É o samba e o rock, meu irmão: Batidas na porta do Woodstock

Publicado em: 31/10/2025 às 10:16

Atualizado em: 01/11/2025 às 10:43

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WOODSTOCK – 3 DIAS DE PAZ E AMOR QUE FICARAM NA HISTÓRIA

O Woodstock Music & Art Fair aconteceu entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, na fazenda de Max Yasgur, em Bethel, no estado de Nova York. Pensado pelos jovens Michael Lang, Artie Kornfeld, John Roberts e Joel Rosenman, o festival nasceu com a ideia de unir arte, música e os ideais de uma geração que acreditava na paz, no amor e na liberdade. Ninguém imaginava que o evento, planejado para cerca de 50 mil pessoas, atrairia mais de 400 mil jovens, transformando-se em um marco cultural e histórico.

Aquela era uma época de mudanças intensas. Os Estados Unidos viviam o auge da Guerra do Vietnã, o movimento pelos direitos civis estava nas ruas, e a juventude questionava cada vez mais o militarismo, o consumismo e o moralismo da sociedade americana. Nesse contexto, surgia a contracultura, um movimento que pregava novos valores: vida comunitária, espiritualidade oriental, liberdade sexual e expressão artística genuína. A música se tornou a grande voz dessa transformação.

Woodstock foi anunciado como “An Aquarian Exposition: 3 Days of Peace & Music” — uma “exposição aquariana de três dias de paz e música” —, referência à chamada Era de Aquário, símbolo de esperança e renovação espiritual. O festival começou com um clima sereno, voltado ao folk e à canção de protesto. Richie Havens abriu o evento improvisando “Freedom”, que se tornou um hino à resistência e à liberdade. Ravi Shankar, com o som hipnótico do sitar, levou o público a uma experiência espiritual e introspectiva, enquanto Joan Baez, grávida e militante pacifista, encerrou a noite cantando “We Shall Overcome”, símbolo das lutas pelos direitos civis. O primeiro dia foi marcado por paz, espiritualidade e esperança.

No segundo dia, o clima mudou completamente. As guitarras tomaram conta do palco, e a energia da multidão parecia não ter fim. Foi o momento da psicodelia, da experimentação e da catarse coletiva. Santana encantou com “Soul Sacrifice”, misturando latinidade, improviso e espiritualidade. Country Joe McDonald fez o público inteiro cantar em coro o refrão pacifista de “I-Feel-Like-I’m-Fixin’-to-Die Rag”, uma sátira à guerra do Vietnã. Sly & The Family Stone levou diversidade e alegria ao palco com “I Want to Take You Higher”, celebrando a união entre funk, soul e rock. The Who apresentou o álbum Tommy, que marcou o nascimento do rock conceitual, e Jefferson Airplane encerrou o dia com os clássicos “White Rabbit” e “Somebody to Love”, que se tornaram hinos da psicodelia e da libertação mental.

O último dia de Woodstock foi uma mistura de emoção, virtuosismo e resistência. A chuva e o cansaço não afastaram o público, que continuava firme diante do palco. Joe Cocker emocionou com sua versão intensa de “With a Little Help from My Friends”, dos Beatles, enquanto Ten Years After, com o guitarrista Alvin Lee, fez uma das performances mais explosivas do festival com “I’m Going Home”, um solo que parecia traduzir toda a força libertária do rock. Johnny Winter trouxe o blues texano com “Mean Town Blues”, Crosby, Stills, Nash & Young estrearam juntos mostrando harmonias vocais impecáveis, e Jimi Hendrix encerrou o festival de forma inesquecível ao tocar o hino americano, “The Star-Spangled Banner”, em uma versão distorcida que soava como um grito contra a guerra.

Durante três dias, meio milhão de pessoas viveram uma experiência de comunhão e solidariedade. Em um momento histórico de divisões e conflitos, Woodstock mostrou que era possível reunir multidões em torno da paz e da música, sem violência, apenas com o desejo de viver algo novo. O festival se transformou no símbolo máximo da contracultura e consolidou o rock como uma forma legítima de arte e protesto. Ele também inspirou outros grandes eventos, como o Isle of Wight, o Glastonbury e, mais tarde, o Rock in Rio, que herdaram o espírito de liberdade daquele verão de 1969.

O impacto de Woodstock não ficou restrito àqueles dias. Em 1970, o documentário “Woodstock”, dirigido por Michael Wadleigh e editado por Martin Scorsese e Thelma Schoonmaker, levou o festival ao cinema e eternizou sua energia. O filme venceu o Oscar de Melhor Documentário em 1971 e se tornou um registro histórico e emocional da época. Sua montagem inovadora, com múltiplas telas e ritmo envolvente, capturou a essência do evento. A cena de Alvin Lee, em “I’m Going Home”, virou um dos momentos mais emblemáticos da história do rock, representando o êxtase e a liberdade sonora de Woodstock.

Além do filme, vários discos foram lançados para preservar as apresentações. Entre eles estão Woodstock: Music from the Original Soundtrack and More (1970), Woodstock Two (1971), Woodstock Diaries (1994) e Woodstock: 40 Years On – Back to Yasgur’s Farm (2009). Esses álbuns se tornaram documentos históricos, permitindo que novas gerações sentissem um pouco da energia e do idealismo daquele momento único.

Mais do que um simples festival, Woodstock foi um ponto de virada. Representou o sonho coletivo de uma juventude que acreditava na força da arte, da liberdade e do amor como formas de transformar o mundo. Por três dias, milhares de pessoas viveram sem medo, compartilhando o mesmo ideal de paz e humanidade. Como disse Joan Baez, uma das vozes mais marcantes do evento:

 “Por três dias, meio milhão de pessoas viveram sem medo, em harmonia. Isso foi o verdadeiro milagre.”

Autor: Juarez Vieira da Silva Filho

BATIDAS NA PORTA DA FRENTE

Foto: Paisagens sonoras e infância – Maria Joseane T. Uema

É um senhor tão bonito, o tempo. Não para e, no entanto, nunca envelhece, ao contrário de nós, que ainda somos os mesmos, e vivemos, com mais ou menos rugas no rosto. Independentemente da quantidade delas, o importante é que nossa emoção sobreviva e que estejamos atentos e fortes. Afinal, não temos tempo de temer muita coisa na vida. Mas sim, devemos arrumar tempo para escutar muita coisa na vida. 

Gosto de uma provocação feita pelo compositor canadense Murray Schafer. Ao tratar da relação entre a visão e a audição, ele nos lembra que nossos ouvidos não têm pálpebras, e portanto, não podemos deixar de ouvir facilmente como podemos deixar de ver (simplesmente “fechando os olhos”), o que faz com que estejamos ouvindo a todo momento (será?). A preocupação dele era com o que chamou de “paisagem sonora”, um conceito ligado à percepção e escuta do som que nos cerca em qualquer ambiente ou circunstância. Enfim, um papo longo (e interessante, aliás), mas que não entraremos agora. Quis apenas fazer um bate e volta, rápido, ali no Atlântico Norte, para buscar um argumento. É que tenho pensado muito na paisagem sonora que nos cerca, não exatamente na definição de Schafer, mas no sentido de notar a música ao nosso redor: o que toca, o que nos toca e por que nos toca. 

O tempo da música é diferente. Não o tempo mensurável (este que informa que uma canção tem duração de três minutos), mas o tempo sentido da música. Vejam só, o termo musical para tratar da velocidade em que uma música é executada é o andamento, comumente medido em BPM (batidas por minuto). Diz-se que determinada música está, por exemplo, em 110 BPM. Medida necessária, vá lá, para execução precisa de arranjos em muitos contextos, mas lembro que a contagem do tempo musical nem sempre foi assim, e nem sempre é assim. Os termos consagrados, aliás, para a notação em partitura do andamento são escritos em italiano, e expressos de forma menos matemática. Temos por exemplo o Vivace, ou o Allegro, que podem ser traduzidos como vivaz e alegre. Ainda que possamos encontrar a correspondência entre o que seria em BPM um andamento alegre (Allegro), por exemplo, convenhamos, que a medida em sentimento é mais poética. De toda forma, não conseguimos escapar do fato de que ouvir música nos faz perceber diferente o passar do tempo. E este é o ponto: de repente, e até por isso mesmo também, gostamos de ouvir música. Ouvir e se deixar levar pela música é uma forma de enganar o tempo, ou esquecer dele ao menos. 

Mas ouvir é tarefa difícil, perceber o que se ouve e se deixar levar pelo som é mais complexo do que parece, ainda mais em um mundo saturado por estímulos visuais. Vemos muito, o tempo todo, e percebemos pouco o que ouvimos, sendo que muito do que ouvimos está acompanhado de imagem, vindo a seu reboque ou a seu serviço. Acontece que “a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais” (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho), e o ponto é que precisamos ouvir mais e melhor o que nos cerca. Perceber o que nos toca e o que pode nos tocar, ou em outras palavras: ouvir a música que nos acompanha há muito tempo e nos abrir para aquela que pode também vir a ser nossa companheira. Escrevo isto pois temos visto recentemente a despedida dos palcos de artistas que compõem o imaginário da música popular brasileira. Gênios insubstituíveis como Milton Nascimento e Gilberto Gil, por exemplo, anunciaram aposentadorias dos palcos e deixaram um “e agora, José?” pra gente resolver. Há resposta? 

Dizemos comumente sobre “a música do meu tempo”, ou “da minha época” (que a depender da quantidade de rugas no rosto de quem fala pode se referir a uma gravação de Orlando Silva ao repertório de pagode dos anos 90). Mas acredito que o mapa pra gente se achar nesse tempo corrido, e tentar encontrar o caminho a seguir, foi entregue por Wilson Batista (em parceria com José Batista), quando disseram: “Meu mundo é hoje” (quem não conhece ouça na voz de Paulinho da Viola, vale a pena!).

Enfim, nosso tempo é agora, e nossa música (a que ouvimos ou fazemos) é a música de nosso tempo. Saibamos aproveitar nossos ouvidos abertos!

Autor: Dudu Pinheiro

Juarez Vieira

Quando Juarezito nasceu no Hospital Santo Antônio de Peçanha, o rádio da enfermeira tocava “Rock Around the Clock”. Ouviu com atenção e nunca mais parou, incluindo o Blues nesta convivência. Vive intensamente, o bastante para se transformar em Enciclopédia, preparado para escrever artigos que irão deliciar. 

Dudu Pinheiro

Dudu Pinheiro é mestre em música pela UFRJ. Multi-instrumentista, dedica-se à percussão e ao cavaquinho, e é também compositor. Atualmente integra a bateria da Mangueira, coleciona inúmeras apresentações musicais e tem músicas gravadas, tendo sido premiado em concurso nacional de composição de marchinhas de carnaval.

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Uma resposta

  1. Faz algum tempo, li uma noticia na imprensa. Aquele casal da icônica fotografia havia sido identificado, e ainda guardava o cobertor da época.

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