Pílulas de Vida do Dr. Enoc (*)

Publicado em: 30/03/2026 às 08:00

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O Pensador - Rodin
  • Envelhecer é ser punido cada vez mais por um crime que não se cometeu. (Anthony Powell)
  • Um idealista é alguém que, ao perceber que uma rosa cheira melhor do que um repolho, conclui que ela também dará uma sopa melhor. (H.L. Mencken)
  • Uma idéia não é responsável pelas pessoas que acreditam nela. (Don Marquis)
  • O principal problema da democracia é a lamentável tendência a fazer com que as pessoas acreditem que todos os homens são iguais, quando basta uma olhada ao redor da sala ara ver que não é bem o caso. (Fran Lebowitz)
  • Nós, os liberais e progressistas, sabemos que os pobres são iguais a nós em tudo, exceto nesta história de serem iguais. (Lionel Trilling)
  • A Academia Brasileira de Lera se compõe de 39 membros e um morto rotativo. (Millôr Fernandes)
  • Só há duas coisas inevitáveis na vida: morte e impostos. (Benjamin Franklin)
  • Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente será um engano. (H.L. Mencken)
  • O inferno são os outros. (Jean-Paul Sartre)
  • Deve-se perdoar os inimigos, mas não antes que eles sejam enforcados. (Heinrich Heine) 
  • Perdoar aos nossos inimigos as suas virtudes – este, sim, é um grande milagre. (Voltaire)
  • O cérebro é um órgão maravilhoso. Começa a funcionar assim que você se levanta da cama e não pára até você chegar ao escritório. (Robert Frost)
  • Inteligência militar: uma contradição em termos. (Groucho Marx)

2 – O HOMEM QUE (QUASE) VIROU SANTO (*)
Odette Castro

Era uma família como tantas outras  das pequenas cidades no interior de Minas Gerais. O pai, José, era carpinteiro, como seu santo de consideração e rezador desde menino pequeno. A mãe tinha nome de flor. Vistosa e muito delicada como a Rosa cor-de-rosa, sabia que “cozinhar é o mais privado e arriscado ato” e passava a maior parte do tempo com a barriga no fogão; Josefa, filha única, pegou do pai o gosto pelas rezas e as seis da manhã e as seis tarde iam juntos até a Igreja Matriz.

José subia as escadas até a torre e tocava as badaladas do sino, metódica e cristalinamente. A cidade agradecia. Josefa espanava os bancos, afofava a almofada do confessionário para conforto do padre e penteava os longos cabelos de Nossa Senhora das Dores, que foram doados pela moça mais bonita da cidade, para pagar promessa.

Eram assim os dias da família. Uma pasmaceira, até que José resolveu virar Santo. Construiu um oratório do seu tamanho, com portinhola e tudo e se enfiou lá dentro. Na primeira noite tudo correu bem. Céu estrelado, salmos entoados, ladainhas recitadas. Viu o sol nascer, e até pensou estar chegando ao Paraíso, se preparando para ficar ao lado dos companheiros – os santos que habitavam lá há tempos. Ao mesmo tempo, aqui na terra,  a mulher com nome de flor, começa a preparar o almoço: farofa com torresmo de barriga. Temperou a carne entremeada de  gordura em pedaços, sal com alho e folhas de louro e a panela, colocou na panela  tinindo de quente, e começou a fritar. Inevitável o cheiro se espalhar, inclusive chegando ao oratório, penetrando nas gretas. 

José encarou como tentação enviada pelo demônio para inviabilizar seu projeto. Tapou nariz, conferiu se  a portinhola estava lacrada e  aumentou a intensidade das rezas. O cheiro não sabia de nada e, sem nenhum respeito, continuava a invasão pelas frestas do oratório e  impregnava o corpo de José, ensopado de suor.

“Na panela se verte tempero ou veneno” 

 José caiu em tentação, e junto à panela viu o sonho desmoronar.  Evidentemente furioso saiu em  disparada atrás da mulher com nome de flor, segundo ele a grande  responsável pelo fracasso de sua santificação, em conluio com o coisa ruim. 

A mulher correu pro mato

A filha tocou o sino

José comeu o torresmo.

Fim

(*) Embora não pareça, esta é uma história real. Portanto, os nomes foram mudados, mas quem é mais velho e morou em Peçanha identifica facilmente os personagens.

3 – PRA SEMPRE CRIANÇA
Luiz Fernando Dutra

Eu comecei falando um pouco sobre a minha vida e as primeiras impressões por aqui. Um dos fatos que eu não citei é que eu não sabia andar de bicicleta até me mudar para Amsterdã. Uma brincadeira simples, mas que, por algum motivo, eu não gostei e não fez parte da minha infância.

​De certa forma, isso nunca me incomodou, até eu perceber que eu era, de certa forma, não incluído como queria por não saber. Algo que me neguei a acreditar e a aprender por um tempo, talvez por ego ou por achar que estava velho demais para aprender uma coisa nova e que, de certa forma, eu já “deveria saber”.

​Como eu sou rodeado de bons amigos, um deles me disse: “A vida adulta é reviver a infância”. Sendo assim, paguei por uma aula particular com um professor holandês, bebi da fonte e aprendi! E estou aí! Quando recebo visitas de pessoas amigas, as levo pelo mesmo caminho; muitas também aprenderam por aqui. E, enquanto escrevo este texto, tive o privilégio de terminar um passeio no parque com meu pai, ele que não pedalava há mais de 50 anos.

​Às vezes somos dominantes num pequeno contexto que nos cerca mas, quando o jogo muda, voltamos a ser criança de novo.

Posso garantir que a sensação de aprender uma coisa pela primeira vez depois de muito tempo é sensacional!

4 – FAHRENHEIT 451 
Francisco França

Anna Akhmátova (1889-1966), talvez a maior poeta russa, foi perseguida pela ditadura satlinista, como as ditaduras fazem com os intelectuais, sendo proibida de registrar seus poemas (no sentido literal, ou seja, passar as palavras para o papel). Então, escrevia, decorava-os e queimava os originais. O problema, no entanto, é que eles desapareceriam com sua morte. Então, passou a distribuí-los com suas amigas de confiança, que também memorizavam. Não deixaram rastros, ela não foi presa e os poemas sobreviveram. 

Provavelmente inspirado nesta história, Ray Bradbury lançou em 1953 o romance Fahrenheit 451

que passa em um  futuro assustador, onde Guy Montag é um bombeiro que, inversamente aos bombeiros que conhecemos, tinha a função de queimar livros, casas e estabelecimentos daqueles que não apoiarem o governo. O título se refere à temperatura em que o papel pega fogo, equivalente a 233 graus Celsius. Grupos de resistência foram formados pela sociedade e seus integrantes memorizavam os livros e, assim, conseguiram mantê-los a salvo do estado autoritário. 

Em 1966 foi lançado o filme Fahrenheit 451, obra prima de François Truffaut, adaptação do livro, com Julie Christie e Oskar Werner, criticando acidamente as ditaduras e o macartismo, nos Estados Unidos. 

O filme teve carreira brilhante e merece ser visto, para compreensão dos tempos bicudos que vivemos. 

Livro: Fahrenheit 451 – Ray Bradbury – Editora Globo – à venda também pela Amazon.

Filme: Fahrenheit 451 – François Truffaut – No streaming: arte1 premium

5 – FREUD EXPLICA
Sigmund Freud

Bomba atômica jogada em Hiroshima

“A ver, a questão decisiva para a espécie humana é saber se, e em que medida, a sua evolução cultural poderá controlar as perturbações trazidas à vida em comum pelos instintos humanos de agressão e autodestruição. Precisamente quanto a isso a época de hoje merecerá talvez um interesse especial. Atualmente os seres atingiram um tal controle das forças da natureza, que não lhes é difícil recorrerem a elas para se exterminar até o último homem. Eles sabem disso; daí, em boa parte, o seu atual desassossego, sua infelicidade, seu medo.” 

(Escrito em 1929 e publicado em 1930, o livro “O Mal Estar da Civilização”, finalizado pelo parágrafo acima, investiga os motivos da infelicidade do indivíduo e seu conflito com a sociedade. Ele entendia que a sexualidade e civilização convivem em eterna luta.)

(*A  alfaiataria do Enoc, mais do que no  consultório médico, era onde cuidavamos da saúde. Não com remédio, mas com muitas risadas e seu humor irreverente e espirituoso. Segundo Fernando Simões, esta era sua agenda semanal: segunda-feira: receber o pano, terça-feira: molhar o pano, quarta-feira: o pano seca, quinta-feira: passar o pano, sexta-feira: riscar  o pano, sábado: “no sétimo dia, o homem descansou”,  domingo: ressaca e futebol. 

Boêmio, gostava das coisas boas, incluindo as biritas. Preocupado com sua vida, certa vez o Monsenhor lhe disse que  deveria frequentar a igreja. Ele respondeu:

 – “Mas lá só o senhor é quem bebe!”

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

Luiz Felipe Dutra

33 anos, nascido e criado em Belo Horizonte. Engenheiro Mecânico, grande fã de esportes e apreciador de boa música e boa comida, mora em Amsterdam, Holanda.

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