De um certo ponto de vista, todas essas divindades existem. De outro, não são reais. (Lama Tibetano)
Quando crianças partilhamos companhias reais, de carne, osso, pena, chifre, pelo e, outras, nem tanto: super-heróis, piratas, monstros, bruxas, mulas sem cabeça…
A imaginação acolhia histórias que se mantêm porque ajudam a organizar os pensamentos e a forma de sentir. Descomplicam a explicação da origem do mundo, o entendimento da natureza, dos costumes, ensinam valores morais e reforçam a percepção da identidade do povo. Na época em que tudo ainda estava por acontecer, ajudavam a lidar com o imprevisto e o inesperado. Estando conosco a maior parte do tempo, funcionavam como referência, sinais fixos, ao contrário do mundo ao redor. Os entes ofereciam soluções, para o bem ou para o mal.
Sentimentos se transformavam em imagens para serem identificados mais facilmente. Amor, ódio, carinho, medo, raiva, desejo de vingança, manifestações psíquicas eram acolhidos pelas suas contrapartes, transformados em figuras que os representavam e definiam. Os heróis das lendas, os habitantes dos outros mundos, os seres bons e os malvados traduziam nossos desejos e aflições, lhes davam forma. Além de funcionar como distração nos momentos complicados e, consequentemente, trazer um pouco de calma.
Mesmo com o progresso da ciência, mitologias permanecem atuais. Corporificam as movimentações do inconsciente, tanto as benignas, que trazem satisfação, como as questões incômodas, que muitas vezes não queremos identificar ou serem reveladas. É confortável transferir a criatura imaginária responsabilidade pelo desejo que julgamos inaceitável, escondido no fundo da mente. Modo de ficar livre do desejo incômodo e manter a consciência tranquila. Ao transferir a autoria da nossa maldade para aquelas criaturas livramo-nos da condenação proferida pelo nosso tribunal interno. Amoldando-se às manifestações da consciência, as figuras mitológicas viabilizam o trânsito das emoções, que de outra forma ficariam enclausuradas, provocando danos muitas vezes irreversíveis. Destapam os canais por onde circulam as manifestações entre o inconsciente e a superfície,energizam a alma, revitalizam-na. Em consequência, proporcionam leitura mais precisa dos fatos, compreensão prática do mundo em nossa volta e controle mais efetivo dos desejos e medos.
Enquanto crescemos, as certezas sobre a existência dos seres mitológicos diminuem até desaparecerem. Concluímos que eram ficção, hóspedes da parte insólita da mente. Na fase adulta vivemos entre o que já passou e o que virá. Assim, já existe experiência acumulada e pensamento abstrato para entender as coisas exatamente como são. Ao abrir os olhos o branco seria branco, o céu seria azul, e transparente a manhã de sol.
Viver é um exercício desafiador. Dificuldades de todo tipo, pressões sociais, econômicas, familiares, provocam ansiedade e exigem capacidade para lidar com os sofrimentos. O jeito é enfrentar racionalmente os problemas e tentar resolvê-los com mínimo de danos. Este deveria ser o método, na falta de outro melhor.
A mente continua oferecendo soluções fantasiosas ajustadas às necessidades dos adultos. Torcer para algum esporte; assistir filmes, peças de teatro, acompanhar os atores; disputar competições. Inúmeras maneiras de escapar da realidade por algum tempo, sem trazer problemas sérios. Durante muito tempo estas fantasias cumpriram seu papel e, portanto, deveriam ter sido mantidas.
Mas, porém, no entanto, entretanto, todavia, não é bem assim.
Por alguma razão, outras figuras chegaram, tomaram posse, como se diz, e o resultado não foi bom. Mesmo diferentes, as novas fantasias dos adultos repetem a fórmula, e o pensamento mágico se incumbe de criar a possibilidade de os milagres acontecerem.
O passado não passou. Continua sistematicamente reproduzido, quase sempre reformulado. O mecanismo que funcionava no passado agora em nova embalagem. Pessoas e eventos que os adultos ditos normais deveriam achar exóticas ou impossíveis fazem parte do nosso cotidiano. Os novos seres que vieram habitar nossa mente não ajudam, pelo contrário.
Pastores evangélicos, influencers, políticos, charlatões, agem como se fossem Super Homem ou Super Mulher,franqueados por entidades milagrosas que lhes transferem poderes de mudar nossas vidas. Usando citações bíblicas, frases de autoajuda, fórmulas sobrenaturais, atendem aos devaneios, promovem a felicidade durante algum tempo, até percebermos que as promessas não se realizaram. O Super Homem foi atingido pela kryptonita, metáfora da desmoralização dessas pessoas, que se achavam semideuses. Mas, antes do fim melancólico das ilusões, muito dinheiro rolou.
O indivíduo pensa conforme a doutrina concebida pelos gurus e absorvida avidamente pelo grupo, onde se sente apoiado. Se todos pensam igualmente, então a concepção de cada um é legítima, e as ideias geradas no seu ambiente são válidas. O indivíduo abandona a forma própria de pensar e agir e incorpora os conceitos do grupo, adotando a sua linguagem. Não sabe mais viver separado, nos termos de pensamento específico, porque rompeu com as antigas fontes da sua existência. Seguindo os mandamentos dos profetas da coletividade consegue escapar do encontro consigo mesmo, fugir da sombra que cada um tem, queiramos ou não.
Rituais, celebrações, cultos, solenidades, oferecem suporte aos comportamentos tribais. O sujeito despe da sua personalidade e se transforma em guerreiro, campeão, lutador arrojado, justo, corajoso e valente. As manifestações sociais, a história, a política, a religião são confundidas com questões psicológicas, adotam funções diferentes daquelas de sempre. Agora servem para dar vazão às energias derivadas dos complexos, ao ódio alimentado pelos desencantos e frustrações decorrentes dos objetivos não realizados,
Esta condição é atraente mas oferece o risco de enclausurar os sentimentos nos símbolos. Torná-los presos às fantasias erradas, renunciando a qualquer esforço para ir além delas. Contraditoriamente, resistem à liberdade de pensar de forma crítica, como indivíduo único. A doutrina comum ao grupo usa recursos de convencimento que reduzem a capacidade de análise dos fatos baseada na realidade. A doutrina do grupo nasce primordialmente nas emoções e desejos, deixando de lado qualquer avaliação racional. Os algoritmos se incumbem do restante fornecendo somente as ideias e bobagens aceitas pelos participantes, sem contradição que os faça pensar.
A função do herói das fábulas seria atender a carência produzida pela ignorância diante da vida e sincronizar a consciência da pessoa às necessidades do mundo. Condições para assimilar a sublime ligação entre os episódios passageiros no tempo e uma aspiração transcendental. O imperceptível movimento da vida, que nasce e morre em todos os componentes do universo. O começo e o fim em uma dança eterna que, na verdade, é o princípio básico de toda mitologia: o início no fim.
O que chamamos de princípio muitas vezes é o fim
E criar um fim é criar um princípio.
O fim é de onde partimos.
E cada frase e cada sentença é fim e princípio
A história é padrão de momentos sem tempo.
(Extraído de Little Gidding – T. S. Eliot)
Quando renunciamos à centelha com a qual fomos aquinhoados e reduzimos nossa vida ao ato de brigar, jogamos fora o nosso maior tesouro. Seguindo os profetas mambembes, correndo atrás de ídolos falsos, compomos as legiões dos exércitos de cegos combatendo à noite. Na vida pautada pelo ódio os conflitos nunca são resolvidos. Permanecem em posições intermináveis, na gangorra dos lados opostos. Para equiparar os prejuízos, nos contentamos apenas com o sofrimento que poderia castigar àqueles que não pensam como pensamos. Muito pouco para seguir em frente. O conflito nunca levará à liberdade, palavra tão usada nestes ambientes. Porque para atingi-la é necessária autonomia de pensar e agir segundo a convicção de cada um. A forma solitária de alcançar a independência de viver. A dialética do ódio é estéril, pois se desloca entre polos iguais.
Afastando da nossa consciência fechamos as portas para Deus. Ele jamais aceitará o ódio em seu reino. Excluímos as condições necessárias para recebê-Lo.
Porque eis que o reino de Deus está dentro de vós. (Lucas 17:21)
Quem prega a fúria em Seu nome está mentindo para aqueles que se consideram sabidos, mas escolheram as divindades erradas.
Reserva-se o nome de sábio apenas aquele cuja consideração é o fim do universo, fim esse que é também o início do universo. (São Tomás de Aquino).










Respostas de 4
Muito bom esperar o dia do Echo. Parabéns aos envolvidos. Viva Peçanha!
Viva! Obrigado por nos prestigiar, Rubens.
Adorei Chico!
Obrigado, Celeste!
Abração.