O Sutil Poder das Lembranças

Publicado em: 28/06/2025 às 07:55

Atualizado em: 30/06/2025 às 23:06

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Ontem é só uma lembrança. Amanhã nunca é o que deveria ser. Ontem se foi, mas o passado vive. Amanhã é apenas um passo além. (Bob Dylan – Don’t Fall Apart on me Tonight).

O badalar do sino que anunciava a missa das 10 mudou tornando mais triste o cortejo até ao cemitério. Saindo da igreja, após a recomendação, seguiu pela rua do Quenta Sol, o Largo do Rosário e finalmente o morro até o grande portão de ferro. Depois, estaríamos sem ele, como em todos os dias à frente. 

A morte de um homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. (John Donne – Meditação XVII)

A casa seria lugar diferente de quando saímos. Sem as conversas sobre os últimos acontecimentos, a política, o futuro. Não haveria esse futuro. Adaptar-se às grandes perdas é doloroso e solitário. Embora tenhamos ajuda, somente através das próprias emoções é possível retomar o sentido da vida. Elas atuam criando lembranças que passarão a nos acompanhar, erguendo anteparos à tristeza. Através delas podemos re-viver as experiências que não existem mais no mundo real. Termos acesso às situações que permanecem dentro da pele, no tempo de quando participamos delas.  

Voltamos à rua sem medo, na chuva que continuará até em casa. Ainda não tínhamos capacidade para enfrentar as responsabilidades que viriam, tudo era maior do que nós, mais coisas do que podíamos processar. Mas nos contentávamos com os nossos feitos e realizações, pequenos ou grandes. Seguíamos atravessando o terreno baldio coberto de mato até chegar à casa onde vivemos os primeiros anos. Antes do almoço de domingo olhamos em volta para certificar se todos estariam nos seus lugares. Ficamos um pouco desorientados quando a mãe chega com o pirex de macarronada assada e o frango frito, pois esta cena não se repetia há muito tempo. O fogão, os móveis, o telefone no canto parecem familiares, mas estranhos, como se não fizéssemos parte daquele ambiente. Estrangeiros em nossa terra, estrangeiros em nós. O almoço termina e o sol já deveria ter passado pelo Morro Redondo, mas continua brilhando, como se deslocasse em outra dimensão. Tiramos foto da cena outrora comum, que se tornou valiosa. A reprodução é feita com o material guardado na memória: sentados com as mãos sobre os joelhos, leve sorriso nos rostos que não envelheceram, pose para máquina sobre a cristaleira. Tudo continua igual onde o tempo não passou. 

Antes do dia em que essa paisagem irá desaparecer, continuaremos revivendo aqueles instantes cuidadosamente arranjados nos intervalos do tempo. Transformados em lembranças, eles se protegem ante a ameaça do esquecimento. Para facilitar, conservamos apenas o modo de viver primitivo, aquele que mantém conexão com a existência. Na fotografia retocada, retiramos os defeitos que modificaram os rostos verdadeiros. Permaneceram somente os traços que traduzem fielmente o jeito de ser. As partes que jamais se alteram formam unidade cuja essência persiste no tempo.

Sentimento renovado, sem arrogância constatamos que vida é isso aí, sem mais nem menos. Estamos onde deveríamos estar, conduzidos por mãos invisíveis, moldam suavemente nossos movimentos para não desviarmos do caminho já definido. Alguém toma conta de nós e organiza em lembranças sem conflitos os acontecimentos tão diferentes entre si. Antigos modos de vida revelam-se com energia, oferecendo-nos sensações que continuam pulsando, tornando próximo o que é distante. Novamente ansiosos, voltamos às experiências revigoradas, como se fosse a primeira vez que participamos. Não conseguimos viver longe do que somos. 

A atividade suprema do espírito consiste em criar situações amáveis, amistosas para aquilo que por vezes possa demorar em nós. (Rainer Maria Rilke)

Ao receber as lembranças com gentileza, provendo-lhes energia para atuarem, elas indicam, com máxima clareza, que o regresso àquelas imagens na verdade é o curso da vida fluindo sutilmente na alma. 

Com tristeza o Echo da Mata homenageia José Maria Alvarenga – Deca, companheiro querido. Sentiremos sua falta, mas lembraremos do seu exemplo de grande pessoa humana.

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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Respostas de 4

  1. Grande Deca, “gente da melhor qualidade”, como ele mesmo se referia a muitos. Gratidão e saudade.

  2. Parabéns meu amigo Chico França e equipe pela bela homenagem ao Decá, também, um velho amigo de infância.

  3. Parabéns meu amigo Chico França e equipe pela bela homenagem ao Deco, também, um velho amigo de infância.

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