Miriam Chrystus e o Movimento Quem Ama Não Mata

Publicado em: 30/03/2026 às 08:45

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Mirian Chrystus e companheiras protestando em Belo Horizonte

Quem Ama Não Mata se transformou num movimento político, resiliente, que pauta hoje o debate público sobre a violência contra mulheres e a forma como ela é tratada pelo sistema de justiça e pela sociedade. O movimento teve e tem enorme impacto político e social, ajudando a mudar o debate público sobre violência contra mulheres no Brasil.

Mirian Chrystus, é doutora em Estudos Literários, jornalista e ativista. É uma das mulheres que participaram da construção desse movimento. Nesta entrevista, relembra a organização das primeiras mobilizações e a força de um movimento que está em plena atividade. É formado por um grupo de 56 mulheres, de variadas faixas etárias. Entre elas, as atrizes Juçara Costa e Matilde Biadi e as jornalistas Christina Lima e Dinorah do Carmo.

Primeiros Passos 

Mírian – Eu gosto muito de alguns momentos do Quem Ama Não Mata porque mostra que mulheres organizadas fazem coisas acontecerem. Ano de 1975.

O Ano Internacional da Mulher foi instituído pela ONU em 1975 para destacar a luta pelos direitos, igualdade de gênero e o empoderamento feminino, marcando a oficialização do 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Essa data simboliza a história de mobilizações trabalhistas e a busca por igualdade social, política e econômica.

Eu estava ali com 24 anos. Minhas amigas com 22, 23, e uma com 19, a Beth Fleury. Trabalhávamos no Jornal de Minas, que era um jornal ruinzinho mas com uma equipe muito boa, jovens com vontade de praticar jornalismo motivado. E aí eu vejo uma notícia no jornal falando que aconteceria, no Rio de Janeiro, um encontro, um seminário de mulheres. Fiquei conhecendo assim as feministas cariocas, inclusive a Branca Moreira Alves, irmã do deputado Márcio Moreira Alves.  Eu vi lá uma coisa interessantíssima: três ou quatro dias de debate. A situação da mulher pra mim se descortinou. Foi como se eu tivesse descoberto a verdade: a sociedade de classe funciona e se aproveita da questão das mulheres. A mulher toma conta da casa, da reprodução, da força de trabalho e dos filhos. Ali, eu descortinei o mundo. E assisti uma palestra muito interessante do economista Celso Furtado (1920-2004). E voltei com a ideia de fazer um seminário semelhante aqui em Belo Horizonte. 

E então, no dia 25 de outubro de 1975 o Vladimir Herzog foi assassinado. Embora filiado ao Partido Comunista, não era atuante, era mais ligado à cultura. Um dia depois de detido ele foi trucidado, trucidado! O Afonso Paulino, que era o dono do jornal, era ligado à extrema-direita militar. Tanto que ele tinha, e ele me contou, uma sala no DS (Departamento de Segurança) que, na verdade, era um centro de tortura. Com o nominho dele numa plaquinha lá, que era uma homenagem dos companheiros dele lá da repressão. De repressão! Mas havia uma relativa harmonia. Então, o Jornal de Minas publicou um editorial – de página inteira – a favor da morte do Herzog. Tipo assim:estamos numa guerra. Dessa vez é um deles e, que pena, esses filhos vão crescer sem pai. Uma coisa assim num editorial, numa linguagem que não era jornalística deve ter chegado, de fora, pronto. Aí a gente sacou onde a gente estava. Foi aquele choque de realidade, a gente estava num lugar que defendia a morte de jornalista. Aí nós fizemos uma escala. E começamos a sair do jornal, pra não chamar a atenção dele. Porque a gente tinha medo dele também. 

A Primeira Ação

No começo de novembro de 1975 seria o bendito seminário Mulher em Debate. Com o apoio do DCE da UFMG que vinha fazendo uma série de eventos culturais. Conversei lá com a Samira Zaidan, que era a presidente. Ela falou: Olha, a gente apoia, a gente cede a sala, mas a gente não quer ver o nome desse DCE ligado à questão feminista. Mas, é porque era considerado um desvio de forças, entende? A luta maior era contra a ditadura. E isso seria um desvio de força. Fizemos quatro dias de debates muito interessantes. Trouxemos a Branca Moreira Alves, mestre em Ciências Políticas, a Therezinha Zerbini fundadora do Movimento Feminino Pela Anistia. A Raquel Moreno para falar sobre a questão da sexualidade. E dali nasceu um grupo pequeno, umas seis mulheres,todas jovens, né? Tinha Beth Almeida que era advogada de atuação intensa no campo social. E, durante quase quatro anos, a gente se reunia todo sábado, discutia textos e,terminou se tornando uma referência em Belo Horizonte. Nos dispersamos.

O Primeiro Episódio 

A minha vida ficou ligada à da Ângela Diniz, assassinada em 1976, sob alegação da“legítima defesa da honra”. Em diversas cidades brasileiras, mulheres organizaram protestos denunciando a impunidade e questionando a tese jurídica que buscava justificar o assassinato de mulheres em nome da honra masculina. Foi nesse momento que surgiu o lema: Quem ama não mata.
Há 50 anos que eu falo da Ângela. Pelo que se tornou. Então eu tenho a maior solidariedade. No caso das duas mineiras que foram mortas quatro anos depois, também. Elas eram mais vítimas perfeitas. Aquele ato também teve muita repercussão nacional.

O Primeiro Sinal de Alerta

Mas em 1980 nós voltamos. Duas mulheres tinham sido mortas, no espaço de 15 dias: Maria Regina dos Santos de Souza Rocha, assassinada pelo marido, o paisagista Eduardo Souza Rocha e a empresária de sucesso, Eloisa Ballesteros assassinada pelo esposo, o engenheiro Márcio Stancioli. Esses crimes provocaram indignação na época.

Eu era jornalista na TV Globo. Neste caso a Globo deu uma grande contribuição porque ela foi divulgando, ao longo de 10 dias, algumas coisas. Eu entrevistei a mãe da Maria Regina. A morte violenta dessas duas mulheres provocou uma comoção na cidade. Era muito chocante. Houve uma comoção.

Ato Público em 18 de agosto de 1980

Dona Helena Greco (PT) discursa no Ato Público

Eu pensei muito naquele Ato como uma coisa teatral, uma coisa artística, porque eu confio nisso sabe? 

No adro da Igreja São José, em Belo Horizonte, Beth Fleury leu um lindo poema 

“Aos Homens Nosso Mel e Nosso Fel”.

O último verso dizia:
Somos mulheres fecundadas
A quem não dais o dom da palavra
Somos seres amputados,
A caneca de barro, o vaso, o jarro
Que de tristeza
Não demoram a transbordar…

Fizemos uma manifestação, com 400, 500 pessoas. Eu pedi, pelo jornal, que as pessoas levassem flores, levassem vela. A dona do Sobradão da Seresta mandou um caminhão de rosas vermelhas. Nunca soube o nome dela. A TV transmitiu. Ainda havia uma repressão. 

A dona Helena Greco (1916-2011), fundadora do PT, veio. Adélia Prado veio,declamou. A Suzana Moraes fez também uma bela poesia.

Então eu redigi um Manifesto que começa assim: 

“Senhora, aqui está vossa chave
para vos abrirdes com quem quiserdes
onde quiserdes;
porque maior que a dor de vos perder
é a dor de vos deixar presa nesses ferros.”

Nessa poesia anônima da Idade Média testemunhamos um ato de amor, em que o homem, partindo para a guerra, entrega a chave do cinturão de castidade à sua dona. Assim começava o Manifesto, lido naquele ato público promovido por feministas em protesto contra a violência específica praticada contra mulheres.

O manifesto prosseguia:

“Em Minas, mil anos depois, os homens matam as mulheres que querem se separar.” 

Esse acontecimento, provavelmente o primeiro no Brasil com esse teor, enfatizava a necessidade de redemocratização do País, ainda sob uma ditadura, mas pontuando que a democracia tinha que “começar em casa”. O documento finalizava citando Friedrich Engels (1820-1895), para quem as novas ideias só vingariam “quando transmitidas pelo leite materno”. 

O manifesto mantinha sempre esse tom de emoção. Poético, da emoção da arte. Eu confio muito nisso, às vezes até mais do que o argumento, o raciocínio, as cifras. O risco disso é levar a banalização, às vezes de tanto repetir essas coisas, tem esse risco. 

Centros de Defesa de Direitos

Depois o que que aconteceu? Foi criado o Centro de Defesa dos Direitos da Mulher que,a princípio, ficou na Faculdade de Direito. Mais tarde, com recursos da Fundação Ford, alugaram uma casa na rua São Paulo e ali foram feitas as primeiras pesquisas sobre violência contra a mulher em Belo Horizonte. Com toda dificuldade porque eles não tinham acesso aos dados. Conseguiram fazer duas pesquisas que apontavam a violência cometida dentro de casa. Isso aí, já em 1980. A mulher vinha denunciar. E o delegado tranquilizava assim o agressor: “Preocupa não, tipo assim, tamo junto. Isso é coisa de mulher”. 

A UFMG cria o NEPEM Núcleo de Estudos e Pesquisas Sobre a Mulher. Cria-se também o Conselho Estadual da Mulher, em Minas. Tancredo Neves (1910-1985), que criou isso. Não tinha política pública. Não havia número, não havia cifra. Mas pra fazer política você tem que ter dados. Aqui era como se fosse uma violência invisível. A mulher não percebia. 

Em 1983 tivemos a criação das primeiras delegacias de mulheres. Em 1986, vem o Movimento pela Constituinte. A Celina Albano era a representante de Minas lá pelo Centro de Defesa dos Direitos da Mulher. 

Mas, só com a promulgação da Constituição Federal de 1988, o Estado retira do homem a função de “cabeça do casal” e assume a responsabilidade pela segurança das pessoas num ambiente familiar.

Novo Sinal de Alerta em 2018

As pessoas novamente se dispersam, vão pra outros lugares.

Então, em 2018, acontece aquela cena de agressões a uma moça, registradas por câmeras. Revelam o percurso da vítima até a morte: na rua, no estacionamento, no elevador, até o companheiro joga-la da varanda. Aquilo reverberou muito.  

E aí, eu conversei com algumas pessoas. E, nos juntamos novamente num momento difícil. Porque uma coisa que não combina é feminismo com extrema direita. Não tem como. Fizemos uma grande exposição da história das conquistas, na Assembleia Legislativa. Muitas escolas foram lá. A gente conversava com os meninos, promovia debates no Sindicato dos Jornalistas e no Teatro da Cidade (2019). 

Trouxemos a Marlise Matos (coordenadora do NEPEM) pra falar sobre política e feminismo. Ela alertou que“estávamos vivendo um período de desdemocratização”. Eu não conhecia esse termo. E depois a gente viu o que era, com o governo Bolsonaro. Porque foi uma avalanche. A destruição das instituições. Nossa, impressionante, não é? O objetivo era destruir mesmo. 

Os Agressores Também Recebem Atenção 

O Instituto Albam, localizado em Belo Horizonte (MG), é uma organização não governamental reconhecida por desenvolver grupos reflexivos e programas de reeducação voltados para homens autores de violência doméstica contra a mulher. O trabalho foca na desconstrução de comportamentos machistas e na responsabilização dos agressores, buscando evitar a reincidência.

Como é que você acaba com uma experiência dessa não dando recurso? O governo Bolsonaro e o governo Romeu Zema fecharam isso tudo.

Aqueles homens estavam num processo de reeducação. Eu sou a favor disso, como é que eu posso falar que não!

Nova Retomada

Então veio a pandemia de Covid e só retornamos em 2024. 

Dessa vez na Academia Mineira de Letras, com Sábados Feministas, uma vez por mês. Foram dezesseis temas até aqui, entre eles: a representação da mulher na ópera, a filosofia de Simone de Beauvoir, Lei Maria da Penha e outros. E, agora, em março de 2026 realizamos novo evento na AML com o tema Democracia, revoluções, gênero: lutas históricas e desafios contemporâneos. Com a presença do cientista político Leonardo Avritzer e da historiadora Stella Ferreira.  

Eu acho que a violência de agora é a resposta patriarcal às conquistas das mulheres. As mulheres conquistaram o lugar de trabalho. Outro ponto central é a normalização histórica da violência dentro das relações íntimas. Durante décadas, por exemplo, a própria ideia de estupro dentro do casamento era socialmente invisível.

Quando começam a se relacionar com um cara, o abuso começa. Tem um momento que ela percebe que não quer mais essa relação! Ela fala. Pelas pesquisas, sabemos que num espaço de três meses, ela pode ser morta. Olha, depois da primeira agressão, nunca vai melhorar. 

Então é o seguinte: vai embora, porque não vai melhorar. Depois disso só vai piorar. E, aí, você tá correndo risco! Eu não acredito mais nessa coisa de recuperação. Depois do primeiro ato de violência virá o segundo, o terceiro. Saia, vá embora! Fuja, porque você tá arriscando sua vida.

Feminismo

Feminismo? Olha, eu gosto muito da definição do Norberto Bobbio (1909-2004):

Em sua obra A Era dos Direitos (1990) reconheceu o feminismo como a “revolução mais importante do século XX”, destacando-o como uma mudança estrutural fundamental para a democracia, superando visões androcêntricas tradicionais.” 

 Ele analisou a trajetória de lutas das mulheres, focando na igualdade, liberdade e nos direitos humanos.

A mulher menos disposta a pensar sobre essas questões vê como antônimo o feminismo e o feminino. É machismo. O feminismo não nega o feminino. A gente é contra mesmo certas características como a passividade, a submissão, a resignação que são consideradas qualidades femininas. Não, isso não é da ordem do feminino. Isso é cultural, isso é aprendido.

Eu acho assim complexo: 

a) o feminismo liberal que confia no sistema e reconhece a igualdade das mulheres dentro do sistema capitalista, o adequado funcionamento das leis; 

b) o feminismo marxista que é contra o patriarcado e contra o capitalismo porque acha que o capitalismo é prejudicial. 

Então, o feminismo é um movimento em prol das mulheres, da liberdade de escolha de uma vida sem violência e, também, de uma realização pessoal. A mulher deve ser como gostaria de ser. Acho que cada um faz o que quiser da sua vida, mas tem que saber do risco, tem que saber o risco. 

A Violência Extrema

Determinados comportamentos violentos se reforçam dentro de grupos masculinos.Existe uma lógica de competição e afirmação entre homens que pode levar a situações extremas. Existe uma força do grupo, do bando. Essa dinâmica ajuda a explicar fenômenos como violências coletivas e agressões em grupo.

E agora a extrema direita tá voltando. Estão à vontade e falam o que querem. Perderam medo, vergonha. O Red Pill, por exemplo, é violento. 

O movimento red pill ganhou notoriedade na internet depois que homens começaram a abordar ideologias misóginas em seus discursos. A comunidade surgiu a partir de um conceito fictício do filme Matrix, de 1999, em que a pílula vermelha seria a escolha para “despertar” e ganhar “consciência” da realidade do mundo. Homens que fazem parte da comunidade red pill normalmente se comunicam nas redes sociais utilizando emojis como a estátua moai “🗿”, uma taça de vinho “🍷” e o emoji de pílula “💊”.

Entrei num grupo desse, eu nem sei como que eu entrei. O mínimo que ouvi, era receita de como estuprar uma mulher. Eu fiquei tão abalada, parecia que eu estava no meio ali,deles. Eu saí correndo. 

Os crimes sexuais seguem longe de ser episódicos. Em 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o país registrou 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável — o maior número da série histórica, mais que o dobro do contabilizado em 2011. Meninas e mulheres representaram 87,7% das vítimas.

O caso de estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos, em Copacabana no dia 31/03/2025, é retrato chocante dessa realidade. Esses criminosos são jovens adultos e um menor de idade, todos estudantes, de classe média, com acesso a todo tipo de informação e às legislações referentes ao crime que cometeram.

Não se pode responsabilizar automaticamente famílias por crimes cometidos por seus filhos. No entanto, a educação doméstica participa da formação das relações de gênero. 

É sempre essa moeda de troca lá nessas relações. É um jogo e é um “pas de deux”. Os dois, construindo aquela relação violenta, que é uma coisa relativamente nova. 

Em 1975 a gente, naquela época, denunciava violência. De uns 20 anos pra cá começou uma coisa mais pela influência da psicanálise. A relação vai sendo construída, o ciúme vira um jogo erótico. Só que a coisa vai complicando… 

A gente nem sabe o mundo que a gente tá, sinceramente. Porque também é a nossa geração, entendeu?   O nosso papo é muito esse, a nossa geração, paz e amor! Porque a linguagem é o tema, as preocupações. Exatamente. 

Feminismo Para Todos

No livro O Feminismo é Para Todo Mundo, a escritora bel hooks (1952-2021) define:

“Feminismo é um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão.” 

O feminismo é pra todos quando você liberta a mulher, quando ela fica uma mulher mais independente, mais autônoma, que discute suas ideias. Pode-se presumir que vai ser uma boa companheira, que vai ser boa pra todo mundo. 

Muitas mulheres hoje falam que o feminismo está acabando com a família. É isso, elas têm uma certa razão: está acabando com um certo tipo de família. A família patriarcal. Exatamente. O feminismo é contra mesmo. Totalmente. É exatamente, isso é o feminismo. Só que você tem que falar de uma outra família: uma família mais inclusiva, mais democrática, mais respeitadora das diferenças, né? 

E é a questão que eu acho fundamental, que perpassa tudo. É a questão da diferença. Eu respeito a diferença. Eu acho que aí eu já incluo mulheres indígenas, negros e até animais. É o respeito à diferença, é olhar o outro com mais empatia, às vezes até com compaixão, entendeu? É respeitar o outro na sua diferença. É a verdadeira inclusão. Diversidade e inclusão. Nós temos conflito, nós divergimos. Não precisamos pensar da mesma forma. 

Então, por exemplo, uma empresa é conhecida como uma empresa diversa. Pode ser mesmo: lá tem homem, tem mulher,tem pessoas pretas, tem gays, tem tudo. Ali. Agora a inclusão é se todos tiverem o mesmo poder de fala. O conflito tem que existir. Faz parte. É tão bonita  a diferença:digamos um homem com mais força, a mulher com uma certa delicadeza. É tão bonita a similitude que atrai: o homem gay. 

A estrutura patriarcal engloba o homem também. A estrutura é violenta. Por isso que o feminismo é pra todos. O papel do homem como provedor de uma casa é muito pesado. Muito. Engraçado, que nessa turma de geração mais nova esse modelo tá voltando. Porque daí não tem jeito. Se um é provedor o outro vai ter que entrar com outra coisa: pode ser o sexo, cuidado com a família, cozinhar, lavar, passar. Na verdade é esse o movimento e o homem é o provedor. 

Lei Maria da Penha

(Sancionada dezoito anos após os direitos garantidos pela Constituição Federal, a Lei Maria da Penha tornou-se um instrumento importante para a proteção das mulheres)


A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é o principal mecanismo brasileiro para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, sancionada em 7 de agosto de 2006. Ela define cinco formas de violência — física, psicológica, sexual, patrimonial e moral — e estabelece medidas protetivas de urgência, além de criar juizados especializados para proteger mulheres em situação de vulnerabilidade

Eu acho que para um certo tipo de homem a Lei Maria da Penha funciona. É como se diz em psicanálise “aqueles que estão sob a barra da lei”. Aqueles que não estão sob a barra da lei não tem Lei Maria da Penha, não tem medida protetiva, não tem nada. Quando uma pessoa resolve matar a outra, se ela não tiver sob essa barra da lei, se ela não for uma pessoa estruturada, uma hora ela mata. Então, não tem Lei para um determinado tipo de homem. Mas para a maioria deles a lei funciona. 

É preciso agir

O feminismo, em 1975, estava num determinado momento e nós também na nossa vida.Todo mundo ali com 23, 25 anos. Era muito a questão da contracepção, a questão do prazer, a questão do orgasmo, era isso que a gente discutia. Era muito engraçado, nos grupos feministas, tinha um negócio de usar espelhinho pra ver a xoxota. Ninguém nunca tinha visto direito então, ia lá olhar e se conhecer. Conhecer o corpo, a pílula… A questão da violência não existia; não que a violência não existisse. É, mas ela não era a palavra. Engraçado. Isso que eu acho interessante no movimento da vida. As coisas existem, elas não têm nome, mas elas existem. Até a hora que elas têm um nome: feminicídio!

Anteriormente uma lei qualificadora, o feminicídio passou a ser um crime autônomo (Art. 121-A do Código Penal Brasileiro) a partir de 2024, com pena de 20 a 40 anos, conforme a Lei 14.994/24

Muito antes de o termo feminicídio existir na legislação brasileira, mulheres já denunciavam o assassinato de mulheres como expressão extrema da desigualdade de gênero. O feminicídio existe desde Adão e Eva. 

Então o que é um feminicídio: é um homicídio qualificado. Agora dá prá fazer um recorte, começar a entender o fenômeno melhor. Pleitear políticas públicas, a exemplo da 

Campanha Justiça pela Paz em Casa, idealizada pela ministra Carmem Lúcia, criada em 2015 pelo CNJ Conselho Nacional de Justiça. Concentra esforços dos Tribunais de Justiça estaduais para agilizar processos de feminicídio e violência doméstica. O programa ocorre três vezes ao ano, tradicionalmente em março (Dia da Mulher), agosto (aniversário da Lei Maria da Penha) e novembro (Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher). 

Quando a coisa tem nome ela deixa de ser invisível, ela começa a ser.  

Dilma Rousseff, a primeira mulher Presidente do Brasil, sofreu violência sexista. Cito dois momentos específicos. Em 2015 circularam montagens de adesivos misóginos em postos de gasolina. Cena horrorosa. E, quando foi vaiada e hostilizada por parte do público no jogo de abertura da Copa do Mundo de Futebol, em 12/06/2014. Falta de civilidade. 

Fizemos uma campanha bonita do movimento Quem Ama Não Mata com a parte social do Clube Atlético Mineiro. Gravaram depoimentos com o jogador Hulk. Precisamos ter essa conversa dentro dos clubes, dentro das escolas, dentro das empresas. Só agora, há coisa de seis meses, resolvemos atuar em escola: “cuidadismo digital”, letramento de gênero. Com o amparo técnico de duas professoras da PUC, Karina Junqueira e Andrea. Vamos trabalhar com adolescentes de 15, 16 e 17 anos. A mudança de mentalidade exige transformação cultural profunda, envolvendo família, escola e sociedade. 

Para mim, atualmente, tão importante quanto a causa das mulheres, é a causa da defesa dos animais: tudo é uma questão de respeito à diferença.

As coisas se somam e eu estou convencida que a gente tem que fazer a nossa parte. É a nossa passagem por essa terra. Uma pequena contribuição, mínima. É uma gota d’água no oceano da ignorância, entende?

Wilson Oliveira

Wilson Oliveira - Mestre em Artes pela UFMG. Professor aposentado da UFOP onde ocupou o cargo de Pró Reitor Adjunto de Extensão. Diretor do Grupo Teatral Encena com o qual desenvolve pesquisas na área de Artes Cênicas. É torcedor do América Futebol Clube.

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