No mês de comemoração do Dia Internacional da Mulher, abordamos duas representantes extraordinárias: Janis Joplin e a experiência de Chris Hunt participando de um momento histórico. Rita Lee, que saiu da vida e virou história, conforme explica Odette Castro. Last but not least, Juarez Vieira traz informações do Beggar’s Banquet. A canção Sympathy for the Devil demonstra como a sua relação com o mal provoca tantos danos à humanidade, haja vista as violências absurdas contra as mulheres.
1 – EU E BOBBY MCGEE E JANIS JOPLIN
Chris Hunt
Você poderia intitular esta história de “O que eu fiz por amor”, mas agora que penso nisso, poderia igualmente chamá-la de “O que o amor fez por mim”. Fui a um show para agradar uma namorada e acabei testemunhando um momento histórico da música pop: a conquista de Nova York por Janis Joplin e o nascimento da Igreja do Rock and Roll.
Era 1968. Eu tinha 19 anos e estava apaixonado por uma garota chamada Linda. Nós dois éramos estudantes universitários, ela nos subúrbios de Nova York e eu em Manhattan. Linda era apaixonada por um cantor e compositor folk-rock chamado Tim Buckley, que havia lançado um álbum popular intitulado Goodbye and Hello. Ele tinha uma bela voz de tenor com uma ampla extensão. Ele também era muito bonito, com uma auréola de cabelos escuros e cacheados e uma expressão que sugeria sensualidade e vulnerabilidade — irresistível para as universitárias. Ele se apresentaria em Nova York e Linda me pediu para comprar ingressos para nós. Ou ela mesma comprou os ingressos. Por mais que eu tente, não consigo me lembrar.
O concerto aconteceria em um teatro no Lower East Side de Manhattan chamado Fillmore East. Na programação daquela noite — 8 de março de 1968 — estavam Buckley e duas bandas que eu conhecia de nome, mas que ainda não tinha ouvido, nem ao vivo nem em gravações: uma banda de blues de Chicago liderada por Albert King e uma banda de rock de São Francisco chamada Big Brother and the Holding Company, com uma cantora de blues chamada Janis Joplin. Se você pesquisar online, ainda pode encontrar uma foto do pôster do concerto, com fotos de Joplin e seus companheiros de banda tiradas por Linda Eastman, a fotógrafa de rock americana que um dia se casaria com Paul McCartney.
Eu não fazia ideia de que 8 de março seria uma noite histórica nos anais da música rock. Mas acabou que aquele foi o primeiro grande show de Janis Joplin em Nova York, e foi a noite de inauguração do Fillmore East, um teatro com mais de 2.600 lugares que ficaria conhecido como a Igreja do Rock and Roll. O local, construído em 1926, tinha acabado de ser assumido por Bill Graham, um promotor de rock que havia organizado shows de música ao vivo de enorme sucesso no Fillmore Auditorium de São Francisco com artistas da Costa Oeste como Jefferson Airplane e The Grateful Dead. Agora, Graham estava expandindo suas operações para Nova York. O Fillmore East consolidaria sua reputação como o principal empresário de rock do país, com shows de praticamente todas as grandes bandas do final da década de 1960: The Doors, The Who, The Kinks, Traffic, The Jimi Hendrix Experience, The Allman Brothers, The Mothers of Invention, Derek and the Dominos e The Beach Boys, entre muitas, muitas outras.
Então lá estávamos nós, Linda e eu, no que equivalia à Capela Sistina recém-pintada do rock and roll, prestes a testemunhar a chegada de sua nova deusa. O programa começou com Albert King, que fez a multidão vibrar com um conjunto animado de blues de Chicago, impulsionado por sua destreza na guitarra. Então Buckley cantou suas canções folk melancólicas e sonhadoras, acompanhado por suspiros profundos de Linda e de suas outras admiradoras. Finalmente, com a expectativa crescendo, Bill Graham subiu ao palco e disse 13 palavras que acenderam uma chama na multidão de fãs de rock que lotavam o teatro: “Quatro cavalheiros e uma grande, grande dama: Big Brother and the Holding Company.”
Os quatro cavalheiros — dois guitarristas, um baixista e um baterista — eram hippies cabeludos de botas, camisas largas e calças justas. Dois deles eram alarmantemente magros, como se tivessem gasto todo o dinheiro em amplificadores em vez de comida. Quanto à grande, grande dama, Graham não precisou dizer seu nome. A estrela de Janis Joplin estava em ascensão na Costa Oeste desde o verão anterior, quando ela fez uma apresentação memorável no Festival Pop de Monterey, na Califórnia. Big Brother and the Holding Company era uma banda de blues-rock psicodélico, mas seu som era definido, acima de tudo, pelos vocais roucos e poderosos de Joplin. Essa foi a sua estreia triunfal na Costa Leste, e a plateia estava na ponta da cadeira.
Desde a música de abertura do Big Brother, Joplin cantou com mais emoção do que qualquer cantora pop de que me lembro, e sua energia quase transbordou os limites do teatro. Ela conseguia pegar qualquer música, de um clássico antigo ao blues e ao hard rock, e investir nela uma nova urgência. Ela corria pelo palco freneticamente, suas pulseiras tilintando, seus colares de contas voando e seus longos cabelos caindo sobre o rosto. Graham havia providenciado para que o Joshua Light Show projetasse imagens psicodélicas em uma tela atrás da banda, e as cores piscantes só aumentavam a sensação do movimento perpétuo de Joplin. Eu fiquei boquiaberto. Nunca tinha visto nada parecido.
A gama de sentimentos na voz de Joplin era impressionante — terna e melancólica no clássico de George Gershwin, Summertime, dolorida e ferozmente desafiadora na empolgante canção soul Piece of My Heart. Ela passou de sussurros a lamentos em uma brilhante versão de “Ball and Chain”, clássico do blues de Big Mama Thornton, e habilmente entrelaçou sua voz com riffs de guitarra em uma versão hard rock da antiga canção de blues “Down on Me”. Sua energia parecia irradiar para a plateia, que a aplaudiu calorosamente.
2 – RITA LEE
Odette Castro

Por décadas, a voz de Rita Lee, nascida em 1947, filha do dentista e “impecável provedor” Charles Jones e da pianista italiana Romilda Padula, ecoou como um grito de liberdade em um país acostumado a mandar mulheres calar a boca. Rebelde e irônica, ela atravessou gerações sendo muitas coisas ao mesmo tempo: artista, feminista, mulher apaixonada pelo marido – o músico e compositor Roberto Carvalho, mãe de Beto, João e Antonio, avó de Ziza e ídolo cultural de um país inteiro.
Rita Lee se tornou um dos rostos mais emblemáticos da contracultura brasileira. Primeiro com a banda Os Mutantes, depois em carreira solo, construiu uma obra marcada pela irreverência, pelo humor ácido e por uma liberdade que incomodava uma sociedade conservadora da época.
Tudo isso aconteceu em pleno período da Ditadura Militar no Brasil, quando artistas eram perseguidos, censurados e, muitas vezes, presos.
E Rita Lee também foi. Em 1976, foi presa acusada de porte de drogas. A cantora estava grávida de seu primeiro filho quando foi levada para a cadeia. O episódio se tornou um dos símbolos mais claros de como a repressão da ditadura também tinha um componente moral: mulheres que ousaram viver fora das normas eram tratadas como ameaça. Enquanto muitos artistas enfrentavam censura política, Rita enfrentava também a censura de gênero. Ser mulher, roqueira, irreverente, sexualmente livre e ainda escancarar essa postura era um ato revolucionário. Durante esse período difícil, recebeu o apoio público de outra gigante da música brasileira, Elis Regina, que denunciou a perseguição contra Rita e a defendeu em um momento em que posicionamentos públicos poderiam custar muito caro.
Entre artistas mulheres, havia uma compreensão silenciosa: cada ataque contra uma delas era também um aviso para todas as outras. Mesmo sem saber, já exerciam a sororidade. Uma das frases mais conhecidas de Rita Lee está na música “Cor de Rosa Choque”:
“Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra.”
A frase, que mistura humor e provocação, é muito mais profunda do que parece. Biologicamente, o sangramento mensal faz parte do ciclo que possibilita a vida. É um processo natural, silencioso e poderoso do corpo feminino. Mas no Brasil de hoje existe outro sangue feminino que também escorre todos os meses — e não é natural.
É o sangue do feminicídio.
Se o corpo da mulher sangra para criar vida, a violência machista sangra para destruí-la. Segundo dados recentes de segurança pública, o Brasil registra milhares de feminicídios por ano. Em muitos casos, os assassinos são companheiros ou ex-companheiros, homens que acreditam possuir o corpo, a voz ou a vida dessas mulheres. Rita Lee sempre desafiou exatamente essa lógica.
Uma feminista antes do rótulo. Cantou prazer feminino e autonomia quando mulheres eram incentivadas a obedecer. Fez humor com o machismo quando muitos ainda o naturalizavam. Ao lado de Roberto Carvalho, construiu também uma rara parceria artística e afetiva que durou décadas, mostrando sua multiplicidade provocadora e amorosa. Ídolo de todas as gerações, talvez seu maior feito seja este: circular encantando todas, sem se prender a nenhuma.
Rita Lee transformou sua voz em um manifesto permanente, que continua vivo em cada acorde, em cada banho de espuma, em cada menina diferente na família dos iguais, em cada perfume lançado.
Rita Lee baila… conosco. Em virtude de um câncer de pulmão, Rita morreu no dia 8 de maio de 2023, mês dedicado à sua santa de devoção, Rita de Cássia. Sua morte provocou uma grande comoção nacional. Artistas, intelectuais e fãs reconheceram nela não apenas uma cantora, mas uma mulher que ajudou a expandir os limites da liberdade.
LIVROS
1 – Rita Lee: Uma Autobiografia
Publicado em 2016, é o livro mais famoso da artista e um enorme sucesso editorial no Brasil.
Com linguagem direta, irônica e muito pessoal, Rita Lee narra: sua infância em São Paulo; a explosão cultural dos anos 1960; a experiência com Os Mutantes; a prisão em 1976 durante a ditadura; o amor e a parceria com Roberto de Carvalho; a maternidade e a vida longe dos palcos.
A obra é considerada uma das autobiografias mais francas já publicadas por um artista brasileiro.
2 – Dropz
É uma coletânea de textos curtos escritos por Rita Lee para jornais e revistas.
Nos textos, ela fala, com humor e irreverência, sobre: comportamento e política; fama e envelhecimento; animais e natureza; machismo e liberdade feminina.
O livro mostra Rita Lee como cronista observadora da sociedade, sempre crítica e espirituosa.
3 – O Mito do Mito
De fã e de louco, todo mundo tem um pouco.
Livro póstumo,lançado em julho de 2024
Escrito em 2005 e finalizado em 2019, é um romance de ficção que traz toques de realidade e mistério, abordando a relação entre ídolos e fãs.
TEATRO
Rita Lee Mora ao Lado (2014)
Criado pelo diretor Márcio Macena, o musical apresenta uma história ficcional ambientada em um bairro onde os personagens convivem com a “presença” simbólica de Rita Lee.
O espetáculo utiliza vários sucessos da cantora para contar a história, entre eles: Ovelha Negra, Lança-Perfume, Mania de Você, Agora Só Falta Você.
Rita Lee – Uma Autobiografia Musical (2024)Espetáculo inspirado no livro da cantora e estrelado pela atriz Mel Lisboa, que já interpretou Rita Lee no teatro e na televisão.
No final, damos um “viva” com a Cor de Rosa Choque (de Rita Lee e Roberto de Carvalho)
Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso de quem nada quer
Sexo frágil não foge à luta
E nem só de cama vive a mulher
Por isso não provoque
É cor-de-rosa choque
Não provoque
É cor-de-rosa choque
Não provoque
É cor-de-rosa choque
Por isso não provoque
É cor-de-rosa choque
Mulher é bicho esquisito
Todo mês sangra
Um sexto sentido maior que a razão
Gata borralheira, você é princesa
Dondoca é uma espécie em extinção
3 – ROLLING STONES NO BANQUETE DOS MENDIGOS
Juarez Vieira da Silva

Após experimentações psicodélicas em Between The Buttons e principalmente Their Satanic Majesties Request, os Stones se reuniram dia 17/3/ 1968 no Olympic Studios em Londres, para gravar o novo álbum – Beggar’s Banquet – O Banquete dos Mendigos. Em termos de som, o álbum descartaria de vez os experimentos psicodélicos e iria voltar ao básico do blues, country e folk, tudo embalado num som semi-acústico.
O álbum reforça a ligação do rock com o blues, algo que já vinha sendo explorado por artistas britânicos inspirados em músicos americanos. Faixas como No Expectations mostram claramente essa influência, inclusive com uso do slide guitar tocada magistralmente por Brian Jones sua última grande colaboração com a Banda. Com este disco, os Stones consolidaram a imagem de uma banda mais crua, provocadora e rebelde.
A música Sympathy for the Devil é um exemplo marcante. Inspirada no livro O Mestre e Margarida, do escritor russo Mikhail Bulgakov, é um provocativo relato sobre a história da relação da humanidade com o mal. Na obra, o diabo aparece como um personagem sofisticado e observador, que circula pela sociedade humana comentando seus erros — ideia central também na música. O diabo não é mostrado apenas como um ser maligno, mas como alguém que:
testemunha eventos históricos, participa simbolicamente da violência humana e questiona a responsabilidade do próprio ser humano em produzir o mal. Trazendo uma inevitável reflexão: o mal não está só no diabo mas sobretudo nas ações humanas. A música tem uma levada percussiva, inspirada no samba brasileiro, como já disseram.
Outra música que destaca é Street Fighting Man, uma das mais importantes dos Rolling Stones, reflete o clima de revolta social de 1968. Com forte conteúdo político e inovação sonora, ela mostra como o rock pode ser uma forma de expressão crítica diante dos acontecimentos históricos. Stray Cat Blues é uma das faixas mais polêmicas. A letra aborda um encontro entre um homem mais velho e uma jovem fã, trazendo um conteúdo provocador e controverso, mostrando o lado mais sombrio do estilo de vida do rock. O trabalho no piano foi realizado pelo extraordinário Nicky Hopkins. Só uma vez entrou no repertório de shows quando apareceu no disco Get Yer Ya -Ya’s Out (1970).
Todas músicas são excelentes e se completam, e as que foram destacadas apenas por suas particularidades. OBeggars Banquet é um marco porque reafirma a importância do blues na formação do rock. Ele mostra como os Rolling Stones resgataram essa tradição e ajudaram a transformá-la, influenciando o desenvolvimento do rock nas décadas seguintes. O filmeOne Plus One (1968) de Jean-Luc Godard mostra magistralmente o processo de criação de Sympathy for the Devil do Beggars Banquet( Banquete dos Mendigos)





