Valorização dos bluesmen americanos

Publicado em: 27/11/2025 às 16:11

Atualizado em: 28/11/2025 às 05:30

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Durante as décadas de 1940 e 1950, o blues consolidou-se como uma das expressões musicais mais autênticas da cultura afro-americana. Proveniente do sul dos Estados Unidos, o gênero evoluiu com a migração de músicos negros para centros urbanos como Chicago, onde nomes como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, B.B. King, John Lee Hooker e Willie Dixon desenvolveram o blues elétrico. Apesar da relevância artística, esses artistas permaneceram marginalizados no contexto norte-americano, com pouca difusão fora das comunidades negras. A sociedade estadunidense, ainda marcada pela segregação racial, não reconhecia plenamente o valor cultural do blues (GURALNICK, 1986).

Nos anos 1960, entretanto, um fenômeno inverso começou a ocorrer na Grã-Bretanha. Jovens músicos britânicos, influenciados por discos importados e programas de rádio que transmitiam gravações de selos como Chess Records e Vee-Jay, passaram a se fascinar pela sonoridade e pela expressividade emocional dos bluesmen norte-americanos. Figuras como Alexis Korner e Cyril Davies, considerados pioneiros do movimento, foram fundamentais para difundir o blues em clubes londrinos e inspirar grupos emergentes como The Rolling Stones, The Yardbirds, The Animals e John Mayall & The Bluesbreakers (PALMER, 1981).

Esse processo, conhecido como British Blues Boom, teve importância dupla: de um lado, promoveu a valorização estética e cultural do blues, reinterpretando-o com uma nova roupagem elétrica e agressiva; de outro, possibilitou o reconhecimento internacional dos artistas afro-americanos que haviam sido negligenciados em seu próprio país. Gravações como “Little Red Rooster” (Howlin’ Wolf), regravada pelos Rolling Stones em 1964, e “Crossroads” (Robert Johnson), reinterpretada por Eric Clapton com o Cream em 1968, exemplificam como o repertório do blues foi incorporado à linguagem do rock britânico, servindo de base para a formação do rock moderno (MILLER, 2013).

A repercussão desse movimento foi tamanha que muitos bluesmen americanos passaram a excursionar pela Europa e pelos Estados Unidos com o apoio de bandas britânicas. O caso emblemático é o de Muddy Waters, que, após ser reverenciado por músicos ingleses, experimentou uma revitalização em sua carreira e maior visibilidade junto ao público branco americano. Essa revalorização levou críticos e historiadores a reconhecerem o blues como uma das matrizes fundamentais da música popular do século XX, com impacto decisivo na formação do rock, do soul e de outros gêneros contemporâneos.

Assim, pode-se afirmar que a valorização dos bluesmen americanos pelos músicos britânicos na década de 1960 representou um movimento transatlântico de ressignificação cultural. O blues, que havia nascido como expressão do sofrimento e da resistência negra nos Estados Unidos, tornou-se, por meio da mediação britânica, um símbolo universal de autenticidade artística e liberdade criativa. Paradoxalmente, foi necessário que o blues cruzasse o Atlântico para ser devidamente reconhecido em sua terra natal.

GERALDO MAGELA É NOTA 10

Geraldo Magela
Geraldo Magela, José Bené, Leonel, Lea Victor e José Leite

Querido leitor, Querida leitora,

Numa quebra de protocolo literário, Odette  toma a liberdade de transcrever a entrevista  do  músico Geraldo Magela Eleto de Sousa, 96 anos, de pura lucidez, como seu  relato ao Juarezito.

“Comecei a tocar violão aos 18 anos, só de olhar as pessoas que iam tocar na nossa casa. Aí me juntei com o Leonel e com o Bené e formamos um trio. Fazíamos muitas serenatas, sempre regadas a uma bebidinha… e também animamos muitas festas na cidade.

Depois criamos um conjunto com oito componentes, entre eles Tiburcinho, grande saxofonista; Zé Rodrigues, da Prefeitura; Agostinho, de Santa Maria do Suaçuí; Milton Perpétuo, no contrabaixo; e Wilson, na bateria. Tocamos no Clube Cacique, que tinha como diretor o Zé Melo, e também em muitas cidades, como São João Evangelista, Guanhães, Santa Maria do Suaçuí, Governador Valadares, Diamantina e tantas outras.

Toquei muito também no Clube do Zé Cavaquinho e, abaixando a voz com um sorriso maroto, digo que toquei também na região boêmia da cidade. Fiz serenata para Ciganinha…

Da nova geração de músicos da cidade, tive o orgulho de ensinar um pouquinho do que sei para João Nunes, Washington e o Tim, que já faleceu. Considero o músico de Guanhães, Rivadavia — pai do também músico Juarez Moreira — um craque!

Até hoje me arrisco a tocar um pouquinho por dia e prefiro as músicas antigas: bolero, samba-canção, valsa. Depois desse tal de ‘ié-ié-ié’ a coisa piorou muito…

Guardo com carinho o violão que ganhei do Auzier e sou sempre grato ao prefeito Zé do Altino, que me contratou para trabalhar como fiscal da Prefeitura, onde me aposentei depois de 36 anos de trabalho.

Para mim, o melhor time do Brasil é o Fluminense. E também joguei nos times de futebol de Peçanha, de 1948 a 1950.”

Este é o Magela. Admirável figura humana, representa magistralmente a nossa cultura, com sabedoria e competência.

Juarez Vieira

Quando Juarezito nasceu no Hospital Santo Antônio de Peçanha, o rádio da enfermeira tocava “Rock Around the Clock”. Ouviu com atenção e nunca mais parou, incluindo o Blues nesta convivência. Vive intensamente, o bastante para se transformar em Enciclopédia, preparado para escrever artigos que irão deliciar. 

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Respostas de 6

  1. Grande Magela!
    O Echo tem essa feliz mania: proporcionar aos pecanhenses ausentes, como eu, a alegria de rever amigos inesquecidos. No número anterior li sobre o Braguinha, grande companheiro, neste a gente vendo e ouvindo esta ilustre figura, amigo de velha data, nosso Baden Powell paneleiro.. Magela é e sempre foi quase impecável: hoje escorregou dizendo sobre o Florminense… Nós somos do Clube Atlético Mineiro, saudoso violonista… Um abraço forte..

    1. Obrigado, Rubens.
      Nessa trilha, acho que o próximo passo seria o Echo ter a alegria de rever amigos como você.

      1. Obrigado a vc, Amigo roqueiro como eu. A gente sai do Peçanha, mas o Peçanha nao sai da gente. Um abraço, extensivo a Aline e o Coló…

  2. Obrigado a vc, Amigo roqueiro como eu. A gente sai do Peçanha, mas o Peçanha nao sai da gente. Um abraço, extensivo a Aline e o Coló…

  3. Quando morei em Peçanha frequentava os ensaios dos dois conjuntos da época(entre 1970 e 1972).
    Nadinho, meu amigo, era um dos guitarristas nos dois. No que era liderado pelo pedrinho do bar ele tocava com o Magela.
    Uma fato que não me esqueço ocorreu na varanda da casa do Zé Murreta, a Música “Menina da Ladeira, composta por João Só, era o sucesso da época, pedí ao magela pra tocá-la e eu a cantei. Em seguida ele me ensinou os acordes.
    Guardo esta lembrança com muito carinho.

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