Nos séculos XVIII, XIX e início do XX, a educação musical refletia os papéis que a sociedade atribuía a homens e mulheres. O piano era incentivado para meninas por ser tocado dentro de casa, enquanto aos homens eram reservados espaços públicos com maior visibilidade.
Mas algumas mulheres decidiram mudar a partitura.
Com um piano imaginário nas costas, símbolo dos pesos e expectativas que elas devem carregar, três mulheres construíram trajetórias de destaque e transformação. Ao Echo da Matta, elas contam a composição de suas vidas numa inspiradora melodia nota dez.
MARIA LUÍZA DE MARILAC ALVARENGA

Atuou como Juíza de Direito em várias comarcas, incluindo Belo Horizonte. Exerceu importante atividade didática na Escola Judicial Des. Edésio Fernandes; Orientadora de Direito Penal e Processual Penal no Curso de Formação de Juízes Substitutos – EJEF; Orientadora em Juizado Especial de Conciliação; Superintendente-adjunta da Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes –EJEF. Foi Serventuária do Tribunal de Justiça de Minas Gerais durante 14 anos, tendo iniciado como escrevente e saído como Diretora de Secretaria.
Jornal – A senhora saiu do interior e construiu uma trajetória que a levou ao cargo de desembargadora. Quais valores adquiridos na sua origem permaneceram como bússola ao longo de toda a carreira?
– Vim de família bem humilde, meus pais só cursaram o primeiro grau, mas conseguiram passar muitos valores para seus 10 filhos. Vários deles permaneceram como bússola ao longo de toda a minha trajetória pessoal e profissional, tais como “humildade e caldo de galinha não faz mal a ninguém”; “ninguém precisa dizer a que título veio”. A minha vida inteira, sempre pedi a Deus para me ajudar a enxergar o outro com compaixão e agir com humildade, a conviver bem, acolher sem distinção, trabalhar com brilho nos olhos, amor no coração. Como magistrada, jamais me esqueci da pessoa humana, do indivíduo por trás da massa anônima — sobretudo daquele a quem, tantas vezes, é negado o acesso aos bens mais elementares da vida. Então, acredito que o que me conduziu até aqui foi, no fundo, uma só coisa: amor ao que faço — amor que se traduz em entrega diária e se sustenta na fé.
Jornal – Quando a senhora ingressou na magistratura, a presença feminina em cargos de poder era muito menor do que hoje. Em algum momento sentiu que precisava demonstrar mais competência para conquistar o mesmo reconhecimento?
– Sempre procurei desenvolver meu trabalho com dedicação, amor, com competência técnica e humana, e, sinceramente, não me passava pela cabeça querer demonstrar mais competência para conquistar o mesmo reconhecimento que meus colegas homens. Na verdade, meus colegas, homens e mulheres, sempre me acolheram com muito carinho, respeito e fraternidade. Não obstante, ouço de muitas mulheres que, embora muitos avanços tenham sido conquistados, a realidade ainda mostra que, com frequência, elas precisam demonstrar mais competência, dedicação e resultados do que os homens para alcançar o mesmo nível de reconhecimento e credibilidade. Essa exigência invisível impõe desafios adicionais, mas também evidencia a resiliência, a capacidade e a determinação de tantas mulheres que transformam obstáculos em oportunidades.
O verdadeiro avanço, no entanto, só acontecerá quando o reconhecimento estiver fundado no mérito, no talento e no compromisso e não em expectativas ou estereótipos de gênero. Uma sociedade mais justa é aquela em que mulheres e homens têm as mesmas oportunidades de demonstrar seu potencial e receber igual valorização por suas contribuições.
Jornal – Ao longo de décadas julgando conflitos e acompanhando transformações da sociedade, qual foi a principal mudança que observou na posição das mulheres dentro e fora do Judiciário?
A principal mudança foi a passagem da invisibilidade para o protagonismo, impulsionada por uma evolução na formação e na consciência de gênero. As mulheres deixaram de aceitar a violência e a desigualdade como “fatos da vida privada” e passaram a reivindicar os próprios direitos. Hoje, elas conhecem as leis, ocupam o espaço público e acionam a Justiça buscando o direito à igualdade material. Deixamos de ser apenas o objeto dos julgamentos para nos tornarmos as juízas da causa. A entrada de mulheres na magistratura trouxe uma nova sensibilidade aos tribunais. Mais do que isso, a instituição se modernizou: hoje existe uma formação obrigatória para que magistrados julguem com perspectiva de gênero, minimizando preconceitos históricos e aplicando a lei de forma a equilibrar as assimetrias reais da sociedade.
Em suma, a grande transformação foi a conquista da voz: as mulheres aprenderam a exigir seus direitos nas ruas, e o Judiciário se capacitou para acolher e julgar essas demandas com real equidade.
Jornal – A aposentadoria costuma ser vista como o encerramento de uma etapa. Para a senhora, ela representa um ponto final ou o início de uma nova forma de servir à sociedade?
A aposentadoria pode marcar o encerramento de um ciclo profissional, mas está longe de representar o fim de uma missão. Ela abre espaço para uma nova forma de servir à sociedade, agora com a liberdade de compartilhar experiências, inspirar novas gerações, atuar em causas sociais e dedicar tempo àquilo que realmente transforma vidas. É a oportunidade de continuar fazendo a diferença, não mais pela obrigação do cargo, mas pela força do compromisso, do aprendizado adquirido e do desejo de contribuir para um mundo mais justo e solidário.
De forma alguma, aposentadoria representa um ponto final na minha vida e sim hora de empreender o voo rumo a novos horizontes. Afinal, o que faz andar a estrada é o sonho. Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva.
Procurei conduzir minha vida acreditando que vim ao mundo para servir. E uma das formas mais gratificantes de concretizar esse propósito é que mesmo aposentada continuo integrando o Núcleo do Voluntariado do Tribunal de Justiça de Minas Gerais e o Comitê Pop Rua Jud Minas Gerais onde realizamos inúmeras ações voltadas a pessoas em situação de rua e em vulnerabilidade social, experiências que me transformaram e continuam me transformando profundamente e ampliaram meu olhar sobre o verdadeiro sentido do serviço público — aquele que vai além dos autos e alcança o ser humano em sua dor, em sua carência e em sua esperança. Essas vivências me ensinaram que servir é também escutar, estender a mão e caminhar junto.
A aposentadoria marca o início de um novo capítulo da minha vida. Só peço a Deus que continue me dando saúde, paz e alegria nas novas linhas da página que se vira.
Jornal – Se pudesse deixar uma mensagem para meninas do interior que sonham ocupar espaços de liderança, qual seria?
Eu diria que a educação é ponte: estudem com obstinação. O conhecimento é a única ferramenta capaz de destruir barreiras geográficas, sociais e de gênero. Meninas do interior, nunca deixem que a distância dos grandes centros limite o tamanho dos seus sonhos. A liderança não nasce do lugar onde se vive, mas da coragem de aprender, de trabalhar com dedicação e de acreditar no próprio potencial. Quando uma menina do interior vence, ela não chega lá sozinha: ela leva consigo sua história e abre caminhos para muitas outras que virão.Ocupem os espaços de decisão, façam suas vozes serem ouvidas e levem consigo os valores, a sensibilidade e a força de suas origens. Que o lugar de onde vocês vieram seja sempre motivo de orgulho e a prova de que talento, competência e determinação não têm endereço.
De família com poucos recursos financeiros, morei na zona rural e estudei o primário (atual ensino fundamental), na Vila de Santa Teresa do Bonito. Conheci a cidade de Peçanha, quando completei 12 anos de idade e isso só aconteceu porque quebrei o meu braço e precisei de atendimento médico. Fiquei fascinada com a cidade, principalmente com a luz elétrica. De volta à minha casa, guardo como recordação os momentos nos quais pedia insistentemente ao meu padrinho de batismo, Anísio Aiala, para me levar para Peçanha, para estudar. Desejava ampliar o meu mundo, para além da convivência com a família, com os animais, com as plantações, com as nuvens, com o barro. No meu imaginário, a cidade era o paraíso! Lugar com gente e luz! Então, o mundo se abriu diante dos meus olhos e da minha mente. Foi a minha determinação, minha força de vontade, a minha garra para suportar as dificuldades, persistir, nunca desistir e a minha fé, em acreditar ser possível, é que me levaram aonde eu nem podia imaginar – Desembargadora do Tribunal de Justiça do nosso Estado.
REGINA BRAVIEIRA

Nascida em Governador Valadares, durante a infância e a adolescência às vezes se sentia infeliz por isso. Amava tanto a querida Peçanha que não se conformava em “não ser dali”. Fez o pré-primário na Escola Estadual Professor Adelardo da Cunha, do qual guarda memórias afetivas maravilhosas e motivadoras. O restante dos estudos em Peçanha foi realizado no “Colégio” e no “Ginásio”, até a conclusão do 2º grau em Magistério e Contabilidade.
Mudou-se para Belo Horizonte levando a dúvida entre cursar Matemática ou Medicina. Durante o cursinho começou a compreender sua verdadeira vocação. Formou-se em Pedagogia pelo Instituto de Educação de Minas Gerais, em 1990 e, no ano seguinte, em Psicologia pela FUMEC. Posteriormente, realizou cursos de pós-graduação, mas considera que os maiores e mais significativos aprendizados de sua trajetória profissional aconteceram no exercício das funções de Professora e Supervisora na Rede Estadual de Educação e como Diretora Pedagógica no Instituto Educacional Bravieira.
Casada há 28 com Júlio César, é mãe de dois filhos lindos : Maria Clara e Luís Eduardo. É grata a Deus, por tudo.
Jornal – Há trinta anos você iniciou uma pequena escola infantil. Hoje dirige uma instituição consolidada, de excelentes resultados acadêmicos. Em sua visão, quais valores permaneceram inegociáveis ao longo dessa trajetória de crescimento?
– Dentre os valores inegociáveis que nos servem como bússolas para as tomadas de decisão, permanece inalterada e inegociável a igualdade de oportunidades, que é sinônimo de garantia de um ensino inclusivo, acessível e que respeita o ritmo de desenvolvimento de cada estudante. Para garantir o alcance deste intento, trabalhamos com um material pedagógico de excelência. Entretanto, por si só, este material se torna seletivo, no sentido de excludente, e com poucas aberturas para a inclusão. Isso, aliado a outros fatores, torna esse quase infindável. Todavia, sempre fizemos, e faremos, todos os esforços para respeitar e valorizar as particularidades de cada estudante. Sendo assim, posso afirmar sem pestanejar que este é um dos nossos pilares éticos fundamentais, que determina o educador que fica ou que vai tornando a equipe pedagógica nobre e digna para as suas funções.
Além do respeito e do acolhimento, reforço também o diálogo e a empatia com estímulo à escuta ativa em busca de resoluções pacíficas e compreensivas para todos os conflitos, uma vez que acreditamos na construção de relações interpessoais saudáveis e duradouras. Estamos em uma cidade que tem raízes nas pequenas reuniões sociais, nos bate-papos na cozinha, no alpendre da casa, nas janelas. Nas trocas de receitas – culinárias ou medicinais –, de conselhos. E não conseguimos imaginar uma escola que destoe do acolhimento da sua comunidade escolar. Assim, prezamos valores aparentemente tão simples, mas pensando no vir-a-ser.
Jornal – Em uma época em que os indicadores de desempenho ganham cada vez mais destaque, como equilibrar a busca por excelentes resultados no Enem com a missão mais ampla de formar cidadãos éticos, críticos e preparados para a vida?
Está aí mais um desafio constante: conciliar os números com os valores humanos. Acreditamos firmemente na preparação para a vida profissional, mas este sucesso só é garantido quando este profissional está bem preparado para a vida, para se relacionar com capacidade de se interessar pelo outro e pela sociedade em que vive. Para usar esse conhecimento em prol de uma vida mais digna, inclusiva, respeitosa e consciente. Pensamos na formação do cidadão, em uma visão mais holística, sem, entretanto, esquecer a competitividade cada vez maior do mercado de trabalho. Assim, a intenção é não perder o foco da preparação pessoal das crianças e dos adolescentes mesmo diante dos desafios de ajudá-los em seus projetos de vida. E isso se torna cada vez mais importante, em tempos de redes sociais, inteligência artificial, “fake news” e afins. Sabemos que os resultados, em termos quantitativos, são bons para os estudantes, para as suas famílias e para a nossa escola; porém, nos sentimos orgulhosos e gratos quando nos deparamos com as pessoas maravilhosas que se tornaram. Com os verdadeiros cidadãos que ajudamos a formar.
Jornal – A cultura de uma escola é construída diariamente por alunos, famílias e educadores. Qual é o papel do corpo docente e dos pais na construção de um ambiente de aprendizagem capaz de transformar vidas?
– A resposta a este questionamento está em consonância com a imediatamente anterior. Sabemos que tanto a escola quanto a família não conseguem realizar sozinhas a formação humana e cidadã. Dessa forma, usamos o conceito de comunidade escolar, pois a família precisa da escola para ensinar e preparar para a vida social, que é uma aprendizagem significativa e essencial para qualquer pessoa. Já a escola, por sua vez, precisa da família para acolher e compreender melhor o estudante que, muito mais que um aluno, é um ser em processo de formação e que merece todo o respeito e toda a honestidade no processo de ensino e aprendizagem. Para tanto, tentamos ouvir as famílias e sermos ouvidos por elas, já que se trata de um trabalho conjunto. Sempre temos em mente que Escola e Família constituem uma parceria essencial e complementar. Sem ela, o processo se torna muitas vezes complicado, desgastante e até dolente.
Considero que as famílias dos nossos estudantes são um dos indicadores mais sólidos que sustentam a prática pedagógica desta escola. Conquistamos, ao longo destes 30 anos, este relacionamento essencial, criando a verdadeira comunidade escolar, ativa e crítica, sustentada no respeito e na abertura para ouvir e acolher em sentido duplo, ou seja, ouvimos e somos ouvidos, acolhemos e somos acolhidos. Sentimo-nos gratos e abençoados por sermos respeitados e valorizados pelas famílias dos nossos estudantes.
Jornal – Expandir uma instituição educacional para outra cidade é um desafio que vai muito além da gestão. Como preservar a identidade, os valores e a excelência pedagógica ao mesmo tempo em que se amplia o alcance do projeto educacional?
– Este passo é mérito de uma equipe pedagógica eficiente que abraçou a causa indo trabalhar na unidade II, em São João Evangelista, para preparar novos integrantes. É o reflexo de uma equipe articulada e corresponsável por todo o processo. A primeira dificuldade foi solidificar a primeira unidade, em Peçanha. Foi necessário vencer muitas barreiras até criar uma identidade e uma solidez. Não podemos esquecer que estamos em uma cidade que prima pela cultura. Uma cidade de verdadeiros mestres, com escolas que cumprem o seu objetivo. Isso já dá a medida da dificuldade de se estabelecer em Peçanha: não é qualquer escola que será aceita e respeitada, pois os exemplos são de alto padrão.
Assim que percebemos que as nossas raízes já estavam fincadas em nossa cidade, vimo-nos em condições de ousar mais uma vez. Sabíamos – e continuamos cientes – que é mais que um problema de gestão: é uma responsabilidade enorme, pois se trata de não só manter o sucesso da primeira unidade: é preciso voar mais alto, em ambas as unidades. E a nossa base para isso é a qualidade e a união da nossa equipe.
Jornal – E se pudesse deixar uma única mensagem para as futuras gerações de educadores, em um momento em que a educação enfrenta tantas transformações tecnológicas e sociais, qual seria?
– A educação escolar se torna possível e mais aberta quando nós, educadores, compreendemos cada estudante como um centro de um universo lindo e disponível para se tornar um transformador de realidades. Precisamos ouvi-lo com paciência e bondade e, acima de tudo, acolher o erro como oportunidade para novas aprendizagens. Erramos tanto na vida e nem conseguimos lidar tão bem com os nossos erros. Punir um erro pode fechar as portas para uma convivência harmoniosa e segura.
E como podemos transformar desafios em oportunidades? Vivenciando o real sentido da inclusão. A inclusão é maravilhosa à medida que permite a cada um ser o que é. Querer que o outro se torne igual a outrem é perda de tempo desumana. Todos queremos ser nós mesmos e são as diferenças que existem entre nós que fazem o mundo girar em qualquer área de conhecimento e de evolução humana, científica e tecnológica.
A dica é: acolham, aceitem, convivam bem e deixem marcas significativas na vida escolar dos estudantes! Pois a maior e melhor importância da escola no mundo atual é a interação social. O estudante precisa gostar de ir para a escola.
CLARISSA VAZ

Empresária, fundadora das Marias Bonitas de Lourdes – Grupo de Moradoras do Bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, e cofundadora do Movimento pela Segurança e Bem-Comum de Belo Horizonte (MOVSEGBH). Há quase dez anos atua de forma voluntária na mobilização comunitária, promovendo ações nas áreas de segurança pública, cidadania e impacto social. Também lidera campanhas solidárias em apoio a diversas instituições e acredita que a participação da sociedade é um dos principais caminhos para construir cidades mais seguras, humanas e acolhedoras.
Jornal -Há dez anos você começou mobilizando moradores em torno de problemas do próprio bairro, e nascia o projeto Marias Bonitas de Lourdes.Em que momento percebeu que aquela iniciativa local havia se transformado em uma força de impacto social para toda a cidade?
– A transformação aconteceu de forma muito natural. O que começou como um grupo de vizinhas preocupadas com a qualidade de vida em Lourdes passou a atrair pessoas de outros bairros que enfrentavam desafios semelhantes. Percebi que não estávamos falando apenas de um bairro, mas de cidadania.
Com o tempo, as demandas por segurança passaram a caminhar lado a lado com ações de solidariedade. Vieram campanhas para instituições sociais, apoio a crianças em tratamento de câncer, pessoas com autismo, arrecadação de alimentos, agasalhos, cobertores e tantas outras iniciativas que mostraram que cuidar de uma cidade também é cuidar das pessoas que vivem nela.
Ao longo desses anos, vimos moradores, comerciantes, entidades sociais, empresas, forças de segurança e órgãos públicos construindo soluções juntos. Também entendemos que segurança pública não se limita ao combate ao crime. Ela passa por pertencimento, solidariedade, prevenção, ocupação dos espaços públicos e fortalecimento da comunidade.
Hoje, quando uma campanha das Marias Bonitas mobiliza centenas de pessoas ou inspira iniciativas em outras regiões da cidade, tenho a certeza de que o nosso maior patrimônio não são os números, mas a confiança que construímos entre as pessoas.
Jornal – Em uma época em que muitas pessoas se sentem descrentes das instituições e da participação cidadã, qual você considera ser o papel do cidadão comum na construção de comunidades mais seguras, solidárias e organizadas?
– Aprendi que liderança não é ocupar uma posição de destaque. É servir.
O voluntariado ensina humildade, escuta e perseverança. Nem sempre as mudanças acontecem no tempo que gostaríamos e, muitas vezes, o reconhecimento demora ou nem chega. Ainda assim, seguimos porque acreditamos no propósito.
Também aprendi que ninguém transforma uma cidade sozinho. Liderar é inspirar pessoas a caminharem juntas, respeitando opiniões diferentes, construindo pontes e formando novas lideranças para que o trabalho continue independentemente de quem o iniciou.
Jornal – Ao lidar diariamente com temas como segurança pública, cidadania e apoio a instituições sociais, quais são os desafios mais urgentes que Belo Horizonte precisa enfrentar para se tornar uma cidade mais humana e inclusiva?
– Belo Horizonte tem enorme potencial, mas precisamos enfrentar alguns desafios com coragem e planejamento.
A segurança pública continua sendo uma das maiores preocupações da população e exige integração entre prevenção, inteligência, fiscalização e responsabilização dos autores de crimes. Ao mesmo tempo, precisamos cuidar da população em situação de vulnerabilidade com políticas públicas eficientes, especialmente nas áreas de saúde mental, dependência química e assistência social.
Também acredito que devemos investir cada vez mais em educação para a cidadania, valorização dos espaços públicos, mobilidade, acessibilidade e fortalecimento das redes comunitárias. Uma cidade mais humana nasce quando governo e sociedade trabalham lado a lado.
Ao mesmo tempo, Belo Horizonte tem uma enorme capacidade de mobilização. Quando moradores, empresas, instituições sociais e poder público trabalham juntos, surgem soluções que nenhum desses atores conseguiria construir sozinho. É essa cultura de corresponsabilidade que precisamos fortalecer.
Jornal – Quando olhamos para o legado que você está construindo na cidade de Belo Horizonte vemos muito mais do que ações pontuais: vemos uma cultura de participação comunitária.
Que mensagem você deixaria para quem acredita que uma única pessoa não é capaz de provocar mudanças significativas na sociedade?
– Toda transformação coletiva começa com a decisão de uma única pessoa de não permanecer indiferente.
Ninguém muda uma cidade sozinho, mas alguém sempre precisa dar o primeiro passo. Foi assim que nasceram as Marias Bonitas de Lourdes, o MOVSEGBH e tantas campanhas solidárias que hoje mobilizam milhares de pessoas.
Meu convite é simples: use a sua voz. Ame o seu bairro. Participe da sua comunidade. Quando um cidadão inspira outro, cria-se uma corrente capaz de transformar realidades muito maiores do que imaginamos.
Acredito profundamente que a participação cidadã é uma das maiores formas de amor por uma cidade.
O Echo da Matta agradece a fala destas mulheres nota dez e deseja que toda mulher tenha a chance de ocupar seu lugar.





