OS MÚLTIPLOS ASPECTOS DA EXPERIÊNCIA DE SER MÃE – MÉDICA GLAUCIA GALVÃO E A PSICANALISTA ISABELA SOARES

Publicado em: 29/05/2026 às 05:30

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Não sabemos se a foto acima se refere à escultura em uma praça de Zaragoza, Espanha, ou foi produzida por IA. De uma forma ou de outra ela reflete com propriedade a situação encontrada pelas mães no cotidiano. Muito antes do nascimento do bebê começam os apertos, que se repetem pela vida. No mês das Mães, o Echo tem a honra de conversar com duas mulheres brilhantes, que cultivam o cuidado que faz a diferença nos momentos complicados. 

O primeiro texto reproduz depoimentos que  mães de bebês prematuros  fizeram à Dra Gláucia, incansável na luta para salvá-los. Relatam suas experiências com emoção e sensibilidade, agradecendo à Dra. Glaucia a sua enorme dedicação.  

O segundo conta a história que começou em 2011 com o desabafo de uma mãe exausta diante dos desafios da maternidade e se transformou em uma grande rede de acolhimento e escuta entre mulheres. Isabela Soares, a Bebel, nos  fala sobre maternidade real, feminismo, saúde mental e sobre a trajetória do “Padecendo no Paraíso”, comunidade que há 15 anos conecta mães através da troca de experiências e afetos. 

O Echo homenageia as Mães através desta duas mulheres notáveis. 

1 – A VIDA DO BEBÊ PREMATURO E SUA PASSAGEM AO ESTADO DE SUJEITO (EXPERIENCIA CANGURU)
Fotografias: Glaucia Galvão
@glauciagalvaobh

Antes dos depoimentos,  Odette Castro expõe sua experiência pessoal para ressaltar a importância da missão assumida pela Dra. Glaucia: 

“Ao conhecer o importantíssimo trabalho da Dra. Glaucia Galvão com bebês prematuros e suas famílias, me vi há 30 anos, mãe de uma menina que precisou permanecer por um período na UTI de uma renomada maternidade de Belo Horizonte.

Meu relato não fala dos cuidados médicos, mas da ausência de cuidado humanizado com mães e, sim, também com bebês.

As visitas eram rigidamente controladas: 30 minutos pela manhã, 30 à tarde, sem colo, sem toque, sem afeto possível.

As informações eram protocolares. Não havia espaço para acolhimento nem qualquer olhar para a saúde mental da família.

Ninguém era grosseiro. Todos eram extremamente profissionais. E apenas isso.

Por tudo que vivi e por saber que hoje existem profissionais como a Dra. Glaucia, transformando essa realidade, deixo aqui, em meu nome e no de tantas mães que sabem exatamente do que estou falando, o meu mais sincero obrigada.”

Com vocês, Dra. Glaucia:

“Entre 2018 e 2019, comecei a documentar, com fotos e depoimentos, o dia a dia de recém nascidos prematuros e suas famílias na Unidade de Cuidado Intermediário Neonatal Canguru (UCINCa), na Maternidade Odete Valadares, em Belo Horizonte. Organizei as fotos para uma exposição acadêmica, e elaborei nuvens de palavras como fruto dos depoimentos. As nuvens de palavras representam os sentimentos vivenciados pelos pais em dois momentos distintos: quando seus bebês deixavam a Unidade de Tratamentos Intensivos Neonatais (UTIN) e passavam para a UCINCa, onde ficariam sob os cuidados de suas mães com a ajuda da equipe do hospital, e no momento da alta hospitalar. 

Em 2022 (isto é, cerca de 3 anos após o nascimento dos bebês prematuros), coletei depoimentos perguntando sobre o sentimento que ficou na memória destes pais a partir da experiência daquele período.  E a palavra que eu dou, assim, para o projeto, é esperança.”

Nuvens de palavras na chegada à UCINCa imediatamente após saída da UTI e 3 anos depois.

Relatos de algumas mães

Davi

A palavra que sempre envolveu a gente foi esperança. Esperança que moveu a gente o tempo inteiro, e como sempre todo mundo falava com a gente aí: é dia após dia. Então foi assim: dia após dia, com muita esperança. E foi assim que deu tudo certo. 

Aí hoje a palavra é gratidão, porque é muito a agradecer, a todo mundo que contribuiu para a evolução do Davi naquele momento. Todo mundo teve uma entrega muito grande, e eu agradeço muito a todos os profissionais, a toda a entrega que todo mundo teve, não só com ele, mas comigo, com meu marido, durante aqueles 3 meses que a gente passou.

Mariana

 Foram dias de alegria, dias de choro, e de muito aprendizado também. Era uma luta de ganho de peso diário e de perda de peso também. Mas convivi com várias mãezinhas na mesma situação, e isso me motivava a lutar com mais força, sem desistir. Fiz várias amizades lá dentro, era um convívio ótimo. E hoje a Mariana é uma criança linda, alegre e muito amada. Porque não é fácil, e alo com elas: não desistam, não desistam, tenham força, foco e fé. E que Deus abençoe a cada um. 

Theo

A prática de ser mãe, o fazer, o agir, o cuidar… O processo na UCINCa foi leve, sem sombra de dúvidas. Os ensinamentos foram cruciais para tudo que eu ainda iria viver mais tarde. Até por aqueles que não tive muito contato, por várias questões, mas reconheço que na minha ausência foram eles que cuidaram, medicaram e deram todo o aconchego que o Theo precisou. 

Bento

Lembranças do quanto era prazeroso as rodas de conversa. O sentimento que eu tenho pela UCINCa pelo período que eu tive aí, foi de gratidão. Tenho muita gratidão pelo que eu passei, pelas pessoas que estavam comigo. Foi essencial para minha construção, para a construção da mãe que tinha acabado de nascer junto com o Bento. Então… como eu disse, eu saí muito preparada para cuidar dele. Então… tenho muito sentimento de gratidão. Não tenho nem palavras para expressar, sabe? A UCINCa foi muito essencial na minha vida. O sentimento que a gente tem é de alegria, né? Sonho realizado. Graças a Deus taí com a gente, né, crescendo. Toda vez que eu lembro, não tem como esquecer, né? Toda vez que eu lembro, nossa, dá vontade de chorar. Lembrança boa de passar o que nós passou e hoje ele tá aí, né? Nó, é muito bom. Nossa, muito bom mesmo. Eu só tenho a agradecer a vocês tudo, todo mundo aí, eu só tenho a agradecer, nó…

Além dos depoimentos, recebi fotos atuais feitas pelos pais desses bebês. São imagens cheias de cor e de vida. 

Uma nuvem de palavras foi montada com os sentimentos relatados pelos pais em depoimento atual sobre a memória daquele período. Nela aparecem em destaque as palavras “esperança” e “gratidão”, sendo esta última dirigida ao coletivo (equipe do hospital, outros pais e famílias), o que nos fala da importância de tecer uma rede eficaz de apoio. 

Nuvens  de palavras na chegada à UCINCa imediatamente após saída da UTI e 3 anos depois.

É esperança. Esperança. As pessoas não sabem o que é realmente esperança. Não praticam essa esperança. Então, é uma coisa que hoje ainda me emociona muito. Relembrar todos aqueles dias e ver ele hoje desse tamanho, sem nada, sem nenhum tipo de sequela, super bem, muito feliz, muito alegre. Ele sente esperança, eu acho que eu passo isso para ele. 

Passa o desespero e a angústia pelo momento vivido, as palavras que mais prevalecem nas lembranças anos depois são esperança e gratidão direcionadas a rede de apoio. É de fundamental importância que políticas na saúde perinatal e na área da infância tenham como estratégia de cuidados o planejamento das redes de apoio. 

As vivências na UCINCa deixam, portanto, marcas a longo prazo, uma vez que, mesmo anos após a alta, a transmutação de sentimentos negativos em positivos ainda se mantém, facilitando o cuidado com o RNPT, o comparecimento às consultas de seguimento e o vínculo entre pais e filhos, ressignificando, assim, a prematuridade.”

Concepção de vídeo: Mauro Figa e Glaucia Galvão

Edição: Lucas Galvão

O vídeo pode ser acessado por algum dos links abaixo:

https://youtube.com/watch?v=hECBuiZe4Ss&feature=shared

https://youtu.be/hECBuiZe4Ss – legendas em português

https://youtu.be/zjyZJap983U – legendas em espanhol

https://youtu.be/zjyZJap983U – legendas em francês 

https://youtu.be/Okg2VMSZWjU – legendas em inglês

2 – PADECENDO NO PARAÍSO
Isabela Soares

Sou Isabela, mas pode me chamar de Bebel. Sou mãe, esposa, arquiteta, dona de casa, empreendedora, psicanalista, feminista e muitas outras coisas. Ninguém diz que ser mãe é uma tarefa fácil, mas a gente só tem noção da dimensão da tarefa depois que têm filhos. Vivi os primeiros meses da maternidade com a certeza de que eu era capaz de ser uma boa mãe, uma boa esposa e uma boa profissional. Até que um dia eu acordei e me dei conta que estava completamente errada!

Na ânsia de ser capaz de tudo eu me perdi. De repente tudo estava dando errado. Era março de 2011. Sem saber como agir com meu filho que tinha quase 2 anos na época, fiz um post pedindo ajuda para as amigas que estavam passando pela mesma coisa. Assim, há 15 anos, criei, despretensiosamente, “Padecendo no Paraíso”, um grupo de mães no Facebook. A maternidade pode ser bem solitária, naquele espaço encontrávamos acolhimento e nossas vozes eram ouvidas. Inicialmente falávamos muito sobre gravidez, parto, amamentação, fraldas e tudo o que envolvia filhos pequenos e um universo que não ia muito além da porta de casa.

Com o passar dos anos o grupo foi crescendo e as discussões foram se aprofundando. Amadurecemos como mães, passamos a sentir a necessidade de mais, de discutir temas como inclusão, bullying, prevenção ao abuso sexual infantil, combate ao racismo, luto, depressão, feminismo, profissão, sustentabilidade e uma infinidade de assuntos relativos ao cotidiano das mães que querem criar filhos melhores para o mundo. E que querem ter espaço para aproveitar a vida, viajar com a família, sair com as amigas, pular carnaval.

Padecendo no Paraíso foi meu filho não planejado. Deu uma reviravolta na minha vida. Me fez renunciar à arquitetura para me dedicar às pessoas. Me ensinou o significado da sororidade. Todo mundo quer que o mundo mude, mas não quer mudar o que tem dentro de si. A mudança que vem de dentro é difícil, às vezes dolorosa, mas é recompensadora. Padecendo te tira dessa zona de conforto. Aprendemos muito acompanhando as centenas de mães que compartilham conosco um pouco das suas vidas.

Hoje não sou a mesma pessoa que criou o grupo, além de mudar a forma de me ver como mãe, mulher e profissional, minha forma de ver o mundo também mudou. Acompanhei de perto a história de muitas mães, que se separaram, que ficaram viúvas, que perderam filhos, que mudaram de país, que têm filhos com deficiências e lutam pela inclusão. E durante esses anos, passei por uma depressão em 2016, por um câncer de mama em 2019. Pela pandemia, e agora, a menopausa. Além disso fiz uma transição de carreira, troquei a arquitetura pela psicanálise, com a bagagem de escuta desses 15 anos, hoje atendo mães.

Padecendo no Paraíso também não é o mesmo, não é mais um grupo, é uma comunidade que se expandiu para muito além de um grupo secreto no Facebook. Estamos mais ativas no Instagram e nos grupos de Whatsapp, em 2020 lancei um livro chamado “Sem Paraíso e sem Maçã”, contando algumas histórias que saíram do grupo. Em julho, comemorando os 15 anos da nossa comunidade, lançaremos o livro Padecendo no Paraíso, coordenado por mim e escrito por outras 26 mães, com prefácio da Cris Paz e flores de Odette Castro. É assim, de pétala em pétala, que construímos um mundo melhor para nossos filhos, e filhos melhores para o mundo.

Dra. Glaucia Maria Moreira Galvão

Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (1983).Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal de Minas Gerais (2007) e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde - Saúde da Criança e Adolescente (2021). Neonatologista da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (1986-2020) e da Maternidade Santa Fé (1986 a 2022) Plantonista da Maternidade UNIMED Grajaú . Tutora Estadual do Método Canguru pelo Ministério da Saúde. Professora Adjunta de Pediatria na Faculdade de Medicina da FAMINAS-BH e da Faculdade de Medicina Ciências Médicas MG.. Membro da Associação La Cause des Bèbès e da The International Marcé Society for Perinatal Mental Health (grupo Brasil). Fotógrafa. Estágio pós-doutoral vinculado ao Programa de Pós-graduação École doctorale , recherche em Psychanalyse et Psychopathologie d’Université Paris Cité. Seu projeto é intitulado “A investigação da intencionalidade do bebê através de fotos instantâneas” está inserido na linha de pesquisa “Les savoirs du bébé”.

Isabela Soares

Isabela Soares - Bebel - mãe, esposa, arquiteta, dona de casa, empreendedora, psicanalista, feminista e muitas outras coisas.

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