Ausier do Cavaquinho

Publicado em: 30/03/2026 às 08:35

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Ausier Vinicius e o livro sobre a sua música

 Ademilde Fonseca

Altamiro Carrilho e Jair Rodrigues

Helena Jobim e João Nogueira

Quando o cavaquinista, compositor e guardião do choro Ausier Vinícius dos Santos chegou em seu fusca incrementado, amarelo e preto, para a entrevista com o Echo da Matta, já sabíamos que a conversa seria muito boa. E foi. 

Reproduzimos abaixo as experiências, sentimentos e reflexões que enriquecem a todos nós. 

– Para começar, conte um pouco sobre você. Quem é Ausier Vinícius?

Meu nome é Ausier Vinícius dos Santos. Nasci em 2 de dezembro de 1961. Sou cavaquinista, compositor e apaixonado pelo Choro. Divorciado, dois filhos, Jéssica e Vinícius, que também é músico.

Sou filho de mãe solo, Maria Aparecida, a Crioula, que marcou muito a minha história, criado pelos avós Minervino e Dona Conceição e também tive uma relação muito carinhosa com minha ex-sogra, Dona Paixão,que considero uma segunda mãe.

– Como a música entrou na sua vida?

Meu contato com a música começou cedo, por volta dos 7 ou 8 anos, quando ganhei um cavaquinho de presente do meu avô.

Naquele tempo convivia com músicos de boas práticas, como Zé Cavaquinho e Zé Bené é Geral Magela. Foi Zé Bené quem me apresentou O Cavaquinho Acontece, de Waldir Azevedo,  disco que mudou tudo para mim. Ele me entregou o disco e disse apenas:

-“Vê se gostas!”

Foi amor à primeira escuta. A partir dali passei a estudar e admirar profundamente a obra de Waldir Azevedo, que se tornou meu mestre absoluto. Ele era um músico autodidata, tocava seguindo o coração.

– Começou a se apresentar ainda jovem?

Sim. Ainda adolescente, aos 14 anos, toquei como acompanhante na inauguração do coreto que a Sra. Eneida Vieira conseguiu erguer em Peçanha no lugar do antigo, que havia sido demolido e no conjunto do Niltinho.

Esses foram os primeiros momentos em que percebi que a música poderia ocupar um lugar central na minha vida.

Também tive ligação com grupos e músicos da região, como a Banda Lira e outros nomes muito presentes no ambiente musical da época.

-Mesmo sendo músico, você também tinha outra profissão, não é?

Durante muitos anos trabalhei no ex Banco Real, que foi adquirido pelo Santander, ainda em Peçanha. Comecei como vigilante, depois passei a funcionário. Transferido para Belo Horizonte,  cheguei a exercer funções como procurador e gerente.

Também trabalhei fazendo serviços de lotação com uma Kombi, sempre conciliando essas atividades com a música.

– Quando surgiu o Bar Pedacinhos do Céu?

O Bar Musical Pedacinhos do Céu nasceu em 1995, em Belo Horizonte, na Rua Belmiro Braga, no bairro Caiçara. O nome é uma homenagem a uma das composições de Waldir Azevedo.

Foi criado para ser um lugar dedicado ao Choro e acabou se tornando uma grande referência para rodas do gênero na capital mineira.

Durante 25 anos, de 1995 a 2020, o bar foi um importante ponto de encontro de músicos e amantes do Choro.

– Grandes nomes da música passaram por lá?

 O Pedacinhos do Céu recebeu músicos importantes, como o Conjunto Época de Ouro, o flautista Altamiro Carrilho, a cantora Ademilde Fonseca e Paulinho da Viola, entre muitos outros.

O espaço acabou se tornando um lugar muito significativo de convivência musical para o Choro em Belo Horizonte.

– Você também é conhecido por manter um grande acervo musical. Como ele começou?

Ao longo da vida fui reunindo um grande acervo ligado ao Choro.

Hoje tenho, aproximadamente:

* 1.000 partituras

* 2.000 discos de vinil de Choro

* 1.800 CDs relacionados ao gênero

* livros sobre música e técnica de cavaquinho

* fotografias históricas e registros de músicos que passaram pelo Pedacinhos do Céu

Esse acervo integra a base de dados Choro Patrimônio, como Acervo Ausier Vinícius (Pedacinhos do Céu), além de uma coleção dedicada a Waldir Azevedo, falecido em 20 de setembro de 1980.

– Sua ligação com Waldir Azevedo foi além da admiração musical?

Minha dedicação ao estudo da obra dele aproximou-me da sua família,  criando amizade com Dona Olinda Azevedo, viúva de Waldir.

A partir da década de 1990 ela me doou um generoso acervo da memória do cavaquinista, que inclui:

* a obra completa editada de Waldir Azevedo

* gravações caseiras

* discos de 78 rpm

* participações em programas de rádio e televisão

* choros raros e inéditos

* registros dele tocando bandolim

É um material muito precioso para a memória do Choro.

– Esse material pode ser consultado por pesquisadores?

Pode. O acervo de partituras, discos, CDs e fotografias está no Pedacinhos do Céu, enquanto a coleção dedicada a Waldir Azevedo está guardada na minha residência.

Os documentos estão em bom estado de conservação, embora ainda não estejam totalmente catalogados.

Pesquisadores podem consultar e eventualmente copiar o material mediante contato prévio comigo.

– Você  participa de pesquisas acadêmicas sobre o Choro?

 Já fui citado em documentos de pesquisa sobre a história do Choro em Belo Horizonte e também em duas teses de mestrado.

Além disso, fui entrevistado pelo professor Zaniol, da Università Ca’ Foscari, de Veneza, para quem disponibilizei parte do meu arquivo musical.

– Quais são suas principais referências musicais?

A maior referência, sem dúvida, é Waldir Azevedo, .

Também admiro muito:

* Zé Renato, pelo acompanhamento regional

* Dino 7 Cordas

* Michael Jackson, pela genialidade musical

– Você também compõe?

Tenho repertório autoral. Uma das minhas composições é o Chorinho da Jéssica, que escrevi em 1991.

– Ficamos sabendo que você criou um método de ensino.

Desenvolvi um método para cavaquinho chamado “Waldir Azevedo: Um Cavaquinho”, no qual procuro transmitir parte do que aprendi estudando a obra do mestre.

– Quantos instrumentos você utiliza?

Tenho cinco cavaquinhos, cada um preparado para situações diferentes:

* gravações de estúdio

* apresentações na rua

* ambientes fechados

Além disso, também toco violão.

– Faça algumas de suas reflexões sobre a música brasileira.

Acredito profundamente no poder da música de unir as pessoas.

Costumo dizer também que o samba veio do Choro.

O cavaquinho, por exemplo, tem uma extensão de cerca de uma oitava e meia, o que exige muita criatividade do músico.

Admiro muito a forma como Chiquinha Gonzaga absorveu as valsas vienenses e as misturou com o maxixe, sem perder a brasilidade.

E Pixinguinha teve um papel fundamental ao levar o samba para a orquestra.

– Há datas importantes para o universo do Choro?

O dia 23 de abril é celebrado como o Dia Nacional do Choro, uma data muito significativa para quem vive essa música.

–  Existe relação entre o cavaquinho e o ukulele?

Penso que existe. O ukulele pode ser entendido como uma espécie de cavaquinho havaiano, pois tem origem relacionada ao instrumento português levado ao Havaí.

– O Pedacinhos do Céu continua funcionando?

Infelizmente, durante a pandemia surgiram muitas dificuldades financeiras, principalmente relacionadas ao aluguel do espaço.

Por isso o Pedacinhos do Céu acabou encerrando suas atividades, mas ainda considero 

 a possibilidade de encontrar uma nova sede para que o projeto continue vivo.

– Você tem sido reconhecido oficialmente pelo seu trabalho e enorme contribuição ao Choro?

Recebi o Título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte, o que considero uma grande honra.

– Para terminar, o que o Choro representa na sua vida?

O Choro é mais do que um gênero musical para mim.

É memória, estudo, convivência e amizade.

Música que atravessa gerações e continua reunindo pessoas em torno de algo muito simples e muito poderoso: tocar juntos.

E foi assim, entre café e pão de queijo, que aprendemos muito sobre o Choro e a grande pessoa humana – Ausier Vinícius – sua bela trajetória, motivo de orgulho para  seus conterrâneos. 

(Contato

Ausier Vinícius dos Santos

Telefone: (31) 99971-6567

E-mail: ausiervinicius@hotmail.com)

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

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