1 – EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO
Djalma França
Essa foto foi enviada por meu primo Roberto, filho de Mauro. Ele se lembrou da pedra e a conseguiu.
A – NO CAMINHO DE SWANN OU DA COMIDA DI BUTECO
Não gosto de ficar sem ver minha cidade por mais de dois meses. BH é necessária.Subir a rua do Ouro como faço há mais de seis décadas me tranquiliza a alma. Desta vez, contudo, eu estava procurando em Santa Efigênia um bar participante do festival comida di buteco. Vinha pela avenida do contorno virei à direita na Juiz da Costa Val e depois à esquerda e…o carro caiu num buraco improvável de tão grande. Encostei e fui conferir se o pneu não tinha rasgado ou coisa que o valha. Olhei pneu, buraco, céu azul e, uns 50 metros à frente, a casa antiga que eu visitei várias vezes na minha infância, com meu pai, Dr. França.
Havia uma espécie de ritual sabático: meu pai inventava de “ver doentes”, o termo era este, provavelmente incorreto nos tempos atuais. Chico França, meu primo que morou na nossa casa, certamente participou dessas excursões e foi ver doentes, também. Meu pai pegava o primeiro ser vivo à mão e ia passear e ver seus doentes, portanto. Mas aquela casa, antiga e por isso bela, era a casa do Coronel João Lemos, amigão do papai e parente de um tio meu, casado com tia Das Dores, irmã de minha mãe.
Em segundos eu voltei 55 anos no tempo, lá pelos idos de 1970, e me vi subindo as escadas da casa do Coronel com meu pai. Marcel Proust e sua Madeleine molhada no chá, eu e meu carro no buraco da Tenente Anastácio contemplando a casa antiga e voltando, em segundos, mais de meio século.
B – DE CÁSSIA ELLER E DO AMOR FATI
Coronel Lemos estava doente, com câncer de pulmão avançado. Daí as visitas sabáticas. Em 1970 não havia muitos recursos terapêuticos. Meu pai fez o que qualquer médico faria: proibiu- o de fumar. O Coronel havia fumado desde os 15 anos e já tinha mais de 80. Ele era bem humorado, mas estava muito, muito triste naquele dia. Sentado na poltrona, levantou- se para nos cumprimentar. Meu pai era brilhante, eu sempre achei. Mas inteligência nesse mundão de Deus não resolve muita coisa, não. É preciso ter, como cantava Cássia Eller, um pouco de malandragem, sacar as coisas não ditas, ler a atmosfera, ler o ar, um piscar de olhos, um gesto, um suspiro. E nisso Dr. França era foda. Ele contou as piadas de sempre, tentou, pelejou, mas o Coronel estava sério, mais triste do que sério. Uma tristeza enrugada, todas as rugas do mundo comprimidas em rasgos de pele crucificadas.
A cozinha da casa ficava no fundo, depois da sala. Com a desculpa de pegar um copo d’água, meu pai foi para lá e eu fui atrás. Ele conversou um pouco com a cozinheira e perguntou qual era a marca de cigarros que o Coronel fumava. Tirou dinheiro do bolso e pediu para ela ir comprar. O dia estava chuvoso, sem sol, sem céu, sem brilho algum.
Quando a cozinheira voltou da padaria, meu pai foi encontrá-la na cozinha. Fui atrás. Pegou o maço de cigarros, fósforo, pegou a coragem de um cara brilhante e um pouco esperto, pegou a coragem de um humano de bom coração, pegou a coragem que só um homem com um pouquinho de malandragem poderia ter, e alcançou cigarro e fósforo para o Coronel. O dia estava meio nublado, mas… não mais. O Coronel sorriu, meu pai sorriu e eu sorri. O dia ficou claro, o Coronel tragou profundamente o cigarro de sua preferência e… Fiat Lux. Paz e bem, como dizia São Francisco.
C – MARILYN MONROE E HEMINGWAY
Coronel Lemos, na década de 30, era muito respeitado naquelas redondezas de Serro, Diamantina e Datas. Apaixonou-se por sua sobrinha, Nivea, 22 anos mais nova, ele já quarentão. A família não aceitou o romance. O Coronel, então, a “raptou” , fugiram para o amor, fugiram do preconceito, foram morar juntos e ficaram assim por 45 anos. Se amaram de verdade. A casa deles transmitia isso pra gente.
Minha mãe, numa das viagens que fizemos ao Serro, me apontou uma pedra enorme que ficava próxima à estrada.
A Serra do Espinhaço tem um tipo de pedra característico, o quartzito, suscetível a erosão por vento. Essa pedra era e é famosa, pois dá ideia de que vai cair a qualquer momento. Uma falsa ilusão de ótica, posto que a impressão primeira é de que são duas pedras, uma sobre a outra. Uma formação de ampulheta, ou, de cintura de Marilyn Monroe.
Pois o Coronel Lemos, que com seus recrutas construiu estradas e desbravou ocultações, decidiu que iria tirar aquilo a limpo. Se fosse pra cair que caísse a pedra. Amarrou-a o quanto pode com cordas, trouxe cavalos, burros e jumentos, e tocou-os todos, até dando tiros para o ar.
A pedra está lá e assim será até o fim dos tempos. Quando estou chateado com algum problema, me faz bem pensar na pedra do Coronel e na sua quase perpetuidade.
Quando minha mãe me contou essa história, eu andei perguntando por aí e pude apurar que era tudo verdade. Anos mais tarde, quando li “O velho e o Mar” de Hemingway, eu me lembrei do Coronel, de sua saga e coragem. Me lembrei de Albert Camus e de Sísifo. Santiago e seu peixe descarnado, o absurdo da vida e da pedra do Coronel. De meu pai alcançando o cigarro para ele e de nós três sorrindo. Marcel Poust com sua Madeleine, eu com o buraco e a casa em Santa Efigênia.
Não os procuro, não estou atrás de ensinamentos ou coisas do tipo. Constato, apenas. O Coronel não afinou para o absurdo da vida, viveu o seu grande amor, pelejou com a pedra e matou a existência no peito. Tem o meu respeito.
2 – O FOGÃO AZUL E A ARTE DE DEVER COM CHARME
João Vizzotto

Por vezes, a memória da cidade se esconde em detalhes domésticos. Em Colina, por exemplo, há quem ainda se lembre do fogão azul de quatro bocas que virou personagem — não por assar bolos ou ferver feijão, mas por protagonizar uma história que mistura humor, esperteza e aquele jeitinho brasileiro de lidar com boletos.
Agnello Oliveira era um empreiteiro de reputação sólida e ética… digamos, flexível. Reformava casas para os colinenses endinheirados com a mesma destreza com que escapava das obrigações financeiras. Sua sogra, uma italiana legítima, já havia diagnosticado o genro com precisão cirúrgica: “No lavoro quello lì!” — não trabalha aquele ali. Mas trabalhava, sim. Só que quando queria. E pagar, então, era outro departamento.
Frequentador de missas e visitante ocasional do centro espírita (quem sabe em busca de um perdão celestial para as dívidas terrenas), Agnello decidiu um dia que sua cozinha merecia um toque de modernidade. Foi até a loja do Sr. Itacy Andrade, encostada no Banco Antônio de Queirós — um lugar onde se vendia de tudo: inseticida, adubo, geladeira, fogão e até seguro de vida. Um verdadeiro oásis comercial, embora o cheiro de veneno na calçada espantasse até os mais devotos consumidores.
Ali, entre sacos de ureia e apólices de seguro, Agnello encontrou o objeto do desejo: um fogão azul, reluzente, quatro bocas, o mais moderno que já havia pisado em solo colinense. Fechou o negócio em dez parcelas sem juros. Um espetáculo de compra.
Pagou duas. E sumiu.
Meses depois, o Sr. Itacy, em passeio despretensioso, passou em frente à casa do cliente inadimplente. Foi chamado para uma prosa, dessas que começam com conversa fiada e terminam com café passado na hora. Entraram pelo quintal, cruzaram a cozinha — e lá estava ele: o fogão azul, soberano, brilhando como se tivesse sido polido com orgulho.
Agnello, com aquele sorriso de quem deve mas não se abala, apontou para o eletrodoméstico e soltou, com ares de quem apresenta uma obra de arte:
— Olha o bichão aí!
E foi assim que o fogão virou lenda. Não pela tecnologia, mas pela história que cozinhava em silêncio — entre parcelas esquecidas e cafés compartilhados.





