Ofícios tradicionais

Publicado em: 27/11/2025 às 16:11

Atualizado em: 27/11/2025 às 17:45

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D. Dirce Gonçalves da Silva

SABOR E TRADIÇÃO NO QUILOMBO JORGES

Em Peçanha existe um lugar onde o tempo corre de outro jeito. É no Quilombo Jorges que as tradições resistem pelo fogão aceso, pelas mãos que sovam a massa, pelas colheitas cuidadosas e pelas memórias que se revelam em cada prato. É ali que Dirce Gonçalves da Silva, liderança comunitária, transforma comida em história, afeto e futuro há 38 anos.

Para ela, cozinhar não é apenas alimentar: é sustentar o elo com os ancestrais que, vindos do Serro, caminharam por São João Evangelista até fixarem raízes em Peçanha.

“As comidas típicas nós aprendemos com nossos ancestrais, com nossa avó, nossa mãe e nossos tios”, diz. As receitas atravessaram gerações e mantêm a comunidade unida.

Rosquinha de melado e arroz vermelho são memórias que alimentam e contam histórias, já que a rosquinha foi a primeira quitanda feita para vender e, até hoje, é uma das estrelas do quilombo. Mas é o arroz com galinha, preparado com arroz vermelho plantado na própria comunidade, que se tornou símbolo maior do Quilombo Jorges. É o prato que os visitantes pedem, repetem e guardam na memória como o sabor da infância.

Todo mundo ama comer esse arroz com galinha”, diz Dirce,com um sorriso largo de quem sabe o que diz.

O arroz vermelho, quase extinto no município, sobrevive ali graças ao conhecimento transmitido de geração em geração. E é justamente essa transmissão que a preocupa:

 “A maioria dos jovens vive hoje na cidade e alguns até nos Estados Unidos, e poucos permanecem no território para aprender o plantio, a colheita e o modo de fazer. Nós estamos lutando para ensinar, mas tá ficando muito difícil”, lamenta.

Ainda assim, ela insiste. Ensina por áudio, por vídeo, por demonstração. Porque sabe que a cultura só vive quando passa de mão em mão.

Os produtos também são comercializados no Mercado Municipal, que reflete a alma de Peçanha desde os tempos em que os produtos chegavam em cavalos e cargueiros. Dirce se lembra de Duquinha, seu cunhado, que vendia ali e comprou terra com o dinheiro das vendas. A tradição permanece, hoje mantida principalmente por Dona Piedade, sua vizinha, que, faça sol ou chuva, está ali toda sexta-feira antes do amanhecer.

O mercado reúne muito mais que mercadorias. É onde se troca receita, faz amizade, conta histórias. “É o lugar dela distrair, de conversar”, diz sobre Piedade. Entre jilós, batatas assadas, arroz vermelho e doces de mamão surgem clientes fiéis, inclusive um que vem de Guanhães buscar produtos para revender. “Ele falou que tá ganhando dinheirão com nossas coisas”, conta, divertida.

A vida desta mulher forte se confunde com a vida da Associação Comunitária. Ela já foi secretária, presidente, tesoureira e nunca esteve fora da diretoria. O reconhecimento oficial da comunidade como quilombola veio após pesquisa minuciosa orientada pela então secretária de Cultura, Marina Leão, e foi um marco na compreensão da própria história.

Quando arrumamos a documentação para mandar para a Fundação Palmares, foi que conhecemos a história dos nossos ancestrais. Ficamos muito mais experientes.”

Considera o PAA – Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar – como um dos mais marcantes de sua trajetória. O primeiro pagamento distribuído entre as mulheres da comunidade permanece gravado nela como um gesto de libertação.

“Uma mulher pegou o dinheiro, espalhou as notas na mesa e perguntou: ‘Isso tudo é meu?’ Ela começou a rir. Foi a maior felicidade da minha vida. Eu senti que tinha sido útil.”

Desde então, Dirce trabalha incansavelmente para que as mulheres quilombolas conquistem renda, autonomia e orgulho.

O Quilombo Jorges não se limita à rotina do território. Quando pode, participa de feiras em Belo Horizonte, na Cenibra e na AgriMinas. Em dezembro, estarão no Canjerê — tradicional encontro da cultura afro-brasileira em Minas. Levar a comida, a história e a força da comunidade para outros espaços é também uma forma de afirmação.

Mas o futuro exige cuidado. As tradições permanecem, mas caminham na corda bamba. “Se tiver fé na gente, continua”, ela diz. E essa fé é cultivada todos os dias com panela no fogo, sorriso franco e generosidade.

Talvez o maior segredo das receitas do Quilombo Jorges seja a intenção. Quando alguém diz que o sabor lembra a infância ou a comida da avó, ela se emociona. “Tudo que é feito com amor fica maravilhoso”, afirma. E é esse amor que transforma o fogão da comunidade em um espaço de encontro, amizade e fraternidade.

Ali, comida não é só comida. É abraço, é resgate, é memória.

Quem quiser conhecer a história do Quilombo Jorges, o Instagram @QuilomboJorges tem registros do plantio, das receitas, dos pomares produtivos e da vida cotidiana. E quem quiser visitar o mercado pode aparecer toda sexta-feira, a partir das 5h da manhã, quando Dona Piedade chega com os produtos frescos da roça.

“Já quem deseja conhecer a comunidade precisa apenas combinar, porque estou sempre entre idas e vindas, mas garanto que sempre recebo de coração aberto.”

Para encerrar esta deliciosa conversa ela nos deixa um recado simples e forte:

“A cozinha representa afetividade, amor e carinho. Não só um lugar de comer, mas de encontro, de amizade e fraternidade.”

Cozinhar é o mais privado e arriscado ato.
No alimento se coloca ternura ou ódio.
Na panela se verte tempero ou veneno.
Cozinhar não é serviço.
Cozinhar é um modo de amar os outros.
(Mia Couto)

O BARRO

Maria Gorete de Almeida e sua escola

“o barro
 toma a forma
 que você quiser
 você nem sabe
 estar fazendo
apenas
o que o barro quer”
(Paulo Leminski)

Maria Gorete de Almeida, oleira de 71 anos, nascida e criada em Água Branca, zona rural de Peçanha, começou sua vida profissional ainda menina, quando as mãos aprenderam a escutar a matéria-prima, ou seja, o barro. Obedecendo ao ritmo da família,  há gerações moldando  potes, panelas e histórias e observando sua mãe, Dona Aguida Pereira e as mulheres da casa, ela entendeu que o artesanato não é apenas trabalho: é herança, raiz e continuidade.

O barro para Gorete é mais que matéria: é vida, cura e essência. Ela garante que trabalhar com ele acalma, ameniza a ansiedade e proporciona momentos de paz. Uma de suas lembranças da infância era a da mãe ir ao brejo buscar barro para moldar presépios simples porém pintados com muito amor, para enfeitar a casa na roça, na espera do Menino Jesus. Esta história se repetiu anos a fio, atravessando gerações.

Tempos depois, Gorete morou em São Paulo e, ao retornar a Peçanha, reencontrou o barro e aceitou o convite de Filipe Dama, Secretário de Cultura, para oferecer oficinas na própria Secretaria. Além das aulas municipais, Gorete e seus alunos têm a Olaria Mãos no Barro, num espaço cedido pela  Secretaria de Cultura, onde produzem, expõem e comercializam os produtos. O barro utilizado tem várias origens, como os restos de uma olaria de tijolos de Cantagalo, das roças e das beiras de rio. “Aqui tem barro pra todo lado”, diz. A arte da olaria é para todos e todas. De criança aos cem anos. Suas peças são vendidas para turistas e para cidades vizinhas: Coluna, São Pedro do Suaçui, Nacip Raydan, Frei Gaspar e São João Evangelista e outras. As peças de maior sucesso são os cuscuzeiros e as moringas. Numa feira recente, uma mulher comprou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, montou um oratório e mandou a foto em agradecimento pelo trabalho. São pequenas atitudes como esta que nos fortalecem e incentivam a caminhada, diz Gorete. O grupo faz pequenas viagens para comunidades rurais onde organizam oficinas e ensinam a montar fornos. A recompensa é o brilho nos olhos de quem descobre o barro pela primeira vez. “Tem demanda”, repete, com a convicção de quem vive no centro de uma cultura pulsante.

Hoje ela é mestra, título que recebeu de surpresa, num dia de feira, das mãos do Secretário Filipe. Sentiu o peso, a responsabilidade e a alegria. Porque ser mestre é guardar e transmitir.

E Gorete ensina tudo o que sabe sobre a olaria que é a arte de criar e armazenar objetos de barro, observando e respeitando o tempo e estilo de cada aluno ou aluna. Seu sonho é formar novos mestres na cidade, para que a tradição não se apague.

Na Olaria Mãos no Barro, Goreth abre as portas como quem abre o coração:

“Venham. A gente tá aqui, na boa vontade, para ensinar. Porque o barro é vida. E vida a gente multiplica!

A ARTE DE BORDAR SONHOS

Artesã de  55 anos, Goreth Venâncio, tem mãos que brincam com as linhas e escrevem memórias que o tempo não apaga. Aprendeu o ofício ainda menina, observando a mãe, numa época em que as mães bordavam à noite, depois da labuta diária e as filhas espiavam curiosas.

– “Eu olhava ela bordando e sentia que aquilo seria para a minha vida”, lembra Goreth. “Naquela época, há cinquenta anos, os pais não tinham tempo de ensinar, então aprendi sozinha, observando.

A primeira peça que ela se recorda foi uma camisa de tergal branca, bordada à mão livre. “Naquele tempo, era comum usar camisas com bordado feito à mão. Peguei a agulha e comecei”, conta, rindo.

Hoje, o bordado é mais que um ofício, é um refresco para a alma. Goreth trabalha com linhos, cambraias e linhas de meada, criando desenhos próprios. Cada peça é única, feita com paciência e delicadeza. – “Dependendo do ponto, não dá pra desmanchar. Se errar, é começar tudo de novo”, explica.

As peças, feitas sob encomenda, já viajaram longe: de Peçanha para Portugal e Inglaterra. – “A gente faz com muito cuidado e tempo. São peças demoradas, feitas à mão, e isso exige calma. Mas é um prazer imenso quando alguém reconhece o valor do nosso trabalho.”

Mais do que uma bordadeira, Goreth é também uma professora de arte. Em suas oficinas de bordado, ela ensina mulheres da cidade e da zona rural, muitas delas que chegam em busca de um recomeço. 

“No início, vieram pessoas em depressão, passando por momentos difíceis. O bordado virou um alívio. Um auxílio importante para o cuidado com saúde mental. Muitas destas alunas diziam: 

– ‘Não quero vender, quero bordar pra mim’. Isso me emocionava.

As oficinas se transformaram num espaço de cura e cultura. “É um resgate da memória, do tempo das nossas mães e avós. Peçanha tem essa tradição do artesanato, e o bordado faz parte da nossa história”, conta.

Goreth também cultiva um sonho bonito: o enxoval da filha.

 – “As mães de antigamente bordavam todo o enxoval das filhas. Eu já comecei o da minha, mesmo ela ainda não tendo namorado”, diz, sorrindo.

– “É algo simbólico, é amor costurado ponto a ponto”.

Para ela,  o bordado tem a mesma função que o mel tem para a abelha. Com este amor pelo que faz, convida a todas as leitoras e leitores do Echo da Matta a se aventurarem na arte de bordar.

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

Thiago Rodrigues Leão

Thiago Leão, formado em Publicidade/UniBh. Formado em História da moda no Museo de la Historia del Traje, Buenos Aires. É um eterno curioso da Comunicação, ama cinema, séries e documentários. Atualmente trabalha na Comunicação da Prefeitura Municipal de Peçanha.

Kiany de Cássia Silva

Kiany de Cássia Silva, nascida no Quilombo Jorges, Água Branca, carrega a força da ancestralidade. Professora e Artista, cozinha como quem reza, lembra e celebra.

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Respostas de 8

  1. As “Goretes” merecem nossos aplausos, carinho e reconhecimento…mulheres guerreiras que fazem muito para a cultura da nossa cidade!🥰

  2. Tudo maravilhoso! Ver tia Dirce aqui foi incrível! Lá no quilombo celebramos sempre a comunidade. Escrita forte, sensível, que representa esse meu povo que as vezes nem ler e escrever sabe, mas sabe ler a vida como ninguém e escrevem através de atos e exemplos!

    Gratidão por tanto Echo! 🖤

    1. E isto aikiane a nossa matriarca hoje falou e impossível a comunidade dos jorje muito bem não é melhor que as outras mais é o nosso berço aconchegante feliz quem aqui mora e quem vierem conhecer eu publiquei uma homenagem falando dessa importância a tempo atrás Gilmar quilombola

  3. Obrigada a todas estas mulheres fantásticas que transformam vidas com as mãos e sabedoria.

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