POLÍTICA DOS EUA

Publicado em: 31/07/2026 às 06:13

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    Como um americano que passa alguns meses por ano no Brasil, frequentemente me vejo tentando explicar a política do meu país aos brasileiros. Não é fácil. O sistema político dos EUA é arcaico, intrincado e, às vezes, sem sentido. Muitas vezes, pergunto-me se eu mesmo o compreendo.

    Como, por exemplo, um candidato à presidência dos EUA pode vencer no voto popular, mas perder a eleição? Por que as eleições são realizadas às terças-feiras, quando o trabalho acaba dificultando o ato de votar? E por que pelo menos um terço dos eleitores aptos simplesmente não vota?

    Só de pensar nisso, fico com dor de cabeça. E, neste ano, tenho pensado muito sobre o assunto, pois é ano de eleição e a sobrevivência da república depende dos resultados. Isso soa dramático? Desculpe. É apenas a realidade na era de Donald Trump. Em 4 de julho, os EUA celebraram 250 anos de independência e democracia; no entanto, nossa liberdade política nunca esteve tão ameaçada.

     A cada ano par, os americanos elegem todos os membros da Câmara dos Representantes e um terço do Senado dos EUA. (Isso ocorre porque os mandatos dos deputados duram dois anos, enquanto os dos senadores duram seis.) As eleições deste ano, que ocorrerão na terça-feira, 3 de novembro, são chamadas de “midterms” (eleições de meio de mandato), pois acontecem na metade do mandato de quatro anos do presidente. O Partido Republicano, de Trump, detém maiorias apertadas tanto na Câmara (219 a 212) quanto no Senado (53 a 47). Isso significa que, se os Democratas mantiverem todas as suas cadeiras e derrotarem apenas quatro Republicanos em cada uma das casas, recuperarão o controle total do Congresso. Por diversos motivos, os Democratas têm excelentes chances de retomar a Câmara e, pelo menos, uma chance real de retomar o Senado.

   Historicamente, o partido do presidente não tem um bom desempenho nas eleições de meio de mandato — dois anos se passaram desde a última eleição presidencial e os eleitores, frustrados com o ritmo inevitavelmente lento das mudanças, frequentemente votam no partido de oposição. Neste ano, os eleitores estão especialmente frustrados. Em sua campanha pela reeleição, Trump prometeu prosperidade e paz. Em vez disso, o custo de vida aumentou; envolvemo-nos às pressas em uma guerra desnecessária, cara e aparentemente interminável com o Irã; o ICE aterrorizou pessoas nas ruas das cidades; Trump usou descaradamente o cargo para enriquecer a si mesmo e à sua família; e parecia mais interessado em reformar a Casa Branca e batizar aeroportos e teatros com seu próprio nome do que em atender às necessidades dos americanos comuns. Nas pesquisas de opinião, o índice de aprovação de Trump chegou a cair para 33%.

    Diante da perspectiva de perder o controle de uma ou de ambas as casas do Congresso, Trump está fazendo tudo o que pode para suprimir o voto no Partido Democrata em todo o país e para manipular as eleições para a Câmara em favor dos Republicanos. Ele também deu indícios de que, se os resultados eleitorais não lhe forem favoráveis, ele tentará fraudar o pleito.

   Como chegamos a este ponto? Os Pais Fundadores dos EUA tentaram estruturar o governo de modo que nenhum presidente pudesse governar como um rei. A Constituição dos EUA estabelece mecanismos de freios e contrapesos à autoridade presidencial, conferindo ao Congresso e ao Judiciário poderes teoricamente equivalentes aos do chefe do Executivo. No entanto, a Constituição foi redigida em 1787, quando os EUA eram um pequeno país agrário com menos de três milhões de habitantes. Não havia fábricas, trens, automóveis, rádios, aviões, televisões, naves espaciais, computadores, sites ou podcasts. A maioria dos americanos vivia em fazendas. A Constituição sofreu inúmeras emendas ao longo dos últimos dois séculos e meio, mas ainda contém dispositivos inadequados para governar uma grande nação pós-industrial com mais de 340 milhões de habitantes. Além disso, os Pais Fundadores não previram a eleição de um presidente tão desonesto, demagogo e inescrupuloso na busca pelo poder pessoal quanto Donald Trump — um político que ignoraria os freios e contrapesos estabelecidos por eles, submetendo legisladores e juízes à sua vontade e tentando governar, na prática, como um rei.

    Trump foi eleito presidente pela primeira vez, em 2016, por meio do mais desconcertante de todos os dispositivos constitucionais: o Colégio Eleitoral. Para compreender essa instituição bizarra e antidemocrática, é útil saber que os Pais Fundadores não concebiam a democracia da maneira como a entendemos hoje — isto é, como uma sociedade cujo governo é escolhido pela maioria da população adulta. Para muitos dos arquitetos da Constituição, o sufrágio universal evocava o espectro sombrio do domínio da massa. A maioria desses homens pertencia à elite agrária e estava preocupada em proteger seus próprios interesses. Na primeira eleição presidencial dos EUA, realizada entre o final de 1788 e o início de 1789, o direito de voto restringia-se a homens brancos proprietários de terras. Somente em 1856 a exigência de propriedade foi abolida e o voto foi estendido a todos os cidadãos homens brancos. Em 1870, o direito ao voto foi concedido a cidadãos homens de todas as raças e, em 1920, finalmente estendido às mulheres. Muitas outras mudanças ocorreram nos direitos eleitorais desde a primeira eleição presidencial, mas uma constante permaneceu: os americanos não elegem seu presidente de forma direta. O chefe do Executivo deve ser escolhido pelo Colégio Eleitoral, com base no voto popular em cada estado.

   Funciona assim: o Senado dos EUA tem 100 membros — dois para cada um dos 50 estados, independentemente do tamanho do estado. A Câmara dos Representantes tem 435 membros, distribuídos entre os estados de acordo com a população de cada um. Por exemplo, a Dakota do Norte, que tem cerca de 800.000 habitantes, tem dois senadores e um representante. A Califórnia, que tem quase 40 milhões de habitantes, tem dois senadores e 52 representantes. No Colégio Eleitoral, cada estado recebe um número de votos igual à soma de seus senadores e representantes. Assim, a Dakota do Norte obtém três votos, enquanto a Califórnia obtém 54. O candidato presidencial que vence o voto popular em um estado conquista todos os votos daquele estado no Colégio Eleitoral, independentemente de quão apertada tenha sido a disputa. Portanto, o vencedor na Califórnia leva 54 votos, enquanto seu oponente não recebe nenhum. O número total de votos no Colégio Eleitoral é 538. Para se tornar presidente, um candidato precisa conquistar pelo menos 270 — um a mais do que a metade.

    Isso é uma loucura. Significa que um candidato que vence alguns estados com margens enormes, mas perde muitos outros por margens mínimas, pode ganhar o voto popular nacional e, ainda assim, perder no Colégio Eleitoral. O que os Pais Fundadores tinham em mente? Lembre-se de que, em 1787, não havia governo democrático em lugar nenhum do mundo. Os líderes da nova república americana estavam criando um sistema de governo não monárquico sem exemplos a seguir. Alguns deles acreditavam que o presidente deveria ser eleito pelo voto popular, mas outros, temendo o que imaginavam ser a “tirania da maioria“, achavam que o presidente deveria ser escolhido pelo Congresso. Eles chegaram a um meio-termo criando o Colégio Eleitoral, que permitia o voto popular, mas não chegava a instituir o governo automático da maioria.

   Neste século, dois candidatos à presidência dos EUA venceram no voto popular, mas perderam a eleição. Em 2000, Al Gore obteve meio milhão de votos a mais que George W. Bush, mas perdeu no Colégio Eleitoral por uma margem mínima: 271 a 266. Dezesseis anos depois, Hillary Clinton superou Donald Trump por quase três milhões de votos, mas, surpreendentemente, perdeu no Colégio Eleitoral de forma decisiva (304 a 227). Em ambos os casos, quem acabou derrotado foi um democrata. Isso ocorre porque, hoje, o Colégio Eleitoral favorece os republicanos. O voto democrata tende a se concentrar em grandes cidades e outras áreas densamente povoadas, enquanto o voto republicano está espalhado por muitos estados menos populosos que, juntos, detêm mais votos no Colégio Eleitoral.

    Essa não é a única maneira pela qual o Colégio Eleitoral corrompe a política dos EUA. Alguns estados votam invariavelmente nos democratas, e outros, invariavelmente nos republicanos. Estados que podem votar em qualquer um dos lados — conhecidos como swing states  ou battleground states (estados decisivos ou campos de batalha eleitoral) — recebem promessas grandiosas dos candidatos e são generosamente recompensados ​​por presidentes em busca de reeleição, justamente porque seus votos no Colégio Eleitoral estão em disputa. Por exemplo, para conquistar os votos eleitorais da Virgínia Ocidental, um político precisa apoiar a indústria de carvão do estado, que está em declínio e é ambientalmente destrutiva. Para ganhar os votos da Flórida, um candidato deve alinhar-se à poderosa comunidade cubano-americana do estado e à sua hostilidade implacável em relação ao governo comunista de Havana.

    Quem assistiu à série de TV West Wing –  Nos Bastidores do Poder pôde aprender muito sobre a política do Colégio Eleitoral. Na última temporada da série, dedicada à eleição para suceder o presidente Jed Bartlet, os coordenadores de campanha de ambos os principais candidatos basearam suas estratégias quase exclusivamente no Colégio Eleitoral. O candidato republicano, Arnold Vinick, era considerado o favorito simplesmente por ser senador pela Califórnia; presumia-se que ele conquistaria a enorme quantidade de votos que o estado oferecia no Colégio Eleitoral. Já o motivo pelo qual seu oponente democrata, Matt Santos, viajou da Flórida para a Pensilvânia, depois para Ohio, Texas e Califórnia no último dia de campanha, foi o fato de que esses estados representavam mais da metade dos votos no Colégio Eleitoral que ele precisava para vencer. Na última cena do episódio sobre o Dia da Eleição, o coordenador da campanha de Santos somou os votos do candidato no Colégio Eleitoral em um quadro branco: 272, dois a mais do que o mínimo necessário. Não ficamos sabendo quem venceu no voto popular. Isso não importava.

   O Colégio Eleitoral foi o alvo principal da tentativa de Donald Trump de fraudar a eleição de 2020, depois de ficar claro que ele havia perdido para Joe Biden. Os votos no Colégio Eleitoral são dados por pessoas reais, chamadas de eleitores. Em cada estado, um candidato à presidência indica sua própria lista de eleitores — 54 na Califórnia, 40 no Texas, e assim por diante. Se um candidato vence o voto popular de um estado, seus eleitores reúnem-se na capital desse estado um mês depois para formalizar seus votos nele. Os resultados de todos os 50 estados são somados, certificados pelo vice-presidente dos EUA e ratificados pelo Congresso em 6 de janeiro, duas semanas antes da posse do novo presidente. Para tentar reverter o resultado da eleição de 2020, Trump e seus aliados políticos em sete estados decisivos (swing states) vencidos por Biden tentaram apresentar documentos falsos afirmando que Trump havia vencido nesses estados e que seus eleitores deveriam ser os que votariam em dezembro. Isso era flagrantemente ilegal e não obteve sucesso. Muitos dos cúmplices de Trump, incluindo alguns dos falsos eleitores, foram indiciados e julgados nos anos seguintes, mas, após ser reeleito em 2024, Trump concedeu perdão a todos eles.

    A invasão do Capitólio dos EUA por apoiadores de Trump em 6 de janeiro de 2021 fez parte dessa mesma estratégia para fraudar a eleição de 2020. Os invasores tentavam impedir o vice-presidente Mike Pence de certificar a votação do Colégio Eleitoral — na qual Biden venceu por 306 a 232 — e impedir o Congresso de ratificá-la. Em um discurso logo antes do tumulto, Trump pediu a Pence que se recusasse a certificar a vitória de Biden. Os invasores chegaram a ameaçar a vida de Pence. Pence corajosamente recusou-se a ser intimidado por Trump ou pelos invasores e cumpriu seu dever constitucional. Quase 1.600 invasores foram indiciados criminalmente; mais de 1.000 deles declararam-se culpados, e muitos foram presos. Mas, novamente, quando Trump retornou ao cargo, ele concedeu perdão a todos eles.

Dado que Trump já tentou roubar uma eleição, há bons motivos para temer que ele tente roubar as eleições de meio de mandato de 2026. Ele já tentou manipulá-las por diversos meios. Uma das formas é tentar acabar com o voto por correio, alegando que esse sistema é repleto de fraudes. Não há evidências dessa fraude — na verdade, o próprio Trump já votou por correio — e a Suprema Corte validou o voto por correio. O motivo mais provável para o ataque do presidente a essa modalidade de votação é que os democratas a utilizam mais do que os republicanos, que geralmente preferem votar presencialmente no dia da eleição.

    Outra maneira pela qual Trump tentou manipular as eleições de meio de mandato foi ordenando que legislativos estaduais controlados por republicanos redesenhassem os distritos eleitorais para o Congresso — isto é, os distritos que elegem membros da Câmara dos Representantes dos EUA — de modo a garantir maiorias republicanas. Esse processo é conhecido como gerrymandering (manipulação de distritos eleitorais), termo derivado do nome do político do século XIX que o criou, o governador de Massachusetts Elbridge Gerry. Os EUA realizam um censo nacional a cada 10 anos e, após a divulgação dos resultados, os legislativos estaduais ajustam seus distritos eleitorais para refletir os novos dados demográficos. O partido que controla um legislativo estadual frequentemente aproveita essa oportunidade para redesenhar os distritos do estado de forma a garantir a maioria de seus próprios eleitores — mesmo que isso signifique criar distritos com formatos estranhos, como cobras, arcos ou peças de quebra-cabeça. Isso pode deixar muitos eleitores do estado sub-representados na Câmara por pertencerem ao partido oposto. Por exemplo, todos os representantes de Massachusetts na Câmara são democratas, enquanto todos os representantes de Oklahoma e Utah são republicanos. Em Nevada, três dos quatro representantes são democratas, apesar de a maioria dos eleitores do estado ser republicana. A próxima rodada de gerrymandering não deveria ocorrer antes do censo dos EUA de 2030, mas Trump pressionou todos os legislativos estaduais controlados por republicanos a redesenhar os mapas eleitorais de seus estados agora, a tempo para as eleições de meio de mandato de 2026. Isso forçou os democratas a tentarem fazer o mesmo nos estados que controlam. Tal prática viola uma longa tradição política dos EUA, mas Trump é, acima de tudo, alguém que atropela tradições.

   A tentativa mais significativa de Trump de influenciar esta e futuras eleições materializa-se em um projeto de lei que ele tenta fazer tramitar no Congresso. Com o título enganoso de *Safeguard American Eligibility Act* (Lei de Salvaguarda da Elegibilidade Americana), ou Lei SAVE, o projeto aumentaria a autoridade federal sobre as regras de votação, as quais, constitucionalmente, são de responsabilidade de cada estado. Entre outras medidas, o projeto exigiria que as pessoas que solicitam o registro de eleitor apresentassem um passaporte dos EUA ou uma combinação de carteira de motorista com foto e certidão de nascimento ou documento de adoção. Cerca de metade dos americanos não possui passaporte; muitos não têm carteira de motorista e muitos não dispõem de certidões de nascimento ou documentos de adoção. Mulheres que alteraram seus nomes legais devido a casamento ou transição de gênero teriam de apresentar documentos adicionais para comprovar sua identidade. Se aprovadas, essas novas exigências tornarão mais difícil para os americanos registrarem-se para votar e poderão levar alguns deles a desistir da tentativa.

    Trump alega que o objetivo da Lei SAVE é prevenir fraudes eleitorais — especificamente, o voto de não cidadãos e de imigrantes sem documentação regular. Pouco importa que nunca tenha havido evidências de fraudes eleitorais significativas nas eleições dos EUA. Nos 62 processos judiciais movidos por Trump e seus aliados, alegando que os Democratas teriam roubado a eleição de 2020, nenhuma prova foi apresentada em tribunal; foi por isso que 61 dessas ações fracassaram. Nos casos em que houve investigação de fraude eleitoral, constatou-se que ela era mínima e, com mais frequência, cometida por Republicanos do que por Democratas. O objetivo de Trump é dificultar o voto para pessoas com menor probabilidade de possuir os tipos de identificação exigidos pela Lei SAVE (bem como o tempo de folga no trabalho necessário para obtê-los): pessoas mais pobres e minorias, que tendem a votar nos Democratas.

Trump está tão determinado a fazer com que o Congresso aprove a Lei SAVE que recorreu à chantagem legislativa. O Congresso aprovou um projeto de lei muito necessário para tornar a moradia mais acessível nos EUA, mas o presidente declarou, no final de junho, que não sancionaria a medida até que ambas as casas do Congresso aprovassem a Lei SAVE. Para frustração de Trump, é pouco provável que a Lei SAVE obtenha os 60 votos necessários para ser aprovada no Senado, uma vez que até mesmo alguns republicanos relutam em apoiar suas medidas draconianas. De qualquer forma, a tentativa de chantagem de Trump não funcionou. Pela legislação dos EUA, um projeto de lei pode entrar em vigor sem a assinatura do presidente caso este não o vete. Trump não quis correr o risco de passar pela humilhação de vetar o projeto de habitação e ter seu veto derrubado pelo Congresso; assim, o projeto tornou-se lei sem a sua assinatura.

    Na hipótese provável de que a Lei SAVE nunca seja aprovada pelo Congresso, Trump tem um plano alternativo: usar seus poderes presidenciais para implementar pelo menos algumas das disposições da proposta. No início de julho, ele ameaçou reter dezenas de milhões de dólares em verbas destinadas à prevenção do terrorismo — recursos normalmente repassados ​​a estados individuais — a menos que estes alterassem suas regras eleitorais de acordo com suas preferências; por exemplo, exigindo que os eleitores comprovassem a cidadania americana no momento da votação e obrigando os estados a substituir as urnas eletrônicas por cédulas de papel. Trump sustenta há muito tempo que, em 2020, as urnas eletrônicas foram manipuladas por potências estrangeiras maliciosas, incluindo o governo da Venezuela, embora nunca tenha apresentado provas credíveis disso. Ainda assim, ele insiste que o processo eleitoral seria mais seguro se os EUA retomassem a tradição antiga de marcar cédulas de papel — as quais, na verdade, são mais vulneráveis ​​a fraudes do que as urnas eletrônicas.

   Por fim, Trump subverteu o processo eleitoral ao alegar incessantemente que as eleições dos EUA não estão protegidas contra hackers, agentes estrangeiros e inimigos internos determinados a manipular seus resultados. Os supostos inimigos internos não são apenas democratas, mas membros do “Estado profundo” (*deep state*) — um grupo obscuro de burocratas que, nas fantasias sombrias de Trump, exerce secretamente um enorme poder sobre o governo e busca frustrá-lo a todo momento. A ideia de que essas forças sinistras conspiraram para roubar a eleição de 2020 não é apenas falsa, mas absurda. Essas eleições ocorreram enquanto Trump era presidente. Como a oposição poderia roubar uma eleição de um chefe do Executivo em exercício? Além disso, Trump foi eleito tanto em 2016 quanto em 2024 enquanto um democrata ocupava a presidência. Trump pede aos americanos que acreditem que os democratas são astutos o suficiente para roubar uma eleição quando estão fora do poder, mas estúpidos demais para fazê-lo quando estão no poder. Se você acredita nisso, provavelmente também acredita que a Argentina venceu o Egito e a Inglaterra na Copa do Mundo sem a ajuda dos árbitros.

     As mentiras e os exageros de Trump atingiram o auge em 16 de julho, quando ele fez um pronunciamento televisionado à nação sobre fraudes e interferência estrangeira nas eleições dos EUA. Após inflar exageradamente suas realizações no último ano e meio — chegando a afirmar que a guerra no Irã estava indo “muito bem” —, ele alegou que a China havia tentado influenciar os eleitores americanos contra ele ao comprar, roubar ou hackear arquivos de dados de eleitores dos EUA, e que o “Estado profundo” havia ocultado essa informação dele. No entanto, os arquivos de dados estavam disponíveis publicamente, e ex-autoridades de inteligência dos EUA disseram ao The New York Times que a China “nunca apoiou qualquer esforço abrangente para prejudicar o Sr. Trump“. Convenientemente, Trump não fez qualquer menção às tentativas da Rússia de influenciar a eleição de 2016 a seu favor.

   Segundo a narrativa de Trump, o sistema eleitoral dos EUA está quebrado. “Um grande dano foi causado ao nosso país”, disse ele. “Nossas eleições foram deixadas vulneráveis ​​a fraudes e roubos, e a confiança do povo americano foi perdida.” No entanto, Trump não explicou por que, se está tão preocupado com a segurança da votação, tem trabalhado tanto para torná-la menos segura. De acordo com o Times, o presidente “passou a primeira parte de seu segundo mandato desmontando as proteções eleitorais estabelecidas ao longo dos anos anteriores. A força-tarefa do FBI sobre influência estrangeira foi encerrada, o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional reduziu drasticamente uma força-tarefa que alertava contra a interferência estrangeira, e a Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura foi esvaziada“. Em 10 de julho, foi noticiado que Trump dera o golpe de misericórdia na Comissão de Assistência Eleitoral — um órgão independente e bipartidário que ajuda os estados a administrar suas eleições — ao forçar a saída de seus três membros restantes, após a renúncia do quarto integrante.

    Trump ordenou a divulgação de centenas de páginas de documentos sigilosos que supostamente comprovavam suas alegações de fraude eleitoral e influência estrangeira; contudo, muitos deles apenas reiteravam informações já públicas, enquanto outros estavam tão censurados com tarjas pretas que era difícil encontrar as evidências comprobatórias que supostamente continham. Um documento da comunidade de inteligência contradizia diretamente a essência do discurso de Trump. O texto afirmava: “Avaliamos que seria difícil manipular os sistemas de apuração de votos em escala suficiente para comprometer os resultados das eleições”.

A única maneira de interpretar tudo isso é concluir que Trump acredita que perderá pelo menos a Câmara dos Representantes nas eleições de meio de mandato, que está criando um clima em que o público acreditará que as eleições foram fraudadas e que ele tentará anular os resultados. Ele demitiu todas as autoridades que poderiam questionar suas alegações de fraude eleitoral e se opor a quaisquer manobras — legais ou ilegais — que ele realizasse para desafiar a vontade popular. Se isso acontecer, navegaremos por águas desconhecidas; mas essas são justamente as águas de que Trump parece gostar mais.

    Enquanto isso, vamos sonhar um pouco. Daqui a dois anos e meio, Trump terá deixado o cargo. Se a república sobreviver ao seu governo nefasto, quem o suceder na presidência poderá empreender um esforço sincero e desinteressado para fortalecer a democracia eleitoral dos EUA. Para alinhar o país a outras nações democráticas de destaque, esse presidente poderia tentar realizar pelo menos quatro coisas: abolir o Colégio Eleitoral; realizar eleições aos domingos ou em feriados nacionais, em vez de às terças-feiras; acabar com o gerrymandering (manipulação dos distritos eleitorais); e tornar o voto obrigatório para todos os cidadãos maiores de 18 anos. Por diversos motivos, essas reformas serão difíceis, senão impossíveis, de se concretizar. Mas, como eu disse, vamos sonhar um pouco.

    • Abolir o Colégio Eleitoral. Isso exigiria uma emenda à Constituição, a qual teria de ser aprovada por 38 dos 50 estados. É improvável que um número suficiente de estados menores e menos populosos estivesse disposto a abrir mão da atenção extra, dos benefícios e do poder que obtêm graças à existência do Colégio Eleitoral. No entanto, existe uma alternativa à emenda constitucional: um grupo de estados cujos votos no Colégio Eleitoral somem mais de 270 poderia comprometer-se a fazer com que todos os seus delegados votassem no vencedor do voto popular nacional. O principal obstáculo para isso é que esses estados precisariam demonstrar coragem e confiança mútua — qualidades que costumam ser escassas na política.

• Realizar as eleições em um domingo ou feriado nacional. É desconcertante que isso ainda não tenha sido adotado. Em 1845, quando o Congresso aprovou uma lei estabelecendo um dia único de eleição para cargos federais em todo o país, os EUA ainda eram uma sociedade predominantemente agrária. O início de novembro foi escolhido para a votação porque a colheita havia terminado e o clima ainda era relativamente ameno. As eleições não podiam ser realizadas no domingo, pois a maioria dos americanos era de cristãos devotos e aquele era o dia de oração e descanso deles. Também não podiam ocorrer na quarta-feira, dia de feira, quando os agricultores vendiam suas colheitas na cidade. O Congresso optou pela terça-feira, já que muitos agricultores moravam a quilômetros de distância dos locais de votação e poderiam precisar da segunda-feira para o deslocamento. Cento e oitenta e um anos depois, menos de 2% dos residentes dos EUA são agricultores, mas continuamos votando como se ainda o fossem. Vários estados transformam o Dia da Eleição em feriado remunerado para funcionários públicos estaduais, concedem duas horas de folga remunerada para votação ou exigem que os empregadores liberem seus funcionários durante o expediente para irem às urnas. No entanto, essas são medidas locais que não resolvem um problema nacional. Enquanto o Dia da Eleição cair em uma terça-feira, ele representará um transtorno que reduz o número de eleitores. Pesquisas de opinião pública mostram que a maioria dos americanos é a favor de transferir o Dia da Eleição para o fim de semana ou transformá-lo em feriado nacional, mas projetos de lei para promover essa mudança nunca avançaram muito no Congresso. Os opositores argumentam que, nos estados onde o Dia da Eleição virou feriado, a participação dos eleitores não aumentou de forma significativa; alegam que votar em um domingo ou feriado poderia gerar filas maiores nas seções eleitorais, desestimulando a participação de alguns eleitores. Meu Deus, que vontade de desistir de tudo.

• Acabar com o gerrymandering. Os distritos eleitorais para o Congresso não devem ser definidos por maiorias políticas nas assembleias legislativas estaduais. Como espero ter demonstrado, isso é extremamente antidemocrático. Os distritos devem ser determinados por comissões independentes e bipartidárias, de acordo com características geográficas e demográficas comuns, e não com base em filiação política. (Na Inglaterra, as circunscrições parlamentares têm fronteiras definidas por Comissões de Fronteira independentes. Parabéns, britânicos!) Os principais partidos políticos relutarão em abandonar o gerrymandering, que consideram uma ferramenta valiosa para conquistar ou manter o controle da Câmara dos Representantes, mas alguém precisa assumir a responsabilidade pela reforma, e quem melhor do que um novo presidente?

• Tornar o voto obrigatório. Esta talvez seja a medida mais difícil de todas. Os americanos detestam receber ordens. Infelizmente, o resultado desse individualismo extremo é que, na eleição presidencial de 2024, apenas 64% dos eleitores elegíveis do país votaram. Donald Trump obteve 49,8% dos votos populares, o que significa que foi a preferência de pouco menos de 32% dos eleitores elegíveis. Talvez um dia os americanos percebam que seu sistema, como está, garante o domínio da minoria, e a única maneira de a maioria vencer uma eleição é fazer com que a maioria vote.

Assim, o sistema político dos EUA continua cambaleando, imperfeito e vulnerável a aspirantes a autocratas como Donald Trump. Os Pais Fundadores talvez ficassem satisfeitos em despertar de seu longo sono e ver que sua república ainda não alcançou o pleno domínio da maioria — mas talvez se incomodassem com o fato de um presidente eleito sob suas regras arcaicas estar tentando tornar os EUA ainda menos democráticos do que eles gostariam.

U.S. POLITICS

   As an American who spends a couple of months a year in Brazil, I often find myself trying to explain my country’s politics to Brazilians. It’s not easy. The U.S. political system is archaic, convoluted and sometimes nonsensical. I often wonder if I understand it myself.

    How, for instance, can a U.S. presidential candidate win the popular vote but lose the election? Why are elections held on Tuesday, when work takes time away from voting? And why do at least a third of eligible voters not vote at all?

    Just thinking about it gives me a headache. And this year I’ve been thinking about it a lot, because it’s an election year, and the survival of the republic depends on the results. Does that sound dramatic? Sorry. It’s just reality in the age of Donald Trump. On July 4 the U.S. celebrated 250 years of independence and democracy, yet never has our political freedom been more in danger.

    Every even-numbered year, Americans elect all members of the U.S. House of Representatives and one-third of the U.S. Senate. (That’s because terms for Representatives last two years, while terms for Senators last six.) This year’s elections, which will take place on Tuesday, November 3, are called “midterms,” because they come midway through the President’s four-year mandate. Trump’s Republican Party holds slender majorities in both the House (219-212) and the Senate (53-47). That means that if Democrats hold onto all their seats and unseat only four Republicans in each chamber, they will regain full control of the Congress. For various reasons, Democrats are given an excellent chance of retaking the House and at least a fighting chance of retaking the Senate. 

    Historically, the President’s party does not do well in the midterms—two years have passed since the last presidential election, and voters, frustrated by the inevitably slow pace of change, often vote for the opposition party. This year, voters are especially frustrated. In his campaign for reelection, Trump promised prosperity and peace. Instead, the cost of living went up; we rushed into an unnecessary, expensive and seemingly endless war with Iran; ICE terrorized people on city streets; Trump shamelessly used his office to enrich himself and his family; and he seemed more interested in renovating the White House and naming airports and theaters after himself than in attending to the needs of average Americans. In opinion polls, Trump’s job-approval rating has fallen as low as 33%.

    Faced with the prospect of losing control of one or both chambers of Congress, Trump is doing all he can to suppress the Democratic Party vote throughout the country and to rig the House elections in favor of the Republicans. He has also given indications that if the elections do not go his way, he will steal them.

    How did we come to this point? The Founding Fathers of the U.S. tried to structure the government so that no President could rule like a king. The U.S. Constitution provides “checks and balances” on the President’s authority, givingCongress and the courts powers that are theoretically equal to the chief executive’s. But the Constitution was written in 1787, when the U.S. was a small agrarian country with fewer than three million inhabitants. There were no factories, trains, cars, radios, airplanes, televisions, spaceships, computers, websites or podcasts. Most Americans lived on farms. The Constitution has been amended many times over the past two and a half centuries, but it still contains provisions unsuited to governing a large post-industrial nation of more than 340 million people. And the Founding Fathers didn’t foresee the election of a President as dishonest, as demagogic and as unscrupulous in the pursuit of personal power as Donald Trump—a politician who would swat aside their checks and balances, bending legislators and judges to his will and trying to rule, in effect, like a king.

    Trump was first elected President, in 2016, through the most confounding of all the Constitution’s provisions: the Electoral College. To understand this bizarre and undemocratic institution, it’s helpful to know that the Founding Fathers did not think of democracy as we think of it today—as a society whose government is chosen by a majority of the adult population. To many of the framers of the Constitution, universal suffrage conjured the dark specter of mob rule. Most of these men were elite farmers mindful of protecting their own interests. In the first U.S. presidential election, held at the end of 1788 and beginning of 1789, voting was limited to white male landowners. Not until 1856 was the property requirement dropped and was voting opened to all white male citizens. In 1870eligibility was extended to male citizens of all races, and in 1920 it was finally extended to women. There have been many other changes in voting rights since the first presidential election, but there has always been one constant: Americans cannot elect their President directly. The chief executive must be chosen by the Electoral College, based on the popular vote in each state.

    Here’s how it works. The U.S. Senate has 100 members—two for each of the 50 states, regardless of the state’s size. The House of Representatives has 435 members, distributed among the states according to each state’s population. For example, North Dakota, which has about 800,000 residents, has two Senators and one Representative. California, which has almost 40 million residents, has two Senators and 52 Representatives. In the Electoral College, each state gets a number of votes equal to its number of Senators and Representatives. So North Dakota gets three votes, while California gets 54. The presidential candidate who wins the popular vote in a state gets all of that state’s Electoral College votes, regardless of how close the election was. Thus the winner in California gets 54 votes, while his opponent gets none. The total number of votes in the Electoral College is 538. To become President, a candidate must win at least 270—one more than half.

    This is crazy. It means that a candidate who wins some states by huge margins but loses many more states by tiny margins can win the national popular vote but lose the Electoral College. What were the Founding Fathers thinking? Remember that in 1787 there was no democratic government anywhere in the world. The leaders of the new American republic were creating a system of non-monarchical rule without examples to follow. Some of them believed the President should be elected by popular vote, but others, fearful of what they imagined as the “tyranny of the majority,” thought the President should be chosen by Congress. They compromised by creating the Electoral College, which allowed a popular vote but stopped short of automatic majority rule.

    In this century, two U.S. presidential candidates have won the popular vote but lost the election. In 2000, Al Gore got half a million votes more than George W. Bush but lost the Electoral College by a minuscule margin, 271-266. Sixteen years later, Hillary Clinton beat Donald Trump by almost three million votes but, surprisingly, lost the college decisively (304-227). In both cases the ultimate loser was a Democrat. That’s because today, the Electoral College favors Republicans.The Democratic vote tends to be concentrated in big cities and other densely populated areas, while the Republican vote is spread out through many states that are less populated but that together have more Electoral College votes. 

    That’s not the only way the Electoral College corrupts U.S. politics. Some states are reliably Democratic and others reliably Republican. States that could vote either way, which are called “swing states” or “battleground states,” are promised the moon by candidates—and generously rewarded by Presidents seeking reelection—because their Electoral College votes are up for grabs. For example, to get West Virginia’s Electoral votes, a politician must support that state’s dying and environmentally destructive coal industry. To win Florida’s votes, a candidate must side with the state’s powerful Cuban-American community in its implacable hostility toward the Communist government in Havana.

    Anyone who watched the TV series West Wing: Nos Bastidores do Poder got a good education in Electoral College politics. In the series’ final season, which was devoted to the election to succeed President Jed Bartlet, the campaign managers of both leading candidates based their strategies almost exclusively on the college. The Republican candidate, Arnold Vinick, was considered the favorite simply because he was a Senator from California, and it was assumed he would win the state’s huge cache of Electoral College votes. And the reason his Democratic opponent, Matt Santos, flew from Florida to Pennsylvania to Ohio to Texas to California on the last day of the campaign was that those states accounted for more than half of the Electoral College votes he would need to win. In the last scene of the episode about Election Day, Santos’s campaign manager added up the candidate’s Electoral College vote on a whiteboard: 272, two more than the minimum. We didn’t learn who won the popular vote. It didn’t matter.

    The Electoral College was the main target of Donald Trump’s attempt to steal the 2020 election after it was clear he had lost to Joe Biden. Votes in the Electoral College are cast by real people, called Electors. In each state, a presidential candidate names his own slate of Electors—54 of them in California, 40 in Texas, and so on. If a candidate wins a state’s popular vote, his Electors meet in that state’s capital a month later to formally cast their votes for him. The results from all 50 states are added up, certified by the Vice President of the U.S. and ratified by Congress on January 6, two weeks before the inauguration of the new President. To try to reverse the outcome of the 2020 election, Trump and his political allies in seven swing states won by Biden tried to submit false documents asserting thatTrump had won those states and that his Electors should be the ones to vote in December. This was blatantly illegal, and it didn’t succeed. Many of Trump’s co-conspirators, including some of the fake Electors, were indicted and tried over the next few years, but after Trump was reelected in 2024, he pardoned all of them. 

    The assault on the U.S. Capitol by Trump supporters on January 6, 2021, was part of that same strategy to steal the 2020 election. The rioters were trying to stop Vice President Mike Pence from certifying the Electoral College vote, which Biden won 306-232, and to stop Congress from ratifying it. In a speech immediately before the riot, Trump called on Pence to refuse to certify Biden’s victory. The rioters even threatened Pence’s life. Pence bravely refused to be intimidated by Trump or the rioters, and he did his Constitutional duty. Nearly 1,600 rioters were indicted on criminal charges, more than 1,000 of them pled guilty, and many went to jail. But again, when Trump returned to office, he pardoned all of them.

    Given that Trump has already tried to steal one election, there’s good reason to fear he will try to steal the 2026 midterms. He has already tried to manipulate them by various means. One way is by trying to end voting by mail, which he claims is riven with fraud. There is no evidence of this fraud—in fact, Trump himself has voted by mail—and the Supreme Court has upheld mail-in voting. The most likely reason for the President’s assault on this kind of voting is that Democrats use it more than Republicans, who generally prefer to vote in person on Election Day. 

    Another way Trump has tried to rig the midterms is by ordering Republican-controlled state legislatures to redraw their states’ congressional districts—that is, districts that elect members of the U.S. House of Representatives—so that they have Republican majorities. This process is known as “gerrymandering,” after the 19th-century politician who invented it, Massachusetts Governor Elbridge Gerry. The U.S. takes a national census every 10 years, and after the results are in, state legislatures adjust their congressional districts to reflect the new demographic data. The party that controls a state legislature often uses this opportunity to redraw the state’s districts so that its own voters are in the majority—even if that means creating districts with weird shapes, like snakes or arcs or jigsaw-puzzle pieces. That can leave many of the state’s voters underrepresented in the House because they belong to the wrong party. For instance, all of the U.S. Representatives from Massachusetts are Democrats, while all the Representatives from Oklahoma and Utah are Republicans. In Nevada, three of the four Representatives are Democrats even though most of the state’s voters are Republicans. The next round of gerrymandering should not take place until after the 2030 U.S. census, but Trump has pushed all Republican-controlled state legislatures to redraw their states’ congressional maps now, in time for the 2026 midterms. That has forcedDemocrats to try to do the same in states they control. This violates long-standing U.S. political tradition, but Trump is nothing if not a trampler of traditions.  

    Trump’s most significant attempt to influence this and future elections is embodied in a bill he is trying push through Congress. Misleadingly titled the Safeguard American Eligibility Act, or SAVE Act, the bill would increase federal authority over voting rules, which constitutionally are the responsibility of the individual states. Among other things, the bill would require people registering to vote to show a U.S. passport or a combination of a photo driver’s license and a birth certificate or adoption document. About half of Americans do not have passports, many don’t have drivers’ licenses, and many don’t have birth certificates or adoption documents. Women whose legal names have changed through marriage or through gender transition would have to present additional documents to prove their identities. If enacted, these new requirements will make it harder for Americans to register to vote and might make some of them give up on trying.

    Trump claims the purpose of the SAVE Act is to ensure against voter fraud—in particular, voting by non-citizens and undocumented immigrants. Never mind that there has never been evidence of significant voter fraud in U.S. elections. In the 62 lawsuits filed in U.S. courts by Trump and his allies claiming that Democrats stole the 2020 election, no evidence was ever presented in court, which is why 61 of the suits ended in failure. Where voter fraud was investigated, it turned out to be minimal, and more often committed by Republicans than by Democrats. Trump’s purpose is to make voting harder for people who are less likely to have the kinds of identification the SAVE Act demands (and the time off work necessary to obtain them): poorer people and minorities, who are more likely to vote for Democrats.     

    Trump is so adamant that Congress pass the SAVE Act that he resorted to legislative blackmail. Congress passed a much-needed bill to make housing more affordable in the U.S., but the President declared in late June that he would not sign the bill into law until both houses of Congress passed the SAVE Act. To Trump’s frustration, the SAVE Act is not likely to get the 60 votes required for it to pass in the Senate, because even some Republicans are reluctant to support its draconian measures. In any case, Trump’s attempt at blackmail didn’t work. Under U.S. law, a bill can be enacted without the President’s signature if the President does not veto it. Trump was unwilling to risk the humiliation of vetoing the housing bill and having the veto overridden by Congress, so the unsigned bill passed into law.

    In the likely event that the SAVE Act never makes it through Congress, Trump has a backup plan to use his presidential power to enact at least some of its provisions. In early July he threatened to withhold tens of millions of dollars in terrorism-prevention funds from individual states unless they change their election rules in ways that he favors—for instance, by making voters verify their U.S. citizenship at the polls and by obliging states to transition from voting machines to paper ballots. Trump has long contended that in 2020, voting machines were manipulated by sinister foreign powers, including the government of Venezuela, even though he presented no credible evidence for this. Nonetheless, he insists that voting would be safer if the U.S. reverted to the antique tradition of marking paper ballots—which are, in fact, more vulnerable to vote-tampering than machines.

    Finally, Trump has subverted the electoral process by endlessly claiming that U.S. elections are not safe from hackers, foreign agents and domestic enemies determined to manipulate their results. The alleged domestic enemies are not only Democrats but members of the “deep state,” a shadowy group of bureaucrats who, in Trump’s penumbral fantasies, secretly wield vast power over the government and seek to thwart him at every turn. The idea that these sinister forces colluded to steal the 2020 election is not only false but preposterous. Those elections were held while Trump was President. How does an opposition steal an election from a sitting chief executive? And Trump was elected in both 2016 and 2024 while a Democrat was President. Trump is asking Americans to believe that Democrats are so clever that they can steal an election while they are out of power but so stupid that they can’t steal it while they are in power. If you believe that, you probably believe that Argentina beat Egypt and England in the World Cup without help from the refs.

     Trump’s lies and exaggerations reached a crescendo on July 16, when he delivered a televised address to the nation about cheating and foreign interference in U.S. elections. After wildly overstating his accomplishments over the last year and a half—even claiming that the war in Iran was going “very well”—he asserted that China had tried to influence U.S. voters against him by buying, stealing or hacking U.S. voter data files, and the “deep state” had hidden this information from him. But the data files were available publicly, and former U.S. intelligence officials told The New York Times that China “never endorsed any broad-based effort to undercut Mr. Trump.” Trump conveniently did not make any reference to Russia’s attempts to influence the 2016 election in his favor.

    In Trump’s telling, the U.S. election system is broken. “Great damage has been done to our country,” he said. “Our elections were left vulnerable to being rigged and stolen, and the trust of the American people was lost.” But Trump did not explain why, if he’s so concerned about voting safety, he has been working so hard to make voting less safe. According to the Times, the President “has spent the first part of his second term dismantling the election protections built up over the previous years. The FBI’s task force on foreign influence was shut down, the Office of the Director of National Intelligence sharply cut back a task force that warned against foreign meddling, and the Cybersecurity and Infrastructure Security Agency has been gutted.” On July 10 it was reported that Trump had applied the coup de grace to the independent, bipartisan Election Assistance Commission, which helps states administer their elections, by forcing out its three remaining members after the fourth resigned.

    Trump ordered the release of hundreds of pages of classified documents purporting to prove his assertions of voter fraud and foreign influence, but many of them simply restated information that was already public, and others were so heavily censored in bands of black ink that it was hard to find the corroborating evidence they supposedly contained. One document from the intelligence community directly contradicted the entire thrust of Trump’s speech. It said, “We assess that vote tabulation systems would be difficult to manipulate on a wide enough scale to compromise election results.”

    The only way to interpret all of this is that Trump believes he will lose at least the House of Representatives in the midterm elections, that he is creating a climate in which the public will believe that the elections were stolen, and that he will try to undo their results. He has fired everyone in authority who might question his claims of voter fraud and might oppose whatever legal—or illegal—moves he makes to challenge the will of the people. If this comes to pass, we will be in uncharted waters, but those are the waters Trump seems to like most.

    In the meantime, let’s dream a little. In two and a half years, Trump will be gone. If the republic survives his malignant rule, whoever succeeds him in office might make a sincere, unselfish effort to strengthen U.S. electoral democracy. To bring the country in line with other leading democratic nations, this President might try to do at least four things: abolish the Electoral College; hold elections not on Tuesday but on Sunday or a national holiday; end gerrymandering; and make the vote compulsory for all citizens over the age of 18. For various reasons, these reforms will be hard, if not impossible, to achieve. But as I said, let’s dream a little.

    • Abolish the Electoral College. That would require an amendment to the Constitution, which would have to be approved by 38 of the 50 states. There’s no way enough of the smaller, less populated states would be willing to give up the extra attention, benefits and power they get because of the college’s existence. But there is a way around a Constitutional amendment: A group of states whose Electoral College votes together add up to more than 270 could pledge that all their Electors would vote for the winner of the national popular vote. The main obstacle to this is that those states would have to show courage and trust in one another—qualities that tend to be in short supply in politics. 

    • Hold elections on a Sunday or a national holiday. It’s baffling that this has not already been adopted. In 1845, when Congress passed a law setting a single election day for federal offices throughout the country, the U.S. was still a largely agrarian society. Early November was chosen as the time for voting because the harvest was over and the weather was still relatively mild. Elections couldn’t be held on Sunday, because most Americans were devout Christians and that was their day of prayer and rest. They couldn’t be held on Wednesday, because that was market day, when farmers sold their crops in town. Congress settled on Tuesday, because many farmers lived miles away from their polling places and might need Monday to travel there. One hundred eighty-one years later, fewer than 2% of U.S. residents are farmers, but we still vote as if they were. A number of states make Election Day a paid holiday for state employees, or give state workers two hours of paid leave to vote, or require employers to give their workers time off during the workday to go to the polls. But these are local remedies that don’t solve a national problem. So long as Election Day falls on a Tuesday, it will be an inconvenience that reduces the number of voters. Public opinion polls show that most Americans favor moving Election Day to the weekend or making it a national holiday, but bills to effect this change have never gotten far in Congress. Opponents have argued that in states that have made Election Day a holiday, voter turnout has not markedly increased, and they’ve even claimed that voting on a Sunday or holiday could lead to longer lines at the polls, discouraging some voters from participating. Oh God, shoot me now.

    • End gerrymandering. Congressional districts should not be designed by political majorities in state legislatures. As I hope I’ve demonstrated, this is grossly undemocratic. Districts should be determined by independent, bipartisan commissions according to geographical and demographic commonalities rather than political affiliation. (In England, parliamentary constituencies have borders set by independent Boundary Commissions. Bravo, Brits.) The major political parties will be reluctant to give up gerrymandering, which they see as a valuable tool to wrest or keep control of the House of Representatives, but someone has to take up the torch of reform, and who better than a new President?

    • Make voting compulsory. This might be the toughest one of all. Americans hate to be told what to do. Unfortunately, the result of this extreme individualism is that in the 2024 Presidential election, only 64% of the country’s eligible voters cast a ballot. Donald Trump won 49.8% of the popular vote, meaning he was preferred by a little less than 32% of the eligible voters. Perhaps one day Americans will realize that their system, as it is, guarantees minority rule, and the only way for the majority to win an election is to make the majority vote.

    So the U.S. political system muddles on, imperfect and vulnerable to aspiring autocrats like Donald Trump. The Founding Fathers might be pleased to wake up from their long slumber and see that their republic still falls short of full-fledged majority rule—but it might disturb them that a President elected under their arcane rules is trying to make the U.S. even less democratic than they would’ve liked.

Chris Hunt

Chris Hunt nasceu em Dallas, Texas, e cresceu em Caracas, Venezuela. Depois de formado em História em Nova Iorque, ficou nesta cidade e trabalhou como editor nas revistas Travel & Leisure e Sports Illustrated do Grupo Time Warner. Casado com Andréa, mineira de BH, curte a vida de aposentado viajando, lendo e tocando violão.

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