QUILOMBO DOS JORGES DA ÁGUA BRANCA

Publicado em: 30/06/2026 às 07:45

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Quando digo que sou uma mulher quilombola, as reações costumam variar. Tem quem nem saiba que existe quilombo em Peçanha. Tem aqueles que sabem, mas não fazem ideia do que de fato é um quilombo… tem quem imagine que é um lugar isolado, distante de tudo, com pessoas que não acompanham a “modernidade”. E tem quem demonstre curiosidade sincera. Poucos, porém, conhecem verdadeiramente a história que existe por trás das casas, das roças, das hortas, das famílias e da terra que formam o Quilombo dos Jorges de Água Branca, localizado na zona rural, Córrego dos Jorges, município de Peçanha, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais – Brasil.

Quando preciso explicar o que é o Quilombo dos Jorges para quem nunca esteve neste território, gosto de recorrer aos ensinamentos de Nego Bispo. Em suas reflexões sobre os povos tradicionais, ele nos lembra que “o território não é um lugar onde a gente mora. É um lugar onde a gente é”. A frase parece simples, mas carrega uma profundidade difícil de traduzir para quem enxerga a terra apenas como espaço geográfico.

Talvez seja por isso que falar sobre o Quilombo dos Jorges seja, antes de tudo, falar sobre gente… pessoas que guardam memórias e tradições que seguem vivas, que mantêm a comunidade unida, que vão construindo o futuro sem abrir mão de suas raízes. Acho mesmo que nossa maior riqueza não cabe neste texto, nem em fotografias… nossa maior riqueza são as pessoas e nossa memória.

Ser do Quilombo dos Jorges implica, inevitavelmente, contar histórias. Histórias de luta, de afeto, de trabalho, de resistência e de pertencimento. Eu gostaria de ter espaço para narrar as trajetórias de todas as famílias que ajudaram a construir esse território e a mantê-lo vivo ao longo das gerações. Entretanto, desconfio que tal pretensão seja inalcançável. Nenhum texto, por mais extenso que seja, seria capaz de abarcar a riqueza das memórias, dos ensinamentos e das vivências que fazem do Quilombo dos Jorges a potência que ele é.

Quero, portanto, dizer que não tenho intenção de esgotar a história dessa comunidade, nem tampouco estabelecer hierarquias. Ao escrever sobre determinadas pessoas, espero que muitas outras se sintam representadas. Gostaria de escrever sobre todos, mas por limitações de espaço e de memória, não consigo fazê-lo agora.

Feita essa ressalva, quero dizer que nenhuma história existe sozinha. Cada pessoa de quem falarei carrega consigo a memória de muitas outras. Espero que você, leitor, possa compreender a grandiosidade da existência do nosso Quilombo pela continuidade da leitura.

O PERCURSO ATÉ AQUI

A história do Quilombo dos Jorges não começa em Água Branca. Começa muito antes, nos caminhos percorridos por nossos antepassados que, em busca de liberdade e de melhores condições de vida, deixaram a região do Serro e seguiram em direção às matas do Rio Doce.

Naquele período, grande parte do território que hoje compreende o município de Peçanha era habitada por diversos povos indígenas, entre eles Maxakalis, Monoxós e Botocudos. A chegada da colonização portuguesa significou guerra, expulsão e extermínio para essas populações, inaugurando um processo violento de ocupação do território.

Ao mesmo tempo, negros escravizados fugiam das péssimas condições de trabalho e existencia em, áreas mineradoras e agrícolas em busca de refúgio. Documentos históricos registram a existência de quilombos na mata de Peçanha ainda no século XVIII. Isso significa que, antes mesmo da formação de muitos povoados da região, este território já era marcado por histórias de resistência negra e indígena.

Com o declínio da mineração, muitas famílias passaram a buscar novas formas de sobrevivência. Entre elas estava a família de meus trisavós, Antônio Jorge e Maria Carolina, que encontraram em Peçanha a possibilidade de construir uma vida e estabelecer raízes. Foi a partir da aquisição das terras que hoje compõem o território quilombola dos Jorges de Água Branca que essa história começou a ganhar forma. Com muito trabalho nas roças de milho, arroz e hortas, e por meio do esforço coletivo que até hoje caracteriza a comunidade, o território foi sendo construído e consolidado ao longo das gerações.

Nós, os mais novos, que sempre buscamos conhecer nossa própria história, ouvimos dos mais velhos que Antônio Jorge, meu trisavô, era descendente de africanos e que sua esposa, Maria Carolina — carinhosamente lembrada como Dindinha Kalu — era indígena e parteira. Também nos contaram que Jorge da Silva, meu tataravô e pai de Antônio Jorge, viveu na região do Serro e foi escravizado. Entre as lembranças preservadas pela família estavam marcas e registros carimbados no corpo dele que, segundo os mais velhos, indicavam essa condição de cativo.

Desse período até agora são muitas histórias de lutas e vitórias. No dia 13 de agosto de 2018, a comunidade dos Jorges recebeu o reconhecimento oficial da Fundação Cultural Palmares, que emitiu a Certidão de Autodefinição como comunidade remanescente de quilombo. Embora importante, esse reconhecimento apenas formalizou aquilo que a comunidade sempre soube sobre si mesma. O reconhecimento oficial marca um capítulo importante dessa trajetória, mas a verdadeira força do Quilombo dos Jorges está na continuidade de sua existência e na resistência cotidiana de seu povo, que segue escrevendo sua história sem esquecer aqueles que vieram antes.

NOSSO POVO

Tia Maria, a  Guardiã dos  Saberes

Entre as muitas histórias que sustentam nosso quilombo, poucas são tão potentes quanto a de tia Maria. Tia Maria é tia de todos nós. Todos a respeitamos e a consideramos assim (Tia!), não pelos laços de sangue, mas pelo carinho, respeito e consideração. Aos 93 anos, ela é uma das matriarcas mais antigas da comunidade, guardiã de saberes e tradições que não se aprendem em nenhum livro acadêmico. Benzedeira respeitada, conhecedora das ervas, das rezas boas e dos remédios da tradição, ela carrega conhecimentos construídos ao longo de décadas de observação, prática e convivência com a comunidade. São saberes que dificilmente cabem nos livros, mas que fazem parte da história de muitas famílias daqui.

Tia Maria

Quem chega à sua casa logo percebe que o tempo parece seguir outro ritmo. Sentada em seu banquinho de madeira simples, ou nos degraus da escada que sobem para sua cozinha, tia Maria recebe cada pessoa com atenção, paciência e escuta. Em sua companhia, as preocupações parecem perder a pressa. O que muitos chamam de inveja, ela benze como “quebranto”, e acredite, a vida volta pros eixos novamente. Quando uma criança ou mesmo um adulto chega abatido, sem ânimo ou sem forças, ela reza, aconselha, acolhe e benze a “espinhela caída”. Para quem tem fé e para quem busca conforto, sua presença representa cuidado, acolhimento e pertencimento.

Eu não espero que vocês entendam como, quando um animal é “ofendido” por cobra venenosa, tia Maria o benze e o veneno parece perder a força. Também não espero que compreendam como uma reza acalma uma criança ou como uma folha escolhida na hora certa carrega mais cuidado e afeto do que muitos remédios industrializados. Não pretendo opor esses saberes à ciência. Quando precisamos de cuidados de saúde, recorremos à medicina e a profissionais qualificados. Viva a ciência! Mas viva também os conhecimentos tradicionais, a fé e a sabedoria ancestral que fazem parte das formas pelas quais muitas pessoas compreendem o cuidado e encontram acolhimento em nossa comunidade.

Tia Maria e suas tradições parecem não acompanhar a vida capitalista — e, de fato, não acompanham. O capitalismo no significa nada para ela e em sua casa não dita as regras, porque ali o tempo não é dinheiro, a cura não é mercadoria e a vida não pode ser medida pelo quanto se produz. Talvez sua forma de viver não faça sentido para quem aprendeu a enxergar o mundo apenas pelos números e pelo saldo bancário, mas ela preserva algo que muitas vezes esquecemos: a importância dos vínculos, da escuta e da solidariedade.

Ao escrever sobre a tia Maria, tenho a sensação de ter dito muito menos do que ela merece. Nenhum texto é capaz de traduzir completamente a dimensão de sua vida, de seus ensinamentos e da importância que ela tem para nossa comunidade. Ficam de fora inúmeras histórias, memórias e gestos de cuidado que ajudaram a formar gerações inteiras. Talvez a melhor forma de concluir este breve retrato seja reconhecendo que existem conhecimentos que não cabem em diplomas, receitas ou estatísticas. Vivem nas pessoas, atravessam gerações e ajudam a sustentar comunidades inteiras.

Tio Antônio Braga, o mediador 

Tio Antônio, ou Companheiro, como muitos o chamam, é um dos guardiões dos saberes da terra no Quilombo dos Jorges. Entre os mais velhos da comunidade, carrega conhecimentos construídos ao longo de toda uma vida de convivência e cuidado com o território. Conhece o tempo do plantio, a época da colheita, os cuidados necessários para conservar as sementes e os ciclos que orientam a vida na roça. Seus conhecimentos nascem de uma relação profunda com a terra, cultivada ao longo de quase um século. Sim, tio Antônio tem 90 anos.

Em um mundo cada vez mais acelerado, onde a maioria não planta seu próprio alimento e sequer sabem a origem dele, ele segue sendo uma referência para quem compreende que a terra é viva, que ensina, fala e orienta aqueles e aquelas que aprenderam a fazer parte dela.

Sua relação com o território é tão profunda quanto sua alegria de viver. Por essas estradas, é comum encontrar o tio Antônio em seu jipe azul, que também faz parte da história da comunidade. O jipe não transportou apenas pessoas; transportou encontros, socorros, mantimentos e memórias. Muitos de nós guardamos lembranças das caronas oferecidas por ele. Houve um tempo em que ouvir o barulho daquele motor significava que a caminhada seria mais curta. Íamos apertados, entre sacos de mantimentos e pessoas, mas íamos juntos.

Hoje, quem procura tio Antônio dificilmente o encontrará descansando. É mais certo encontrá-lo no curral, tirando leite logo nas primeiras horas do dia, ou em sua roça de arroz vermelho, cultivada de forma primorosa por ele e pelas filhas. É nesses espaços que sua trajetória continua sendo escrita — não em palavras, mas no cuidado cotidiano com a terra e no exemplo compartilhado com as novas gerações.

Ah, não posso me esquecer de dizer que, em nossas serestas, serenatas e cantorias, sua sanfona costuma ser a primeira a anunciar que a festa vai começar. Sua sanfona raramente se atrasa, e sua alegria também não. 

Conversar com tio Antônio é sempre uma experiência reveladora. Afinal, quantas memórias cabem em quase um século de existência? Em cada conversa surgem histórias sobre a comunidade, sobre a terra, sobre pessoas que já partiram e sobre modos de vida que o tempo insiste em transformar. Tio Antônio não fala apenas do passado; suas lembranças ajudam a compreender o presente e a imaginar o futuro. Para quem sabe ouvir e observar, suas lições estão nos silêncios, nos gestos, nas mãos calejadas, na forma como cultiva a terra, guarda as sementes, toca sua sanfona e segue vivendo com a mesma disposição de quem ainda tem muito a ensinar. E é assim que o nosso Companheiro continua marcando presença no cotidiano do Quilombo dos Jorges e na memória de todos que têm o privilégio de conviver com ele.

Tia Dirce, a  Mestra de Tradição 

Falar de tia Dirce é uma tarefa ao mesmo tempo fácil e difícil. Fácil porque existem muitas histórias para contar. Difícil porque é quase impossível fazer caber em poucas linhas uma trajetória tão rica. A vida de tia Dirce daria facilmente um livro. Pensando melhor, uma coleção inteira deles. Não por acaso, ela é reconhecida publicamente e oficialmente como Mestra de Tradição do Quilombo dos Jorges.

Filha de Nonico Jorge, integrante de uma das famílias mais antigas do território, tia Dirce acompanhou de perto importantes transformações da comunidade. Esteve, juntamente com Papai Nonico e outras pessoas, presente na fundação da associação comunitária há mais de 40 anos, participou de sua organização e, ao longo dos anos, ocupou diferentes funções na diretoria. Sempre esteve entre aquelas pessoas que acreditam que o desenvolvimento da comunidade depende do esforço coletivo e da participação de todos.

Por isso, ajudou a construir muitas das conquistas que hoje fazem parte da nossa história. Entre elas, teve atuação fundamental no processo de reconhecimento do território como comunidade quilombola, contribuindo para que a memória, a identidade e a trajetória do nosso povo fossem oficialmente reconhecidas.

Mas reduzir a tia Dirce à condição de liderança seria injusto. Ela também foi professora, profissão que exerceu com o mesmo compromisso que dedica à comunidade. É mulher do campo, daquelas que conhecem o valor da terra e o tempo das plantas. Sua horta é dessas que enchem os olhos de quem visita. É mãe, avó, conselheira, quitandeira e referência para diferentes gerações da comunidade.

Quando queremos saber uma história antiga, lembrar uma cantiga ou entender melhor alguma tradição do quilombo, quase sempre recorremos a tia Dirce. Sua memória guarda acontecimentos, músicas, causos e ensinamentos que ajudam a manter viva a identidade do nosso povo. Ela não apenas preserva essas lembranças; compartilha cada uma delas com generosidade.

Foi também ao lado da comunidade que incentivou e participou do resgate da Catira de Ditiana, importante manifestação cultural do nosso Quilombo, que continua encantando quem tem a oportunidade de assistir. Seu compromisso com a cultura não está apenas nas palavras, mas na prática cotidiana de manter vivas as tradições herdadas de quem veio antes.

Depois que sua irmã, minha avó Nair, partiu, a saudade encontrou muitos lugares para morar. Um deles foi o carinho da tia Dirce. Sem substituir quem se foi — porque isso ninguém consegue fazer — ela ajudou a aquecer algumas ausências com sua presença, sua escuta atenta e seu jeito generoso de cuidar das pessoas.

As portas de sua casa estão sempre abertas para nos receber. E há gestos que parecem simples, mas carregam um afeto imenso. Até hoje, quando telefono para ela, sou recebida do mesmo jeito:

“Oi, Tuca. Deus te abençoe!”

Talvez ela não saiba o quanto essas palavras significam, mas eu sei.

Pensando bem, talvez seja impossível falar de tia Dirce sem falar de presença. Ela está nas reuniões, nas festas, nas feiras quilombolas, nas apresentações da Catira, nas conversas sobre a história da comunidade e, quase sempre, nos lugares onde há algo para organizar ou alguém para ajudar. É uma daquelas pessoas que parecem fazer parte de tudo ao mesmo tempo. E talvez seja justamente por isso que seja tão difícil escrever sobre ela. Porque algumas pessoas não cabem em um texto. Elas cabem em uma comunidade inteira.

Ser Mestra de Tradição não significa apenas guardar conhecimentos. Significa assumir a responsabilidade de compartilhá-los, fortalecendo os vínculos entre as gerações e ajudando a garantir que as histórias, os costumes e os modos de viver da comunidade continuem existindo. Tia Dirce faz isso com firmeza, generosidade e afeto.

Não dá para contar a história do Quilombo dos Jorges sem que seu nome apareça em algum momento. Sua trajetória se confunde com a trajetória da própria comunidade: nas lutas coletivas, na associação, na preservação da cultura, nas festas, nas reuniões, nas cantorias e nos encontros que fortaleceram os laços entre as famílias ao longo das décadas. Se hoje o Quilombo dos Jorges tem tantas histórias para contar, a tia Dirce certamente ajudou a escrever muitas delas.

POR ÚLTIMO, MAS NÃO MENOS IMPORTANTE 

Ao terminar este texto, volto ao ponto de onde parti: falar do Quilombo dos Jorges é, antes de tudo, falar de gente. Das pessoas que abriram caminhos antes de nós. Das que transformaram mata em território, terra em sustento e parentesco em comunidade. Das que enfrentaram a escravidão, a violência da colonização, o esquecimento e tantas outras formas de exclusão para que hoje pudéssemos existir enquanto povo quilombola.

As histórias de tia Maria, tio Antônio e tia Dirce ajudam a compreender um pouco do que somos, mas estão longe de representar toda a riqueza humana que existe neste território. Há muitas outras pessoas que mereceriam ocupar estas páginas. Pessoas que plantam, rezam, cozinham, cantam, cuidam, ensinam, acolhem e mantêm viva a história do Quilombo dos Jorges todos os dias.

Se este texto tem algum mérito, espero que seja o de registrar uma pequena parte dessa trajetória coletiva. Porque nossa história não está guardada apenas em documentos, certidões ou arquivos. Ela vive nas memórias compartilhadas, nas conversas ao redor da mesa, nas cantorias, nas festas, nas roças, nos quintais e nos saberes transmitidos entre gerações.

O Quilombo dos Jorges segue existindo porque seu povo segue existindo. Reinventando-se sem abandonar suas raízes, construindo o futuro sem esquecer quem veio antes e afirmando, todos os dias, que território não é apenas o lugar onde moramos. É o lugar onde somos. E eu só sou, porque nós somos, porque minha história começa muito antes de mim e continua para além de mim. 

Kiany de Cássia Silva

Kiany de Cássia Silva, nascida no Quilombo Jorges, Água Branca, carrega a força da ancestralidade. Professora e Artista, cozinha como quem reza, lembra e celebra.

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Respostas de 6

  1. Parabéns, Kiany! E obrigada por compartilhar conosco tanto conhecimento, fruto da história, da memória e dos ensinamentos que você recebeu e que agora transmite com tanta sensibilidade. Que o quilombo dos Borges seja cada dia mais reconhecido e valorizado!

  2. Somos começo, meio e começo … nossos saberes nunca acabam…

  3. Olá, Kiany! É salutar sua presteza em prestigiar e preservar a história. Trata- de um artigo carregado de saberes tanto acadêmico, quanto histórico. Numa sociedade que, de certa forma, está vazia de sentido humanístico, o texto é um convite a adentrar- se nos meandros da história.

  4. Texto simplesmente perfeito 🥰parabéns Kiki 🥰você é maravilhosa em tudo que faz. ❤️

  5. Nossa muito importante lembrar de nosso povo com tamanho carinho e admiração, parabéns

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