AH, VAI PRA CUBA! – A ILHA E O OLHAR DE PRISCILA VARELLA

Publicado em: 29/05/2026 às 05:50

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Priscila no Museu e Memorial Che Guevara

“Vai pra Cuba”, no Brasil, tornou-se um chiste, um gracejo, uma pilhéria talvez. É mais um desconforto de uma parte da sociedade que desconhece os caminhos da História e não reconhece na resiliência do povo cubano a defesa de um ideal revolucionário. E foi isso que Priscila percebeu quando souberam que faria essa viagem.  “Ah, vai ficar no escuro! Ah, vai voltar no avião da FAB”. Quando retornou, as reações mudaram: “E aí, como foi?”, perguntavam baixinho. Quando ouviam “Foi legal”, reagiam:  “Ah, que bom!”, e mudavam de assunto. Ela desejava conhecer a ilha há mais de 10 anos. É o presente que resolveu se dar, antecipadamente, em comemoração a seu aniversário. Então foi.

Política na Família

Priscila nos conta que “Minha casa nunca foi uma casa de conversas políticas. Nunca. Nem contra nem a favor, nunca. Eles não eram extremistas, mas com a ideologia da direita”. E continua: Eu era bem alienada. Em 1964, nos mudamos para Belo Horizonte. Eu me lembro dos meus pais escutando as notícias do golpe militar, pelo rádio. É a única imagem que eu tenho disso.

Na Copa de 1970, eu já morava de novo no Rio, tinha 14 anos, e a gente cantava o hino da seleção “Pra Frente Brasil” , composta por Miguel Gustavo (1922-1972). O sucesso daquele momento era o slogan “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” criado durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Quando eu comecei a namorar em agosto de 1970, ouvia meu sogro falar de política, entendeu? Ali foi uma iniciação.

O Interesse Pela Ação Política

Teve uma lacuna de 8 anos. Já casada e mãe mudamos para SP, eu parei de trabalhar. Decidi voltar a estudar. Fui fazer psicologia. E tive a minha segunda filha.

Meu primeiro emprego foi numa Associação para Valorização de Excepcionais. Da Volks, cuidava de PCDs (Pessoas com Deficiência). Trabalhei paralelamente em hospital. Com população mais vulnerável.

Depois fui pra prefeitura de São Bernardo do Campo (SP). Entrei na educação especial. A minha chefe na ocasião era uma pessoa do PT. Certa vez ela levou uma educadora, a Virgínia Gastaldi, que nos mostrou o filme do diretor Wim Wenders, Buena Vista Social Club (1999). Aquilo me encantou, entendeu? Essa minha chefe descreveu assim o sistema educacional cubano que ela recentemente conhecera:  “A Revolução é o norte de todo mundo, é o que sustenta do pequenininho ao mais velho”. Eu me lembro dela falando isso. Essa minha incursão na Prefeitura me colocou em contato com essa coisa mais social, mais coletiva, mais de grupo. 

Aí, eu entrei num ativismo, alinhado à esquerda, já na primeira candidatura do Lula à presidência da República (1989). O fato dele não ter sido eleito, me deixou extremamente decepcionada. Ele perdeu três vezes: uma para Fernando Collor de Melo (1989) e duas para Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998).

Mas trabalhando com educação a esperança nunca morre. Com educação especial, depois com educação regular e, por fim, no ensino fundamental, quando me aposentei.

Planejamento da Viagem 

Optei por um programa de viagens idealizado por uma instituição cubana em Belo Horizonte, a Associação José Martí. 

Queria fazer uma viagem sócio-histórico-política, entendeu? “Ah, o mar do Caribe é lindo!”. Sim, mas eu queria conhecer a história da Revolução, visitar equipamento de saúde, além de ir a Santa Clara, 5 hs de viagem de ônibus, para conhecer o Memorial e o Museu Che Guevara. A cidade de Trinidad foi cortada do roteiro por falta de combustível. Era mais distante, não era indicado.

A Chegada em Cuba

Sabíamos das possíveis carências. Aeroporto, chegada… Banheiros limpos, sem papel higiênico. Era uma área de estacionamento, entendeu? 

Ciceroneados pelo ICAP Instituto Cubano de Amizade com os Povos, fomos direto para a AMISTUR, a agência de turismo do governo especializada em programas sócio-políticos. Eles são muito receptivos, muito próximos… Nem parece, de um modo geral, que estão vivendo com esse embargo imposto pelos EUA.

“O embargo dos Estados Unidos a Cuba, iniciado formalmente por John F. Kennedy em 1962, é o bloqueio econômico mais longo da história moderna, proibindo quase todo comércio e transações financeiras entre os dois países. A política limita o acesso de Cuba a recursos, impactando combustível e finanças, com sanções extraterritoriais que penalizam empresas estrangeiras”.

Éramos uma caravana solidária. Entregamos ao ICAP 08 malas de contribuições contendo medicamentos, gêneros de higiene e contribuições em dinheiro para painel solar, entendeu? Aí,eu me aproximei da Diretora responsável pela solidariedade na América Latina e Caribe, Yara  Valera Ramirez, e falei: “Olha, eu trouxe uma coisa que é muito importante pra mim, um livro de minha autoria: “Uma Tia Que Era Bruxa – Uma Casa Que Era Barco – Uma Tartaruga Que Era Diva”. Eu sei que vocês valorizam, mas é um só porque eu não sabia e tal”, e contei brevemente qual tinha sido a ideia do livro.

Ela me abraçou: “Ah, a gente aqui apoia uma escola infantil, e eu vou direcionar esse livro pra lá”. É um, mas é muito dentro do que a gente acredita”. Foi super emocionante.

Começamos a visitar a cidade. Não vi muita coisa que me encantasse de imediato.

“Gente, até o lixo estava organizado!”. Porque não tem combustível pro caminhão de lixo recolher todo dia, né? Em outros lugares ele está espalhado. Mas não muito diferente do Brasil. Agora, em Havana Velha tinha mais lixo. Sujeira, bem mais. 

Marcha do Trabalho em 1/5/2026 na Av. Malecon, frente à Embaixada Americana

De um modo geral, a cidade parece limpa, está sob controle. Com avenidas largas, bonitas. 

E tem o Malecón, né? para o bem e para o mal, porque quando a maré tá braba entra pela cidade.

O Malecón de Havana é uma icônica avenida e calçadão de 8 km que margeia a costa norte, conectando a Havana Velha ao bairro do Vedado. É um símbolo da cidade, popularmente usado pelos locais para caminhar, pescar e se divertir, sendo uma atração imperdível com vista para o mar.

E aí tem muita ruína, muita ruína. Mas não tem dinheiro pra restaurar e não é prioridade. A prioridade é a saúde.

É impressionante alguns restaurantes… Hotéis maravilhosos… fechados porque o turismo está em baixa, né… Os hotéis lá são todos do governo. É… 

Na rua pediam chocolate, remédio. Thelma, a guia turística, já tinha avisado: “Gente, leva, bota uns comprimidos na bolsa, sabe?” Cartela de Dipirona, essas coisas, que o povo pede, pede isso. Porque aí também tem aquela coisa da estrutura, né? Toda doação, ela é destinada pro governo para distribuição. Oficial, né. Exatamente. E aí tem quem vai pelas vias legais e tem quem não quer ir, e tudo mais.

Quando conseguem remédios por outras vias, tem que pagar, entendeu? Porque tem gente que recebe doação, daí vende. E existe muita gente vendendo nas ruas, as pessoas ficam em pontos estratégicos e te oferecem os medicamentos que não se encontram na doação do governo. É um câmbio negro, exatamente, porque a doação chega, mas nem toda doação chega via órgãos oficiais.

A guia, às vezes, se contradiz: “Não dá ajuda, porque se você der pra um você tem que dar pra outro, se você não der pros dois eles brigam entre eles, eles ameaçam a guia”, entendeu?Duas mulheres com uma criança nos pediam ajuda e, ao descobrirem que iríamos ao ICAP fazer a doação, chegaram lá antes de nós.

Chegaram a investir contra a guia porque, o que que elas queriam? Queriam remédio. Mas você doa lá no ICAP e, muitos, não conseguem o medicamento.

Tinham os pedintes. Em pontos turísticos, é. Sempre tem. Saímos de um restaurante, o La Moneda Cubana. Eu tirei umas fotos… “Gente, que maravilha isso aqui”, né? E aí você desce, e aí… o pessoal em cima, né.

Conversei com uma moça que estava grávida. Ela pediu dinheiro. “Ah, vou, vou te dar aqui”. Aí, fiquei conversando, “É o seu primeiro bebê?”. Ela falou: “Não, é o terceiro”. Eu tentei abortar, tentei, é… eu queria abortar, mas já passou da época… (Em Cuba é permitido por lei). Perguntei: “Você é daqui?”. Ela respondeu: “Não, sou de Guantánamo”. Continuei: “Lá você trabalhava?”. Ela: “Não, eu vim pra cá procurando trabalho. Mas não tem.” E muitos de fato não conseguem. 

Aí ela concluiu: “É, diz que chegaram, dois, dois navios aí… Mas só chega pros grandes”. (Vejam, a gestante se ressente da ausência de oferta de emprego e tem dúvida da lisura da distribuição das doações)  

Universidades

Muitos jovens se queixam das universidades fechadas, da falta de oportunidade. Mas a opção política urgente é cuidar do essencial. Mas você não vê isso traduzido na rua como uma coisa melancólica, sofrida, entendeu? Esses jovens foram criados sempre dentro dessa estrutura de penúria, vamos dizer assim. De falta, né? Sempre de falta. É. (O número de protestos subiu de 30 em janeiro para 130 em março, Fonte: Revista Veja 03/04/2026) “Nós só queremos estudar. E não tem como, porque não tem luz, não tem, né? E a gente faz o protesto, ele não é político”. Eles não são contra a ideologia, né? Exatamente, mas essas gerações vão se distanciando da “Revolução”.

Algumas atividades cívicas permanecem, como a cerimônia do Cañonazo:

A cerimônia do Cañonazo em Havana é uma tradição diária na Fortaleza de San Carlos de la Cabaña. Às 21h, soldados com uniformes do século XVIII encenam o disparo de um canhão que, na época colonial, sinalizava o fechamento dos portões da muralha da cidade. É um evento cultural popular, com vistas panorâmicas da cidade e dura cerca de uma hora.

Saúde

Visitamos também uma Policlínica, que é referência no cuidado com a saúde, onde acontece todo o atendimento. Estão em todos os bairros, denominados como distritos. Ali tem um protocolo específico a seguir. Onde eles precisam focar nas ações. O médico de família acompanha a saúde de todos. Cada bairro tem o seu, e não pode ter, acho, que mais de 500 famílias sob cuidado. Aí tem o médico de família, a enfermeira de família, que moram naquela localidade, atendem, encaminham. Conhecem a região. Eles têm uma organização inacreditável em perspectiva para, no mínimo, 5 anos. Então, em termos de saúde, educação, tudo é planejado. É onde eles se sustentam, né? Eles se orgulham. Então, eles têm treinamento para acidentes, desastres, terremotos. Pra ataque. Eles têm tudo previsto. E aí você vai entendendo que tudo o que acontece lá é produto desse planejamento com a participação das assembleias com o povo, como está explícito no livro que reli após a viagem: “Fidel e a Religião Conversas com Frei Betto”.

(Neste livro já clássico, lançado em 1985, Fidel Castro falou a Frei Betto sobre religião durante 23 horas. Foi a primeira vez que um Chefe de Estado de um país socialista concedeu uma entrevista exclusiva a respeito deste tema sempre atual). 

Emigração

As pessoas com quem conversávamos diziam que o número da emigração tá cada vez maior, o número de nascimentos cada vez menor. É. Isso é uma preocupação para eles. Com o Programa Mais Médicos 13.000 foram para o exterior. 

No Brasil o programa Mais Médicos (2013-2018), contou com uma expressiva participação de médicos cubanos para atuar em mais de 4000 municípios, em áreas remotas, carentes e periféricas do país. A parceria, intermediada pela OPAS Organização Pan-Americana de Saúde, envolveu milhares de profissionais, mas foi marcada por controvérsias sobre a remuneração, que era parcialmente retida pelo governo cubano

Dos que saíram de Cuba, 2.000 não retornaram. E aí pediram ao governo para levarem seus familiares. A partir de negociações, foi autorizado a saída de mais 6.000 famílias. Hoje são 100.000. Os que emigraram.

 E hoje a população que permaneceu lá são os da terceira idade, basicamente. E aí os mais velhos têm essa memória com o Fidel, com o irmão dele, o Raul Castro. Então a nossa guia turística, uma senhora de 76 anos, disse assim:  

“A gente que esteve um dia com o Fidel, que ouvia ele falar, a gente tem uma outra relação com essas questões: a revolução acima de tudo”.

Nos últimos quatro anos, 15% da população foi embora. Em Havana, 20%. O jovem está saindo não necessariamente por uma questão ideológica, mas por uma questão econômica. (De 2021 para cá, a população encolheu de 11,2 milhões para 8,6 milhões conforme aponta a edição de 03/04/2026 da Revista Veja).

O país é fortíssimo, só por isso não implodiu. Capacidade de organização e planejamento, saúde, educação e segurança, é isso que está sob ataque. E essa capacidade deles de se organizar é que os sustenta.        

Combatentes desembarcando do iate Granma em 02/12/1956 –  Iate Granma restaurado e exposto no Museu Granma

Quando fomos ao Memorial Granma, e vimos a embarcação que foi usada para transportar 82 combatentes da Revolução Cubana do México para Cuba em novembro de 1956…  Ela, aquela velha senhora, contando a história é uma coisa de doido! Você vai se envolvendo naquilo, tem hora que dá uma emoção. Você fala: “Gente, de onde se tira tanta força?”. Diz que ele, o Fidel,era muito povo, muito junto, e perguntava: “Vocês querem Cuba livre? Então nós vamos fazer Cuba livre”. Eu entendo isso, mas o nosso problema é que todos envelhecem e morrem. Quem vai ficar, né? E essa geração de agora, como é que ela encara isso tudo? 

Eles, os mais velhos, reverenciam a Revolução. Porque a Revolução os tirou da ditadura de Fulgêncio Batista. Por exemplo, quando Fidel começou a montar seu exército, não podia ser soldado dele se não fosse alfabetizado. Entendeu? Então, a educação é uma base e é por isso que eles aguentaram esse tempo todo. “Cada cubano tem a missão de defender o país.” Então as gerações antigas, eu acho que é isso que segura, entendeu?

A violência urbana está localizada em pequenos pontos. Eu acho que são coisas menores.

Mas a população está exausta, cansada. Houve, em meados do mês de abril, um raro ataque direto a um símbolo. Depredaram a sede do Partido Comunista em Morón, no centro de Havana. 

Sustentação do ideal 

As escolas fazem a manutenção do ideal, entendeu? A Pátria acima de tudo. A soberania, o bem-estar social. Porque no dia que a gente visitou a Policlínica, eu saí de lá… assim, falta remédio, falta isso, falta aquilo. A luz acaba… Então! As pessoas morrem em função disso. O médico falou assim pra gente: “Vocês imaginam o que é um bebê numa incubadora na UTI, a luz acaba e os médicos ficam se revezando, ambuzando a criança por 8 horas”. Sabem o que é ambu? 

O termo correto, embora informal, é ambuzar, derivado de “Ambu” (nome comercial de um dispositivo de ventilação manual). No entanto, em contextos técnicos e formais, recomenda-se utilizar a expressão “ventilar manualmente com bolsa-válvula-máscara” (BVM).

E tem bebê que morre. E as mães ficam desesperadas. Porque isso não era a realidade deles, a saúde funcionava. Entendeu? Eu saí da Policlínica com uma questão que era: “Gente, como que esse povo se sustenta psiquicamente diante disso?”. E a resposta é: o ideal. O líder não está mais, mas ele plantou aquele ideal de soberania, de bem-estar…

No Hotel

 Hotel Nacional  e ruas quase às escuras.

Revolucionária foi a autorização governamental, em março, para que cubanos residentes no exterior abram negócios e invistam em infraestrutura. Os hotéis, hoje, trabalham em parceria. Geralmente com Espanha, Itália e França. Nos contratos 51% da propriedade e lucros para Cuba e 49% para o parceiro. Mas, eu suponho, que saúde, educação, energia, não podem ser privados.

À noite as ruas estão escuras. Você vê o hotel assim, o hotel todo iluminado, aí você olha… Cuba é toda plana. É linda. Luz, só pra quem tem gerador. Em estabelecimentos comerciais: hotéis, uma padaria ali acesa, um bar ali…  E em pontos estratégicos, que é onde pode entrar dinheiro.

Não tivemos problema sério em nenhum momento, mas o elevador quebrou. Prometeram arrumar no dia seguinte. Sabíamos que não fariam isso: até a peça chegar, até pagar a peça… 

Então resolveram o problema da seguinte forma: os mais jovens foram transferidos para os quartos dos andares mais altos, os mais velhos mais para os andares de baixo. Houve um sistema de cooperação, digamos assim. Eu me acomodei no segundo andar.

Os banheiros em boas condições assim… limpos, porém às vezes sem água, sempre sem papel higiênico, tinha lencinhos dobrados, então variava. Eles iam distribuindo o que tinham.

A comida era sempre muito farta, isso me chamou muita atenção, em todos os lugares.

Geralmente eram pratos servidos. Sem grande variedade. A carne é muita. Um contraste com as restrições impostas à maioria. Entendo que era cardápio para turista, que é a fonte de renda do momento. Mas aí a gente via reduzir um pouco: um dia não tinha guardanapo, outro dia não tinha ovo no café da manhã e, num dia mais crítico, faltou água no hotel. Se comprava na rua. Em restaurantes e lanchonetes adquire-se a alimentação e mais um líquido: água ou suco, cerveja ou vinho.

O hotel, categorizado como 3 estrelas, tem uma super infraestrutura. Tem uma piscina gigantesca, bar na piscina. Tem uma piscina de mar ao fundo. O hotel era excelente, com gerador, mas aí você via o que? As marcas da falta de atenção pra estrutura, então um madeirame, uma parede, entendeu? A limpeza eventualmente eu supus que ali foi passado um pano, mais ou menos. Tudo tem a ver com o racionamento. Economia de água, de energia, de deslocamento de funcionário, de tudo. Né? Fazem um investimento maciço no turismo. 

Um dos protocolos sugere aos turistas americanos hospedagem em hotéis e resorts, Airbnb e, principalmente, em casas de famílias licenciadas, ou seja, casas particulares, necessitando declarar na solicitação uma das 12 categorias de viagem autorizadas pelos EUA. 

A População 

É uma população majoritariamente negra. Tem muito negro. Muito negro. Assim, vestidos a caráter, em determinadas regiões que são mais turísticas, para ganhar um trocado. Mas pouca coisa.

Agora, você não vê ninguém dormindo na rua. Você não vê criança pedindo. E mesmo quem nos abordou nos pontos turísticos não tinha uma aparência de mendigo esfarrapado. Não eram mendigos. Pessoas em situação de rua, não se vê. Não tem. Você não vê.

Então, a informação que a gente tem é que as doações chegam. São três as prioridades: 1) crianças até treze anos. Que recebem leite e carne. 2) os maiores de 65 anos que recebem arroz, feijão e atum. 3) as doações também para pessoas com deficiência (PCD). Então, crianças com extrema desnutrição pode ser que não seja verdade, né?

São 64 anos de embargo total. Eu acho que eles aguentaram esse sufoco muito mais do que qualquer país suportaria. Como é que isso chega nas casas das famílias, né? A inflação tá a 13,42%. O litro de gasolina custa 50 reais. 

Mas a realidade já está se transformando. Tem questões que estão postas: é preciso reformar o modelo econômico. A perspectiva de negociação de Cuba e Estados Unidos já está na mesa, em conversação. Parece que a remessa de dinheiro para a ilha está liberada de novo.

Empresas privadas com até 100 funcionários já estão autorizadas, com certo controle do Estado. Não há déficit habitacional, mas há diferenças significativas com os anos 1960, 70 e 80. Hoje podem comprar e vender as suas casas. Cuba, aparentemente, deve seguir o modelo da China ou o Vietnã: economia de mercado, burguesia e informação. Com um mínimo de igualdade para todos os cubanos. 

Entretenimento         

Espetáculo no Cabaret Tropicana

A questão da prostituição tem sido mais visível. Víamos muitos homens e mulheres nos restaurantes, no hotel onde nos hospedamos. Mas foi uma coisa assim, muito velada. Eu reparei e vi duas mulheres, pensei: “Isso aqui tá parecendo um programinha”. Uma me chamou a atenção pela vestimenta, que era uma roupa mais transparente, calcinha, sutiã à mostra.

E aí, lá no ICAP Instituto Cubano de Amizade com os Povos, eles nos esclareceram: “Então, essas pessoas optaram por seguir esse caminho. Elas sempre tiveram assistência e estrutura a partir das suas escolhas. A nossa condição econômica hoje não permite tanto que possamos dar esse apoio. Anteriormente, a gente tinha uma assistência de saúde que hoje a gente não consegue manter”. Ou seja, as pessoas precisam sobreviver.

E teve gente da comitiva que ficou muito incomodada com isso. Nós fomos ao Cabaré Tropicana, famoso, desde a época que Cuba era considerada um quintal dos Estados Unidos. Cuba sob ataque e o povo rindo e dançando. Porque é isso, entendeu? Tem que viver. E outra, quem se apresenta pra turista, dançando e cantando, não pode se apresentar chorando…

Sentido de Coletividade

O sentido de coletividade deles, independente do governo, é muito grande. Enfrentaram três tipos de restrição: o embargo econômico, o bloqueio e depois o “período especial” que são as consequências do bloqueio. Que provoca carência do essencial: remédio, comida, assistência, né? Quando começaram os cortes de energia eles se organizavam da seguinte forma: as famílias dormiam com todas as luzes acesas, as tomadas ligadas. Das 02 às 04 horas da madrugada a energia chegava. Era o momento de realizarem as tarefas básicas: lavar roupas, cozinhar. Se tinha arroz, fazia arroz e dividia com os vizinhos. O vizinho tinha repolho. Fazia repolho, dividia com os vizinhos. Então isso sempre foi assim nos últimos 64 anos! Isso faz parte da vida deles, que é distribuir. É a coletividade.

A cota de 20 litros de combustível destinada à embaixada brasileira chega a cada 15 dias. Estivemos lá para uma visita e as luzes se apagaram por duas vezes. A distribuição da energia segue um organograma, com prioridades para hospitais. Esse é o sentido do coletivo.

Eu resumo assim: tudo para todos, o bom e o ruim.

O Sistema    

Fidel Castro (1959 a 2008),  Raúl Castro (2008 a 2018) e Miguel Diaz-Canel (2018 a …)

Um educador enumerou algumas das muitas dificuldades que assolam a ilha nesse momento:

a) A educação está difícil em relação aos professores, escola funciona só em dias alternados. b) A saúde está caótica. Saúde mental gravíssima. c) Turismo muito em baixa. A maior parte dos hotéis estão fechados. Transporte público praticamente parado. e) Fornecimento de água muito afetado. Caminhões pipas não suprem tudo. f) A população tem acesso ao médico, mas não ao remédio. g) Dificuldade de movimentar a ajuda recebida. h) Cuba perdeu apoio de governos como Venezuela e Rússia. i) Saneamento básico deficitário.

j) A crise só aumentou com o sequestro de Nicolás Maduro, isso a gente sabe. Em 31 de março de 2026, tivemos a primeira entrada de petróleo, depois de três meses. É suficiente para apenas duas semanas. Os Estados Unidos asfixiaram todos os ingressos de divisas para o país. O que estamos vivendo é um estado de guerra. Uma guerra silenciosa, uma Faixa de Gaza sem bombas.

 Mapa da ilha

Cuba, oficialmente República de Cuba, é um país insular localizado no mar do Caribe, na América Central e Caribe. É um país que compreende a ilha de Cuba, bem como a Ilha da Juventude e vários arquipélagos menores. 

Cuba é, também, aquela ilha comunista, situada a apenas 145 km da Flórida, que dá o que falar. Com sol escaldante, comida boa, música de qualidade, gente acolhedora e solidariedade à vista. Por isso, Priscila, escritora e educadora tem o olhar no futuro. Desconsiderando as impressões inapropriadas de muitos, foi prá Cuba. Foi lá prá ver. Gostou tanto que vai voltar. Em breve. 

Publicação:

UMA TIA QUE ERA BRUXA – UMA CASA QUE ERA BARCO, UMA TARTARUGA QUE ERA DIVA 

Autora: PRI VARELLA – Editora: LITERISSIMA EDITORA – Edição: 1 – Ano: 2024

https://www.youtube.com/watch?v=4j9HIa11PSc – Sueño con Serpientes – Chico Buarque e Silvio Rodriguez

Wilson Oliveira

Wilson Oliveira - Mestre em Artes pela UFMG. Professor aposentado da UFOP onde ocupou o cargo de Pró Reitor Adjunto de Extensão. Diretor do Grupo Teatral Encena com o qual desenvolve pesquisas na área de Artes Cênicas. É torcedor do América Futebol Clube.

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