2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (2001: A SPACE ODDISSEY)

Publicado em: 30/04/2026 às 10:16

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“A seca já durava dez milhões de anos, e o reinado dos terríveis lagartos há muito havia terminado. Ali no Equador, no continente que um dia seria conhecido como África, a luta pela existência chegara a um novo clímax de ferocidade, e ainda não se sabia quem seria o vencedor….

Depois do confronto com outros macacos, Aquele- que-Vigiava-a-Lua ficou face a face com a Nova Rocha quando levou a tribo até o rio na primeira luz da manhã. Era uma placa retangular, três vezes a sua altura, mas estreita o bastante para abarcar com seus braços, e era feita de um material completamente transparente.”

Assim começa a saga de Arthur C. Clarke, primeiramente adaptada de alguns contos para roteiro do filme, junto com Stanley Kubrick e, depois, reescrita como livro que também se tornou clássico.

No filme, o parágrafo acima serve de base para a antológica sequência da briga dos macacos e aparecimento do monolito, que continua com a transformação do osso em caneta na nave espacial ao som de Also Sprach Zarathustra (Assim Falou Zaratustra) poema sinfônico de Richard Strauss inspirado no livro homônimo de Friedrich Nietzsche e, logo em seguida, no incrível balet da nave espacial ao som de Danúbio Azul.

O romance tem início na época pré-histórica, onde a fome se alastrava e as lutas ameaçavam a permanência da raça dos hominídeos, precursora dos homens. Neste ambiente hostil aparece um monolito, impossível de ser reconhecido pelos por eles, mas talvez fosse uma representação do impulso dos homens na busca do progresso da civilização e de conhecimentos que induzissem a evolução da espécie.

No ano de 2001 um monolito idêntico foi descoberto na Lua e os cientistas, tal como os hominídeos, não conseguiram identificá-lo. Para desvendar a incógnita, a Terra enviou a nave Discovery com um time de especialistas e o HAL 9000, um supercomputador com Inteligência Artificial, cujo nome representava três letras anteriores à sequência IBM, então a maior empresa de computação do planeta. Além de funcionar como fonte de dados e pesquisas para a equipe, o computador exercia as funções de segurança e manutenção da nave.

Entretanto, no decorrer da viagem apareceram falhas que não deveriam acontecer sob a supervisão deste computador e os tripulantes começaram suspeitar que existia algo errado com a missão. No filme, há outra sequência antológica, quando dois tripulantes conversam dentro da cápsula usada na manutenção externa, para HAL não ouvir o que estavam falando. Porem, ele fez leitura labial e percebeu que iriam desligá-lo. A tripulação acabou  eliminada e, o único sobrevivente, Dave Brown chega ao destino e é desenvolvido por uma inteligência superior, transformando-se finalmente em um bebê, que representa uma nova fase da evolução do homem.

O livro comporta vários níveis de interpretação. Uma delas, a viagem dos astronautas em direção ao universo infinito remete a Kierkgaard, um dos luminares do Existencialismo, cuja sugestão em seu livro Temor e Tremor, diante da impossibilidade de alcançarmos os limites do universo, seria tentar a viagem em direção ao nosso universo  interior.

Carl A. Jung transita por esta ideia ao cunhar o termo Si-mesmo (Selfie) para denominar o centro organizador da psique, a união do consciente e do inconsciente, abrangendo a totalidade da mente, objetivo final da viagem interior, denominada por ele de processo de individuação. Se chegar ao destino, após o longo trabalho de desenvolvimento, o viajante finalmente se transformaria em quem realmente é, um indivíduo único e integrado.

Paralela à viagem pelo espaço sideral há uma viagem rumo à solidão e à simplicidade. Vamos diminuindo de tamanho, como se a nossa matéria psíquica fosse  se concentrar na essência. É como se espiritualmente voltássemos ao tamanho do nascituro. E em ambos os casos, embora o tamanho seja menor, as dimensões da essência são enormes.  A dimensão do bebê, suficiente para inaugurar novo ciclo. A do velho enrugado, que já percorreu a sua trajetória, a dimensão que resulta das experiências depositadas a vida inteira. “Dentro da semente há um laranjal”. A semente que encontramos no final do percurso, para que tudo comece novamente.

Esta seria uma das várias conclusões inspiradas pelo romance, autêntica Obra Aberta, na definição de Umberto Eco, pois continua sendo construído por cada um que tenha contato com ele. 

Vale o esforço de ser parceiro de Arthur Clarke, inclusive partilhar a série de acontecimentos que foram previstos no livro e aparecem a todo momento, anos depois de escrito.  

Abaixo os links da trilha sonora do filme:

https://youtu.be/dO53rbv3Xww?si=fq2xzaoy4GlkkrRr – Abertura – Also Sprach Zarathustra 

https://youtu.be/SpvOUnz4T7Q?si=U1D6Q3Ci26rTj30p – Danúbio Azul – no balet da nave

https://youtu.be/2J945IslQHg?si=R5CxYlocbOkzEVqb – Atmospheres – a nave saindo para o mega espaço

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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Uma resposta

  1. Neste filme fantástico , deixou claro a meu ver , que o homem vai conseguir conquistar o espaço , ter tecnologia para controlar o homem mas nunca irá dominar Deus !

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