1 – PEDRO ROCHA: CAMINHO DE MUITAS ROTAS
Wilson Oliveira
Os millenials, também conhecidos como Geração Y, nascidos entre 1981 e 1996, são jovens moldados por profundas transformações tecnológicas. Parcela altamente escolarizada, estão no centro das grandes transformações sociais e digitais, valorizando o consumo consciente e experiências em vez do acúmulo de bens.
No Brasil, os millenials representam uma parcela significativa da população. De acordo com pesquisas que costumam utilizar como base de referência os recortes do IBGE, eles compõem cerca de 34% da população e são a maior força motriz no mercado de trabalho brasileiro.
Pedro Henrique de Novaes Gomes Maciel Rocha é um jovem dessa geração.
Pedro – O nome é grande. Meu avô Dalai, (foi Presidente do Cruzeiro Esporte Clube) era juiz, e ele achava que era bom não ter outra pessoa com o mesmo nome, aí colocou todos: da minha mãe, do meu pai e ainda meteu um “Henrique”. Gigantesco!
É jornalista esportivo, mineiro. Nascido em Belo Horizonte em 1992, tem, portanto, 34 anos e inúmeros seguidores no Instagram.


Familia: Pedro com os pais Fernando e Yara e o irmão Rafael
É filho da premiada atriz Yara de Novaes e do apresentador Fernando Rocha. É irmão de Rafael de Novaes Rocha, um advogado promissor. Diz que aprendeu com os três que o mais importante nessa vida é o sentimento.
Aos 19 anos de idade, já era estagiário da equipe de esportes da TV Cultura, no Programa Cartão Verde, onde conviveu com Dr. Sócrates, médico, treinador e um dos grandes craques do futebol brasileiro da década de 1980. Ainda na Cultura trabalhou no Esporte Interativo que, mais tarde, se transformou na Cazé TV.
Formou-se na Universidade Metodista, em 2013, ano em que ingressou na Rede Globo ainda como estagiário. Estreou como repórter na afiliada da emissora, a TV Centro América de Cuiabá, onde permaneceu por um ano, em 2014. Viveu um período crítico, bem quando teve a crise do impeachment da Presidenta Dilma Roussef (concluído no dia 31 de agosto de 2016). As oportunidades não rolaram. Aí, aconteceu o acidente terrível com a Chapecoense e, a convite da emissora, foi morar em Chapecó, no início de 2017, onde ficou por três anos.
(O acidente aéreo com o avião da Chapecoense ocorreu na madrugada do dia 29 de novembro de 2016. A aeronave transportava a delegação do clube, jornalistas e tripulantes para Medellín, na Colômbia, onde o time disputaria a primeira partida da final da Copa Sul-Americana).
Pedro estabeleceu uma conexão significativa com a cidade devido à sua cobertura das atividades esportivas do time local. Era uma oportunidade de um ano de protagonismo. E foi onde ele mergulhou de cabeça:
Pedro – “- nesse mundo, de Chape, que me deixou muito ligado a isso tudo. Não só à cidade, ao clube, que sou até hoje, mas me deu como se fosse uma pós-graduação”.
É autor do livro “Chapecoense, o Milagre do Recomeço” que tem o objetivo de eternizar a história de um ano completamente distinto para um clube de futebol.
Retornando a Belo Horizonte, esteve na equipe do Globo Minas até 2022. De volta a São Paulo pôde ser visto, de 2023 a 2025, no Globo Esporte e Esporte Espetacular.Desde janeiro de 2026 está entre o time de apresentadores da GE TV, projeto de entretenimento esportivo da emissora, que está incumbida da cobertura do Campeonato Brasileiro, da Libertadores e da Copa do Mundo.
Com mais de dez anos na Rede Globo, com passagens por afiliadas em Santa Catarina, Minas Gerais e Mato Grosso, Pedro Rocha diz que já tinha vontade de trabalhar com o lado de entretenimento no esporte.
Então vamos à entrevista:
PAIXÃO E INFORMAÇÃO
Jornal – Nos dias de hoje como é lidar com o futebol de uma maneira apaixonada e bem-humorada, sem deixar de trazer informação?
Pedro – Cara, é uma boa pergunta. Por alguns motivos. Quando eu estava na Globo, no convencional, ouvia muito de alguns amigos mais experientes algo assim:
“Você tem que decidir o que quer da sua vida. Qual estrada você quer seguir. Você quer ser o cara da informação, que dá os furos de reportagem, ou quer ser esse cara que vai contar histórias do Brasil profundo, ou quer ser o cara que vai fazer gracinha? Que vai ser o cara de entretenimento e tal?”.
E eu sempre pensava: não sei! Porque se você escolhe um caminho, deixa de viver o outro.
“Puta merda, será que eu vou ter que escolher? Será que não vai ter alguma coisa que vai agregar tudo isso e aceitar eu ser do jeito que eu sou, que é um pouco de cada? E dependendo do jogo muda, dependendo da situação você enxerga de um jeito diferente…”.
E isso me dava uma ansiedade, uma agonia de pensar que eu não quero ser uma coisa. Eu posso ser várias. E aí pintou a GE TV, que é esse canal da Globo que transmite os jogos, que é a porta da Globo para o futuro. Eles chegaram para mim e falaram que queriam exatamente essa diversidade, essa maleabilidade de ser tudo isso. É onde se mistura, é onde eu mais acredito que você pode falar sério, mas de um jeito mais leve, mais divertido. E é onde eu estou desde janeiro deste ano.
(Esse olhar jovial ao tratar dos temas mais inusitados daqueles que amam o futebol, pode ser conferido numa matéria hilariante que foi ao ar em 16/01/2013,quando ele entrevista “os meninos da Portuguesa” motivado por uma pauta intitulada “Quantos anos você tinha quando recebeu uma AULA DE FUTEBOL por uma criança de dez anos?” Se ficou curioso veja no @novaesrocha).


Seguir os Passos do Pai
Pedro – É. É muito louco porque eu nunca tive um plano B. Nunca passou pela minha cabeça fazer algo que não fosse o que eu faço hoje. Começar a trabalhar, a viver esse mundo do futebol.
Eu era completamente bitolado e pensava só em futebol, futebol e futebol. Desde então, com 10, 11 anos, eu sabia o que eu queria e como eu deveria chegar até ali. O que eu deveria fazer.
Porque meu pai trabalhava nisso. Aí quanto mais o tempo ia passando eu ia ficando mais ansioso para viver isso rápido. Acho que isso, em alguma medida, é ruim porque você deixa de ter outros horizontes. Mas é muito bom porque te dá muita certeza do que você quer. O que pode ser, em alguma medida, ruim se você “fracassar”. Foi muito importante ter essa noção.
E eu sou muito mais apaixonado pelo ofício do que meu pai era. O meu pai era repórter esportivo e deixou de ser quando eu tinha 13, 14 anos. E foi uma frustração grande para mim. Eu falava “Como você não ama isso?” e tal. “Como você não é apaixonado por isso?”. E acabou que ele se deu muito bem saindo do esporte e eu entendi que cada um tem o seu caminho.
Nunca achei ruim ser filho dele, nunca me fechou alguma porta, muito pelo contrário, mas ele tinha a história dele e eu tenho a minha. Até hoje eu vejo muitas coisas que ele fazia lá nos anos 90 e a gente tenta replicar hoje na GE TV, que é o que há de novo na linguagem de Comunicação. Então é um privilégio muito grande.
AMBIENTE DIGITAL
Pedro – Há uma convivência no ambiente digital de múltiplas vozes e quando eu chego para dar alguma notícia de um jogador que vai ser contratado e tal, sempre tem algum perfil que já postou isso.
Mas o que te dá credibilidade, o que vai te fazer ser diferente, ser olhado através de uma outra ótica, é a quantidade de vezes que você acerta. E acertar não é somente no mundo da especulação. Mas acertar no pensamento, em uma história que você conta.
O bombardeio incessante de informações dificulta o jeito de separar o joio do trigo, mas cada um de nós, com certeza, tem uma meia dúzia de formadores de opinião que você faz questão de ler quando aparece no seu feed, na sua timeline. Então a credibilidade vem com a constância, o tijolinho que você vai construindo um atrás do outro. Não é de uma hora para outra.
As pessoas que estão chegando agora e estão começando a viver o jornalismo têm uma possibilidade muito grande de testar, de criar. Por exemplo: criação de conteúdo… e você acha um nicho… Possivelmente você não vai virar o convencional. Acho que a primeira geração que viveu isso foi a minha, de saber que o seu passado está todo na internet. Você é instigado a criar e criar e criar para ser notado, para ser visto. Então acho que é uma dor, uma delícia, um laço e um nó, você pode beber muito dessa fonte… Acaba virando muito cagador de regra falar: “Olha, vai com cuidado!”. Mas é uma coisa que meu chefe falava comigo:
“Eu nunca vi ninguém ganhar emprego por causa de um post na rede social, mas já vi muita gente perder o emprego por causa disso”.
O fato de eu saber exatamente o caminho que eu queria trilhar, em outra medida, me fez ficar “fechado” para um universo que estava se expandindo, que era o da internet. Se eu trilhasse esse outro caminho de internet provavelmente eu estivesse no mesmo lugar onde estou hoje, que é um canal digital da Globo, pois o caminho teve muito mais rotas. Literalmente. Acho que eu fechei muito a cabeça para essa história do convencional enquanto se abria um universo, que é hoje esse universo da internet.
As nossas redes sociais, o jeito que a gente lida com o universo do algoritmo, abre muitas portas, mas também pode fechar. E quando você vai para o mundo da internet você se encontra de novo com esse desafio do mercado de maneira geral. A gente molda o nosso dia por conta de um algoritmo esse ser superior a que a gente deve tudo.,. Então é isso, acho que o tempo todo a gente está sendo empurrado para estar numa caixa. A minha bandeira atual é essa. Conseguir fazer tudo isso, me enquadrar em algumas caixas diferentes, não só em uma.
DOIS MOMENTOS DE PRÁTICA JORNALÍSTICA EM SITUAÇÕES EXTREMAS
1) Em Chapecó
Mas eu acho que essa apuração do jornalismo, na essência dele, eu tenho muito quando a gente vai dar matérias e reportagens sobre os bastidores do futebol. Seja no jeito com que você tem que abordar uma fonte para ela confiar em você, seja na maneira com que você tem que entender quando é uma “casca de banana”, que o cara tá te passando, e até na maneira de você se relacionar depois com o clube, ou com um assessor de imprensa quando vem reclamar que a notícia foi dada. Acho que o jornalismo mora aí. Nessas complexidades que envolvem você dar um furo de notícia.
Essa experiência em Chapecó talvez tenha expandido meus horizontes dentro do jornalismo para além da questão do esporte. Evidentemente nessa cobertura da Chape era muito quente, no sentido de terem jogos atrás de jogos, campeonatos, partidas importantes como Libertadores e Brasileirão, mas invariavelmente você se encontrava com algumas matérias sobre a tragédia. Sobre a história do drama, da dor de quem perdeu alguém. Você tinha que contar a história da Bárbara, viúva do Ananias, ou então falar sobre as investigações lá na Bolívia, que é de onde é a LaMia, a empresa aérea que levava os meninos do acidente. Então você tinha que ter essa noção da maneira de contar, da roupa que iria vestir, do texto que iria escrever…
2) Na pandemia de covid 19
Eu tive também esse contato com o jornalismo diferente na pandemia, quando eu estava em Belo Horizonte e o mundo do futebol parou.
(A pandemia de COVID-19 no Brasil registrou mais de 715 mil vidas perdidas e dezenas de milhões de casos desde 2020. Embora o estado de emergência global tenha sido encerrado pela OMS em 2023, o coronavírus segue em circulação endêmica, com novas variantes exigindo monitoramento contínuo das autoridades de saúde.)
Não tinha mais jogos, então trabalhei durante uns três meses no Bom Dia, Minas, falando em matérias sobre insumos. Porque quando você vai contar uma história igual, sei lá, a distribuição de máscaras em algum posto de saúde, ou sobre a barreira sanitária que existia na chegada de Confins, ou sobre um acidente no anel rodoviário, as informações já estavam ali, a notícia já está posta. O princípio básico do “O quê?”, “Quando?”, “Onde?”, “Como?”… tudo isso está ali. E você vai contar a história no MGTV com base no que você viu ali. E isso acabou sendo uma base muito grande também porque era algo que eu nunca tinha feito na vida. E de repente estava sob o horizonte.
O grande pilar desse meu trabalho é justamente essa parte jornalística, de ter construído desde então essa credibilidade e saber que quando a gente dá uma notícia ela tem algum fundamento. Acho que você contar a história de um jogo não deixa de ser jornalismo. Você se encontra com o jornalismo mesmo assim quando você vai atrás dessas histórias. Uma história do Brasil profundo, uma história de bastidor, uma fonte… ali é um jornalismo, essa chama, que não pode ser apagada. E isso foi escrito desde então, desde essa época da Chape, para além da cobertura futebolística.
POSICIONAMENTO POLÍTICO EM UM MUNDO BIPARTIDÁRIO
Pedro – Me coloco de um jeito só. Justamente por, no meu mundo, eu conviver com muita gente de direita ou muita gente que pensa com a cabeça da esquerda, eu consigome sentar nas duas mesas e conversar bem.
E isso foi algo que eu saquei em 2018, quando o mundo inteiro achava que não iria acontecer o que houve na eleição e houve.
(Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente do Brasil nas eleições de 2018, derrotando Fernando Haddad (PT) no segundo turno com 55,13% dos votos válidos, o que correspondeu a quase 58 milhões de votos)
E eu já vi isso lá em Chapecó. E meu nicho de amizades é muito dividido. Eu tenho muitos amigos de esquerda, muitos amigos de direita, e em algum momento pensar diferente politicamente foi algo que separou. Eu pensava:
“Nossa, como eu posso ser amigo de tal pessoa que vota diferente de mim?”
Hoje eu penso que as pessoas que pensam politicamente diferente de mim têm algo parecido comigo. Ou gostam de futebol, ou gostam do mesmo estilo de música. Aí eu vou pelas coisas que agregam e não pelas que separam. Você entender e respeitar a visão de mundo do outro faz você expandir um pouco do seu universo.
O JORNALISMO ESPORTIVO É COMPLEXO
Pedro – Desde que passei a acompanhar o futebol de perto, o que mais me surpreende é como existem jogadores sem vontade própria. Seguem à risca absolutamente tudo o que o empresário manda fazer. Não tem noção do seu tamanho e que eles são chefes do empresário e não o contrário.
Pude entender que o jornalismo esportivo é muito mais complexo. A grande complexidade é você conseguir descobrir uma história igual a que eu propus ao Esporte Espetacular uns anos atrás:
1) as histórias dos times do futebol brasileiro que estavam sem divisão e que já foram muito grandes.
2) ou então, no ano passado, que foi o último projeto grande que eu fiz na Globo: os clássicos que são invisíveis. Cidades pequenas que têm uma rivalidade gigantesca. A gente foi para o interior do Piauí contar a história de um clássico que tinha lá, do Comercial com o Caiçara, em uma cidade a uns 200 quilômetros de Teresina. Fomos também a Patos de Minas contar a história da URT com o Mamoré.
3) ou como a que a gente contou, que teve dois minutos no Esporte Espetacular, de um menino que era surdo, tem aspecto autista e era lateral de um time da Série D do Brasileirão. Então você descobrir essas histórias, conseguir encontrar essas histórias sobretudo de um Brasil profundo, é ali que reside a grande complexidade. Contar histórias que as pessoas nem sabem que vão emocioná-las, que vão interessá-las. “Nossa, aqui está o ouro!”. Aí sim, eu sou jornalista mesmo, sabe?


Fernando, Pedro e Rafael
JORNALISMO DE BASTIDORES
Pedro – Eu gosto muito de fazer jornalismo de bastidores, fontes, contatos para tentar fazer alguma matéria… 90% das fontes que eu tenho, dos contatos que tenho no futebol, em algum aspecto surgiram da experiência em Chapecó.
Acho que o coração estava aberto para o novo. Entender que era uma possibilidade. Essa sensação de você chegar numa cidade, sem conhecer nada e todas as suas relações afetuosas, de trabalho, da padaria que você gosta, do buteco em que você quer tomar uma, do restaurante em que você vai no domingo, tudo ser uma página em branco,” ter uma medida de aleatoriedade”, é algo que eu não sei se vou ver de novo na minha vida e me dá uma saudade, sabe? Esse desespero de não saber quem vão ser as pessoas que vão estar pelo meu caminho, quem vão ser os meus amigos.
É algo que é muito aterrorizante, mas nos momentos em que eu tinha medo, em que eu pensava “Estou longe de tudo!”, o meu avô Dalai falava para mim “Você ainda vai ter saudade disso! Esse sentimento, você ainda vai ter saudade”. E eu morro de saudade!É uma sensação de que me orgulho muito de ter sentido e tenho muita saudade também.
O JORNALISMO ESPORTIVO NO DIA A DIA
Pedro – No dia a dia você tem tanta blindagem ali, tanta gente produzindo conteúdo, tantos meios de conseguir a informação, que essa soma de alguns fatores pode te deixar muito amarrado. Então o nosso feijão com arroz do dia a dia é o que dá estofo, dá bagagem, te dá conteúdo, contato.
Mas não dá para você, todo dia, achar que vai contar uma história que vai emocionar o outro. Tem um colega jornalista que fala “que você tem que fazer a cada quinze dias uma matéria foda!”. Para você ficar ali no imaginário. Uma matéria foda vai durar 15 dias ali. Porque no dia a dia é muito difícil. E se você ficar com essa pretensão sempre, vai acabar ficando maluco ou frustrado.
Por isso, quando eu era repórter da Globo, eu sempre tentava emplacar umas duas ou três séries por ano, porque elas me davam essa visão de mundo. Davam um respiro do dia a dia, a possibilidade de tentar contar outras histórias e me davam essa vivência do jornalismo de verdade.
O MUNDO FORA DA ATIVIDADE PROFISSIONAL
Pedro – Gosto de sair para um barzinho, gosto muito de ir ao estádio, de viver futebol também quando estou de folga. E pratico corrida. Eu corro bastante. Às vezes, corro ouvindo podcast do Juca Kfouri ou então ouvindo podcast de Filosofia.
Porque eu acho que consegui, em algum momento, olhar o mundo para além do futebol. Ter outros tipos de interesses, ir ao teatro, gosto muito de ir ao cinema, ter outro tipo de visão sobre isso tudo. Eu acho muito chato quem é só bitolado com o futebol.
E isso expande o meu horizonte de uma maneira que eu consigo ver o futebol de um jeito que não é tão tático e tátil, de olhar de uma maneira muito séria. Evidentemente, acho que é uma coisa muito importante, que quando a bola rola não tem espaço para o lúdico, para a gracinha. Acho que o jogo é a coisa mais importante que tem.
Mas essa visão do mundo da arte é algo que é um pilar muito importante para a minha visão de mundo e para a minha visão como profissional. Vem de uma influência muito forte dos meus pais.
E é muito louco, porque são dois mundos completamente diferentes. São dois mundos que não se conversam, mas estão no céu do meu universo o tempo todo. Posso ir, numa terça à tarde de folga, no filme do Almodóvar e na terça à noite eu estar vendo CRB e Operário na Série B. Acho que essa é uma junção desses pilares que eu tenho, de cláusulas pétreas da minha identidade, que me formaram da maneira que eu sou, entende?

E SE EU CONTAR A HISTÓRIA DA CHAPE?
Jornal – Quando Pedro Rocha se pergunta “E se eu contar a história do ano da Chape?” ele, intuitivamente, acaba realizando uma experiência única, que provavelmente não vai se repetir naquela intensidade. O jornalista percebe o fato histórico, mergulha dentro dele e sai modificado.
Pedro – “Aprendi com companheiros e adversários, com dor e com alegria, com a raiva e com a paciência, com a fúria e com o amor”.
Narrativa épica de um jovem repórter vivendo uma aventura profissional profunda com sensatez e respeito. O poeta e dramaturgo Bertolt Brecht aplaudiria de pé.
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Publicação:
CHAPECOENSE, O MILAGRE DO RECOMEÇO. A trajetória da Chapecoense em 2017
Autores: Pedro Rocha. Belo Horizonte. Editora: Agência número um – Edição: 1 – Ano: 2021
2 – O MILAGRE DO RECOMEÇO – CHAPECOENSE: TESTEMUNHO DE UM ANO ÚNICO NA HISTÓRIA DO FUTEBOL MUNDIAL
Victor Cordeiro


Qualquer profissional que deseja se destacar em sua profissão precisa ter a coragem de enfrentar suas incertezas e os desafios que surgem em seu caminho. No jornalismo, essa verdade é ainda mais imperativa. E muitas vezes esses desafios se tornam também grandes oportunidades de transformar suas vidas e suas carreiras. Aos 24 anos, o mineiro Pedro Rocha viveu um deles quando topou se mudar para Chapecó no início de 2017. Quatro anos depois, em 2021, ele eternizou sua experiência nas páginas de um livro: “Chapecoense – O Milagre do Recomeço”.
Defino a obra como “um corajoso testemunho” porque escrever sobre um momento tão singular na vida de tantas pessoas é essencialmente um ato de coragem. A mesma coragem que levou Pedro ao oeste catarinense para cobrir aquele ano difícil como nenhum outro na vida dos chapecoenses. Afinal, como ele define no livro, é difícil encontrar qualquer lugar no planeta em que a relação entre uma cidade e um clube de futebol seja tão forte. Manter aquilo vivo após uma tragédia com tantas mortes era uma missão tão nobre quanto árdua.
Quando falamos de grandes catástrofes, sempre há um risco de adotarmos um discurso muito sentimentalista. Pedro consegue fugir muito bem dessa armadilha e esse talvez seja um dos maiores trunfos de seu depoimento. Jornalista com J maiúsculo, ele demonstra um grande cuidado em relatar os fatos que testemunhou e apurou de forma simples e genuína, sem muitos enfeites linguísticos para enriquecer uma história que já é extremamente poderosa em sua essência. Com essa objetividade e simplicidade, curiosamente acaba por potencializar o impacto de suas palavras, trazendo o leitor para mais perto daquele contexto extraordinário que foi o ano de 2017 para a Chapecoense.
Essa escolha editorial também se estende aos protagonistas da história. Pedro não esconde nas páginas do livro a admiração que desenvolveu por Alan Ruschel, Neto, Jakson Follmann e Rafael Henzel, os quatro sobreviventes do acidente. Mas expressa esse sentimento sem ceder à tentação de pintá-los como grandes heróis de uma forma romantizada e piegas, como muitas vezes os jornalistas fazem no afã de emocionar o público com suas histórias. Em vez disso, retrata como eles, desde o início, souberam assumir a responsabilidade que recaiu sob seus ombros sem terem pedido, apenas pela força do milagre de que participaram. Nesse contexto, ainda vivendo o luto da perda de tantos entes queridos, abraçaram a missão de se tornar embaixadores de um clube regional que do dia para a noite passou a ter um alcance mundial.
O livro é rico também em detalhes sobre os bastidores daquele ano, trazendo descrições minuciosas das relações desenvolvidas entre a diretoria do clube e os múltiplos atores envolvidos no processo de reconstrução da Chape dentro e fora das quatro linhas. Para os apaixonados pelo futebol, é uma oportunidade rara de humanizar a figura de dirigentes que abraçaram uma missão para a qual era impossível estarem verdadeiramente preparados.
Pedro consegue retratar esse despreparo de forma cuidadosa, sem vilanizar ninguém de forma injusta, mas ao mesmo tempo sem deixar de lado episódios controversos que precisavam ser contados para trazer uma dimensão completa do que ocorreu em Chapecó naquele período. Em meio a tudo isso, se insere na história de forma humilde, mas ao mesmo tempo marcante, mostrando seu desenvolvimento como jornalista e externalizando o orgulho sentido à medida que obtinha suas conquistas profissionais ao longo do ano: primeira matéria no Jornal Nacional, no Esporte Espetacular e viagens internacionais para cobrir jogos do clube. Essa escolha de se colocar como pano de fundo do próprio livro é mais uma demonstração do seu compromisso com os verdadeiros protagonistas da história relatada, o que também enriquece seu testemunho.
A obra é um pouco confusa do ponto de vista cronológico em alguns momentos, uma vez que o autor opta por romper com a linearidade da narrativa em vários trechos do livro. Se por um lado isso dificulta o processo do leitor que busca fazer uma reconstituição mental dos fatos descritos, por outro acaba se tornando, intencionalmente ou não, mais um recurso editorial que ajuda a transmitir a quem lê um pouco da desorientação vivida por todos os que fizeram parte daquele ano desnorteante em Chapecó.


Por todos esses elementos, “Chapecoense – O Milagre do Recomeço” não é um livro qualquer. Como o editor Thiago Soraggi, um dos idealizadores da obra ao lado de Pedro Rocha, pontuou em seu texto de agradecimento, esse testemunho sem dúvida será uma importante fonte de pesquisa futura não apenas sobre o Furacão do Oeste, mas sobre a própria história do futebol brasileiro em um de seus momentos mais comoventes. Para todos os que amam o esporte ou que simplesmente foram impactados de alguma forma naquele trágico dia de 2016, é uma leitura que certamente vale muito a pena.





