A Rua Universal

Publicado em: 30/03/2026 às 08:55

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É natural – e saudável – que cada um de nós considere a rua, a praça, o bairro em que vivemos e convivemos, sobretudo na infância e na adolescência, como o melhor canto do mundo. É a fase em que quase tudo é novidade e estamos sujeitos, constantemente, a diferentes experiências.

Os dias passavam devagar. Manhãs, tardes e noites bem delineadas permitiam a assimilação de informações e descobertas que, processadas com a carga emocional própria da idade, fixavam-se firmemente em nossa memória.

 A plasticidade do cérebro juvenil opera sem limites. O real se integra ao imaginário e conexões, tanto objetivas quanto subjetivas, são constituídas, moldando nossa personalidade e nosso psiquismo. O vínculo afetivo que se estabelece, em tais circunstâncias, com determinado lugar, permanece conosco e nos acompanha até o envelhecer.

“Se você amou muito um lugar, não faça a besteira de visitá-lo”.
(Rubem Alves)

A advertência de Rubem Alves sintetiza uma possível armadilha ao sugerir que o retorno ao local em que fomos felizes – com a ilusão de resgatar o encanto passado, cujo cenário atual, quase invariavelmente, distingue-se da imagem guardada – implica o risco de decepcionarmos.

De acordo com os preceitos budistas, nossas frustrações e sofrimentos decorrem da criação de expectativas e apegos. Se admitirmos que tudo muda (impermanência), inclusive nós, e interagimos com a realidade com consciência e serenidade, sem exigir correspondências às nossas aspirações, aproximamo-nos da paz interior. (Texto Budista)

O que torna esses recantos especiais não se restringe, naturalmente, as coordenadas geográficas ou configurações físico-espaciais, mas às pessoas com quem partilhamos afeto e empatia— elementos que nos confere proximidade, confiança e solidariedade — e, principalmente, à versão de nós mesmos que ali viveu.

Os relatos referentes a eles assumem um caráter autobiográfico: falam mais sobre quem os descreve. Não se limitam apenas a registros factuais; são construções culturais que os reinterpretam sob a perspectiva do presente. Relacionam-se a uma lembrança nostálgica, no bom sentido, que evoca conforto e segurança.

Prevalecem, pois, os significados que atribuímos ao nosso ‘pedaço de chão”, detentor de uma certa mística que somente cada um de nós entende. Isso os faz únicos e superiores a outros destinos, inclusive àqueles reconhecidamente mais dotados de beleza estética, ou mais aprazíveis.

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” (ou “fale de sua aldeia”). (Leon Tolstói)

A história pessoal, contada com autenticidade, desprovida do escudo protetor do eu idealizado, é transmitida em uma linguagem comum a todos nós. Pondera sobre temas e valores universais, compartilhados pela experiência humana coletiva e, por isso, encontra ressonância atemporal. Não porque todos viveram as mesmas experiências, mas por refletir como elas foram percebidas e sentidas, condição que transcende etnias, culturas e fronteiras.

Aluísio Rassilan Braga

Aluisio Rassilan Braga nasceu em Peçanha. Arquiteto formado pela UFMG, foi presidente do IEPHA/MG. Também trabalhou na UEMG, como assessor da Reitoria e chefe de Planejamento Físico e Obras. É autor da publicação Patrimônio e Comunidade e colaborador da cartilha ABC do Patrimônio. Atuou em diversos conselhos e programas voltados ao patrimônio, turismo e qualidade do habitat. Atua como profissional autônomo.

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Respostas de 6

  1. Que texto bonito.
    Lú, você conseguiu traduzir algo muito fundo: o lugar onde a gente viveu não é só lembrança, é parte de quem a gente se tornou. E isso fica, mesmo quando tudo em volta muda.
    Lendo você, me veio uma saudade mansa… e aquela invejinha boa dos povos que vivem nas cidades históricas de Minas, onde parece que o tempo ainda respeita a memória e deixa os sinais do passado conversarem com o presente.
    E aí pensei na nossa Peçanha, no que se transformou, no que se perdeu um pouco, mas também no que permanece dentro da gente, do jeito que só a gente entende.
    Parabéns, Lú. Seu texto toca fundo porque fala de um lugar que o tempo não leva: o que a gente viveu de verdade.

  2. Olá, Cláudio
    Tivemos a sorte de vivermos uma juventude muito saudável.
    Obrigado por sua gentileza .

  3. Estou aqui Lu, meu quintal encolheu, nao vejo crianças soltando Papagaio, o sino da igreja não bate mais e o relógio parou, mas quando abro as janelas e sinto que estou aqui me sinto em casa ainda.
    Adorei seu texto !
    Meu abraço carinhoso !

  4. Peçanha…”é um presépio que não se desfaz.”(Ângela L. de Souza) E suas ruas parecem sagradas para nós, pois foram nossa ” sala de estar”, de brincar , de transitar…Ver com os olhos da alma _e além_amplia nossa visão impregnada de sentimento.Li e amei!

  5. Agradeço a todos vocês, conterrâneos de corpo e alma, por ler e pelas palavras generosas.

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