Preservação Cultural – Tombamento

Publicado em: 30/08/2025 às 15:00

Atualizado em: 30/08/2025 às 17:42

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Patrimônio Paisagístico

Para começar, importa ressaltar que Patrimônio Cultural não se circunscreve a cidades como Ouro Preto, Mariana, Tiradentes, Diamantina e outros monumentos característicos do barroco mineiro. Todo município é contemplado com bens de valor cultural, tangíveis e intangíveis, independentemente de existir há 200, 300 anos, ou há 10 anos apenas, toda cidade tem sua história. Nesta perspectiva, toda cidade é única e é histórica.

O que, às vezes, dificulta essa constatação decorre das dificuldades que têm certas comunidades em valorizar suas raízes, em reconhecer-se enquanto elemento criador e criativo, em ter no seu conhecimento acumulado a consciência crítica para decidir-se sobre seu destino.

O Bem Cultural, antes de tudo, exemplifica o próprio processo criativo, o atestado da interação da inteligência humana com o meio que a envolve. Quando uma criação é forjada, ela será tão mais expressiva quanto melhor combinar os conceitos filosóficos, éticos, estéticos e científicos vigentes. Sua significância é proporcional à sua carga das expressões autênticas de seu tempo. A natureza do produto somente é inteligível quando relacionada com as regras que lhe deram origem e, dessa forma, deve ser apreciado, com rigor e ponderação, como o registro testemunhal da ação do homem na condução do processo evolutivo. Ensina-nos com sua presença viva.

“Cada povo fala sua língua de bem e mal: esta o vizinho não entende. Sua própria língua ele inventou para si em costumes e direitos.” Nietzsche

É imprescindível e prudente que se tenha em conta que preservar não significa copiar, pura e passivamente. Quando se copia, de maneira servil, nega-se o próprio sentido do bem que se quer imitar. Ao reproduzi-lo, ao invés de reconhecer o seu verdadeiro valor, está-se apenas considerando a superfície das aparências, uma vez que já não existem mais as antigas condições de trabalho, e resulta falso o emprego de técnicas modernas a ideais ultrapassados. O produto, seguramente, é desprovido de autenticidade e em nada contribuirá para revelar ao homem os significados da sua existência e do mundo que o cerca. Pode-se dizer que o Bem Cultural adquire a condição de ser preservado justamente por exprimir valores orientados no sentido de proporcionar à coletividade a garantia de sua identidade e o pleno exercício de sua memória.

A partir desta ótica, para eleger quais bens preservar, é preciso avaliá-los por intermédio de uma sistematização que não privilegia nem o saber sobre a estética nem sobre a ética e assim por diante. Os valores que se impõem são aqueles gerados a partir do diálogo das sociedades locais – matrizes geradoras ou herdeiras de tais bens –, e os especialistas que têm acesso às fontes de conhecimento técnico-científico. É nesse quadro que se situa a relação dos órgãos de preservação com as comunidades locais. Em resumo, o que se propõe é o planejamento participativo.

Não se mostra producente  tombar ou restaurar de forma voluntarista, dispersa e isolada, em atitude paternalista. O que é necessário, portanto, é tomar os bens em seu conjunto e, em um acordo, classificá-los. O papel do órgão de preservação é o de propiciar o acesso ao conhecimento especializado relacionado à salvaguarda de bens de cultura e à comunidade caberá participar da avaliação do valor de memória de seus bens e da responsabilidade da sua guarda e do seu usufruto.

Memória

Por fim, é preciso compreender que o tombamento se constitui em ato de reconhecimento do valor cultural de um bem, por meio de sua inscrição em determinado “Livro do Tombo” —são vários, de acordo com a natureza do bem em questão —, instituindo-se um regime jurídico especial de propriedade, levando-se em conta a função social do bem cultural. Alcança tanto os bens materiais ou imateriais, de propriedade pública ou particular. Sua utilização é fundamentada em estudos e análises detalhadas que indiquem, além da pertinência de sua prática, o valor e a representatividade do patrimônio em consideração.

 Como um anexo, abaixo estão reproduzidos alguns conceitos, sempre polêmicos, extraídos da publicação “Política de Preservação de Bens Culturais”, de minha autoria, com a finalidade de suscitar considerações sobre o tema.

“Cultura constitui-se tanto no meio pelo qual o homem se adapta as condições de existência, transformando a realidade objetiva e subjetiva, quanto nas consequências decorrentes dessa adaptação. Trata-se de um processo em permanente evolução, diverso e rico, que extrapola quaisquer conceitos técnicos que se pretendam estabelecer.

 Bem Cultural é o produto desse processo, assim como os elementos da natureza que propiciam ao ser humano conhecimento e consciência de si e do ambiente que o cerca.

 Patrimônio Cultural é formado pela somatória dos Bens Culturais. Dessa forma, chama-se Patrimônio Cultural da Comunidade Mineira o conjunto de Bens Culturais, tangíveis ou intangíveis, portadores de valores estéticos, éticos, filosóficos ou científicos, susceptíveis de serem legados às gerações futuras.

 O Valor Cultural de um bem reside na sua capacidade de estimular a memória das pessoas historicamente vinculadas à comunidade, contribuindo para garantir sua identidade cultural e melhorar sua qualidade de vida.

Para uma abordagem sistematizada, os Bens Culturais podem se agrupar em três categorias:

Modo de Ser, Saber e Criar

 Os modos de ser abarcam toda a existência prática do cidadão e dizem respeito aos seus valores e significados éticos de seu comportamento frente ao mundo. Os modos de saber referem-se à sua existência teórica: os significados, os valores filosóficos e científicos. Os modos de criar, por fim, reúnem os valores estéticos de sua existência imaginária.

 Por mais imateriais e impalpáveis que sejam, por mais difícil e problemática que se apresentem para a sua preservação, tais modos são bens culturais transmissíveis de geração para geração e, por esta e outras razões, fazem parte do patrimônio cultural das comunidades.

Noções, Ideias, Conceitos, Sistemas e Esquemas Mentais

 Os modos de ser, saber e criar da comunidade geram este segundo grupo. Ainda não tem um suporte palpável. Abrange tanto os hábitos e costumes, como as teorias, as visões do mundo, os sistemas filosóficos; as fórmulas científicas, os conceitos, ideias e noções, além das músicas, estórias, mitos, narrativas, ido, inças, danças, e assim por diante. São bens culturais, intelectuais e emocionais, intangíveis.

Documentos, Objetos, Obras de Arte, Equipamentos, Edificações e Espaços Públicos e Privados, Conjuntos Edificados, Sítios Naturais e Arqueológicos

 Formam este grupo os Bens e Culturais Materiais, e incluem-se nesta categoria aqueles bens tangíveis que são portadores de valores estéticos, éticos, científicos ou filosóficos.

Aluísio Rassilan Braga

Aluisio Rassilan Braga nasceu em Peçanha. Arquiteto formado pela UFMG, foi presidente do IEPHA/MG. Também trabalhou na UEMG, como assessor da Reitoria e chefe de Planejamento Físico e Obras. É autor da publicação Patrimônio e Comunidade e colaborador da cartilha ABC do Patrimônio. Atuou em diversos conselhos e programas voltados ao patrimônio, turismo e qualidade do habitat. Atua como profissional autônomo.

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Respostas de 4

  1. Que texto maravilhoso e de grande conhecimento do assunto.
    Aprendi muito lendo o texto.
    Obrigado Aloisio por tantas informações!

  2. Preservação deveria fazer parte de qualquer sociedade, se não fosse por um sem numero de razões, também é fonte de riqueza. A Europa mostra isso com clareza.
    É inadmissível nosso desleixo com nossos tesouros.

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