ALAIR FAULA – UMA VIDA ENTRE OS INDÍGENAS

Publicado em: 30/04/2026 às 10:14

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Alair tomando banho no Rio Xingu e com uma indigena Xerente.

 Alair Faúla é a irmã mais velha de uma família numerosa. De voz calma, olhar atento, é muito bem-humorada. Em momentos engraçadíssimos, a mitologia popular se sobrepõe à sua narrativa dos acontecimentos reais. E quando isso ocorre é impossível não recordarmos da produção indianista de José de Alencar, os romances O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), que consolidaram o indígena como o mito fundador da brasilidade na literatura do século XIX. Mas, quero te avisar, caríssimo leitor, que aqui você não vai encontrar, como no livro acima citado, uma

“Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”. 

Alair optou pelo cuidado com as pessoas. Vejam uma pequena retrospectiva:

1954 – Nasceu em Bom Jardim, área rural de Peçanha/MG. Na cidade cursou o primário e o ginasial.

1971 a 1975 – Aprendeu enfermagem no Hospital Santo Antônio, em Peçanha/MG. 

1975 a 1980 – Em Belo Horizonte, especializou-se na área e trabalhou em CTI no Hospital Vera Cruz e Santa Mônica, atual Hospital Belo Horizonte.

1980 a 1983 – Atuou como enfermeira no Parque Nacional Indígena do Xingu, na Aldeia Jarina dos índios “Kayapó”, em Mato Grosso (MT). Fica em São Félix do Araguaia, considerada a maior reserva do gênero no mundo.

1983 a 2008 – Atuou como enfermeira no estado do Tocantins, norte de Goiás. Ali trabalhou com os “Krahô” (na Terra Indígena Kraolândia, nos municípios de Itacajá e Goiatins, os “Apinagés” (região do “Bico do Papagaio”, no norte do estado) e os “Xerente (próximo ao município de Tocantínia, a 70 km da capital Palmas).

2008 – Retornou a Peçanha e, atualmente, mora em Bom Jardim, zona rural. 

O início


Alair – Naquele tempo não fazia curso pra trabalhar no hospital Santo Antônio. Quem comandava lá eram as freiras, as “irmãs de caridade”. Ali assimilei os primeiros passos da enfermagem. Ao longo do tempo, eu me tornei até uma boa profissional. O que eu aprendi em alguns anos em Peçanha me ajudou muito na área de saúde, no SUS. Em Belo Horizonte atuei no Centro de Tratamento Intensivo (CTI).  

Minha prima, Socorro Perpétuo, foi trabalhar com comunidades indígenas e voltou muito empolgada. Ela me falou bastante sobre suas atividades e me despertou um grande interesse. Era um bom salário, não que eu tenha ido pelo salário. Eu queria ter uma experiência diferente, conhecer aquele programa do governo. Não tinha esse negócio de concurso, era por indicação. As áreas indígenas eram muito carentes. Três meses de experiência eram necessários para adaptação e aceitação dos indígenas também. Então eu aceitei. Aí fui pro Xingu. As condições de vida por lá não eram fáceis. Eu estava bem preparada. Sabia que não seria um mar de rosas. Aí fui e gostei demais.  

A Língua

Dicionário da língua Xerente

No Xingu, o primeiro contato foi tranquilo. Me receberam muito bem, foi uma alegria. Eu, já cheguei assim, simpatizando com o povo e com o lugar. E, também muito curiosa. Fazia tradução de cabeça. Aprendi até a cantar. É. Como não encontrei anotações, fiz uma tradução muito popular da língua deles para o português. Se a gente não aprendesse a língua, pelo menos o básico, seria impossível. Mas os indígenas ficavam o dia todo junto com a gente ensinando, falando e mostrando tudo. Eles tinham muita vontade de ter um branco lá cuidando deles, para dar alguma assistência. Eles se sentiam muito superiores a gente. Era como se eu lá, fosse uma empregada, uma estranha. Então, pra eles era um status. 

– Temos um branco aqui, temos um Paraíba aqui! Nós temos aqui uma pessoa que trabalha para nós!

Como era uma aldeia mais isolada, ninguém gostava de ficar lá. Nem médico. A gente tem que respeitar muito a cultura deles. Ainda que a gente não concorde, mas a gente precisa respeitar aquilo ali e dar a cara a tapa, né?

No Tocantins eu achei lá um Dicionário Escolar (Xerente- Português/Português/Xerente) de Akwê Mrmêze e Ktâwankô Mrmêze. A tradução foi feita por um casal de missionários evangélicos. Me ajudou muito. Aquilo foi um verdadeiro curso de línguas na minha vida. Lá já tinha professor, já tinha os missionários, já tinha os índios que falavam bem o português também.

Parque Nacional do Xingu – Posto indígena Jarina – Aldeia de Kayapó

Viviam bem isolados, numa aldeia muito distante. Os únicos meios de transporte eram canoa ou uma balsa. Levava mais de dois dias de viagem pra chegar. Não tinha pista de pouso.. Não usavam roupas. Possuíam um senso de direção, audição, visão e olfato muito desenvolvidos. Não tinha lixo na aldeia. Eu observava os costumes, né?

Hábitos – Alimentação e bebidas

Tinham uma alimentação diferente: não comiam nada frito. Tudo era assado, não tinham nem vasilhas. Eles não trabalhavam com cerâmica. Então era tudo na base do fogo mesmo. Carne, abóbora, mamão, peixe, tudo cozido. Tinha muita comida. Aquele pessoal comia, assim, dia e noite. Enquanto tinha um torresminho de paca. Era canoa transbordando de peixe. Jogava na fogueira, mal esquentava e já estavam comendo. E como eles não comiam sal, eles comiam muita pimenta. Criança de quatro anos passava pedaço de peixe na pimenta e punha na boca. Aprendi a comer pimenta com eles, gosto muito de pimenta porque uma vez me acabou o sal. 

O trabalho era partilhado. No Xingu não tinha desnutrição porque tudo era de todos. Se cassassem uma paca, chegava com aquela paca na aldeia, todos comiam. Tinha um grupo de pessoas para caçar, outros para pescar, outros para plantar as roças. Plantavam mandioca, banana, batata. A Funai era responsável por levar a minha alimentação. E quando acabava a comida eu me alimentava da comida deles. E muito mel com farinha. A gente não podia mastigar, quebrava o dente.

“As bebidas tradicionais do povo Kayapó (Mebêngôkre) são aquelas baseadas em recursos naturais da floresta e da agricultura de subsistência, com destaque para o cauim, uma bebida fermentada. A produção de alimentos e bebidas é parte fundamental da cultura, com ênfase na mandioca, tubérculos e frutas. É consumida em festas, rituais e reuniões comunitárias”

Costumes – Festas

Parecia que não tinha dia e nem noite. Era uma coisa assim, completamente estranha. Então, de dia, estavam todos aqueles homens dormindo e não trabalhando. Era uma coisa assim muito engraçada essa. Não tinha noite pra eles. E maravilhas de festas. 

“As festas e rituais Kayapó (Mebengokre) são fundamentais para fortalecer a cultura, envolvendo danças, pinturas corporais (preto e vermelho) e cantos que contam a história do grupo e sua relação com a natureza. Dividem-se em cerimônias de nominação (nomes “belos”), ritos agrícolas/caça e ritos de passagem, realizados no centro da aldeia”.

À noite tinha gente comendo, tinha gente cantando, tinha gente dormindo. Tinha gente conversando. Mas na época da seca era só povo dançando. Na época da chuva não dava pra ter as festas. Pra viver bem, viver em paz, o indígena não precisaria mudar muito.Mas o certo é que a felicidade deles foi embora com esse contato constante com o homem branco. Com tais conclusões, Alair parece concordar com  o filósofo Jean Jacques Rousseau (1712-1778), que em seu primeiro texto,  Discurso sobre as Ciências e as Artes, em 1750, faz dura crítica à civilização, entendida como a causa de todos os males e infelicidade na vida humana. Em contraste com a predominância da bondade humana em seu estado de natureza (condição hipotética e pré-social onde o homem, o “bom selvagem”, vivia isolado, livre, igual e guiado pela piedade e autopreservação”.

No Tocantins – tribos indígenas Krahô, Apinagés e Xerente

Me transferi para o Tocantins, no norte de Goiás, de 1983 a 2008. Tive um pouco de dificuldade, mas lá acabei ficando por 25 anos. Mas me acostumei. Precisava ter muito cuidado. Tinha muita doença, muita desnutrição, muita bebida, muita briga entre eles. Tinha muita cultura, mas tinha muita coisa difícil também. Não podia deixar o seu dinheiro à vista. Eles pegavam as coisas (No Xingu, não!) e levavam na aldeia, para mostrar. Até uma vassoura que eu levei foi parar na aldeia!(Na cultura popular brasileira esse caráter mais cômico nas relações, entre o suposto selvagem e o branco enganador, esteve presente em variadas festas populares como a marcha carnavalesca “Índio Quer Apito”, composta em 1960, por Haroldo Lobo e Milton de Oliveira:

Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito,
Se não der pau vai comer!

Lá no bananal mulher de branco
Levou pra índio colar esquisito.
Índio viu presente mais bonito.
Eu não quer colar! Índio quer apito!)

Alair continua: eles queriam ver as nossas roupas, blusa com botão. Traziam um monte de artesanato para trocar pelos botões. Pra fazerem adornos.  Produzem artesanato com fibras, cerâmica, adornos corporais e arte plumária (cocares).

Usavam bebidas fermentadas, o cauim. O café é consumido com frequência, geralmente pela manhã.  

Não comiam nada da gente. Certa vez, dei um gole de Ki Suco pra uma indígena. Essa mulher arrumou uma vomitação. Eu fiquei apertada. A casa encheu de gente. A mulher passando mal. Foi preciso eu fazer de novo, tomar e ela confirmar que era aquilo que ela tinha tomado. Foram proibidos de comer qualquer coisa na minha casa. Casa que nem porta tinha e tudo ficava exposto por lá. Olhavam, mas já não pegavam nada. 

Nas regiões por onde eu trabalhei não tinha ainda essa invasão de garimpeiro, às vezes tinha algum madeireiro. A Funai e o os índios mesmo já estavam lá, chegaram antes.Mais tranquilo né? 

O contato do indígena com o homem branco 

No meu ponto de vista, pelo que eu vivi, pelo que eu vi no Tocantins, o contato do indígena com o branco não é bom não. Divide muito os indígenas. Vivendo isolados,eles são mais felizes. Eles não absorveram aquele conhecimento que a gente tem,aqueles cuidados que a gente tem. Não tem isso. As coisas pra eles não duram nada.Compram qualquer coisa, amanhã aquilo está aos pedaços.

Não têm muito compromisso. Não prestam um bom serviço. Não tem aquela responsabilidade que a gente tem.

A felicidade deles foi muito afetada. E quando recebem benefícios, não se ajudam, não contribuem com a comunidade e não trazem nada prá aldeia. Já absorveram demais o lado negativo da nossa sociedade: as doenças, os vícios. Ou seja, aprenderam rapidinho.Criam discriminação entre eles mesmos.

Tinha que deixar que andassem com as próprias pernas. Por outro lado, também é difícil, porque o poder público tem que vigiar e proteger as terras por causa das invasões. O ideal é que pudessem viver sem a nossa presença ali.

Os que tiram proveito

Tem muito projeto do governo sem planejamento. Gasta-se muito no estado do Tocantins. Com a tribo Xerente, por exemplo. E os resultados são quase invisíveis.Porque é ilusão achar que vão arranjar um emprego prá mulher indígena na Funai, ou vou dar livro pro indígena e ele vai estudar. Oficialmente dizem que estão integrados,mas… Essas tribos não vão se integrar. Não encontram lugar pra trabalhar na cidade. Muitos fizeram enfermagem e pedagogia. Mas têm limitações pra trabalhar no nosso meio. Os poucos que prosperam são os que não moram mais na aldeia. Esse contato do jeito que é feito pelo branco, não é legal, não funciona.

Agora, o inferno é que tem muita gente que tira proveito disso. Tem muita ONG, muito dinheiro. Quando a coordenação estava a cargo da Funai

Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) órgão indigenista oficial do Estado brasileiro, vinculado ao Ministério da Justiça, responsável por proteger e promover os direitos dos povos indígenas”.  

a prestação do trabalho ainda era melhor. Olhavam de forma diferenciada a vida indígena. Depois as ações de saúde passaram para a Funasa Fundação Nacional de Saúde autarquia vinculada ao Governo Federal brasileiro, responsável por promover a saúde pública e a inclusão social por meio de ações de saneamento básico e saúde ambiental, especialmente em municípios pequenos e áreas rurais.

Esse novo órgão tinha muito dinheiro mesmo. Surgiram, então, os projetos mirabolantes, coisa que não tinha nada a ver com a realidade daquele lugar. 

– Ah, vamos fazer banheiro para esse povo! Aquilo transformou-se numa fonte de contaminação na aldeia. Não fizeram um preparo com eles pra poder receber aquilo ali. Não sabiam usar e virou uma contaminação. Não eram consultados, eram apenas informados das mudanças. Foi desastroso. 

Fizeram casas de telha, casas iguais as casas do homem branco. Sem ensinar como manter aquilo. Eu vi trator ali na aldeia acabar por causa de um parafuso. Estragando,enferrujando. Lá não tem o hábito de cuidar para conservar. Para preservar. Pra eles, senão não faz falta. 

E, por exemplo, esses que entram na política, a gente vê muitos por aí, no Tocantins. Já tem muito indígena que é vereador. O político branco faz muito mais pelas aldeias que o indígena vereador. 

Tradição apagada

E presenciei uma história comum naquela região. Eu vivia mesmo na aldeia. Mas quando ia à cidade mais próxima observava que estava cheia de indígenas morando lá. Muito desprezados e discriminados pela população local. Mas como tinham um dinheirinho, como funcionáriozinho (motorista, enfermeiro), queriam que o seu menino estudasse na escola dos brancos e, gradualmente, começava-se o processo de esquecimento da própria cultura. Ficavam até com vergonha da gente por não saberem falar português. E, quando aprendiam, se sentiam superiores aos outros da tribo ainda não alfabetizados.

Os velhos vão morrendo, os novos estão se lixando prá tradição do seu povo. Até nas festas. Poucos participam. Depois que adquirem mais conhecimento através de cursos,aí é que não se misturam mais. Muitas tribos não têm mais nem “a lua”.

“A relação entre os povos indígenas brasileiros e a Lua é profunda, envolvendo astronomia, agricultura, mitologia e espiritualidade. A Lua é observada não apenas como um astro, mas como uma entidade viva, influenciando diretamente o cotidiano, as marés, o plantio, a colheita e a pesca. Algumas lendas, como a dos Xavantes, contam que a Lua originou-se de um jovem que, ao tentar quebrar um ovo de ema no peito, sentiu dor e rolou até o fundo de um lago”.

Quando registram as crianças não querem mais colocar o nome de índio não. No Xingu mantém-se o nome da tribo. No Xerente já optam pelo nome dos brancos: José, Pelé. Eu acho um erro o cartório registrar assim. Não deveria, né? O nome do branco vem em primeiro lugar. Fulano de tal, depois o nome indígena. É. Batizavam uma mesma criança mais de uma vez. Quando se desentendiam com o padrinho anterior, arranjavam outro. 

– Como é que você quer que se chame esse menino, Pelé? – Eu quero colocar porque é um jogador muito, muito bom. O nome? Pelé da Silva. Pelé de Souza.

O nosso contato com os indígenas foi feito de maneira errada. Nos Estados Unidos os indígenas são bem desenvolvidos, sem envolvimento com órgãos públicos. Eles que se viraram e estão vivendo, e pelo pouco que eu sei, que eu vejo falar, que vivem bem. 

(A sabedoria popular sempre se espelhou no cinema para criar uma mitificação em torno dos silvícolas americanos, mas o que a história nos aponta é que

“Os povos indígenas dos EUA são os habitantes originários da América do Norte, com mais de 600 etnias. Incluem grupos como Sioux, Navajo, Apache, Cherokee e Inuit, com culturas diversas, desde nômades a sedentários. Enfrentaram severo declínio populacional e perda de terras devido à colonização, hoje resistindo em reservas e na sociedade moderna”.)

A Enfermaria

Estava preparada para encarar as possíveis dificuldades. Não tinha energia (luz elétrica),não tinha água encanada, era só água de rio. Ocupei uma casa na aldeia que era tida como uma enfermaria, mas de palha.

Nos últimos meses que trabalhei no Tocantins, havia muito doente. Até por causa da desnutrição, problemas de pele. Tinha muito lixo, leishmaniose, malária,  verminose. O tratamento da tuberculose era difícil. Tratamento longo: a gente precisava ficar de cima,levando tudo na mão, cuidar direito.

Combatemos essas doenças de forma eficaz, com muita assistência, muita visita às aldeias. Então, era assim, bem puxado. O deslocamento era bem limitado. Às vezes ia a pé, ia de canoa, ia de bicicleta. Dependia da distância do local. 

Já a hora que o paciente estava nas mãos do pajé, complicou. Os pajés também já tinham absorvido bastante a malandragem. Ficavam ali bebendo, pegando as coisas do corpo do índio, desfigurando pra não levarem pro hospital. 

Os partos 

No Xingu não cheguei a fazer nenhum parto. A mulher ia ter menino no mato. Ganhava as crianças, quando a mãe começava a sentir dor, ia lá pro mato e, às vezes, até sozinha. Mas o pai nunca participava. A mulher vinha de lá, com o bebê. Já tinha passado no rio para dar o banho. Ia pra casa, acendia a fogueira pra esquentar aquela criança.

Agora lá no Tocantins, na aldeia dos Xerente, já procuravam a enfermaria. Às vezes, o pai estava presente. Geralmente, tinha a mãe ou uma irmã. Uma pessoa da família. E aí aplica-se anestesia. Tudo parto normal. 

Quando era cesariana a gente trabalhava na cidade. Optaram também por  parteiras indígenas. Com muita sabedoria, eu vou te falar, viu? Aquilo virava até menino na barriga das mulheres. Tinham muito conhecimento. 

Quando nascia uma criança com deficiência, como me disseram, eles tinham que enterrar. Porque essas não conseguiriam sobreviver ou não estariam aptas a trabalhar.Por isso não se via um índio com o mínimo problema físico. É cultural isso. Se nascessem duas crianças também só se criava uma. Acreditavam que uma das crianças acabaria morrendo mesmo. No entendimento deles, um era filho de gente, a outra seria um espírito maligno. Aí escolhia-se o mais saudável. 

Mas a gente tem uma explicação lógica prá esse comportamento. Às vezes a mãe não tinha leite suficiente para duas crianças. Eles não têm outro tipo de alimentação para o recém-nascido. 

Eu presenciei o caso de uma mãe que teve dois meninos. Quando cheguei só restava um. A mãe estava toda descabelada, uma coisa horrorosa. De tanto levar puxão de cabelo, tapa na cara, para espantar o espírito maldito. O que parecia uma ação espiritual, na verdade, deflagrou uma depressão pós-parto. 

A saúde

Quanto à saúde, no Xingu, eles eram bem saudáveis, embora muito sem resistência.Não tinham contato com doenças. Às vezes alguns ferimentos. As doenças que mais apareciam por lá era malária, a tosse porque fumavam muito. Às vezes, até as crianças já usavam cachimbo. Hoje, tem equipes que vão até o Xingu para vacinação em massa. Morreu muita gente, muita criança, numa epidemia de sarampo, antes da minha ida pra lá. Não existia vacina. Os indígenas mesmo não aceitavam nem médico. Tinham medo da contaminação. Não aceitaram bem as medicações. Por exemplo, um indígena foi picado por cobra. Eu tinha o soro antiofídico, mas não deixaram aplicar. Quando viram aquela seringa com uns 10 ml de soro, levaram o doente pra aldeia. Pegaram raiz,pegaram folha, fizeram defumação. E o paciente sobreviveu. Eles tinham seus remédios, estavam muito preparados pra curar certas doenças. Então, no início, pra fazer uma injeção numa criança, precisava aplicar também nos pais. Para que todos do grupo tivessem a mesma experiência. Não era fácil. 

Família

Tinham suas regras para a constituição da família. Já se escolhia o noivo para uma criança de quatro anos, por exemplo. Os meninos crescem sabendo das artes da caça. Na época da puberdade as meninas são levadas para um quartinho, ficam isoladas ali por muito tempo aprendendo as funções de uma dona de casa. 

Os homens indígenas, os do Tocantins, tratam as crias de modo diferente. Os meninos são deles, só que eles não criam não. Serão criadas pelos avós. A gente vê muito sofrimento: o marido é um cachaceiro, bate na mulher. Mas não separa não, porque se separar vai vender as crianças. Os filhos são do homem. É da cultura. E aí, por exemplo, se parir filha mulher já é motivo pra separação. E arranjam outra, pra ver se nasce um menino. Se nascer, vai ser do clã do pai.

Era bem comum ver a indígena velha caçando homem novo, branco, da nossa sociedade. Principalmente se a velha tivesse dinheiro, né? Víamos também um homem velho caçando menina bem novinha. 
E tinham outras combinações, não como as sugeridas por Carlos Drummond de Andrade, no poema “Quadrilha” (1930), onde

“João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”,

mas sugestões mais brejeiras como certos versos da marcha carnavalesca “Quem Foi Que Inventou o Brasil?” (1934), autoria de Lamartine Babo:

… Depois
Ceci amou Peri
Peri beijou Ceci
Ao som…
Ao som do Guarani!

…Depois
Ceci virou Iaiá
Peri virou Ioiô

Pois em algumas aldeias, às vezes, as mulheres e os homens tinham até quatro esposos/esposas. A gente podia ver três, quatro irmãs casadas todas com o mesmo marido. E viviam tão bem. Aquele homem vinha chegando da roça com aquele peixe, e uma lhe trazia um copo com água, vinha a outra levando uma comida, a outra a esteira pra ele se sentar. Viviam numa união, uma coisa assim tão bonita de se ver. 

Eu estive numa aldeia onde a mulher tinha até três maridos. Com a morte de muitas meninas ainda na infância, restaram poucas mulheres. Então, alguns homens se relacionavam com a mesma mulher. Tinham até um tempo combinado de quando iam partilhar a mesma cama. 

Certa vez, cheguei de tardinha e encontrei uma mulher chorando. Não estava doente. Saudade do marido. Do quarto marido, que morrera. Ela lembrava com saudades, de coração doendo. Me deu até raiva, sabe? Ela dizia: O que eu vou fazer agora? Casar novamente? E, olha, que ela ainda tinha três maridos!

Costumes: 

Os bichos e a natureza

Os Kayapós em caçada de jabutis, em julho de 1982 e preparando a onça para assar.

Os indígenas têm muito respeito pelos bichos. Eles já admitem que tem que brigar pela sua terra, né? Mas eles consideram que a terra, a água, essas coisas assim, não tem dono não. 

Na época da caça eles poupam determinados animais. Por causa do acasalamento, se estavam prenhas ou na época de parir. Tem a hora certa pra matar. Era uma coisa bem interessante de observar. 

Habitação

Tinham habilidades de construção. Depois de uma chuva torrencial, que destruiu minha casinha, argumentei que ali seria impossível guardar as caixas de remédios, os medicamentos. Em quatro dias eles reuniram um grupo de homens, fizeram uma casa para mim, mas que casa boa! Sem um prego, sem uma ferramenta, tudo com amarras, tudo muito bem-feito.

Eles faziam rede de praia, também de tiras, tinha muita rede. As casas eram assim: tinha uma madeira grossa no meio e madeiras mais fracas em volta. E aí vinha umas quatro redes, onde as mulheres dormiam. Os homens deitavam na rede de cima, embaixo a mulher na redinha do chão. E aquela mulher tinha que passar a noite soprando fogo,porque eles não tinham roupa, estavam todos nus. Fazia frio e a mulher era encarregada de ficar atiçando o fogo.

Nudez

No Xingu, eles andavam nus. Eu não tinha coragem. Porque até o corpo deles é diferente do da gente. Tem fio de cabelo, só na cabeça deles. Cabelo pra eles, já era só o da sobrancelha, mas tiravam a sobrancelha também. Às vezes, dentro de casa, com foguinho aceso, os homens na presença de todos, ficavam de cócoras  (agachados) tirando os pentelhos. Passavam aquelas meninas, aquelas mocinhas nuas, no meio de todos. Ninguém nem olha. Parece piada, mas é cultural.

No Tocantins, usavam roupas na parte inferior do corpo. O tronco permanecia nu. A pintura corporal, feita com recursos naturais como urucum e jenipapo, possuía grande simbolismo na cosmovisão.

Guerras

Existia muita guerra entre as tribos, muita disputa. No Xingu mesmo, não. Quando cheguei lá teve um massacre de índio com branco. Você acredita que eu não fiquei sabendo enquanto eu estava lá? Eu via o pessoal vermelho saindo em direção a uma fazenda distante da aldeia. Não comentavam comigo, não chamavam atenção. Quase uma regra. A gente também não podia perguntar. Então quando eu soube dos combates foi pelo rádio. Eles já ficam preparados. Mas a gente sabe que no caso de uma invasão, aí a coisa fica feia. Mas nunca presenciei. 

Religião: cristãos e evangélicos

O Brasil foi um dos países onde os jesuítas tiveram mais dificuldades pra catequizar. Os indígenas brasileiros dissimulavam. Aceitavam a religião católica; com 23 dias já aceitavam tudo. Mas não praticavam nada daquilo. Eles falavam, meu Deus, não sei o que, mas depois voltavam às suas próprias crenças. 

Teve também lá um coitado de um padre, que batizava os nativos, celebrava missa, fazia as coisas e tal. Depois, esse padre caiu no agrado de uma indígena lá e teve até filho. Quando isso caiu no ouvido da tribo, esse padre foi expulso de lá. Isso foi uma porta aberta para a entrada dos evangélicos.

Ao notarem um crucifixo na parede da minha “casa”, me perguntaram:

– Mas, o que é isso? Um crucifixo. Aí, fui explicar: esse aí é o Nosso Salvador. O Deus que nos criou. E falei, mais ou menos por alto, como é que ele veio e deu a vida por nós. Ele foi morto assim… Ficaram apavorados. Vocês mataram o salvador de vocês! Fiquei apertada e mudei a versão. Foi ação de um povo mau, afirmei. – Você conhecia ele? E espalharam a história. A aldeia inteira veio prá ver. Cadê o cacique de vocês que não impediu? Alguns pensavam que aquilo tinha acontecido na minha família. Foi bem difícil explicar, desfazer o mal-entendido. Até tirei o crucifixo da parede. 

Certamente agora, com a chegada dos evangélicos, a história é contada de outra maneira. Pretendem evangelizar os índios. No Xingu não tinha essa de catequese, nem de evangélico, nem de católico.

Os evangélicos atuavam inicialmente como professores e sem remuneração da Funai. Parecia que estavam ali de graça, mas no fundo a gente sabia que eles tinham as ONGs dando algum suporte pra eles lá. Mas era tão difícil interferir na cultura local. Interromper ou acabar com os ritos de feitiçarias. Os nativos acreditavam piamente naquilo. Com o trabalho dos evangélicos eles paravam de beber, paravam de fumar, até aí tudo bem. Mas de repente eles começavam de novo. O trabalho andou pouco. Só um ou outro aceitava e levava aquilo, a evangelização, mais a sério. Não deu muito fruto não senhor. 

Ainda hoje, os indígenas 

me ligam. Eles querem que a gente mande dinheiro. Eles pedem dinheiro inclusive prá passear. Estão numa situação pior. Os brancos, põe a culpa no silvícola, dizendo que esses não querem saber de nada. E vão injetando dinheiro. Mas não resolve. Isso aí não dá uma base, não é uma missão.

Não é possível estabelecer relações de amizade. A gente tem um carinho grande por eles, mas não dá pra confiar. Eles não são responsáveis. É só uma relação cordial. Não conservei nenhum desses costumes dos índios, não, nada. 

Hora de voltar prá casa 

Naquela época a gente podia sair das aldeias por uns quinze dias, de três em três meses. Mas eu não quis sair. Com medo de perder a vontade de voltar. Queria aprender mais. Anos depois, chegando em Brasília escutei aqueles fogos. Fui saber que era Copa do Mundo. Tinham até ganhado. Eu não sabia. Eu me comuniquei com a Funai/Brasília só por necessidade: algum remédio, leite. Era quando eu ouvia alguém falar o português. Estava com saudade da minha língua porque eu ficava lá só falando na língua deles mesmo. Carta, levava uns três meses pra chegar lá, quando a minha família escrevia pra mim. Na verdade, eu queria ter ficado lá. Mas ao mesmo tempo eu tinha que vir. Minha mãe teve alguns problemas de saúde, meus irmãos trabalhavam. Eu sou a mais velha, né? Graças a Deus, porque eu pude ficar mais seis anos com ela. Maravilha.

Deixei um pedaço do meu coração lá em Goiás, lá no Araguaia, lá no Tocantins.

Depois de tudo, uma conclusão óbvia: Alair Faula não veio ao mundo para brincar. 

Wilson Oliveira

Wilson Oliveira - Mestre em Artes pela UFMG. Professor aposentado da UFOP onde ocupou o cargo de Pró Reitor Adjunto de Extensão. Diretor do Grupo Teatral Encena com o qual desenvolve pesquisas na área de Artes Cênicas. É torcedor do América Futebol Clube.

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