Bicampeonato espanhol, novo formato, recordes, polêmicas e Hexa adiado: a Copa de 2026 deu o que falar!
No último dia 19 chegou ao fim a maior Copa do Mundo de todos os tempos. Após 104 jogos, a Espanha se sagrou bicampeã com a vitória por 1×0 sobre a Argentina. Assim como no primeiro título, os espanhóis fizeram o gol da vitória na prorrogação, desta vez com Ferran Torres.
Apontada como uma das favoritas ao título antes do torneio, a equipe comandada por Luis de la Fuente foi encaixando seu futebol ao longo da competição, após um tropeço inicial contra a estreante Cabo Verde no primeiro jogo. Amparada por um sólido sistema defensivo, que sofreu apenas um gol nas oito partidas que disputou, a Fúria não esteve atrás do placar por nenhum momento e manteve números expressivos de posse de bola na maioria das partidas, incluindo a final. Não foi o futebol mais vistoso ou agradável de se ver, mas foi o mais eficiente.
Se os jogos da campeã não foram exatamente um brinde aos olhos do espectador, isso não significa que a competição tenha sido desinteressante. Muito pelo contrário, foi uma ótima Copa de modo geral. Para mim, num âmbito pessoal, foi uma oportunidade de me reconectar de forma mais intensa com o futebol após um bom período sem acompanhar tão de perto o esporte que amo desde criança.
A primeira fase principalmente trouxe ingredientes específicos que ajudaram a temperar muito bem o torneio. Adoramos criticar a FIFA (e certamente o farei bastante nas próximas linhas), mas é importante também reconhecermos quando ela acerta. E um desses casos foi na decisão de ampliar para 48 o número de seleções participantes da Copa. Eu fui um dos que se posicionaram contra no início, mas já vinha mudando de opinião desde o fim das Eliminatórias e o último mês só fez sacramentar ainda mais essa mudança. Ver países pequenos e sem tradição no esporte enchendo de orgulho seus cidadãos, encantando o mundo com suas histórias, sua dedicação e seu carisma foi um dos grandes prazeres da competição. Com destaque especial para o desempenho de Cabo Verde e da República Democrática do Congo, que jogaram de igual para igual com grandes equipes, incluindo a campeã. Diferentemente do que muitos esperavam, o aumento no número de seleções não necessariamente significou uma queda do nível técnico do torneio ou um aumento desproporcional no número de placares elásticos. Ponto para a FIFA, que muito provavelmente tinha interesses bem menos nobres quando adotou essa decisão, mas acabou escrevendo certo por linhas tortas.
Outro elemento de destaque da primeira fase foi o protagonismo dos grandes craques da competição. Ver nomes como Haaland, Mbappé, Kane e Vinícius Júnior correspondendo às expectativas e entregando tudo aquilo que se esperava deles certamente aumentou ainda mais a empolgação dos fãs para assistir às partidas do torneio. De forma mais especial, Messi e Mbappé protagonizaram uma épica disputa à parte pela artilharia histórica da Copa, pulverizando o recorde anterior de Miroslav Klose para a alegria de muitos brasileiros, entre os quais me incluo. Por falar em recordes, eles também foram constantemente quebrados ao longo da edição deste ano. Unai Simón se tornou o goleiro com mais tempo sem tomar gols (658 minutos), Ochoa, Messi e Cristiano Ronaldo se tornaram os únicos a jogar em 6 edições (o português foi o único a marcar pelo menos um gol em todas e o argentino se tornou o recordista em partidas disputadas, totalizando 29), Dick Advocaat se tornou o mais velho a treinar uma seleção no torneio (comandando Curaçau aos 78 anos), entre várias outras marcas significativas.
Por outro lado, a Copa do Mundo também teve muitos pontos negativos. E não estou falando agora sobre a perda do Hexa, deixo isso para mais tarde no texto. Como dito anteriormente, precisamos mais do que nunca acender um sinal de alerta para o que a FIFA está fazendo com o futebol. A já contestada relação entre seu presidente Gianni Infantino e o presidente estadunidense Donald Trump chegou a um ponto que nem os maiores críticos provavelmente imaginariam com o infame episódio do cartão vermelho de Balogun. As declarações do norte-americano indicaram uma provável intervenção política no torneio de um modo tão descarado que nem sei bem dizer quando (e se) tinha ocorrido pela última vez. Somado a isso, a “superbowlização” da Copa também foi bem controversa, com as extremamente criticadas pausas para hidratação e o bizarro intervalo musical de quase 30 minutos na final. Episódios que demonstraram uma disposição dessa gestão da FIFA para rasgar quaisquer tradições ou até mesmo regras futebolísticas em prol do seu lucro em cima do esporte. Um prognóstico bem preocupante para o que está por vir. Isso sem falar nos preços exorbitantes do torneio, que geraram espaços vazios em vários jogos e uma enxurrada de críticas nas redes sociais.
Eliminação precoce do Brasil


Foto: Werther Santana/Estadão
É impossível escrever sobre a Copa disputada no México, no Canadá e nos Estados Unidos sem falar sobre a frustração com o desempenho da Seleção Brasileira no torneio. A eliminação diante da Noruega nas oitavas de final não apenas adiou o sonho do Hexa por mais quatro anos, como escancarou uma realidade que já se mostrava visível, mas que muitos se recusavam a ver.
O primeiro ponto, esse mais óbvio, é a necessidade de um planejamento mais responsável e organizado por parte da CBF para realmente chegar a um torneio desse nível com condições de almejar o título. Desde 2014, nenhum treinador foi campeão da Copa entrando no meio do ciclo. Joachim Löw conquistou o título com a Alemanha em sua segunda tentativa, após oito anos no cargo. O mesmo ocorreu com Didier Deschamps na França, campeão após seis anos no comando da equipe. Já Lionel Scaloni e Luis de la Fuente foram nomeados para seus cargos na Argentina e na Espanha logo após as edições de 2018 e 2022, respectivamente. Com isso, tiveram a oportunidade de participar de todo o ciclo preparatório de suas seleções até a competição que venceram. Por isso, seria muito cruel exigir de Carlo Ancelotti tirar o Brasil da fila com pouco mais de um ano de trabalho apenas. O que não tira a responsabilidade do treinador pela derrota, já que ele fez escolhas bem controversas principalmente no jogo da eliminação. Mas temos pistas suficientes de que essa ânsia por uma culpabilização individual no futebol não leva a lugar nenhum.
Da mesma forma que não faz sentido apontar um vilão da pátria, um grande culpado pelo nosso fracasso, também temos que parar de acreditar em super-heróis nesse esporte. É perfeitamente natural querer que um time tenha um ou mais craques que façam a diferença, que batam no peito e cresçam na hora decisiva. Isso é bem diferente do que foi feito nessa Copa em relação a Neymar, como eu escrevi no texto da última edição. Criou-se um mito de que ele seria o nosso salvador e a pessoa mais indicada para assumir a responsabilidade de nos tirar do jejum de 24 anos sem títulos mundiais. Um mito porque essa crença não foi amparada em nenhum indício lógico, em nenhum fato ou evento real que tenha acontecido nos últimos anos. Na verdade, tudo apontava para o contrário. E adivinhem só? Foi exatamente o que ocorreu! Incapaz fisicamente de participar de quase toda a primeira fase, Neymar foi totalmente irrelevante para a campanha brasileira até as oitavas de final. Foi então que entrou em campo para demonstrar toda a sua completa falta de maturidade emocional na hora em que mais precisávamos dela. Pouco fez além de peitar jogadores noruegueses e preferiu se gabar com a mão na cara do goleiro adversário do que correr com a bola para o meio de campo após converter um pênalti que nada mais era que um gol de honra àquela altura. Uma cena totalmente patética, sintomática do desequilíbrio psicológico do jogador em cenários adversos.
Ou seja, não teremos um salvador da pátria vestido de terno no banco de reservas nem de amarelo correndo dentro das quatro linhas. O Hexa depende de muito mais do que isso. Precisamos primeiro resgatar a identidade dos nossos jogadores com o nosso povo e com o nosso futebol. Se tem uma coisa que Espanha e Argentina tiveram em comum nessa Copa foi isso: a lealdade à essência das suas tradições futebolísticas. É verdade que vimos na Copa a melhor versão de Vinícius Júnior com a Amarelinha. Mas será que para isso temos que sacrificar nossa tradição de laterais ofensivos, meias habilidosos, centroavantes eficientes e todas as outras características que imortalizaram o futebol brasileiro? O esporte mudou, mas será que ele precisa se resumir aos pontas, a um jogo reativo, à intensidade e à obediência tática cegas? Modernizar nosso futebol é tirar o espaço para o improviso e a criatividade? Fica difícil acreditar que vamos vencer os europeus no estilo de jogo que eles mesmos criaram e dominam com excelência. Mas enquanto toda a identidade futebolística e até mesmo cultural dos nossos talentos for construída fora do país a partir dos seus 18 ou 19 anos, será difícil imaginar como preservar o que o jogador brasileiro tem de diferente. Evidentemente não tenho a solução para resolver isso. Talvez precisemos acionar o IPHAN para tombar nosso futebol-arte. Ou talvez o melhor seja ter paciência e deixar que Carlo Ancelotti trabalhe por pelo menos mais quatro anos em busca dessa resposta.
Agora é hora de voltar nossa atenção ao MorumBIS, à Casa de Apostas Arena Fonte Nova, à Vila Viva Sorte e aos outros palcos do nosso querido Brasileirão Betano. O “campeonato mais disputado do mundo”, vencido pelas mesmas duas equipes em seis das últimas oito edições. Como é belo o futebol moderno!





