Personagem

Publicado em: 30/03/2026 às 08:40

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De um povo, de um idioma herdamos certas características, boas e más, agradáveis e desagradáveis, talentos e vícios. E tudo isso junto é o indivíduo. (C.A. Jung)

As cobras trocam suas peles várias vezes durante a vida. É uma solução que a natureza oferece à sobrevivência, porque as peles não crescem, acompanhando o restante do corpo. Então, como as nossas roupas, ficam apertadas e devem ser trocadas de tempos em tempos. Uma nova pele é formada embaixo e a substituição dolorosa lhes permitirá viver normalmente até a próxima troca.

Sentado na  última poltrona, pensava sobre o mundo para onde seguia, sem conhecer o destino. Enquanto a casa se tornava mais distante, listava as providências quando chegasse.  

Talvez a mais importante: trocar as roupas, como se trocasse a pele.   

A muda de roupa das missas aos domingos, embora conservada, não servia mais. Camisa volta ao mundo e a calça de Nycron azul marinho, feita pelo Seu Zé Clementino, não estava inserida no contexto. Já estabelecido na cidade grande, primeira aula, da porta vejo a professora e os alunos sentados no chão, ocupando o espaço das carteiras, arrastadas para o canto. Nunca assistira aula nesta formação. Procurei o meu lugar, mas não havia lugares marcados. Ao sentar-me, a roupa se manchou de poeira, mas os colegas não demonstravam a mesma preocupação que eu tinha. Vestiam camisetas Hering com a frase “faça amor não faça a guerra” pintada a mão, ou outras frases do gênero, calça de algodão cru amarrada por uma cordinha na cintura, sandálias de sola de pneu. A professora virava para o aluno que abordava questões de literatura, escolhidas por eles. Lembrei Alphonsus Guimarãens, Emílio Moura e os simbolistas, mas não prestaram atenção. Curtiam Daniel Cohn-Bendit, Timothy Leary, Allen Ginsberg e outros porta-vozes de Maio de 68 na França e da era hippie. 

No recreio, os colegas aplicaram-me um questionário para ser admitido à turma e, sinceramente, achei que tomaria bomba. Algumas perguntas:  Cursou escola pública? Acha que os ricos têm mais facilidade por terem estudado em colégios caros? Porque escolheu engenharia, seu pai tem uma construtora? Você conhece Paris? Joga tênis? Vem de ônibus para a faculdade? Seu bairro fica na zona norte?                                                                         

Menti em algumas respostas e fui aprovado. Mas ficou bem claro que teria de modificar-me bastante para continuar. 

Além da prova, sugeriram trocar as roupas para outras modernas. Eu gostava delas, e as meninas dos outros tempos gostavam também, assim me parecia. Esta  providência constava da  lista elaborada ainda no ônibus, mas faltou tempo, e agora não poderia enrolar. Para evitar o bullying, a palavra da moda, comprei duas camisetas: uma com o símbolo da paz – três linhas no círculo e as palavras Paz e Amor embaixo e, a outra, cópia do Sig, o ratinho do Pasquim desenhado pelo Jaguar. As calças obviamente amarradas pelas cordinhas. Sucesso de público e de crítica, quando cheguei vestido assim, embora  a imagem no espelho não parecesse comigo. Mas, sem dúvida, fora um bom teste.

O pessoal frequentava o Xodó para tomar sorvetes de essências diferentes da groselha dos nossos picolés, infalíveis após os filmes de faroeste das matinês no Cine Flórida. Os almoços de domingo não eram em casa, como os ajantarados feitos pela mãe. Toda a família ia ao restaurante, sendo atendida pelo garçom com o braço esquerdo dobrado nas costas. Assentavam, o guardanapo de pano sobre os joelhos, vários talheres, pediam rúcula e tomate seco antes do prato principal – spaghettini alla carbonara e pomodoro basílico – nome estrangeiro no lugar do feijão com arroz. A sobremesa – melão e presunto – repetia os almoços das socialites no Automóvel Club, manchetes da Coluna do Eduardo Cury no “Estado de Minas” de segunda-feira. 

Troquei o “ocê” pelo “você”, usado nos  ambientes cujos frequentadores se achavam de bom gosto, circulando em torno da mesa de centro com tampo de vidro, atulhada de bibelôs de bichos e estátuas gregas, sem lugar para o copo, que permanecia na mão.

Precavido, antes de sair pela manhã, guardava no armário aquele que eu era realmente, substituindo-me pelo lay out mais aceitável, tão falso como os sorrisos dos selfies.

Na elaboração da nova identidade me inspirava em alguns oriundi. Era importante que a metamorfose ocorresse rapidamente, até me tornar quase idêntico a eles. A alma já estava quase vazia, pronta para ser abarrotada de refinamento, dos hábitos que julgavam elegantes, dos rituais sem importância. Os componentes da alma anterior caíam como barreiras, na louca corrida para alcançar a fita no final da raia, onde os estereótipos aguardavam com aplausos engatilhados. Estavam lá os rapazes de barbas bem-feitas, ternos azul marinho de lapela estreita, gravata verde claro, calças de pernas apertadas e sapatos marrom escuro, sem meias. Almoçavam hamburguer e suco natural de caixinha, sentados na mureta que separa o passeio da entrada do prédio onde trabalhavam, no tempo curto para entregar os relatórios.

Além destes, havia inúmeros outros comportamentos e ideias contrabandeados do estrangeiro, junto a língua falada com sotaque forte. Mesmo de folga não relaxavam. Reproduzindo os costumes da metrópole, passeavam pela Praia de Pitangueiras, bermuda em tom pastel e camisas de coqueiros, como se estivessem no calçadão da Ocean Drive. A imaginação e alguma fumaça os levavam do Guarujá a Miami num piscar dos olhos vermelhos.

Havia aprendido em priscas eras que o mais importante dos 10 Mandamentos diz que devemos ser fiéis à principal graça recebida na concepção, qual seja, o conjunto de características que nos tornam únicos, transmitidas de geração a geração. E agora, depois de tantas mortes, e das inúmeras que viriam, repetia as personas dos novos conterrâneos e continuava no caminho sem volta. Adotando as atitudes clichê das tribos que odeiam diversidade. Assim, talvez estivesse a salvo dos preconceitos e discriminações. Participava das turmas, como se fosse um deles.                                                                                                                           

Mas o restante do que ficou  guardado na alma nos traia, quando revelava, sem percebermos, alguns traços que pareciam trancados a sete chaves. Os guardados da extensa folha corrida em que se transforma a vida pregressa de cada um.

Por onde vão os trens meu pai?
Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços
no mapa, e depois o pai ria: também
para lugar algum meu filho, tu podes 
ir e ainda que se mova o trem
tu não te moves de ti.
(Hilda Hilst)

Antes da mudança do mundo para outro mundo, dentre algumas singularidades, havia certa aquiescência com os pecados. Um acordo tácito facilitava a vida dos dois lados, previamente às comunhões. Confessávamos os pecados de sempre; e o Monsenhor Amaral repetia a mesma penitência: três padres nossos e três aves maria. Saíamos do confessionário leves, prontos para acompanhar os dois anjos dos lados do altar, se eles resolvessem voar. 

Na comunhão, junto da hóstia, absorvemos  também os costumes da cidade, um combo poderoso. Misturados à fé, eles se infiltraram em  nossos corações e em nossas mentes. As impressões, alegrias, sentimentos, afetos, recalques incorporaram no jeito de ser.

Organizados em camadas, as lembranças se empilhavam na cabeça como peças de tecidos nas prateleiras das lojas. Bem organizadas, para não se perderem no turbilhão. 

Do grupo escolar e seu corredor até ao pátio, os ladrilhos com desenhos geométricos, baús do material usado nas datas cívicas. Bandeiras do Brasil, de Minas, do município, toalhas com renda nas barras, candelabros, material que adicionava pompa aos eventos.

As três figueiras enormes, no centro do Largo de Cima, sombreando o campinho das partidas de futebol. Do chafariz, saía água vinda do Parque da Mãe d’Água. Depois de tomar, colocava o rosto debaixo da bica, para refrescar.                                                     

Mais tarde, começaria o footing na praça do Coreto, som do alto falante no Clube Cacique tocando La Golondrina, trilha sonora do bailado das andorinhas em torno da torre da igreja até a Mata da Chapada.  

Agora, as obrigações, as exigências e até os pecados são mais complexos e o Monsenhor Amaral não está aqui para ajudar com suas penitências. Então, para defender o que sobrou dos tempos anteriores à saída do ônibus em frente ao Hotel Lili e a chegada à rodoviária, no início da Av. Afonso Pena, valho-me de reações emocionais, a compaixão, dentre outras, direcionadas aos novos colegas, os rapazes e as moças da zona sul. Como forma de compensar a tristeza, os sentimentos trazem a  ideia de que essa turma  jamais desfrutou da vida boa, como a do povo originário. 

A sensação que aparece no vácuo da viagem oculta o tesouro perdido, a história que se evaporou. Mas, já bem longe de tudo, lembranças tornam claro que muito do eu verdadeiro continua na corrente sanguínea, se espalhando pelos escaninhos da alma. 

E, no final, depois de tanto esforço, percebemos que as energias foram gastas apenas para nos manter vivos. É assim que funciona, como diz Suzana Magalhães.  

“O objetivo da vida resume-se na prática de ações que consomem as   forças que nos foram dadas para viver.” (C.A. Jung)

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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