1 – ZEZÉ E O CIRCO DAS ESTRELA
João Vizzotto
Essa história, dizem por aí, é verdadeira. Pelo menos foi o que garantiu meu tio Paulinho, com aquele tom de quem não inventa — apenas lembra. O nome completo do personagem se perdeu nas curvas da memória, então ficou Zezé mesmo. “Zezé da Pernambucanas”.
Zezé era o apelido de José Antônio, funcionário das Casas Pernambucanas, loja que ficava na rua 7 de Setembro, quase encostada no Cine Colina. Era o templo das costureiras e das mães colinenses, que corriam para lá sempre que se aproximavam as datas festivas: Sexta-feira da Paixão, aniversário da cidade, 9 de julho… Era como se o calendário empurrasse o povo para os tecidos.
E que tecidos! Florais, listrados, quadriculados — todos com vocação para virar camisa ou calça. O curioso é que, nas festas, era comum ver dois, três, às vezes cinco cidadãos com roupas feitas do mesmo pano. Parecia um desfile temático. Eu mesmo, certa vez, me deparei com um senhor vestindo uma camisa idêntica à minha, costurada pela Zize, que era nossa vizinha. Nunca mais usei a dita cuja.
Zezé, além de vendedor, era um curioso profissional. Daqueles que não se contentam com o “tudo bem” de uma resposta. Se alguém dizia que estava bem, ele queria saber por quê. E como. E desde quando. Sua curiosidade, embora genuína, invariavelmente se tornava um incômodo — um chato de bom coração.
Num sábado à noite, em frente ao cinema, um grupo de amigos resolveu pregar-lhe uma peça. Ao ver Zezé se aproximando, começaram a olhar fixamente para o céu, como quem testemunha algo extraordinário. Zezé chegou com os olhos brilhando, já tomado pela curiosidade:
— O que vocês estão vendo?
Os amigos, sem desviar o olhar, responderam com a maior naturalidade:
— Uma astronave. Está transportando um circo inteiro. Leões, palhaços, malabaristas, motos do globo da morte… tudo lá dentro.
Continuaram a prosa, dizendo que a nave descia nas cidades, fazia suas apresentações e depois partia rumo a outro destino. Era um espetáculo itinerante, intergaláctico.
Zezé, com um misto de espanto e decepção, soltou a frase que virou lenda:
— É uma pena que esse circo não desce em Colina…
E foi assim que, naquela noite estrelada, Zezé virou personagem de uma história que circulou por muito tempo pelas esquinas da cidade.
Não pela venda de tecidos, mas pela capacidade de acreditar — e de desejar — que até um circo vindo do espaço poderia, quem sabe, fazer uma parada por Colina.
2 – A MULA SEM CABEÇA
Wellington Braga

A quaresma em Peçanha tinha um peso próprio.Não era apenas um tempo religioso. Era como se o mundo inteiro ficasse mais silencioso, mais atento, mais respeitoso diante do invisível. As noites pareciam maiores. O vento sussurrava diferente nas folhas das mangueiras. Os cachorros latiam para o escuro sem motivo aparente. E nós, meninos, andávamos sempre com a sensação de que algo nos observava. Crescemos ouvindo histórias que moldavam o nosso medo:o lobisomem que rondava as estradas poeirentas, as almas penadas que pediam oração nas porteiras e, acima de todas, a temida mula sem cabeça, condenada a vagar nas madrugadas da quaresma, soltando fogo pelo pescoço e castigando os descuidados.
Os adultos contavam essas histórias com naturalidade, quase com solenidade. Alguns diziam acreditar, outros juravam que não, mas todos falavam com cuidado, como quem não quer provocar forças que não compreende. E assim, sem perceber, fomos educados entre o real e o sobrenatural.
Foi numa dessas noites de quaresma que vivi o episódio que nunca consegui esquecer.
Eu estava na fazenda de meu avô, um lugar amplo, cercado de pastos, terreiros e sombras antigas. A casa tinha aquele silêncio típico das construções antigas, um silêncio cheio de vida: o estalar da madeira, o canto dos grilos, o bater distante de algum animal mexendo no curral.
Naquela tarde, meu avô deixara um balde cheio de milho no quintal, próximo ao paiol. Era coisa comum: milho para as galinhas, para os porcos, para o movimento da lida diária. Nada ali parecia diferente. Nada anunciava que aquela seria uma noite que atravessaria décadas dentro de mim.
Já era tarde quando o barulho começou. Primeiro, um som estranho, seco, como pancadas espaçadas no escuro. Depois, mais forte. Mais próximo. Mais desesperado. Tum. Tum. Tum.
O coração disparou antes mesmo que a razão tivesse tempo de acordar. Naquele tempo, a gente não pensava: sentia. E o que senti foi medo — medo verdadeiro, inteiro, sem defesa.
Alguém cochichou dentro da casa:
— Escutaram isso?
Ninguém respondeu.
Todos já sabiam o que poderia ser.
Aos poucos, fomos nos aproximando da janela, como quem não quer chegar, mas também não consegue ficar longe. O terreiro estava mal iluminado, sombras se movendo entre os objetos espalhados: troncos, latões, cercas, cochos.
E então vimos. Uma figura grande correndo desordenadamente, batendo contra tudo, derrubando o que encontrava pela frente. Não dava para distinguir forma exata, nem começo nem fim. Era apenas movimento, fúria, descontrole. Uma presença.
Naquele instante, nenhuma explicação racional nos ocorreu.Nenhuma porca. Nenhum balde.
Apenas uma certeza infantil e absoluta: a mula sem cabeça estava ali. Eu vi.
Vi com os olhos arregalados de medo. Vi com o coração batendo na garganta. Vi com a alma inteira acreditando. Ficamos paralisados. Ninguém teve coragem de sair. Ninguém ousou chamar mais alto. O barulho durou longos minutos — minutos que pareceram horas — até que, aos poucos, foi cessando. O silêncio voltou pesado, como se nada tivesse acontecido. Mas nós sabíamos: algo tinha acontecido. Ninguém dormiu direito naquela noite.
O dia seguinte trouxe o que os adultos sempre trazem: explicações. Disseram que era uma porca grande, faminta, que havia enfiado a cabeça no balde de milho e ficado presa. Desesperada, saiu correndo pelo quintal, batendo contra tudo. Mostraram o balde amassado, os rastros no chão, os sinais evidentes. Tudo fazia sentido. Tudo parecia lógico. Tudo parecia resolvido.
Mas há uma diferença profunda entre entender e acreditar. Porque o que vimos não foi apenas um animal correndo. Foi o medo ganhando forma. Foi a imaginação alimentada por anos de histórias. Foi a infância encontrando o mistério face a face. E certas experiências, quando acontecem na idade certa, não se apagam com explicações.
Até hoje, quando penso naquela noite, não penso na porca. Penso no barulho seco no terreiro. Na sombra correndo sem forma. No silêncio pesado depois. E naquela sensação antiga, que ainda vive em algum canto de mim: a de que há mais coisas entre o céu e o chão batido de um quintal de fazenda do que a razão adulta é capaz de aceitar. Talvez fosse mesmo só uma porca com um balde na cabeça. Talvez. Mas quem viveu, quem sentiu, quem tremeu diante da janela naquela noite de quaresma, sabe: nem toda verdade cabe dentro de uma explicação.
Algumas histórias não pedem prova. Pedem memória. Pedem respeito. Pedem silêncio.
Como a mula sem cabeça das noites antigas de Peçanha.





