ATUALIDADE DE FAHRENHEIT 451 (*)

Publicado em: 31/08/2026 às 12:47

Atualizado em: 31/08/2026 às 14:27

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Livro Guy Montag, bombeiro e sua vizinha Clarisse no filme de François Truffaut

Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim, hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros. (Sigmund Freud) 

Fahrenheit 451 significa a temperatura (em Fahrenheit, equivalente a 232 graus Celsius) em que o livro se queima, e serviu de título ao romance de ficção científica escrito por Ray Bradbury e publicado em 1953, início da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Em 1966 foi adaptado para o cinema por François Truffaut. Ambos, livro e filme se tornaram clássicos. 

A história se passa em futuro não especificado, num país onde prevalecia desrespeito às leis;  jovens se divertiam  atropelando pessoas, policial usa seu cão mecânico para caçar animais pelo simples prazer de vê-los morrer, governo déspota espiona todas as pessoas, mantendo-as domesticadas pelo medo. 

Os livros eram perseguidos pelas autoridades devido ao perigo que representavam. Sabiam do potencial deles para desenvolver o pensamento crítico e contribuir com a liberdade de pensamento. Neste  ambiente tóxico e alienado em que os livros são proibidos, Guy Montag, o protagonista principal, trabalha como bombeiro, não para combater incêndios, mas ironicamente uma atividade contrária à do mundo real. A palavra significa “queimador de livros”, ou seja, são incumbidos de queimar  livros considerados ilegais, dentre eles os clássicos de todas as épocas. Ele era convicto  que fazia o que deveria ser feito, ao queimar os livros e as casas e prender os moradores que os abrigavam. Sua mulher – Mildred – gastava o tempo diante da TV assistindo os programas produzidos pelo Ministério da Cultura, tratando de assuntos fúteis e banais que evidentemente não contribuíam para qualquer atividade intelectual.  

Este era o andamento da sua vida, tal como as do avô e pai, que tinham a mesma profissão, até encontrar Clarisse, vizinha do casal, que tem o objetivo de ser professora e, nas conversas que se tornam frequentes, começa a refletir sobre questões como  o sentido da vida, os motivos das determinações das autoridades, o tratamento do povo como gado obediente e fanatizado. 

Montag começa a perceber que existem outras perspectivas para encarar a sua vida, seu trabalho, as pessoas que persegue. Estes pensamentos novos foram impactados quando, em uma tarefa, ficou diante de uma idosa que se recusou a abandonar os livros e permaneceu na casa, queimando-se junto deles. 

Sentindo a importância dos livros para o desenvolvimento da humanidade, Montag se rebela contra o Estado que embute a ideia nefasta na sociedade, junta-se a um grupo de professores subversivos para formar um tipo de resistência, como aquelas da Segunda Guerra contra os nazistas. De forma clandestina e secreta cada componente do grupo é incumbido de decorar um livro para que as obras não se percam mesmo se todos forem queimados. Inesquecível a cena da dupla responsável pelos “Irmãos Karamázov” volumes 1 e 2, respectivamente. 

No epílogo, Granger, uma das “pessoas-livro” faz um mea culpa, que serve para todos:

Algum dia, a carga que estamos carregando conosco poderá ajudar alguém. Mas, mesmo quando tínhamos os livros à mão, muito tempo atrás, não usavámos o que tiravámos deles. Continuavámos a insultar os mortos Continuavámos a cuspir nos túmulos de todos os infelizes que morreram antes de nós. Durante a próxima semana iremos encontrar muitas pessoas solitárias, tal como no próximo mês e nos próximos anos. E quando nos perguntarem o que estamos fazendo, poderemos dizer: estamos nos lembrando, é aí que, no longo prazo, acabaremos vencendo. E algum dia a lembrança será tão intensa que construiremos a maior escavadeira da história e cavaremos o maior túmulo de todos os tempos e nele jogaremos e enterraremos a guerra. Agora, em marcha Primeiro, construiremos uma fábrica de espelhos, e durante  o  próximo ano não produziremos nada além de espelhos, e daremos uma longa olhada neles.” 

Infelizmente a utopia de Ray Bradbury ainda não se realizou. A metáfora dos espelhos, em que  as pessoas  olhem para dentro de si, não está sendo praticada. E os livros  continuam a ser classificados como ameaça à sociedade. Na verdade,os livros ameaçam a manipulação exercida pelos governantes para manter os seus poderes em detrimento da população. Todos os dias deparamos com notícias de proibição de livros pelas escolas, que teoricamente seriam as maiores interessadas em divulgá-los. A inversão de valores, como a escola proibir livros quando deveriam disseminar idéias, repete a atividade do bombeiro que não apagava fogo, mas o ateava nas casas e nos livros que havia dentro delas. Recentemente uma universidade retirou da lista de leituras para o vestibular  o livro “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” clássico de Marçal de Aquino, em virtude de campanha que o classificava de pornografico. Possivelmente, as pessoas que fizeram a campanha nem leram o livro. 

DECORE ESTE POEMA. ELE É MEU
György Faludy

Aprenda de cor este meu poema,
Livros duram pouco tempo,
E este será emprestado, manchado…
Ou amarelecerá e queimará,
quando a temperatura chegar 
em 451, e por isso quão quente estará
quando sua cidade queimar. 
Aprenda de cor este meu poema.

Mesmo com o incrível progresso técnico ainda vivemos em época obscurantista.

 “Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.” (Albert Camus)

(*) A respeito de Fahrenheit 451 veja também o comentário no Pílulas de Vida na edição de março/2026.

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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