A MORTE DE LAUDEMIR E A BANALIDADE DO MAL

Publicado em: 29/05/2026 às 05:45

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Laudemir Fernandes - 44 anos - Liliane França, sua mulher

Eram duas horas da madrugada de uma segunda-feira comum de agosto quando o gari Laudemir Souza Fernandes, de 44 anos, acordou para mais um dia de trabalho. Ainda sonolento, vestiu o uniforme, calçou as sete meias que a rotina na coleta de lixo em Belo Horizonte exigia, jogou um beijo para a companheira, Liliane França, técnica em higiene bucal, prometeu mandar mensagem assim que chegasse ao serviço e saiu de casa.

Às 3h30, veio a mensagem:

“Oi, meu amor, bom dia! Te amo! Saudade!— E o frio? Como está aí? Aqui está gelado!”

Em outro local, também iniciava a sua rotina o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, de 47 anos, que se apresentava como executivo bem-sucedido. Pegou a arma registrada em nome da esposa, a delegada Ana Paula Lamego Balbino Nogueira, entrou no carro de luxo e saiu para mais um dia como CEO da empresa Fictor Alimentos.

Poucas horas depois, os caminhos dos dois homens se cruzariam em uma rua do bairro Vista Alegre, Região Oeste de Belo Horizonte.

Laudemir foi assassinado enquanto trabalhava na coleta de lixo da capital mineira. Segundo as investigações da Polícia Civil, Renê se irritou com a presença do caminhão de coleta na via, discutiu com os trabalhadores e atirou contra o gari.

Testemunhas afirmam que não houve agressão nem ameaça por parte da equipe de coleta.

Relatos coletados pela investigação apontam que o empresário já havia conseguido passar pelo caminhão quando decidiu retornar armado. A versão reforça a tese de que não existia qualquer situação concreta de risco que justificasse a reação violenta.

De acordo com garis que presenciaram a cena, Renê reclamou da presença do caminhão na rua, ameaçou a motorista da coleta e saiu do carro com a arma em mãos. Um dos trabalhadores, identificado como Thiago, ainda tentou impedir a tragédia.

“Você vai atirar em trabalhador, irmão? Você tá ficando doido?”, gritou.

Mesmo diante do apelo, o empresário recolheu um cartucho que havia caído da arma, municiou novamente a pistola e voltou a apontá-la na direção da equipe. Naquele momento, Laudemir atravessava a rua carregando sacos de lixo quando foi atingido pelo disparo.

Imagens de segurança e depoimentos reunidos pela Polícia Civil mostram que, após o tiro, Renê deixou o local normalmente, foi para casa, passeou com os cachorros e, em seguida, dirigiu-se a uma academia de alto padrão, onde acabou preso.

O empresário responde por homicídio triplamente qualificado e por motivo fútil, recurso que dificultou a defesa da vítima e perigo comum, além de porte ilegal de arma, ameaça e fraude processual. A prisão em flagrante foi convertida em preventiva. Em depoimento, ele confessou ter efetuado o disparo, mas negou intenção de matar.

A arma usada no crime era uma pistola calibre .380 registrada em nome da delegada Ana Paula Lamego Balbino Nogueira, esposa do acusado. O caso levou a Corregedoria da Polícia Civil de Minas Gerais a abrir procedimentos para investigar a conduta da delegada, principalmente sobre possível negligência na guarda da arma e eventual omissão após o crime.

Ana Paula foi afastada das funções dois dias após o assassinato, oficialmente por licença médica, renovada sucessivas vezes. Em abril de 2026, a Polícia Civil instaurou um Processo Administrativo Disciplinar que pode resultar em demissão.

Paralelamente, a família de Laudemir ingressou na Justiça pedindo o bloqueio de bens do casal para garantir futura indenização. A ação sustenta responsabilidade civil solidária, já que a arma utilizada no homicídio pertencia à delegada.

Mas a morte de Laudemir produziu outro movimento, como no pensar do filósofo Alexandre Jollien: “Não é o sofrimento que engrandece, mas o que fazemos dele”.

Da revolta diante do assassinato nasceu a “Casa do Gari – Alegria de Viver”, projeto social criado por Liliane França para acolher garis e margaridas,  trabalhadores e trabalhadoras historicamente invisibilizados apesar de exercerem uma função essencial para a cidade.

Fundada em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a iniciativa oferece apoio psicológico, orientação jurídica, atendimento odontológico e acolhimento social para trabalhadores da limpeza urbana e suas famílias.

“Eles limpam a cidade, mas muitas vezes são tratados como se não pertencessem a ela”, afirma Liliane.

Ela revela que muitos garis enfrentam humilhações diárias: dificuldade para conseguir água, usar banheiros durante o expediente ou encontrar locais adequados para alimentação e descanso. Há relatos de trabalhadores que passam mal nas ruas e precisam improvisar atendimento entre os próprios colegas. Ou seja, todos admiram a alegria demonstrada por eles, mas pouquíssimos os tratam com o mínimo de sensibilidade. Todos aplaudem o personagem encarapitado na traseira do caminhão, mas tudo muda quando deparam com o homem dentro do uniforme laranja. 

A proposta da Casa do Gari é criar uma estrutura itinerante capaz de levar assistência diretamente aos locais de trabalho dos coletores. Psicólogos, dentistas, advogados e voluntários já aderiram ao projeto.

Além do acolhimento social, Liliane passou a participar de mobilizações em defesa da regulamentação nacional da profissão de gari e do reconhecimento formal da categoria.

Desde a morte de Laudemir, manifestações vêm sendo realizadas em frente ao Fórum Lafayette, em Belo Horizonte. Em uma delas, Liliane apareceu usando uma camisa perfurada simbolizando os tiros que mataram o companheiro.

“Eu quero justiça. E quero que a sociedade entenda que garis não são invisíveis”, declarou.

O caso transformou-se em símbolo da violência banalizada e da desumanização enfrentada por trabalhadores essenciais à limpeza urbana. Enquanto o processo criminal segue em andamento, Liliane tenta transformar o luto em mobilização coletiva, para que a morte de Laudemir Souza Fernandes não seja reduzida a mais um episódio de violência urbana rapidamente esquecido.

“O contrário da vida não é a morte. É a indiferença.” — Elie Wiesel”

É contra a indiferença que Liliana luta todos os dias para que Laudemir viva em cada pedaço de rua da cidade.

(Em seu livro – “Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal” – Hannah Arendt criou o conceito da “banalidade do mal” argumentando que o mal não decorre apenas da crueldade, mas também incapacidade ou da falta de vontade do indivíduo de analisar, de forma crítica, os seus atos  e as consequências deles para a humanidade. Uma atrocidade, por maior que seja, passa a ser comum e banal se o seu agente não questiona a moralidade da sua ação.  

No “As origens do totalitarismo”, outro livro clássico, ela discorre sobre o “direito de ter direitos”. 

 “…O direito de ter direitos, ou o direito de cada indivíduo de pertencer à humanidade, deveria ser garantido pela própria humanidade”

Este crime incompreensível que levou Laudemir parece refletir os dois conceitos acima: a sua vida foi tratada pelo criminoso como algo sem importância, gerando uma ação que considerava banal –  a morte de um ser humano, sem motivo algum. 

Por outro lado, perguntamos a Liliane se qualquer instituição havia reconhecido algum direito em função da morte do seu marido. Ela respondeu que até agora a única manifestação de apoio relevante partiu dos amigos e colegas do marido e do SINDEAC – Sindicato dos Empregados em Edifícios e Condomínios. Então, esta indiferença, tão incompreensível como o próprio crime, significa que Laudemir não tem direito de ter direitos? E sua família, idem?)

(Hannah Arendt – 14/10/1906-4/12/1975)

Laudemir Souza Fernandes

19.06.1981 11.08.2025

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

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