PAULO WAISBERG é graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (1999) e mestre em Arquitetura também pela UFMG (2010). Atualmente é associado a WN Arquitetura e Cenografia. Há mais de uma década é professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), tendo também trabalhado no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix.
Logo que se formou, foi morar nos Estados Unidos por seis anos. De volta ao Brasil, abriu em 2005, o escritório WN Arquitetura, onde desenvolve projetos arquitetônicos em várias áreas, destacando-se a cenografia. Tem como sócia Clarissa Neves, formada em arquitetura pela PUC Minas e especialista em Revitalização Urbana e Arquitetônica pela UFMG. Suas atividades profissionais são carinhosamente chamadas por ele de arquitetura efêmera.
E a partir daí a gente foi, é, um escritório de arquitetura de forma geral, mas a gente começou a fazer palcos de evento e começamos também a fazer as passarelas do estilista Ronaldo Fraga.
Ensino e Metodologia
Eu tipicamente sou professor. De paisagismo. Já dei aula de projeto em vários períodos, mas eu gosto mesmo é de dar aula no primeiro período. São disciplinas de desenho, de sensibilização e criatividade. Propicia vários tipos de experimento, atividades interdisciplinares, lúdicas. Por exemplo, uma disciplina em que fazíamos, junto com outros professores, barquinhos de papelão e cola pra dois marujos. Eles se fantasiavam, participavam de uma corrida que terminava com uma batalha naval. Era uma festa porque juntavam os alunos todos da escola pra torcer. E, no final, o ganhador da batalha, o último barco a afundar, ganhava um troféu feito também de papelão. Era muito divertido.
Eu acredito nessa potência da diversão, da brincadeira e, por outro lado, tratando os alunos como adultos inteligentes, né? Capazes de imaginar, fazer conexões. Acredito que a minha matéria é sempre a mais legal, no sentido de propiciar a todo mundo descobrir coisas e expressar sua criatividade.
Neste momento, o assunto é trabalhar com a IA (Inteligência Artificial) e maquetes processuais.
O Espaço
Existe uma inteligência no espaço. O espaço reverbera a palavra, reverbera a música e tem um mecanismo que invoca a matéria e, de repente, esse espaço adquire algum sentido. A gente trabalha nesse lugar, nessa matriz onde os lugares cantam, contam histórias e tal. A arquitetura nas cidades é meio cinza, mas no cenário, na cenografia a gente ainda tem esse espaço de criar lugares que contam histórias, que você ouve a história ali. É o lugar da pessoa. Ver a pessoa através do lugar que você está visitando. Isso é estranho e a gente tenta atingir isso o máximo com os recursos que temos. É estranho porque o lugar pode ter uma personalidade, ele pode ter um tom na escolha das cores. É o que eu tenho chamado de ciência arcana.
(A ciência arcana refere-se ao estudo metódico de forças ocultas, magia e mistérios da natureza. Na ficção e no esoterismo, ela difere da magia divina por não exigir fé, sendo tratada como uma disciplina rigorosa de aprendizado — semelhante a uma ciência natural que manipula energias elementais.)
É uma questão de artifício. Eu tenho usado a palavra encantamento. É uma sequência precisa de ações e de movimentos no espaço que faz alguma coisa aparecer.
Buscamos através dos nossos projetos uma oportunidade única para emocionar as pessoas através da imersão em lugares inusitados, arquitetônicos ou cenográficos, mas sempre buscando experimentar o uso de novas técnicas e de materiais.
Nosso trabalho tem como foco principal a produção de espaços efêmeros pela subversão no uso de materiais e pela apropriação de tecnologias ou objetos reciclados. Tentamos construir espaços que contam estórias, emocionam, provocam surpresa.
Buscamos transformar, mesmo que por um pequeno período de tempo, um espaço neutro em um lugar carregado de histórias, produzindo estímulos sensoriais, utilizando de objetos familiares fora do seu contexto. Nosso uso da tecnologia é oportunista: gostamos de misturar alta tecnologia com objetos descartados ou de uso comum, desde que isso amplifique a mensagem que queremos comunicar.
Arquitetura de Belo Horizonte e Criatividade Urbana
Sobre a arquitetura de Belo Horizonte, aponto três tópicos: 1 – Uma visão positiva de uma reconquista do hipercentro. 2 – A vista da cidade a partir da Rua Sapucaí. 3 – A Serra do Curral. Esses cenários pegam a gente desprevenidos. Belo Horizonte tem essa beleza que não é uma beleza tão evidente quanto a de outras cidades, mas que com o tempo a gente vai apreciando.
Eu sinto que, muitas vezes, a arquitetura de outras épocas era mais arrojada do que a que a gente vê hoje, ou, pelo menos, um pouco mais generosa, e, com certeza, mais imaginativa. Então, sinto falta desses exercícios de criatividade urbana. O que se vê hoje é de um pragmatismo que não torna essa cidade mais criativa.
Então, poderíamos no futuro, ter um teleférico, um parque suspenso, conexões entre prédios: gestos que, de alguma maneira, tornassem a cidade palatável para todo o tipo de pessoa.
Jornal – As reflexões de Paulo nos remetem ao poema de João Cabral de Melo Neto:
Fábula de um Arquiteto
O arquiteto pensou o poema
como uma casa a construir:
uma casa onde o espaço fora
pensado para existir;
não para ser decorado
por quem nele vai dormir.
Pensou-o como esses edifícios
onde a arquitetura é clara,
tão clara que a luz do sol
nunca entra neles de graça,
mas entra para esculpir
o espaço que a sombra vaza.
A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.)
Dois trabalhos: formas de atuar
1 – Desfiles de Ronaldo Fraga
A gente começou fazendo muita cenografia para o Ronaldo Fraga. Fizemos vários desfiles, exposições e alguns eventos em que ele era o diretor de arte. Cada situação é única, né? Ele foi talvez uma das nossas escolas principais. O Ronaldo Fraga frequentemente fazia um desfile de roupa com acervo já definido, mas o desfile era frequentemente ancorado numa história. A exposição era sobre as roupas, mas, principalmente sobre a história que era inspirada nos artefatos.
Nas passarelas, ele tinha uma visão clara do que queria, então ele falava:
“Ah, eu quero um rio, o São Francisco, que de alguma maneira comunique a salinização das águas. Eu quero uma casa demolida como a da Disneylândia, eu quero uma passarela que lembre os salões de baile do Rio de Janeiro, do começo do século”.
Então ele sempre dá uma direção muito definida.
Nas exposições, a gente tinha muito mais liberdade criativa. Conseguíamos organizar uma narrativa a partir dos objetos e da pesquisa dele, e sempre tinha roupas e desenhos.
Autonomia e Colaboração – Nos eventos em que ele era diretor de arte, aí a gente tinha bastante autonomia. No Minas Trend, que é um grande evento de moda, aqui em Minas Gerais, ele indicava temas (“Tudo ao mesmo tempo agora” ou “Dias de sol”), fazia uma breve descrição do que ele imaginava e a gente criava os espaços, organizava a narrativa, criav
a instalações. Então cada colaboração foi muito prolífica e se estendeu por mais de uma década. Ainda fazemos juntos o Tudo é Jazz, que tem a direção artística dele e a gente produz o palco e, quando é o caso, também a cenografia das exposições. Então é uma grande mente criadora que abriu muitas portas e deu muitas oportunidades pra gente experimentar, aprender com ele. Então, é uma colaboração ainda que é muito, muito rica.


2 – Exposição: Asa de Papel – Marcelo Xavier – CCBB
O CCBB todo ano seleciona obras para suas exposições. Dessa vez “Asa de Papel – Marcelo Xavier”, foi contemplada. E Cibele (produtora cultural) e Luísa Xavier nos convidaram para fazer o projeto num prazo de uma semana. E aí eu olhei: esse projeto merece a gente mergulhar nele. A gente pegou todos os livros, estudou e nessa hora a gente teceu o coração da exposição. E não tínhamos tempo de fazer o que arquitetos normalmente fazem: o Cade modelo 3D que tem uma parte muito técnica. Mas para a ambiência que teria ali, criamos uma espacialidade para corporificar ou iluminar alguma temática dos livros: um hall onde os personagens receberiam os visitantes. Os objetos seriam gigantes, de isopor. O curador Marconi Drummond optou pela silhueta retada. A gente entraria por um vestíbulo, que na exposição é o “Mundo das Letras”. Queríamos um elevador de 10.000 andares que é uma metáfora que ele usa num dos livros principais dele que é o TOT. E isso foi substituído. As letras estariam dentro de um gabinete de curiosidades, um armário que seria a síntese da ideia. Então, cada sala conta alguma história do livro e, na primeira, conta um pouco da história do autor com os objetos pessoais dele. Desde o início já estava muito claro que a exposição seria um livro expandido, que a história viria dos livros e da forma como ele se relaciona com o mundo.
A obra de Marcelo Xavier tem três características muito fortes:
1) a delicadeza da obra. Então é tanto física – são bonequinhos de massinha, muito, muito delicados, como também a poesia dele que fala pra criança.
2) O ativismo político dele. Nisso ele antecipa vários dos movimentos de época, discussões que acontecem hoje, ele nas décadas de 1980, 1990 já estava falando. De inclusão da diversidade dos corpos. E de forma geral de uma criança. Mas eu acho que ele fala pra criança dentro de todos nos.
3) Uma terceira coisa, isso não é tão falado, mas eu fui sentindo ao longo do tempo: a grande e vasta quantidade de amigos que ele tem. Então ele é uma pessoa, que de uma maneira muito carismática, foi criando relações de vínculo afetivo, numa escala que é muito raro de encontrar. Minas Gerais tem um pouco dessa gentileza, mas ele é exuberante nisso. Eu acho que essa multiplicidade torna esse homem uma figura única.
O Trabalho e o Lazer
O que eu faço no meu tempo de lazer depende da época. Passear pela natureza. Recentemente eu adorava ir às cachoeiras, então era uma coisa que eu fazia com muita frequência. Durante muito tempo meu hobby era construir robôs. Eu fiz um monte, fabriquei um monte de impressoras e máquinas. Antes eu adorava ler. Eu gosto de todas essas coisas juntas.
Eu, na verdade, eu acho que eu gosto de aprender. É uma das coisas mais prazerosas. Em cada período da vida eu mergulhei num assunto com intensidade, curiosidade, e aquilo ali ocupou meu universo mental, meu universo de aprendizagem, de paixão. E vou trocando de assunto. Eu acho que o prazer da vida é explorar afetivamente, então conhecer pessoas e forjar amizades, e intelectualmente continuar aprendendo e experimentando coisas.
E hoje eu passo meu tempo todo livre com a Cláudia Magalhães, a Cacau, que é meu novo amor. E a gente já tá namorando há um ano e tanto, e a gente faz tudo junto. É como eu tenho investido o meu tempo, aquele que não tá investido no trabalho.
Tudo que eu faço, faz um enorme sentido para mim e, quando começa a deixar de fazer sentido, eu vou dando um jeito para mudar. O trabalho é como se fosse uma brincadeira. Taí uma resposta bagunçada, mas é isso! Eu não vejo muita separação entre trabalho e vida.
Exposições:


Paulo Waisberg Exposição: O Inferno de Dante
O arquiteto e cenógrafo Paulo Waisberg participou da montagem e do projeto expográfico de diversas exposições de destaque em Minas Gerais e no Brasil. Sua atuação inclui a concepção e arquitetura de montagens importantes. Alguns exemplos:
– Mostras de Cinema de Tiradentes: montagem e cenografia do espaço Cine Tenda e outros ambientes do festival há mais de 15 anos.
– Mostras de Cinema de Ouro Preto e Belo Horizonte.
– Absurdus: Murilo Rubião 100 Anos (em 2017), exposição na Biblioteca Pública Estadual de Belo Horizonte, reunindo cartas, documentos, vídeos, animações e objetos que pertenceram ao escritor. Propunha a interpretação gráfica de sua ficção e tornar pública a sua obra como editor do Suplemento Literário.
Na Casa Fiat de Cultura, fez vários trabalhos, tais como:
– Beleza em Movimento: Ícones do Design Italiano (em 2019), grande exposição sobre as casas de design da Fiat. Reuniu Impressionante acervo, composto por mais de 100 peças, entre obras de arte, automóveis, objetos, miniaturas e instalações multimídia. A narrativa se desenvolve a partir de cinco importantes ícones do design de automóveis, responsáveis por pautar novas estéticas entre as décadas de 1910 e 1960: casas Bertone, Touring Superleggera, Pininfarina, GFG Style e Zagato.
– Aleijadinho, Arte Revelada: o Legado de um Restauro (em 2021 – 2022). Foi um presente da Casa Fiat de Cultura ao Brasil. O grande destaque desta iniciativa inédita está no cuidadoso restauro de três obras de Aleijadinho (1738-1814): as imagens de Sant’Ana Mestra, de São Joaquim e de São Manuel.
– O Inferno de Dante – Valentina Vannicola (em 2023). Exposição Inspirada nas paisagens desoladas da região natal da fotógrafa. A partir da relação entre esse material visual e a obra de Dante Alighieri, surgiu um elemento atípico para a instalação das 15 obras: o chão de terra. Paulo esclarece que a obra é das mais dramáticas e uma de suas preferidas:
“Consegui de alguma maneira, liberdade criativa para fazer uma exposição que tinha o chão coberto de terra ou de carvão e a figura do Dante flutuando no espaço. Gravuras de Gustave Doré, que foi um dos ilustradores a me inspirar antes mesmo de eu entrar na escola de arquitetura.”
– Celebrar as Ruas: 50 Anos de Fiat e Brasilidade na Casa Fiat de Cultura (em 2026). A mostra ocupa todos os espaços da instituição com mais de 250 peças, entre obras de arte, fotografias históricas, looks de moda, automóveis que marcaram gerações, além de vídeos, instalações imersivas e obras site-specific.
– Asa de Papel – Marcelo Xavier, (em 2026). Exposição dedicada ao artista mineiro, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Belo Horizonte.





