Uhh! Que trem doido

Publicado em: 31/07/2025 às 08:50

Atualizado em: 01/08/2025 às 09:31

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DO TREM DE DOIDO À LIBERDADE: A REVOLUÇÃO SILENCIOSA NA SAÚDE MENTAL BRASILEIRA E QUE CHEGOU À PEÇANHA

A expressão trem de doido, tão familiar no vocabulário afetivo de mineiros e mineiras, costuma arrancar risos ou olhares curiosos. Mas sua origem é tudo, menos leve: ela nasce de uma ferida aberta na história do Brasil. Durante décadas, o chamado trem de doido fazia viagens silenciosas com destino ao Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, um dos maiores e mais letais manicômios do país.

Entre as décadas de 1930 e 1980, mais de 60 mil pessoas morreram naquele local. Ali, não eram acolhidos apenas pacientes com transtornos mentais, mas também pessoas que a sociedade da época rotulava como “indesejáveis”: pobres, negros, homossexuais, mulheres solteiras grávidas, usuários de drogas, órfãos, opositores políticos. Todos empurrados para vagões sem retorno. Não havia diagnóstico, tampouco tratamento: havia exclusão, silenciamento e morte.

É para não esquecer essa história que no dia 18 de maio o Brasil celebra o Dia Nacional da Luta Antimanicomial — uma data que marca a resistência contra os abusos cometidos nos manicômios e reafirma a defesa de uma saúde mental baseada no cuidado, na liberdade e no respeito à dignidade humana.

Essa virada histórica só foi possível graças à coragem de profissionais e militantes que se recusaram a aceitar a loucura como motivo de encarceramento. A principal responsável por esta mudança foi a psiquiatra Nise da Silveira, uma mulher à frente de seu tempo que enfrentou o sistema manicomial e propôs uma revolução: substituir a violência da lobotomia e do eletrochoque pela escuta, pela arte e pelo afeto. Nise viu na pintura, na escultura e na convivência a possibilidade de reconstrução do sujeito. Seus pacientes não eram números nem casos clínicos: eram artistas, pensadores, pessoas em sofrimento psíquico que mereciam ser tratadas com humanidade.                                                                             

Hoje, o legado de Nise da Silveira encontra eco em iniciativas como os CERSAMs — Centros de Referência em Saúde Mental, presentes em Belo Horizonte e em Peçanha. Com equipes multiprofissionais, os CERSAMs acolhem  pessoas em sofrimento mental, oferecem oficinas terapêuticas, incentivam o convívio social e apoiam as famílias. Mais do que serviços de saúde, são espaços de reconstrução da vida.A luta antimanicomial segue atual e necessária. Apoiar os CERSAMs, fortalecer a rede de atenção psicossocial e combater o preconceito ainda presente são passos fundamentais para garantir que nunca mais se repitam os horrores de Barbacena.                                                                                                                          O trem de doido não pode mais partir. Hoje, quem embarca no cuidado deve seguir rumo à liberdade, à escuta e à dignidade.

(Em Peçanha o CRAS – Assistência Social, com a supervisão de Fernanda Mourão Braga, faz um trabalho notável de inclusão e cuidados a crianças e adultos em situação de vulnerabilidade).

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

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Uma resposta

  1. Lembro de historias terriveis que me eram contadas por uma tia de minha esposa. D. Albertina trabalhou durante muitos anos na instituição.

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