1 – CAMPO DE AVIAÇÃO (*)
Raimundo Nonato Braga
Peçanha já teve avião!
Quando criança, um dos passeios prediletos começava subindo a Chapada, até o Morro do Cruzeiro e, depois de rezar, continuar até ao Campo de Aviação, nome reduzido muitas vezes para Campo, denominava a grande faixa de terra onde os aviões decolavam, pousavam e estacionavam no hangar localizado em sua cabeceira.
O campo foi construído no mandato do Dr. Antônio Augusto da Cunha Pereira, Prefeito de 1933 a 1946, coincidindo com os governos de Benedito Valadares (estadual) e Getúlio Vargas (federal). A administração Antônio da Cunha transformou a cidade com inúmeras obras e melhoramentos.
As razões para construí-lo eram várias. Peçanha situa-se a 320 km de Belo Horizonte e, naquela época, as estradas eram muito ruins, dificultando o intercâmbio com as demais cidades, inclusive a Capital. O local escolhido foi o topo da “Chapada” com topografia ondulada por pequenas colinas, e a Prefeitura não tinha nenhum trator ou caminhão para ser usados nos trabalhos do terreno . A solução foi usar os presos da Cadeia como mão-de-obra, com a utilização de pás, picaretas, enxadas e enxadões. A terra cavada era removida e transportada sobre couros de boi, doados por fazendeiros, puxados por juntas de bois até ao local onde era descarregada. Todos os dias o Sargento Elias Abdala à frente e os presos subiam a pé o caminho até a obra. Não há informação sobre a duração da obra e, no final, havia um campo de terra batida compacta, sem iluminação. Na década de 60 a pista foi estendida em aproximadamente 1 km. Nesta ampliação parte do novo talude cedeu durante uma tempestade e muita lama escorreu para o tanque, que foi totalmente destruído.
Depois foram criados um Aeroclube e uma Escola de Formação de Aviadores (18/10/1943) e construído um hangar que recebeu o nome de Major Alcides Neiva, comandante da Base Aérea de BH. A primeira diretoria da escola era composta por Adelardo da Cunha Pereira (Lalade), Dr. Lincoln Soares, Pedro Vieira Braga e o Prof. Nelson de Araújo Andrade e a Comissão Examinadora da Força Aérea Brasileira era composta por: Dr Carlos Vieira da Silva – médico credenciado pelo Serviço de Saúde do Ministério da Aeronáutica; José de Souza Medeiros – Secretário do Aeroclube e o Suboficial do Ministério da Aeronáutica, Sr. Mário Laper. O Sr. Rafael Fantaus, era o instrutor. O avião utilizado nos cursos tinha o prefixo PP-TQUE, que a população de Peçanha batizou como “Povo de Peçanha -Também Quer Experimentar. Várias turmas conseguiram o brevê, como a Sra. Conceição da Cunha Pereira, filha do Prefeito, a primeira mulher que recebeu a distinção.
Não há informações sobre a desativação do Aeroclube. Talvez tenha decorrido da política do governo como esforço de guerra.
(*) Obra consultada: José Albertino Rodrigues Filho. Biografia. Doutor Antônio Augusto da Cunha Pereira. O precursor do progresso. Assembleia Legislativa de MG. Belo Horizonte. 2008. 105 págs.
2 – … E O VENTO LEVOU
Francisco França

Carlos do Seu Chiquinho Correia assistia todos os filmes exibidos no Cine Flórida, perto do Largo de Baixo e da sua casa. Além do gosto pelo cinema, construía máquinas para os seus hobbies.
Certa vez montou um planador, com peças que chegavam pelo correio. Estacionado no pequeno hangar, na extremidade do campo ao lado da Mata do Fróes, coberto por uma lona preta, e pilotado aos domingos.
Depois do café, seguia com seu Jeep 51,que também havia montado, se acomodava no aparelho e levantava vôo, passando pelo Morro Redondo, Fazenda Jambreiro, Distrito de Cantagalo. Outras vezes, acompanhava o rio Suaçuí Pequeno até a cidade de Coroaci, sempre voltando antes do almoço com a família, para relatar os acontecidos.
O local onde ficava estacionado, mais escuro pela sombra das árvores, também funcionava como um drive-in informal, a imagem da lua à frente dos parabrisas. Os namoros começavam no cinema e, como se não tivesse aparecido o “The End”, continuavam nos carros, com a mesma paixão. Certamente várias crianças poderiam ser “filhos do campo de aviação”.
Monsenhor Amaral sempre foi implicado com o drive-in e ninguém soube se contribuiu para o surgimento da ventania na noite de 13 de agosto, uma sexta-feira. Sejam quais foram os motivos, o vento removeu os pecados e tudo que estava no caminho, inclusive o hangar, o planador, a lona preta, as telhas. Tudo.
Pela manhã Carlos tomou pé da situação. Algumas peças espalhadas na mata, a lona sobre uma árvore, as telhas quebradas. Os vôos haviam terminado.
Voltou abatido para casa e, quando os meninos perguntaram o que havia acontecido ao planador, respondeu de forma melancólica:
– O vento levou….
3 – PEÇANHA NA MOSTRA INTERNACIONAL DE TEATRO DE SÃO PAULO
Wilson Oliveira

A 11ª edição da MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo aconteceu de 6 a 15 de março de 2026. Ao longo de dez dias, artistas nacionais e internacionais participaram dos quatro principais eixos do festival: Mostra de Espetáculos, MITbr – Plataforma Brasil, Ações Pedagógicas e Olhares Críticos.
Questões como vigilância, imigração e controle social são alguns dos temas trabalhados nas peças que participaram da mostra.
O espetáculo História da Violência, adaptação do romance autobiográfico do autor francês Édouard Louis, fez a abertura desta edição, no Teatro Liberdade. Reconstrói uma noite de violência sexual vivida pelo escritor e discute racismo, homofobia e as estruturas de poder da sociedade contemporânea. O espetáculo tem direção de Thomas Ostermeier e produção da Schaubühne (Berlim).
- Segundo Filipe Dama, Secretário de Cultura municipal, essa foi uma oportunidade para construir uma teia de conexões. “Instituições são pessoas, e é na arte do encontro de intelectualidades, sonhos e sentimentos que nós manifestamos, através do trabalho, o compromisso de refletir e transformar o mundo em um lugar melhor, por meio do profundo, dialético e subversivo poder da arte”.

Como um dos programadores na Mostra Internacional de São Paulo, Filipe busca espetáculos, profissionais, além de criar projetos de internacionalização para a cidade de Peçanha, além de formação técnica no ofício da curadoria e programação. Os coordenadores da Casa de Cultura de Peçanha estiveram nesta edição da Mostra como observadores e estagiários.

É preciso observar com atenção as ações culturais e educativas propostas por Guilherme Marques, gestor e idealizador da MITsp. Desde a primeira edição realiza um trabalho meticuloso, inédito e inovador, para incluir e dar visibilidade nacional às manifestações artísticas de seus conterrâneos.
O Jornal Echo da Matta esteve presente e aplaudiu.





