1 – NAS CURVAS DO DESTINO
Francisco França

Os passos que você dá para fugir do seu destino são os mesmos que o levam até ele. (Sófocles – Édipo Rei)
Quando irreversivelmente chegamos ao mundo, e nos tornamos indivíduos, tudo já funciona há muito tempo sem a nossa participação. Não sabemos o lugar que ocuparemos, nem o papel que nos é determinado neste arranjo. À medida que crescemos, tentamos formatar uma identidade dentro dos modelos apresentados, mas o trabalho irá se desenvolver por toda a vida e nunca estará pronto. Aos poucos aprendemos andar, distinguir os alimentos, tomar banho, tarefas que conduzem à nobreza do cotidiano e permitem levantar-nos pela manhã com objetivos e energia para alcançá-los.
Para ajudar nessa incumbência que recebemos ao nascer, a mente oferece várias ferramentas, como a importante e estranha técnica usada para ludibriar a nós mesmos, fazendo-nos pensar que estamos imbuídos de bons sentimentos quando, na verdade, buscamos somente tratar nossas feridas. Cobrir o sentimento que não desejamos com ação generosa de ajuda ao próximo constitui poderoso instrumento de suporte ao eterno processo de ajuste, embora em muitos casos não funcione, uma vez que a melhor forma de se ver livre do incômodo seria reconhecer e tratá-lo.
Outro recurso importante no processo de adaptação ao mundo atua nas manifestações que recebemos a todo momento, ao enquadrar nossos sentimentos e gestos aos padrões elaborados socialmente, ensejando o acolhimento no meio em que vivemos. Muitas vezes pensamos estar lidando com nossas ideias quando, na verdade, usamos as idéias do grupo. Desejos genuínos são permutados, sem percebermos, por outros adquiridos de fora e passamos a adotá-los como desenvolvidos em nossa cabeça. É difícil entender os mecanismos através dos quais os impulsos externos ocupam o lugar dos desejos genuínos. Mas os resultados são óbvios. Quando nossas posições individuais se baseiam nos parâmetros do grupo, somos bem aceitos e nos enxergamos de maneira mais favorável do que enxergaríamos caso não adotássemos esse comportamento.
Embora possamos contar com muita gente, o percurso rumo ao autoconhecimento é solitário e difícil. Olhar para dentro pode conduzir à libertação, mas no caminho veremos também imagens que não gostamos e que pensávamos ter sido descartadas. Temos de superar nossas fragilidades e desproteções para que elas não atrapalhem o processo. E conviver com o desapontamento, muitas vezes.
Se pararmos em uma lanchonete à beira desta estrada, e alguém perguntar qual seria o caminho, é preciso reconhecer que não saberíamos responder. Talvez estivéssemos tão perdidos quanto ele. Ainda somos a língua que aprendemos na escola, as músicas da Jovem Guarda, os santos perfilados na igreja? As palavras que funcionavam como etiquetas daquilo que deveríamos obedecer, subestimando os sentimentos que falariam por nós, sem interferências? Quanta experiência, conhecimento, prática já ficaram para trás e agora não têm uso? Vamos manter esta bagagem ou corrermos o risco de perder a alma ao tentar transformá-la em nova? O corpo não consegue seguir sem a alma para lhe segurar. Mesmo assim, de vez em quando, descobrimos-nos percorrendo ruas que não existem mais. Como se ainda existissem.
Canto de Mim Mesmo
(Walt Whitman)O passado e o presente murcham – eu os preenchi, eu os esvaziei.
E prosseguir para preencher minha próxima dobra do futuro.Ouvinte aí em cima! O que você tem para me confidenciar?
Olhe para o seu rosto enquanto eu assobio o crepúsculo.
(Fale honestamente, ninguém mais está te ouvindo e eu fico só mais um minuto.)Será que me contradigo?
Muito bem, então me contradigo
(sou vasto, contenho multidões).Eu me concentro naqueles que estão próximos, espero no batente da porta
Quem já terminou o trabalho do dia? Quem terminará o jantar mais cedo?
Quem deseja caminhar comigo?Você falará antes que eu parta? Ou já será tarde demais?
Nosso mundo é aquele que a mente percebe. É nele que transitamos, acontecemos. Onde os santos vêm nos visitar no horário de folga. Nele o futuro repete o passado, porque é o que temos. O passado é a única referência para continuar, e o amanhã são as imagens projetadas em nossa frente a vida inteira. São as pessoas que foram embora, sumindo sem se despedir, sem dizer as palavras guardadas para este momento.
É o cantinho onde ainda conseguimos manter alguns sonhos preservados das perdas recorrentes. Os sonhos aplicados para retornarmos às necessidades da alma, que ainda permanecem. O alinhamento às nossas ações do dia a dia, ao encanto que o cotidiano oferece. Nos sonhos os fatos regressam como nós queríamos que tivessem sido. As histórias que não deveriam terminar. Árvores do quintal, os passarinhos, o pequeno córrego que já fora um rio, o Clube de Leitura do Grupo Escolar, colegas de recreio, os fícus do Largo de Cima, as novenas de Santo Antônio.
Através dos sonhos chegamos ao penúltimo capítulo, quando iniciamos a volta.
Ainda sem saber o destino, continuaremos seguindo.
2 – A POLENTA NA VIDA DOS IMIGRANTES ITALIANOS
João Alberto Vizzotto


Na minha infância em Colina, minha cidade natal, todos fomos todos criados à base de polenta. De manhã, polenta mole com leite, café e açúcar — um mingau milagroso. À tarde, minha avó preparava a polenta e, quando pronta, derramava-a sobre um pano esticado na mesa da cozinha para esfriar. Quando estava morna, comíamos com frango, carne de porco e até bacalhau ensopado.


Morava em uma casa com quintal enorme, no lado de cima da linha do trem.
A estrada de ferro nos levava a destinos diversos. Em Bebedouro, cidade próxima, havia um ramal que nos levava a Monte Azul Paulista. Mas raramente íamos até lá — a cidade tinha pouco a ver com Colina. Ficava lá pelas outras bandas. De Colina, íamos muito a Pitangueiras, onde moravam uns tios-avós.
Minha avó, Pasqualina Funari, saiu da Itália aos 17 anos, acompanhada de seu irmão Tommaso, meu tio-avô. O titio Tommaso, como o chamávamos, já havia vindo da Itália, casado, e se estabelecido em Pitangueiras. Passados alguns anos, voltou à terra natal para cumprir o tal “tiro de guerra”. Lá, convenceu minha avó a vir para o Brasil com ele.
Minha avó, ingênua, achava que o Brasil era uma cidade vizinha a Malito, na Calábria, onde morava, e que, passados uns dias, voltaria para casa. Ledo engano. Veio e nunca mais viu os pais, nem os irmãos que lá deixara.
As más línguas dizem que minha avó veio ao Brasil porque a tia Ada, esposa do titio Tommaso, precisava de uma empregada. Levando a irmã, arrumava uma ajudante sem precisar pagar salário. E assim, entre tropeiros, trilhos e polenta, começou nossa história.
OS ANTEPASSADOS: OS VIZZOTTOS E OS FUNARI
É preciso reverenciar e falar dos que vieram antes de mim. Afinal, toda boa história começa com um desembarque.
Meu bisavô, Giuseppe Vizzotto, e sua esposa, Bianca Martelli, aportaram em Santos vindos de Ferrara, na região da Emília-Romagna, no vale do rio Pó. Trouxeram consigo os filhos Anselmo, Piero, Carolina e Alberto — este último, meu avô, ainda com dez meses de idade e cara de quem não sabia o que o Brasil lhe reservara.
A Emilia-Romagna, como tantas outras regiões italianas no final do século XIX, era pobre de dar dó. A vida por lá se sustentava na agricultura de sobrevivência, na olaria, na carpintaria e no lavrado duro. Meu bisavô, como tantos outros, veio em busca de um futuro menos sofrido — ou, pelo menos, de um prato mais cheio.
Um parêntese para contar a história da pelagra.
Pelagra, Milho e Manicômios: Uma História Italiana
No final do século XIX, o norte da Itália convivia com uma doença que os antigos chamavam de peste, mas que na verdade não passava de uma carência nutricional com nome pomposo: Pelagra.
A enfermidade era marcada pelos famosos “3 Ds” — dermatite, diarreia e demência — uma tríade nada invejável. O resultado? Os doentes eram tratados como loucos, internados em manicômios e estigmatizados como se fossem leprosos.
O curioso é que a causa não estava em miasmas misteriosos ou em maldições medievais, mas sim na dieta: milho, milho e… mais milho. Sem preparo adequado, o cereal roubava da população a vitamina B3 (niacina), e a saúde ia pelo ralo.
Nos vilarejos pobres e zonas rurais, o cardápio era monotemático: polenta, pão de milho, sopa de milho. Resultado: a pelagra florescia como erva daninha.
Os médicos finalmente perceberam que não era contagiosa: apenas bastava melhorar a alimentação. Os pacientes eram mandados de volta para casa. Lá, reencontravam o velho milho — e a doença voltava como um parente inconveniente que nunca sabe a hora de ir embora.
A Itália, sempre criativa, resolveu dar um destino especial aos seus “loucos pelágicos”: os manicômios das ilhas San Servolo e San Clemente, na lagoa de Veneza.


San Servolo: de mosteiro a hospital militar, e depois a manicômio temido. Ali, a insanidade era tratada com disciplina monástica e celas austeras.
San Clemente: outro endereço nada turístico, onde pobres, lavradores e sobretudo mulheres eram confinados sob o rótulo de incuráveis.
Ambas as ilhas se tornaram símbolos de exclusão. Melhorar da doença não bastava: o estigma era permanente.
O destino dos pelágicos revela uma contradição quase teatral: Melhoravam com pão e carne, mas eram devolvidos ao milho. Não eram contagiosos, mas eram isolados como pestilentos. Tinham cura, mas eram tratados como loucos.
É como se a sociedade tivesse decidido que a ignorância era mais confortável do que a ciência. Afinal, é mais fácil culpar a insanidade do que admitir que a polenta diária estava matando lentamente a população.
Por fim, a pelagra foi dominada. Hoje, San Servolo abriga um museu que expõe documentos e instrumentos médicos, lembrando-nos do passado sombrio. Já San Clemente, em um giro irônico do destino, virou hotel de luxo — onde hóspedes brindam com prosecco sem imaginar que, um dia, ali se confinavam os “loucos do milho”.
Assim, a pelagra não é apenas uma história médica: é uma parábola sobre pobreza, estigma e a capacidade humana de transformar um problema nutricional em tragédia social.
Voltando aos meus bisavós.
Ao chegarem em Santos, foram levados para São Paulo, à famosa casa de transição — hoje o Museu do Imigrante —, casa administrada por um italiano ilustre, Conde Rodolfo Crespi, industrial radicado no bairro da Mooca, que em sua homenagem, teve batizado o estádio do Juventus Esporte Clube, “o moleque travesso”.
Lá na dita casa, eram avaliados fisicamente e, depois, recrutados por algum fazendeiro de café. Não só os italianos passavam por ali, mas todo imigrante que desembarcava de navio com esperança nos olhos e calos nas mãos.
De lá, a família foi embarcada num trem com destino a Bonfim Paulista, perto de Ribeirão Preto. Foram trabalhar na lavoura de café, em condições que, sem exagero, beiravam a escravidão. Milhares de imigrantes foram criados — ou melhor, moldados — nas fazendas paulistas, entre enxadas e promessas.
Do meu bisavô, pouco se sabe. As histórias têm um lapso até os dezoito anos de meu avô Alberto. Nessa idade, ele já era figura conhecida nas paragens de Pitangueiras. Além de exímio carpinteiro, tocava trompete na banda de música — o que, convenhamos, já lhe dava certo prestígio e charme.
Foi num desses trabalhos com madeira e martelo que ele acabou na casa do titio Tommaso. E lá, entre tábuas e partituras, se engraçou com minha avó.
As más línguas — sempre elas — dizem que minha avó viu em Alberto uma chance de escapar da vida de empregada da titia Ada. No primeiro pedido, aceitou casar-se com ele. E assim começou mais um capítulo da nossa história, com um sim que misturava amor, liberdade e talvez um pouco de estratégia doméstica.
DE CARROÇAS A CAUSOS: A TRAVESSIA DOS VIZZOTTO
Do casamento de meus avós nasceram seis filhos — cinco meninas e, por fim, meu pai, Moacyr, o caçula e único homem. Um reinado feminino até que ele chegou, trazendo equilíbrio e, dizem, um pouco de confusão.
Quando meu pai tinha cinco anos, a família se mudou de Terra Roxa para Colina. Meu avô, homem de ofícios e reinvenções, trocou as rodas pelas engrenagens: abandonou a fábrica de carroças e charretes e passou a beneficiar arroz e comercializar cereais. Naquela época, Colina era um celeiro de grãos.
A cidade trocou os latifúndios pelas pequenas propriedades, dando assim uma nova forma de distribuição de riquezas, mas a cana de açúcar tirou da terra a arte de fornecer alimentos. Fica hoje o doce amargo de cana e poluição de usina a dar cheiro de azedo, num ar que antes cheirava à primavera.
Meu pai cresceu entre sacas e silos, e quando a juventude bateu à porta, ele resolveu abrir também a política. Foi vereador por várias vezes e chegou a ocupar a vice-prefeitura da cidade. Um homem de fala firme e ideias inquietas.
Foi na Câmara de Vereadores que conheceu uma moça de nome forte e presença marcante: Hilda Augusto Martins, vereadora da vizinha Jaborandi. Mais tarde, os dois viriam a formar uma família. E aí, caro leitor, é que eu entro nessa história. Mas isso é assunto para mais adiante.





