HAMNET – LOVE STORY

Publicado em: 30/04/2026 às 10:10

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1 – Filme HAMNET E A NOSSA APOSTA NA HUMANIDADE
André Massahud

Há algum tempo fui ao cinema assistir Hamnet e, desde então, o filme não saiu de mim. Ele ficou, como ficam essas lembranças que não pedem licença: vão e voltam, atravessam o silêncio, reaparecem em momentos inesperados. Aos prantos, veio aquela sensação pura e rara de ter sido tocado em algum lugar muito fundo e bonito.

Há algo nas atuações que não cabe exatamente em palavras. É visceral. É quase como se os atores estivessem nos emprestando suas próprias almas, suas entranhas, suas dúvidas e suas dores mais íntimas. Em vários momentos, parece que não estamos assistindo a uma história, mas sendo colocados diante de sentimentos humanos em estado bruto: o luto, a indecisão, a culpa, o desejo de justiça, a dor de existir. E tudo isso sem exageros, sem atalhos fáceis. Há um cuidado imenso em contar essa história a partir de gestos pequenos, com expressões que dizem mais do que qualquer fala. E talvez seja justamente aí que o filme me pega com mais força. Porque ele não tenta nos explicar nada, ele nos convida a sentir e interpretar. E sentir, hoje, é quase um ato de rebeldia.

Esse filme, com a grandeza de suas interpretações, nos escancara esse sentimento de que a arte é mesmo a coisa mais preciosa que temos. Não porque nos distrai do mundo, mas porque nos devolve a ele com mais sensibilidade. Por meio da arte, de forma silenciosa, costuramos compaixão, ensaiamos o perdão, provocamos pequenas e grandes rebeliões, anunciamos outros mundos possíveis. A arte nos desarma. Ela nos faz olhar de novo para o outro, para nós mesmos, para aquilo que a pressa do cotidiano insiste em apagar. 

E é justamente por isso que a arte incomoda tanto. Porque ela nos lembra da nossa humanidade quando estamos seguindo esse projeto de esquecer dela.Num tempo em que tudo parece correr rápido demais, em que as certezas são rasas e os encontros cada vez mais frágeis, a cultura segue sendo esse espaço onde ainda é possível aprofundar. Onde ainda é possível errar, duvidar, imaginar, reconstruir.

É por isso que me veio essa vontade quase íntima de agradecer. A Hamnet, e toda a sua equipe, com destaque para a merecida premiada atriz Jessie Buckley, por me lembrar que a delicadeza também é avassaladora. Porque no meio de tanta dureza, de tanto ruído, de tanta pressa, há algo profundamente humano em ser tocado assim. Em sair de uma obra carregando não respostas, mas sensações. E talvez seja justamente isso que mais importe.

Fico com a lembrança e com o calor dessa experiência que nos renova a crença naquilo que disse Fernanda Torres, que a vida presta mesmo, que a humanidade presta. E que, apesar de tudo, seguimos capazes de criar beleza, de sustentar vínculos invisíveis e de encontrar, na arte, uma forma muito nossa de atravessar o mundo.

A cultura é mesmo a nossa maior aposta na raça humana. É por meio dela que seguimos tentando inventar futuros, sustentar a esperança e, sobretudo, não desistir de sentir. Se a realidade pesa, a cultura insiste em abrir frestas. E por essas frestas, a gente respira, imagina e recomeça.

2 – Série UMA “LOVE STORY” E O PESO DA IMAGEM PÚBLICA
Thiago Leão 

 Atores: Sarah Pidgeon e Paul Anthony Kelly

Mais do que uma narrativa sobre moda, glamour e um casal icônico, “Love Story”, série criada por Connor Hines, se firma como um mergulho no romance histórico e trágico de Carolyn Bessette-Kennedy e John F. Kennedy Jr. A encenação vai muito além dos looks minimalistas e do estilo de vida low profile que marcaram o casal. A obra revela bastidores, expõe as complexas relações entre os membros da família Kennedy e reconstrói uma década em que política, comportamento e moda se entrelaçam.

Ao mesmo tempo, a abordagem dramatúrgica propõe reflexões importantes sobre o peso da celebridade, as dores das expectativas pessoais e a pressão imposta a quem vive sob o olhar constante dos noticiários e tabloides. Assistir à produção é também um exercício de observação sobre o impacto da vida pública na intimidade de um dos casais mais famosos e trágicos da história recente.

Esteticamente, a obra remonta a década de 90 com louvor. Figurinos e cenários recriam, nos mínimos detalhes, o estilo do casal protagonista, transportando o espectador para a atmosfera sofisticada e silenciosa daquela Nova York. A estética que influenciou gerações, volta agora a impactar o presente com o sucesso e a repercussão da série.

O fenômeno não é apenas estético, mas também de audiência. A produção registrou 25 milhões de visualizações nos cinco primeiros episódios, movimentando intensamente as redes sociais e reacendendo o interesse pelo estilo daquela época. Nas plataformas digitais, as buscas sobre o casal cresceram mais de 9.000% no TikTok, um impacto cultural relevante.

A figura de Carolyn Bessette-Kennedy surge como a tradução definitiva do conceito de quiet luxury — o chamado luxo silencioso — e do minimalismo elegante. Como publicitária e assistente da Calvin Klein, ela consolidou uma imagem sofisticada, sem excessos, tornando-se a grande it girl da década. Tudo na concepção visual, do figurino à direção de arte, gira em torno dessa estética refinada.

Seu guarda-roupa, composto por camisas brancas clássicas, saias midi, slip dresses, blazers, tiaras e presilhas sofisticadas, impactou profundamente o mundo da moda e segue inspirando mulheres até hoje. Carolyn permanece como símbolo da máxima de que, muitas vezes, menos é mais.

Outro ponto forte da narrativa é a forma como é retratada a perseguição da mídia ao casal, culminando no trágico acidente aéreo de 1999. As cenas que envolvem paparazzi e a caça predatória à intimidade das celebridades remontam a uma década em que se consolidou uma era agressiva da exposição pública. A demanda insaciável dos tabloides por imagens reais e flagrantes íntimos compõem o pano de fundo da trama.

O teor político que envolve o clã se revela no emaranhado das relações dentro da família Kennedy, uma das dinastias mais influentes e icônicas dos Estados Unidos. Os Kennedy sempre simbolizaram o “sonho americano” de prosperidade, glamour e inteligência. Na trama, Jacqueline Kennedy Onassis aparece retratada como uma mãe extremamente protetora, enquanto a relação de John com a irmã, Caroline Kennedy, é apresentada como um misto de proximidade, conflito e apoio mútuo.

O núcleo familiar é atravessado pelas marcas profundas do luto deixado pela morte do pai, John F. Kennedy. A tensão emocional, a pressão da mídia e o peso do sobrenome ajudam a sustentar a aura que muitos chamam de “Maldição Kennedy”.

O elenco merece destaque. As atuações são convincentes e, em especial, o elenco feminino entrega interpretações fortes e sensíveis. Vale prestar atenção ao trabalho caprichado do elenco em “Love Story”.

Sarah Pidgeon no papel de Carolyn Bessette, Paul Anthony Kelly como John F. Kennedy Jr., além de Grace Gummer e Naomi Watts, sustentam com competência o núcleo principal da obra. 


Baseada na biografia Once Upon a Time: The Captivating Life of Carolyn Bessette Kennedy, de Elizabeth Beller, a produção tem como grande mérito recriar com precisão o ambiente de New York City daquela década, com todo o seu glamour, a pressão midiática e a estética das suas celebridades.

“Love Story” tornou-se, rapidamente, um dos grandes fenômenos de audiência do Disney+ após o lançamento — e não apenas pelo apelo nostálgico. A série acerta ao unir estética, drama, política e crítica social em uma narrativa envolvente, minuciosa e visualmente impecável.

“Love Story” (2026) Elenco: Sarah Pidgeon, Paul Anthony Kelly, Grace Gummer, Naomi Watts/ Criador: Connor Hines /Produção Executiva: Ryan Murphy, Nina Jacobson, Brad Simpson /Disponível na Plataforma: FX / Disney+

André Duarte Massahud

André Duarte Massahud formado em Direito pela Faculdade Milton Campos, estuda Artes Visuais na UEMG. Consultor da Alfa Consultoria em Saúde e Sustentabilidade e cofundador da Trama Coletiva. Possui experiência em projetos de educação, cultura, desenvolvimento socioterritorial e socioambiental, especialmente ligados às periferias e populações vulneráveis. Entusiasta de trabalhos de impacto social,

Thiago Rodrigues Leão

Thiago Leão, formado em Publicidade/UniBh. Formado em História da moda no Museo de la Historia del Traje, Buenos Aires. É um eterno curioso da Comunicação, ama cinema, séries e documentários. Atualmente trabalha na Comunicação da Prefeitura Municipal de Peçanha.

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