1 – O OURO ALÉM DAS ESTATUETAS
Victor Sid Cordeiro
No último dia 15 de Março o Brasil mais uma vez se reuniu para acompanhar a cerimônia de premiação do Oscar. Com quatro indicações para “O Agente Secreto” e a indicação do trabalho de Adolpho Veloso para o prêmio de melhor fotografia com “Sonhos de Trem”, nosso país nunca concorreu em tantas categorias na maior premiação do cinema mundial.
Apesar disso, desta vez não vencemos em nenhuma. O resultado frustrou muitos que tinham a expectativa principalmente de ver Wagner Moura conquistando o primeiro prêmio da Academia para a atuação brasileira. Afinal de contas, seja no esporte, no audiovisual ou em qualquer âmbito, o brasileiro é viciado em ganhar, o que muitas vezes pode levar a uma catastrofização das “derrotas”. Mas o que podemos enxergar na 98ª cerimônia do Oscar para além das estatuetas, tanto para o cinema nacional como para o mundial?
Falar sobre o bom momento do cinema brasileiro virou lugar-comum após a projeção internacional que ganhou nos últimos dois anos com as obras de Walter Salles e Kléber Mendonça Filho. Mas a última delas ainda traz um gosto especial pela imersão que a trama faz na cultura pernambucana, transportando os olhares do mundo para um referencial de Brasil que foge do estereótipo carioca a que somos constantemente associados. Mostra, na verdade, um universo riquíssimo que até mesmo muitos de nós que celebramos a grandeza e a riqueza cultural do nosso país desconhecemos. Com referências que vão desde blocos tradicionais do centenário Carnaval olindense até lendas populares como a “perna cabeluda”, o filme traz uma narrativa única, que mescla realidade e ficção com um toque artístico e uma sensibilidade raríssimos de se ver nos dias atuais.
Para mim, de forma pessoal, foi um privilégio poder assistir à obra morando em Caruaru. A própria história da perna cabeluda, uma das mais celebradas e reconhecidas no folclore pernambucano, não é tão famosa em outras regiões do Brasil. Eu, assim como muitos outros, a conheci ouvindo Chico Science, coincidentemente na trilha sonora de “Marighella”, filme do próprio Wagner Moura. Dessa forma, embora não soubesse exatamente da sua origem, por estar vivendo em Pernambuco consegui entender melhor a proposta de Mendonça Filho ao inseri-la em meio ao enredo do filme. As sutilezas de outras referências que são trazidas em meio ao contexto da ditadura militar na década de 70 também inserem novos componentes no repertório popular nacional, já que o filme retrata uma das épocas mais traumáticas da história recente do nosso país a partir de uma perspectiva diferente. Diferentemente de “Ainda Estou Aqui”, “Marighella” ou outros, a história se passa em Pernambuco em vez das grandes metrópoles do Sudeste, além de ser centrada na vida de um professor que apenas tentava desenvolver sua carreira profissional em meio a um regime autoritário, sem necessariamente se envolver em atividades de resistência política. Esses ingredientes reconfiguram as discussões em torno de um período amplamente comentado (e frequentemente subestimado) da nossa história, despindo-o de vários vieses aos quais é constantemente associado.
A atuação de Wagner Moura é um dos destaques do filme, conseguindo entregar simplicidade e densidade na exata medida que o personagem precisava. Mas pra mim certamente um dos elementos mais fundamentais e que mais agregaram à obra foi a presença da até ontem desconhecida Tânia Maria no papel de Sebastiana. Nada mais justo que “O Agente Secreto” ter recebido uma indicação na estreante categoria de “Melhor Direção de Elenco”. Em uma produção que almejava retratar os impactos de um regime tirânico na vida de pessoas comuns, ninguém poderia ser melhor para simbolizar isso que uma costureira de 79 anos, moradora do Seridó (o sertão potiguar) e sem qualquer experiência prévia como atriz. Seu talento e carisma a transformaram da noite pro dia em um ícone nacional. Por ironia do destino, após ter abandonado o vício de 65 anos fumando para poder viajar aos Estados Unidos e acompanhar de perto o Oscar, ela acabou assistindo à cerimônia em sua terra natal, no povoado de Santo Antônio da Cobra, no município de Parelhas. O medo da guerra recém-deflagrada entre EUA e Irã foi um dos motivos da sua decisão de não ir a Los Angeles. Após ter sido cotada até mesmo para uma indicação ao prêmio de melhor atriz coadjuvante, Tânia Maria teve o privilégio de receber diversas homenagens na pracinha da sua própria comunidade, com direito a tapete vermelho e tudo o mais.
O gesto dos moradores do povoado representa muito bem a forma como devemos encarar o desfecho dessa temporada para a nossa arte. É natural nos alegramos ao ver nossos compatriotas sendo prestigiados e aclamados em outros países, participando de eventos de gala ao redor do mundo e desfrutando de todo o luxo hollywoodiano. Mas o mais importante é ver o cinema cumprindo brilhantemente seu papel de resgatar a nossa cultura, os nossos modos de vida, a história da nossa gente e o orgulho que temos dela. A população parelhense entendeu isso muito bem. O reconhecimento das nossas Tânias Marias, Alices Rodrigues, Wagners Mouras e tantos outros vai muito além das estatuetas.
E para o cinema mundial, em que medida o legado desse Oscar extrapola o ouro dos premiados? Tive o privilégio de poder assistir a quase todos os filmes indicados nas principais categorias e fiquei bastante satisfeito com o que vi. Para quem, assim como eu, é apaixonado por música, tivemos um ano bastante especial, com algumas canções incríveis sendo indicadas na categoria de “Melhor Canção Original”. Meu destaque pessoal vai para “I Lied to You”, que nos presenteou com uma das melhores cenas do ano no incrível “Pecadores”, na voz de Miles Caton, outro que estreou nas telonas com uma performance brilhante. A belíssima “Train Dreams”, de Nick Cave em “Sonhos de Trem”, também chamou bastante atenção, sendo feita sob medida para um filme que emociona com sua sensibilidade minimalista.
2 – LIVROS RESTANTES
Thiago Leão

“Livros Restantes” (2025) é uma coprodução Brasil-Portugal. Dirigido por Marcia Paraíso é estrelado por Denise Fraga como Ana Catarina, uma mulher de 50 anos que se muda para Aveiro, em Portugal.
Com uma equipe majoritariamente feminina, o longa oferece um olhar sensível e íntimo. É um roteiro dramático que mergulha na alma feminina! Bem no início, um close em “A Obscena Senhora D”, livro de Hilda Hilst. Em outra cena, “A Teus Pés”, obra de Ana Cristina César, nos guia até o encontro com o mar onde a personagem parece mergulhar em suas próprias memórias. Ela revisita seu passado ao decidir devolver cinco livros autografados a amigos e ex-namorados. É uma obra sobre recomeços, literatura, sobre vidas que se entrelaçam, sobre memórias.
Denise Fraga reforça esta reflexão. Em entrevista disse: “Acho que o filme desperta isso — vontade de viver, de tirar sonhos da gaveta, de colocar em movimento aquilo que ficou guardado por tanto tempo”.
Para a diretora, o principal objetivo de Livros Restantes é fazer com que as mulheres se sintam motivadas. E Marcia Paraiso conduz magistralmente essa premissa.
“Eu dormi e sonhei que estava entregando livros para as pessoas, reencontrando quem havia me presenteado com aqueles exemplares, alguns até com dedicatórias. Acordei com essa imagem muito viva na cabeça”… diz a diretora.
Literatura, humor, delicadeza, encontros e reencontros. É um ritual de despedida.
As interpretações sensíveis dão vida a personagens que giram em torno da beleza natural de Barra da Lagoa, uma comunidade de pescadores de Florianópolis.
Esse filme teve breve passagem pelos cinemas e merece ser visto. Consegue envolver o espectador, propondo uma viagem pelos possíveis caminhos da literatura. Um filme que diz muito nos mínimos detalhes.
O elenco de coadjuvantes tem Augusto Madeira, Renato Turnes, Andrea Buzato, Marcinho Gonzaga, Manuela Campagna, Paulo Vasilescu, Joana Dos Santos, Vanderléia Will – em um belo trabalho de equipe.
Disponível na plataforma Prime Video.





