

Ademilde Fonseca


Altamiro Carrilho e Jair Rodrigues


Helena Jobim e João Nogueira
Quando o cavaquinista, compositor e guardião do choro Ausier Vinícius dos Santos chegou em seu fusca incrementado, amarelo e preto, para a entrevista com o Echo da Matta, já sabíamos que a conversa seria muito boa. E foi.
Reproduzimos abaixo as experiências, sentimentos e reflexões que enriquecem a todos nós.
– Para começar, conte um pouco sobre você. Quem é Ausier Vinícius?
Meu nome é Ausier Vinícius dos Santos. Nasci em 2 de dezembro de 1961. Sou cavaquinista, compositor e apaixonado pelo Choro. Divorciado, dois filhos, Jéssica e Vinícius, que também é músico.
Sou filho de mãe solo, Maria Aparecida, a Crioula, que marcou muito a minha história, criado pelos avós Minervino e Dona Conceição e também tive uma relação muito carinhosa com minha ex-sogra, Dona Paixão,que considero uma segunda mãe.
– Como a música entrou na sua vida?
Meu contato com a música começou cedo, por volta dos 7 ou 8 anos, quando ganhei um cavaquinho de presente do meu avô.
Naquele tempo convivia com músicos de boas práticas, como Zé Cavaquinho, Zé Bené e Geraldo Magela. Foi Zé Bené quem me apresentou O Cavaquinho Acontece, de Waldir Azevedo, disco que mudou tudo para mim. Ele me entregou o disco e disse apenas:
-“Vê se gostas!”
Foi amor à primeira escuta. A partir dali passei a estudar e admirar profundamente a obra de Waldir Azevedo, que se tornou meu mestre absoluto. Ele era um músico autodidata, tocava seguindo o coração.
– Começou a se apresentar ainda jovem?
Sim. Ainda adolescente, aos 14 anos, toquei como acompanhante na inauguração do coreto que a Sra. Eneida Vieira conseguiu erguer em Peçanha no lugar do antigo, que havia sido demolido e no conjunto do Niltinho.
Esses foram os primeiros momentos em que percebi que a música poderia ocupar um lugar central na minha vida.
Também tive ligação com grupos e músicos da região, como a Banda Lira e outros nomes muito presentes no ambiente musical da época.
– Mesmo sendo músico, você também tinha outra profissão, não é?
Durante muitos anos trabalhei no ex Banco Real, que foi adquirido pelo Santander, ainda em Peçanha. Comecei como vigilante, depois passei a funcionário. Transferido para Belo Horizonte, cheguei a exercer funções como procurador e gerente.
Também trabalhei fazendo serviços de lotação com uma Kombi, sempre conciliando essas atividades com a música.
– Quando surgiu o Bar Pedacinhos do Céu?
O Bar Musical Pedacinhos do Céu nasceu em 1995, em Belo Horizonte, na Rua Belmiro Braga, no bairro Caiçara. O nome é uma homenagem a uma das composições de Waldir Azevedo.
Foi criado para ser um lugar dedicado ao Choro e acabou se tornando uma grande referência para rodas do gênero na capital mineira.
Durante 25 anos, de 1995 a 2020, o bar foi um importante ponto de encontro de músicos e amantes do Choro.
– Grandes nomes da música passaram por lá?
O Pedacinhos do Céu recebeu músicos importantes, como o Conjunto Época de Ouro, o flautista Altamiro Carrilho, a cantora Ademilde Fonseca e Paulinho da Viola, entre muitos outros.
O espaço acabou se tornando um lugar muito significativo de convivência musical para o Choro em Belo Horizonte.
– Você também é conhecido por manter um grande acervo musical. Como ele começou?
Ao longo da vida fui reunindo um grande acervo ligado ao Choro.
Hoje tenho, aproximadamente:
* 1.000 partituras
* 2.000 discos de vinil de Choro
* 1.800 CDs relacionados ao gênero
* livros sobre música e técnica de cavaquinho
* fotografias históricas e registros de músicos que passaram pelo Pedacinhos do Céu
Esse acervo integra a base de dados Choro Patrimônio, como Acervo Ausier Vinícius (Pedacinhos do Céu), além de uma coleção dedicada a Waldir Azevedo, falecido em 20 de setembro de 1980.
– Sua ligação com Waldir Azevedo foi além da admiração musical?
Minha dedicação ao estudo da obra dele aproximou-me da sua família, criando amizade com Dona Olinda Azevedo, viúva de Waldir.
A partir da década de 1990 ela me doou um generoso acervo da memória do cavaquinista, que inclui:
- a obra completa editada de Waldir Azevedo
- gravações caseiras
- discos de 78 rpm
- participações em programas de rádio e televisão
- choros raros e inéditos
- registros dele tocando bandolim
É um material muito precioso para a memória do Choro.
– Esse material pode ser consultado por pesquisadores?
Pode. O acervo de partituras, discos, CDs e fotografias está no Pedacinhos do Céu, enquanto a coleção dedicada a Waldir Azevedo está guardada na minha residência.
Os documentos estão em bom estado de conservação, embora ainda não estejam totalmente catalogados.
Pesquisadores podem consultar e eventualmente copiar o material mediante contato prévio comigo.
– Você participa de pesquisas acadêmicas sobre o Choro?
Já fui citado em documentos de pesquisa sobre a história do Choro em Belo Horizonte e também em duas teses de mestrado.
Além disso, fui entrevistado pelo professor Zaniol, da Università Ca’ Foscari, de Veneza, para quem disponibilizei parte do meu arquivo musical.
– Quais são suas principais referências musicais?
A maior referência, sem dúvida, é Waldir Azevedo, .
Também admiro muito:
* Zé Renato, pelo acompanhamento regional
* Dino 7 Cordas
* Michael Jackson, pela genialidade musical
– Você também compõe?
Tenho repertório autoral. Uma das minhas composições é o Chorinho da Jéssica, que escrevi em 1991.
– Ficamos sabendo que você criou um método de ensino.
Desenvolvi um método para cavaquinho chamado “Waldir Azevedo: Um Cavaquinho”, no qual procuro transmitir parte do que aprendi estudando a obra do mestre.
– Quantos instrumentos você utiliza?
Tenho cinco cavaquinhos, cada um preparado para situações diferentes:
* gravações de estúdio
* apresentações na rua
* ambientes fechados
Além disso, também toco violão.
– Faça algumas de suas reflexões sobre a música brasileira.
Acredito profundamente no poder da música de unir as pessoas.
Costumo dizer também que o samba veio do Choro.
O cavaquinho, por exemplo, tem uma extensão de cerca de uma oitava e meia, o que exige muita criatividade do músico.
Admiro muito a forma como Chiquinha Gonzaga absorveu as valsas vienenses e as misturou com o maxixe, sem perder a brasilidade.
E Pixinguinha teve um papel fundamental ao levar o samba para a orquestra.
– Há datas importantes para o universo do Choro?
O dia 23 de abril é celebrado como o Dia Nacional do Choro, uma data muito significativa para quem vive essa música.
– Existe relação entre o cavaquinho e o ukulele?
Penso que existe. O ukulele pode ser entendido como uma espécie de cavaquinho havaiano, pois tem origem relacionada ao instrumento português levado ao Havaí.
– O Pedacinhos do Céu continua funcionando?
Infelizmente, durante a pandemia surgiram muitas dificuldades financeiras, principalmente relacionadas ao aluguel do espaço.
Por isso o Pedacinhos do Céu acabou encerrando suas atividades, mas ainda considero
a possibilidade de encontrar uma nova sede para que o projeto continue vivo.
– Você tem sido reconhecido oficialmente pelo seu trabalho e enorme contribuição ao Choro?
Recebi o Título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte, o que considero uma grande honra.
– Para terminar, o que o Choro representa na sua vida?
O Choro é mais do que um gênero musical para mim.
É memória, estudo, convivência e amizade.
Música que atravessa gerações e continua reunindo pessoas em torno de algo muito simples e muito poderoso: tocar juntos.
E foi assim, entre café e pão de queijo, que aprendemos muito sobre o Choro e a grande pessoa humana – Ausier Vinícius – sua bela trajetória, motivo de orgulho para seus conterrâneos.
(Contato
Ausier Vinícius dos Santos
Telefone: (31) 99971-6567
E-mail: ausiervinicius@hotmail.com)






Respostas de 18
Meus queridos Peçanhenses do coração,
Obrigado pelo carinho,consideração,e, outras coisinhas mais que me emocionaram muito pela oportunidade que vcs me deram pra contar um pouco da minha humilde caminhada musical até aqui.Em qualquer show,programas de TV,Teatros,outros Estados,eu faço questão de citar que sou de PEÇANHA,onde tudo começou,no Morro do Segredo,com o Seu Minervino,o Mestre Magela,que teve a maior paciência comigo nos primeiros Choros,o Zé Bento que me apresentou o WALDIR AZEVEDO,me dava a chave da sua casa pra eu ir lá ouvir o disco,quando ele estava no trabalho,que eu deixava na vizinha quando ia embora.Depois,Milton e São zinha quando criaram o ” Curral ” que ficava em baixo da ” Boate Quenta Sol”,onde oficializamos o nosso primeiro Grupo de Choro. À vcs todos, a minha eterna gratidão !!!
Só uma correção aí no texto,saiu Zé Bento!,mas, é o ZÉ BENÉ !!!
Nós agradecemos ao Ausier, grande figura humana, orgulho de Peçanha, exímio no cavaquinho, a sua atenção e carinho! Vida longa ao Ausier!
Juntos e misturados,sempre !!!
Obrigado mesmo,de coração ❤️ ❤️ ❤️
Maravilha de matéria, MARAVILHA DE pessoa maravilhosa o meu amigo, ídolo e mestre Ausier Vinícius, uma pessoa espetacular que tive a felicidade e a honra de trabalhar junto com ele no banco Real em Peçanha MG.
Feliz em ler a sua história!!!
Obrigado pela força de sempre,pelo carinho e outras coisinhas que regam a nossa velha amizade diariamente..Deus te proteja infinitamente !!!
Parabéns a todos pela brilhante iniciativa de reviver este importante instrumento de informação e cultural em nossa Peçanha.
Gente, eu lembro muito quando meu irmão chegava em casa falando que ia ter show do Ausier, e eu não podia ir porque eu era muito nova, a e ai ficava doidinha querendo fugir pra assistir kkk. Mais eu lembro já estava com 15 anos quando minha irmã casou e ele que tocou no casamento dela foi lindo demais. Parabéns Ausier.
Que lindooooooo…bjooo!!!
Ausier confirma aquilo que o público brasileiro já reconhece há tempos — trata-se de um dos grandes nomes de sua arte.
Sua técnica é refinada, mas o diferencial está na forma como se relaciona com o instrumento. Mais do que tocar, ele imprime emoção em cada acorde, conduzindo o cavaquinho com delicadeza e identidade própria.
Ao longo da conversa, fica evidente que sua música vai além da execução: ela carrega vivências, histórias e valores. Não é apenas um Pedacinho de Céu que ele compartilha com os fãs, mas um repertório humano vasto e autêntico.
Tudo isso marcado por uma postura digna e consistente ao longo de sua trajetória.
Obrigado pelo carinho de todos os dias,amigo do coração ❤️ ❤️ ❤️
Obrigada Ausier por nos conceder esta entrevista sobre sua incrível trajetória no Chiro
Obrigado eu,pelo carinho da acolhida na sua casa,rever vcs todos,todos “enxutos”,como diria a minha sempre saudosa avó,Ceição do Minervino!
Um beijo enorme pra vcs todos !!!
Ótima entrevista. Tenho grande admiração pelo músico e pessoa do Ausier. Uma vez fui contrata-lo para tocar no aniversário de 80 anos da minha mãe, que era fã dele e do Pedacinhos. Ele recusou qualquer cachê e fez questão de presentea-la com um concerto de graça. Foi inesquecível, pra ela e pra todos os presentes. Grande Ausier!
Não há dinheiro que pague tocar para os amigos especiais …kkkk…bjooo!!!
Abraços, sempre grata!
Obrigada, senhor Minervino, por ter colocado um cavaquinho nas mãos do neto. Daí surgiu esse músico que tanto nos emociona. E é orgulho de todo peçanhense.
Obrigado pelo carinho,queridíssima…bjoóooo