OS TEMPOS E AS GERAÇÕES (PARTE 1)

Publicado em: 29/05/2026 às 05:55

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“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”

(Carl Sagan)

Os chamados Baby Boomers, nascidos de 1946 a 1964 e que cresceram no ambiente de cidades menores ou de bairros periféricos, vivenciaram uma densa e orgânica interação multigeracional. O cotidiano se desenrolava livremente nas casas, ruas, praças e quintais. Envolvia pais, irmãos, avós, tios e primos em uma grande rede que se estendia de forma natural a vizinhos e amigos. Nessa era pré-digital, a presença física e a palavra falada imperavam como fontes primárias de sabedoria de vida. Para essa geração, a bagagem de socialização comunitária acumulada tornou-se um valioso ativo existencial.

Hoje, outros tempos, esses mesmos indivíduos – em sua maioria aposentados ou em vias de se aposentar – enfrentam uma realidade contrastante. A antiga e multifacetada teia social cedeu espaço a arranjos familiares nucleares, muitas vezes fragmentados e dispersos geograficamente. Nesse cenário, a busca por novas conexões representa um desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de reinvenção pessoal.

 “Para nós, físicos convictos, a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão, embora persistente.”

(Einstein)

Para entender cada geração e seu momento histórico, é preciso considerar o tempo e suas múltiplas perspectivas: a cronológica (objetiva e linear, medida pelo relógio e pelo calendário); a da natureza (regida por ciclos biológicos e climáticos); a histórica (mutável e marcada por dinâmicas de ordem sociopolítica, econômica e tecnológica); e a psicológica (inerente às subjetividades). Citam-se, ainda, as dimensões geológicas (de grande escala) e a relativística (conforme teorizou Einstein).

Sem outras pretensões, estas reflexões trazem, apenas, o olhar curioso às pessoas com quem convivíamos e seus respectivos contextos. Em um primeiro momento, a abordagem foca-se no século XX até a geração dos Baby Boomers, quando então o tempo fluía de forma mais linear,marcado por grandes eventos históricos. Desde então, novos fatores transformaram nossa percepção temporal, tornando-a mais subjetiva. Mas esse é um tema para outra oportunidade.

Decifrar a dinâmica social e cultural de um determinado período — o seu Zeitgeist, o “espírito do tempo” — requer imparcialidade intelectual e o desapego de julgamentos por parâmetros contemporâneos. Essa postura nos permite aprender com os erros e acertos do passado, sem que isso signifique concordar com eles.

Embora diferenças geracionais sejam inevitáveis e devam ser consideradas, existem pontos de convergência fundamentais. Em conjunturas de crises profundas – sejam elas de qualquer natureza –, as reações emocionais transcendem barreiras e se aproximam, evidenciando nossa essência humana.

Não obstante se tenha estabelecido uma data inicial limite para estas considerações, o infográfico subsequente ilustra a sucessão de gerações do começo do século passado até os dias atuais, um panorama mais abrangente para melhor nos situarmos.

Imagem instruída pelo autor e gerada por IA

Geração Grandiosa, nascidos de 1901 a 1927

No início do século XX, sob o domínio da Primeira República – ou República Velha –, o Brasil amargava uma economia frágil e dependente da agroexportação centrada no café (o “ouro verde”), com contribuições menores da borracha e do açúcar. A estrutura demográfica, até então essencialmente rural, começava a se transformar com o desembarque massivo de imigrantes europeus e asiáticos. Atraídos inicialmente para suprir a escassez de mão de obra após a abolição da escravidão, esses grupos impulsionaram o crescimento dos centros urbanos, marcando uma transição gradual do modelo anterior para uma sociedade mais urbana e catalisadora de uma incipiente industrialização. Como consequência, o surgimento de novas classes sociais – como o operariado e a média urbana – acirrou as tensões políticas. Juntos passaram a confrontar a hegemonia das oligarquias tradicionais.

Naquele período, a integração nacional enfrentava grandes desafios devido à precária comunicação entre as regiões. Um marco de ruptura dessa barreira ocorreu em 7 de setembro de 1922, quando a primeira transmissão oficial de rádio no Brasil foi realizada durante as comemorações do Centenário da Independência.

Esse panorama (Zeitgeist) moldou a Geração Grandiosa, definida pela resiliência, senso de dever, trabalho árduo, coesão familiar e pelo apego a valores tradicionais. Seus membros testemunharam e sofreram os impactos globais das Guerras Mundiais, Primeira e Segunda – nesta, muitos já adultos, até mesmo participaram –, da Gripe Espanhola (com mais vítimas do que a COVID) e das privações decorrentes da Grande Depressão de 1929. Pelo lado positivo, vivenciaram a efervescência cultural da Semana de Arte Moderna de 1922. É a geração mais antiga ainda com sobreviventes. De acordo com o censo de 2022, viviam no Brasil 37.814 pessoas acima de 100 anos.

Geração Silenciosa, nascidos de 1928 a 1945

O período de 1928 a 1945, que compreende a Era Vargas e o Estado Novo, testemunhou uma das maiores transformações políticas, econômicas e sociais do país. A queda nos preços do café – reflexo da Grande Depressão de 1929 – desestruturou a economia nacional. O cenário de escassez e austeridade imposto por essa crise desencadeou a transição da velha república oligárquica para um modelo centralizado e autoritário, mas também caracterizado por uma industrialização moderna, voltada para a substituição de importações. A promulgação da CLT ocorreu em 1943, institucionalizando os direitos, a proteção e a valorização do trabalhador.

A Geração Silenciosa foi, em grande parte, educada sob a máxima de que “filhos devem ser vistos e não ouvidos”, o que justificou o seu rótulo. Devido ao modo de criação rígido e à infância vivida em tempos de crise, seus integrantes desenvolveram um perfil mais reservado, focado no trabalho árduo, na busca por estabilidade, na segurança financeira e no apego a pilares tradicionalistas, como família, comunidade e hierarquia. Discretos e avessos a confrontos, eles preferiam trabalhar dentro do sistema, focados na conformidade e na disciplina.

Também conhecida como Tradicionalistas, ou dos Construtores, essa geração ajudou a estabelecer bases econômicas estáveis para as décadas posteriores. Outro nome que a identifica é Radio Babies, relacionando-a ao fato de seus integrantes terem crescido ouvindo rádio, que alcançara, então, grande popularidade, consolidando-se como o grande fenômeno de integração, entretenimento e informação da época.

Baby Boomers, nascidos de 1946 a 1964

No Brasil, o período de 1946 a 1964 – a chamada Quarta República ou República Populista – moldou uma era de contrastes profundos. Enquanto o país experimentava a redemocratização pós-Era Vargas e um acelerado desenvolvimento industrial impulsionado pelo Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, as fortes tensões camponesas e urbanas culminaram no golpe civil-militar de 1964.

Paralelamente, no plano global, o Ocidente testemunhava o fenômeno dos Baby Boomers: uma explosão demográfica sem precedentes gerada pelo desejo coletivo de constituir famílias, planos que haviam sido adiados pelos traumas da Grande Depressão e pelos horrores da Segunda Guerra Mundial. Reforçava esse cenário a sensação de otimismo vibrante em relação a uma nova era de paz e prosperidade, consolidada ao final dos anos 1940 e por toda a década de 1950.

No ambiente nacional, essa conjuntura foi refletida em uma rica produção cultural. Por exemplo, foi nessa efervescência que nasceram a Bossa Nova e o Cinema Novo. E, para coroar o momento de euforia, o inédito título da seleção brasileira de futebol, em 1958, projetou a nação internacionalmente e elevou a nossa combalida autoestima.

Essa aparente calmaria doméstica, no entanto, contrastava com a geopolítica mundial. Os Boomers foram os primeiros a crescer frente à magnética influência da televisão, que se tornara o principal veículo de recreação, comunicação e publicidade de massa. Da infância à vida adulta, essa geração acompanhou as tensões e perturbações provocadas pela Guerra Fria – entre EUA e União Soviética –, sob a iminência constante de um conflito nuclear, o que influenciou fortemente a sua visão política. Vale lembrar que a exposição diária, pelos noticiários, dos horrores da Guerra do Vietnã foi fundamental para que a sociedade estadunidense pressionasse o governo de forma incisiva por um fim do conflito, provando o poder da mídia em catalisar a opinião pública. 

Como resposta ao conservadorismo vigente, o movimento intelectual e contracultural Beatnik convulsionou os Estados Unidos na transição dos anos 1950 para o início dos 1960. Rejeitando veementemente o consumismo e o conformismo daquela sociedade, a literatura beat valorizou a liberdade individual, as viagens sem rumo e o jazz. Somando -se à fervura desse caldo cultural, o rock mostrou-se mais que um gênero musical; foi e é um poderoso movimento de transformação social. O estilo rompeu barreiras raciais e de classe, servindo historicamente como a principal voz das juventudes para questionar padrões, protestar contra guerras e desafiar governos conservadores. Estava, assim, aberto o caminho para a avalanche Hippie, de alcance e repercussão internacionais. Ainda que carregados de certa ingenuidade e algum onirismo em seu conteúdo, seus ideais verdadeiros e humanitários ainda estão presentes e dão certa esperança em um futuro mais justo. John Lennon, de certa feita, proclamou que “o sonho acabou”. Gilberto Gil e Caetano Veloso complementaram, não discordando, conforme trecho da música “O Sonho Acabou”:

“O sonho acabou. Foi pesado o sono para quem não sonhou. O sonho acabou, quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou.”

Na esteira dessa revolução comportamental – talvez a mais importante de todas —, o mundo foi tomado por grandes mobilizações. Surgiram as marchas históricas pelos direitos civis dos negros lideradas por Martin Luther King Jr., os movimentos em defesa dos direitos das mulheres, os protestos estudantis contra o conservadorismo e autoritarismo, além das primeiras manifestações expressivas de conscientização ecológica. Data também do início dos anos 1960 o desenvolvimento e a popularização da pílula anticoncepcional, que proporcionou à mulher um papel transformador na sociedade. Ao adquirir mais poder de decisão sobre o planejamento familiar, ela expandiu suas oportunidades acadêmicas e profissionais. A sua crescente inserção no mercado de trabalho resultou, consequentemente, no fortalecimento em sua independência financeira, política e social.

Enquanto isso, o Brasil mergulhava na ditadura militar instalada em 1964. A União Nacional dos Estudantes (UNE) assumiu o protagonismo na resistência ao autoritarismo, enfrentando forte e desproporcional repressão e perseguição política. Naquela atmosfera asfixiante, emerge o Tropicalismo: uma vanguarda estética de inspiração antropofágica, que misturou guitarras elétricas, estilos musicais, tradições populares e críticas ácidas, propondo uma ruptura na música, no teatro e nas artes visuais, revelando-se uma sofisticada e potente instância de denúncia social. A passeata dos 100 mil, em junho de 1968, no Rio de Janeiro, foi o ápice dos protestos estudantis. Mobilizou artistas, intelectuais e o povo. Em dezembro daquele ano, o governo militar decretou o Ato Institucional Nº 5, que fechou o Congresso, instituiu a censura prévia e acabou com as liberdades civis. A juventude brasileira, assim, precisou amadurecer sob as agruras do período mais repressivo e violento da ditadura, conhecido como Anos de Chumbo.

Paradoxalmente, o período também foi marcado por avanços científicos e médicos cruciais, como a erradicação da varíola e a consolidação das primeiras campanhas de vacinação em massa em todo o território nacional.

Inspirado por esse contexto, o Zeitgeist desse grupo demográfico estruturou-se na busca por estabilidade financeira, patrimônio sólido, comprometimento e longevidade na mesma empresa, em evidente contraste com a volatilidade contemporânea. Embora tenham nascido antes da revolução digital, demonstraram capacidade adaptativa e souberam incorporar computadores e smartphones à sua rotina de forma estritamente utilitária, preservando a densidade e o valor das interações e experiências presenciais que os forjaram.

Dados de 2026 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua indicam que a população com 60 anos ou mais corresponde a cerca de 16,6% do total de brasileiros, ultrapassando 35 milhões de pessoas. Esse contingente compõe a chamada Economia Prateada, detentora de um expressivo poder de investimento e compra. Lidera o mercado de produtos premium, turismo de experiência e bem-estar preventivo. Movimentando mais de R$ 1,5 trilhão ao ano, o segmento responde por um quarto do consumo privado interno. Para além do impacto financeiro, pesquisas promovidas pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) revelam o seu indispensável papel social: metade desse segmento apoia monetariamente, e de forma regular, seus filhos, seus netos e seus próprios pais.

Por ora, ficamos por aqui não sem antes deixar de registrar um pedido de desculpas deste autor por ter-me estendido nas considerações sobre os que nasceram de 1946 a 1964. Talvez, por se tratar de meus contemporâneos, senti-me impelido e de certa forma obrigado, quase como um auto testemunho, a expor um pouco mais sobre esse momento da nossa história, mesmo até por tê-lo vivenciado. Gostaria de deixar claro, sendo absolutamente sincero, que essa licença que me permiti não significa o menor desmerecimento a nenhuma das demais gerações, todas elas igualmente respeitáveis e importantes no cumprimento de seus papeis, mediante as circunstâncias vigentes.

Estendo minhas desculpas a quem se dedica ao estudo metodológico da História e da Sociologia por eventuais equívocos ou por alguma consideração sem os fundamentos devidos. Repito, trata-se apenas de um olhar despretensioso para as gerações com as quais convivemos. Para homenagear a todas elas, segue uma obra de um digno representante de um passado de muitos e pesados sacrifícios, cuja mensagem ainda cala profundamente nos corações e nas mentes de todos nós.

Aos que virão depois de nós.

“Eu vivo num tempo sem sol.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri não recebeu a terrível notícia.


Que tempos são esses, quando falar sobre árvores é quase um crime,
pois significa silenciar sobre tanta injustiça!
Aquele que atravessa tranquilamente a rua já está inacessível aos amigos que se encontram necessitados?
É verdade, eu ainda ganho o suficiente para viver.
Mas acreditem, é por acaso.
Nada do que faço me dá o direito de comer quando tenho fome.
Por acaso, estou sendo poupado.
Me dizem sempre: come e bebe! Fica feliz por ainda ter o que comer e beber.


Mas, como posso comer e beber, se a comida que eu como eu a tiro de quem
tem fome, se o copo d’água que bebo faz falta a quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Eu queria ser um sábio.


Nos livros antigos está escrito o que é sabedoria: se manter afastado dos problemas do mundo e, sem medo, passar tempo que se tem para viver na terra;
seguir o seu caminho sem violência, pagar o mal com o bem, não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso.
Mas não consigo agir assim. É verdade, eu vivo num tempo sem sol!


Eu vim para a cidade no tempo da desordem, quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas e para dormir me deitei entre os assassinos.
Fiz amor sem muita atenção e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra.
No meu tempo as ruas conduziam ao lamaçal e as palavras denunciavam ao carrasco.
Eu podia muito pouco.
Mas o poder dos patrões era mais seguro sem mim, acho.
Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra.


As forças eram limitadas e o objetivo permanecia distante.
Claramente visível, ainda que para mim, quase fora do alcance.
Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra.
Vocês que vão emergir das ondas em que nós perecemos,
pensem, quando falarem das nossas fraquezas, nos tempos sem sol
de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós íamos através das lutas de classe, mudando mais seguido de País que de sapatos,
desesperados, quando só havia injustiça e não havia revolta.


Nós sabemos que o ódio contra a baixeza também endurece os rostos;
a cólera contra a injustiça faz a voz ficar rouca.
Infelizmente nós, que queríamos preparar o terreno para a amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós com um pouco de compreensão.”


(Bertolt Brecht *10/fev/1898 – +14/ago/1956)
Dramaturgo e poeta alemão
Publicado em 1939

Aluísio Rassilan Braga

Aluisio Rassilan Braga nasceu em Peçanha. Arquiteto formado pela UFMG, foi presidente do IEPHA/MG. Também trabalhou na UEMG, como assessor da Reitoria e chefe de Planejamento Físico e Obras. É autor da publicação Patrimônio e Comunidade e colaborador da cartilha ABC do Patrimônio. Atuou em diversos conselhos e programas voltados ao patrimônio, turismo e qualidade do habitat. Atua como profissional autônomo.

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