodia solene da Ave Maria de Gounod. Aquilo era sinal de que alguém havia partido — e não era para uma viagem de férias. O sistema de som da igreja era uma espécie de desafio auditivo. Mal se entendia o que se dizia, e o vento, caprichoso, ora trazia o som, ora o levava embora. Era preciso ouvir umas quatro ou cinco vezes para decifrar quem havia morrido. A mensagem era sempre a mesma: “A família de Fulano de Tal comunica seu falecimento…”

Na terceira repetição, entendi: “A família de João Alberto…”, seguido por um ruído indecifrável, mas que soava perigosamente parecido com “Vizzotto”. Meu sobrenome. “A família de João Alberto Vizzotto comunica seu falecimento…”  Parei. Pisquei. Respirei. Morri? A casa escura, o silêncio absoluto, eu ali — sem febre, sem dor, sem aviso. Pensei: “Sou muito novo pra isso. Nem doente eu tô!” Mas vai que…

Assim, demorei um bom tempo pensando, meio incrédulo, o que não tinha feito na vida, mas que gostaria de ter feito. Ir para Machu Picchu, por exemplo. Era um desejo para  depois de formado. 

Não iria conhecer tantos outros lugares. Naquelas alturas, eu me contentaria até visitar Guapiaçu, cidade do sapato queimado. Aí comecei a pensar se ia para o Céu ou não. Eu tinha sido um bom menino, um bom rapaz. Não sei se São Pedro tinha anotado todas as traquinagens que fiz na vida. Arrependi-me de ir tantas vezes no Girardi nadar, sem minha mãe saber.   

Foi então que o telefone tocou. Daqueles antigos, que quando tocam, o quarteirão inteiro sabe que é na sua casa. Fui atender como quem caminha para o juízo final. Atendi com um “alô” sem alma. Do outro lado, uma voz pergunta: “Quem fala?” Respondi, hesitante: “João Alberto...” A voz se iluminou: “Bertinho! É você?” Era meu tio José Carlos, são-paulino roxo e morador de Barretos. Eufórico, ele queria saber se eu estava vivo. “Acho que sim”, respondi, ainda em dúvida. Ele contou que soube da minha morte e ligou em busca de confirmação. Já estavam preparando meu velório, talvez até escolhendo a cor das flores. Mas eu ali, em carne, osso e confusão.

Mais tarde, o mistério foi desfeito. Quem havia morrido era o Baco, dono de um bar famoso na cidade. Seu nome? João Alberto Prezzotto. E eu? João Alberto Vizzotto. Uma sílaba de diferença entre a vida e a eternidade. Sem desejar o mal de ninguém, confesso, pensei “antes ele do que eu!” Voltei sem nunca ter ido. 

Coisas que só acontecem em Colina.

João Aberto Vizzotto

João Vizzotto nasceu em Colina, São Paulo. Depois de formado em Direito, um concurso público o levou para as Minas Gerais, ha mais de 40 anos. Casado com Ana Maria, têm 3 filhos. Curte a vida de aposentado viajando e lendo os livros dos meus amigos escritores.

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Respostas de 26

  1. Como bem foi anunciado previamente, uma história de realismo mágico? Quando eu li “Coisas que só acontecem em Colina”, supus erro, que o autor se referia a Coluna, nossa vizinha. Não. O Vizzotto é de São Paulo. E poderia estar escrito “Coisas que só acontecem em Peçanha”… Parabéns, Vizzotto! Viva o Echo!

  2. Caro Rubens. Nas conversas com Chico França chegamos a conclusão que Pecanha e Colina, sao irmã gêmeas. As personagens sao muito parecidas. O tempo passou em Pecanha e em Colina no mesmo vagar.

    1. Obrigado pela resposta, Vizzotto. A população de ambas é muito similar, o que não acontece com a história, sua Colina sendo muito mais nova, me parece. Imagino a semelhança dos tipos… Um abraço fraterno. Fique com Deus.

  3. Obrigado pela resposta, Vizzotto. A população de ambas é muito similar, o que não acontece com a história, sua Colina sendo muito mais nova, me parece. Imagino a semelhança dos tipos… Um abraço fraterno. Fique com Deus.

  4. Amigo então estás vivo, que bom, nunca soube dessa sua veia literária, muito boa crônica, espero ler mais. Como você sabe sou um leitor inverterado.

  5. Primo, não sabia desse seu dom. Além de uma bela reflexão, traz a memória das pessoas e de sua Colina.
    Parabéns pela crônica

    1. Joao. Bom dia. Tenho algumas histórias pra contar de Jaborandi e vocês estarão nelas. Grande abraço

    1. Berto boa noite. Não sabia desta história. Muito boa. Parabéns. Querido irmão.

      1. Meu irmão. Obrigado pelo incentivo. Ainda tenho muitas histórias pra contar de como juntos, vivemos uma infância e adolescência maravilhosa

  6. Berto confesso que me senti es dentro de sua casa , só faltaram os pés de jabuticabas . Saudades de nossa infância, do Sr. Moacir e dona Ica.

    1. Sandra. Nossas vidas se entrelaçadas. A família Caldeira e Vizzotto tiveram uma relação muito bonita. Obrigado

  7. Acompanhamos o Vizzotto com idêntica aflição, até respirarmos aliviados somente no último parágrafo. E ao mesmo tempo rimos com as mesmas palavras.
    Que delícia de crônica, mesmo com o sofrimento do autor.

  8. Acho que Freud explicou estar rindo da sua aflição. Veja abaixo o significado da palavra Schadenfreude no Pílulas do Dr. Enoc, abaixo.

  9. Meus caros. Na verdade nem.eu tinha ideia de poderia escrever algo. Mas as memórias afetivas vao surgindo e ai o texto flui. Ainda mais quando escrevo sobre coisas que vivi.

    1. Valeu meu filho. Nossas vidas nao estao limitadas a pai e filho. Vai muito além disso. Voce e seus irmãos sao meu maior tesouro.

  10. Que delícia de leitura! Essa crônica é daquelas que nos transportam — com cheiros, sons e cores — para um tempo em que a vida parecia mais lenta e cheia de significado. A descrição da tarde, o toque da Ave Maria, o susto existencial e o humor final se entrelaçam com maestria, num texto que tem o sabor de casa e o aconchego das boas memórias de família.

    É impressionante como em poucas linhas o autor nos faz rir, refletir e sentir saudade de algo que talvez nem tenhamos vivido, mas que reconhecemos de alguma forma — como se também fôssemos parte daquele bairro, ouvindo o alto-falante da igreja e o telefone antigo tocar.

    Uma narrativa simples e profunda, que mostra como a vida cabe inteira nas pequenas histórias de uma cidade e nas confusões poéticas do cotidiano.

    1. Mirelle agradeço suas palavras. A gente ja se contou muitas histórias. Quem sabe , escreveremos um livro de crônicas do nosso cotidiano. Voce tem muitas histórias boas pra contar. Abraco

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