É natural – e saudável – que cada um de nós considere a rua, a praça, o bairro em que vivemos e convivemos, sobretudo na infância e na adolescência, como o melhor canto do mundo. É a fase em que quase tudo é novidade e estamos sujeitos, constantemente, a diferentes experiências.
Os dias passavam devagar. Manhãs, tardes e noites bem delineadas permitiam a assimilação de informações e descobertas que, processadas com a carga emocional própria da idade, fixavam-se firmemente em nossa memória.
A plasticidade do cérebro juvenil opera sem limites. O real se integra ao imaginário e conexões, tanto objetivas quanto subjetivas, são constituídas, moldando nossa personalidade e nosso psiquismo. O vínculo afetivo que se estabelece, em tais circunstâncias, com determinado lugar, permanece conosco e nos acompanha até o envelhecer.
“Se você amou muito um lugar, não faça a besteira de visitá-lo”.
(Rubem Alves)
A advertência de Rubem Alves sintetiza uma possível armadilha ao sugerir que o retorno ao local em que fomos felizes – com a ilusão de resgatar o encanto passado, cujo cenário atual, quase invariavelmente, distingue-se da imagem guardada – implica o risco de decepcionarmos.
De acordo com os preceitos budistas, nossas frustrações e sofrimentos decorrem da criação de expectativas e apegos. Se admitirmos que tudo muda (impermanência), inclusive nós, e interagimos com a realidade com consciência e serenidade, sem exigir correspondências às nossas aspirações, aproximamo-nos da paz interior. (Texto Budista)
O que torna esses recantos especiais não se restringe, naturalmente, as coordenadas geográficas ou configurações físico-espaciais, mas às pessoas com quem partilhamos afeto e empatia— elementos que nos confere proximidade, confiança e solidariedade — e, principalmente, à versão de nós mesmos que ali viveu.
Os relatos referentes a eles assumem um caráter autobiográfico: falam mais sobre quem os descreve. Não se limitam apenas a registros factuais; são construções culturais que os reinterpretam sob a perspectiva do presente. Relacionam-se a uma lembrança nostálgica, no bom sentido, que evoca conforto e segurança.
Prevalecem, pois, os significados que atribuímos ao nosso ‘pedaço de chão”, detentor de uma certa mística que somente cada um de nós entende. Isso os faz únicos e superiores a outros destinos, inclusive àqueles reconhecidamente mais dotados de beleza estética, ou mais aprazíveis.
“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” (ou “fale de sua aldeia”). (Leon Tolstói)
A história pessoal, contada com autenticidade, desprovida do escudo protetor do eu idealizado, é transmitida em uma linguagem comum a todos nós. Pondera sobre temas e valores universais, compartilhados pela experiência humana coletiva e, por isso, encontra ressonância atemporal. Não porque todos viveram as mesmas experiências, mas por refletir como elas foram percebidas e sentidas, condição que transcende etnias, culturas e fronteiras.





