DJAVAN, A SELEÇÃO BRASILEIRA E O BRASIL QUE AINDA PODE EXISTIR

Publicado em: 31/07/2026 às 06:09

Compartilhe

Foto: André Massahud - show do Djavan

Dia 18 de julho fui ao show do Djavan, na Arena MRV, em Belo Horizonte. Um espetáculo fantástico. Um bom show é sempre uma boa oportunidade de reflexão. E aqui vamos nós divagar um pouco sobre tudo. Sobre o Brasil, a seleção brasileira, eleições e esse monte de coisa que, no fim das contas, se atravessa.

Fazia poucos dias que o Brasil tinha sido eliminado da Copa do Mundo pela Noruega. A ressaca ainda estava viva. Confesso que não fiquei especialmente surpreso e nem indignado. Perder faz parte do futebol. O que permaneceu comigo foi outra sensação, a de tristeza pelos nossos projetos de país. E principalmente, a sensação de que, de quatro em quatro anos, a gente redescobre um país que parece desaparecer assim que a Copa termina.

É curioso. Durante algumas semanas pintamos ruas, abraçamos desconhecidos, conversamos com quem nunca vimos na vida. A camisa amarela volta a ser roupa de domingo. O Brasil, por alguns instantes, voltou a existir como um projeto compartilhado. Depois passa. E não pode passar. Cada um retorna ao seu algoritmo, ao seu grupo, às suas pequenas certezas. No show do Djavan aconteceu exatamente o contrário. Milhares de pessoas cantando as músicas que conhecem de cor. Gente de todas as idades. Casais, famílias, adolescentes que sequer eram nascidos quando muitas daquelas poesias em forma de canção foram lançadas. Ninguém estava ali por obrigação. Ninguém estava ali porque aquele era o assunto da semana, ou porque bombou no Tik Tok. Estavam ali porque aquilo também é Brasil.

Enquanto olhava aquela multidão, fiquei pensando em como existem poucos lugares onde ainda conseguimos ser um país. A gente costuma dizer que o Brasil está dividido. Mas talvez a divisão seja apenas a superfície do problema. O mais grave é que estamos perdendo os espaços onde aprendemos a coexistir. Lugares onde pessoas completamente diferentes compartilham alguma coisa antes mesmo de compartilharem opiniões. E talvez não seja coincidência que muitos desses lugares pertençam justamente ao campo da cultura e da educação. A escola. A biblioteca. O museu. O centro cultural. A praça. O teatro. O campo de várzea. A roda de samba. O show. O estádio. São lugares onde a diferença não desaparece. Ela apenas deixa de impedir o encontro.

É curioso como esses espaços costumam ser tratados como acessórios. Como se a cultura fosse entretenimento e não fosse ordinária, como já disse Gil. Como se a educação servisse apenas para formar mão de obra. Como se patrimônio fosse uma coleção de prédios antigos. Nunca foram. Patrimônio é tudo aquilo que nos ajuda a responder quem somos. E talvez seja justamente por isso que um show do Djavan produza uma sensação tão difícil de explicar. Não é apenas um grande músico no palco. É um pedaço do Brasil funcionando. São as pessoas dividindo um repertório comum. Gente que provavelmente vota diferente, acredita em coisas diferentes, vivem realidades completamente distintas, mas conhecem a mesma letra e esperam pelo mesmo refrão.

Existe uma política muito bonita acontecendo ali. Não a política partidária. A política da convivência. A política de lembrar que existe alguma coisa anterior às nossas divergências. Talvez a cultura seja hoje um dos poucos lugares capazes de fazer isso. Ela nos devolve uma identidade compartilhada sem exigir unanimidade. Foi inevitável, então, voltar a pensar na Seleção.

Durante décadas, o Brasil encantou o mundo porque jogava como ninguém. Não era apenas vencer. Era vencer do nosso jeito. Criando. Inventando. Improvisando. Produzindo camisas 10. Jogadores que pensam o jogo antes de executá-lo. Em algum momento passamos a copiar o mundo. Produzimos atletas cada vez mais fortes, mais rápidos, mais disciplinados. E, curiosamente, menos brasileiros. Fico pensando se isso não aconteceu também com o país.

Vivemos um tempo obcecado por eficiência, produtividade, desempenho e reação. Parece que estamos sempre marcando alguém. Sempre respondendo alguém. Sempre disputando alguma coisa. Criamos e defendemos poucos espaços para imaginar. E nenhum país, aliás nada que é humano, sobrevive sem imaginação. Imaginar é o primeiro passo para construir.

Talvez seja justamente por isso que nossas eleições pareçam tão desgastantes antes mesmo de começarem. Passamos meses discutindo quem marca melhor o adversário, enquanto quase ninguém pergunta quem ainda sabe armar o jogo. Quem ainda consegue criar. Quem ainda consegue imaginar um Brasil possível.

No futebol, um time que abandona sua identidade dificilmente encanta. Pode até vencer uma partida ou outra, mas deixa de produzir aquilo que faz dele um time inesquecível. Com os países acontece a mesma coisa.

Nenhum projeto nacional nasce apenas da economia ou das instituições. Eles são fundamentais, mas não suficientes. Um país também é feito das histórias que conta sobre si mesmo, das músicas que canta, dos livros que lê, das cidades que preserva, dos artistas que reconhece, das crianças que educa. É por isso que cultura e educação nunca podem ser vistas como temas secundários. São elas que produzem pertencimento. São elas que permitem que pessoas diferentes continuem dividindo um mesmo projeto de país.

No fim do show, Djavan canta Samurai e aquilo me pareceu um pequeno milagre cotidiano. Porque eu precisava lembrar que ainda existem lugares onde o Brasil acontece, não de 4 em 4 anos. Não quando distribuem cestas básicas em busca de votos. Não quando a gente coloca as 5 estrelas no peito e vai pra mais uma Copa do Mundo. E talvez seja justamente daí que precise começar qualquer reconstrução. Não apenas pelas urnas, embora elas sejam indispensáveis. Mas pelas escolas, pelas bibliotecas, pelos museus, pelos centros culturais, pelos terreiros, pelas praças, pelos campos de várzea, pelos shows. Precisamos nos dedicar em estar e resguardar os lugares onde ainda aprendemos a conviver antes de aprender a discordar.

É assim que vamos entender quem somos. E reverberar o nacionalismo da Copa, deixar ele existir de verdade, com mais realidade e com mais brio. A gente sabe que existe um Brasil que nos orgulha acontecendo a todo instante, basta a gente compartilhá-lo e resguardá-lo.  No fim das contas, é sobre isso: escutar mais Djavan numa terça-feira qualquer, pintar mais ruas sem esperar a próxima Copa, formar mais camisas 10 do que pontas que apenas marcam o adversário. Olhar com mais cuidado para aquilo que continua sendo profundamente nosso.

Porque um país não passa a limpo apenas quando escolhe seus governantes. Um país começa a passar a limpo quando volta a gostar de si mesmo. E quando a gente se gosta, a gente sabe que se tivesse até mais alma pra dar daríamos. Isso pra nós é mais que viver, é ser brasileiro. 

André Duarte Massahud

André Duarte Massahud formado em Direito pela Faculdade Milton Campos, estuda Artes Visuais na UEMG. Consultor da Alfa Consultoria em Saúde e Sustentabilidade e cofundador da Trama Coletiva. Possui experiência em projetos de educação, cultura, desenvolvimento socioterritorial e socioambiental, especialmente ligados às periferias e populações vulneráveis. Entusiasta de trabalhos de impacto social,

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *