O particular universal

Publicado em: 30/09/2025 às 08:36

Atualizado em: 30/09/2025 às 13:28

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O que torna um lugar único? 

As lembranças que ficam ao seguir pela rua de casa. A vizinha fofoqueira, o vizinho que enlouqueceu. A esquina em que se caiu e quebrou um braço, o passeio em que as rodas da bicicleta tanto correram. A casa com um ar misterioso, um canto escuro do qual era melhor desviar. A árvore que dava flores tão cheirosas, a outra árvore que convidava para sentar e conversar.

O que torna um lugar único são os detalhes, os momentos pequenos e grandes que marcam a memória. Em O Sol é para Todos, Harper Lee desenha uma cidade que não conhecemos mas,  ainda assim, é tão familiar. Apesar de a história se passar em Maycomb, uma cidade de outro país, outra realidade, outra sociedade, outra época, aqueles detalhes tão conhecidos da memória estão bem ali, ainda mais quando a referência é de uma cidade do interior. Em alguns momentos a dúvida pode até surgir: não seria essa a Peçanha que conheci quando pequena, ou a Peçanha que tanto ouço meu pai descrever?

Essa obra, que é considerada um clássico na literatura americana, é delicada e ainda assim potente. Essa dualidade se deve sobretudo à forma como a história é narrada: tudo é contado por Scout, uma criança. Se a narração do ponto de vista da menina traz a pureza e a inocência infantis, ela traz também a incompreensão diante de questões que de fato não têm explicação ou justificativa, como o racismo e o preconceito.

Isso se deve ao ponto central do livro: o pai de Scout, Atticus, é advogado de defesa de um homem negro acusado de violência contra uma mulher branca. Todas as evidências indicam que Tom Robinson, o réu, seria inocente, e Atticus se dispõe a defendê-lo apesar da pressão da comunidade, certa de que Robinson era culpado.

Com o avanço do julgamento, o livro apresenta outras facetas que extrapolam o momento e o local da história, outros elementos que acabam representando um particular que na verdade é universal: o preconceito, o racismo, a pressão da sociedade e a busca não por justiça, mas por culpados. Facetas que não só ultrapassam fronteiras, como também o tempo. Por isso, a história, que se passa na década de 30 e foi publicada em 1960, vencendo o prêmio Pulitzer no ano seguinte, se tornou um clássico e permanece relevante até hoje.

“Se só existe um tipo de gente, por que as pessoas não se entendem? Se são todos iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros?”

No fim, a história comove porque provoca grande identificação. Percebemos que aquele particular, que tanto nos é conhecido, na verdade é universal. Seja esse particular um canto do mundo que acolhe nossas memórias, seja o preconceito que insiste em perdurar.

Luísa Vieira França

Luísa Vieira França, capricorniana, nasceu em Belo Horizonte. Fez Engenharia Química, mas enveredou pelo Marketing Digital. Gosta de livros - cria Clubes de Leitura por onde anda -, Taylor Swift, boa comida, viajar e, principalmente, do Luiz, seu marido.

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Uma resposta

  1. A conexão ente o particular e o global é poderosa. Muito bem percebida. E o texto é plasticamente lindo.

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