Sofia von Atzingen Drake Cardoso é uma jovem e bela violista brasileira. Com sólida carreira na Alemanha, há vários anos, sua atividade musical concentra-se na música e arte contemporâneas.
Sofia destaca pelo menos três experiências marcantes para sua formação artística com participação em grupos musicais no Brasil.
São elas:
2000 – 2010 – O Grupo Diadorim composto por músicos de sua família: o pai Cláudio Urgel (violoncelo) e os filhos Laura (violino), Sofia (viola), Tomás(violoncelo). Formado em casa, com o auxílio luxuoso da mãe, Bernadette von Atzingen, violonista amadora. No repertório executavam pequenas peças escritas para crianças e tocadas em duos, trios e quartetos. Aos poucos incorporaram peças do repertório de concerto para instrumentos de cordas, além de arranjos e transcrições. Apresentaram-se em diversas instituições e cidades em Minas Gerais, além de percorrer 22 escolas de Belo Horizonte com o projeto Música de Concerto nas Escolas?, através do Fundo Municipal de Cultura.
2005 – 2008 – O Quarteto MinasArte integrado por duas famílias de músicos mineiros. Martha Pacífico, violista e seu pai Fernando Pacífico primeiro flautista solista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais OSMG. Sofia von Atzingen e seu pai Cláudio Urgel, violoncelista, doutor em performance musical pela Universidade de Iowa-EUA. e professor dos cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG.
2016 – Quarteto Oswald formado por músicos de diferentes origens – o violinista Dante Coutinho natural de São Paulo, a violista Sofia von Atzingen e o pianista Hélcio Vaz de Belo Horizonte e o violoncelista Felix Drake de Frankfurt – quatro jovens com ampla experiência como concertistas que visavam ampliar o cenário da música de câmara no Brasil.

Nesse início de jornada recebeu prêmios que já atestaram seu talento: em 2005 foi premiada em segundo lugar no Concurso Nacional de Cordas Prof. Paulo Bosísio, Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora e foi destacada como Jovem Músico BDMG 2010, Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais – BDMG Cultural.
Concluiu dois mestrados: um em performance pela Escola Superior de Música de Karlsruhe (Alemanha) com Johannes Lüthy, e outro mestrado em Música Nova com Barbara Maurer na Folkwang University of the Arts. Em 2022 defendeu sua tese de doutorado sobre a sonata solo para viola de Bernd Alois Zimmermann na Universidade Federal de Minas Gerais UFMG, orientada pelo Prof. Dr. Carlos Aleixo dos Reis.
Foi professora de educação superior na área de viola na Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais UEMG (2016-2018) e, atualmente, é professora substituta na Hochschule für Musik Karlsruhe.
Atuou como violista e intérprete com diversos grupos e em vários festivais de música contemporânea, incluindo o Ensemble E-MEX, o oh ton ensemble, o Kollektiv3:6Koeln na competição de composição do festival ACHT BRÜCKEN em Colônia, com a MOUVOIR Company & Ensemble Garage no festival Tanz im August em Berlim, em concertos do festival NOW! em Essen e no festival ZeitGenuss em Karlsruhe.
Desde 2022, integra o renomado grupo de música de câmara Ensemble Recherche e é membro fundadora do conjunto catinblack, um trio de cordas especializado em música contemporânea.

Em depoimento, por escrito, ela descreve assim sua atividade profissional:
“Meu nome é Sofia von Atzingen, sou de Belo Horizonte e moro na Alemanha. Sou musicista e meu instrumento é a viola de orquestra. Trabalho com música erudita contemporânea.
Acho que posso afirmar que trabalho com algo muito específico: meu instrumento é menos difundido no Brasil (e no mundo) que outros instrumentos da música erudita. A música erudita, por si só, não atinge o público com a mesma abrangência que a música popular. A música contemporânea, por sua vez, é uma área dentro da música erudita menos consumida pela plateia, e uma quantidade restrita de instrumentistas se dedica exclusivamente a ela. Por isso, não existem muitos violistas especialistas em música contemporânea no mundo, mas eu gosto muito de ser uma delas.
Para compreender o meu trabalho, talvez seja útil refletir sobre Mozart e Beethoven da seguinte maneira: eu trabalho com Mozart e Beethoven do futuro. Quando Mozart compunha, havia instrumentistas que estreavam suas obras. Assim faço eu hoje em dia.
É claro que, quando Mozart estava vivo, não havia gravações; só música ao vivo. Além disso, se hoje, nas salas de concerto de música erudita pelo mundo todo, o repertório executado pelos músicos são, em sua grande maioria, obras compostas há séculos ou décadas atrás, quando Mozart estava vivo, era exatamente o oposto. Esses são temas muito interessantes e complexos, que não abordarei aqui, pois não é meu objetivo refletir sobre o assunto neste curto texto. Mas é interessante perceber que existem pessoas, os compositores, com o desejo de se expressar por meio da música hoje tal qual havia há anos atrás. Nesse processo de criação, os compositores acabam desenvolvendo novas linguagens. Para que isso tenha sucesso, eles precisam de intérpretes como eu, que se aventuram e estão abertos a experimentar novas técnicas, expandir ideias e apresentar algo inédito à plateia.
Meu trabalho principal é como membro do Ensemble Recherche. Criado em 1985, o Recherche é um dos grupos de música de câmara contemporânea mais respeitados do mundo, com 40 anos de existência. Somos nove músicos, com os seguintes instrumentos: violino, viola, violoncelo, flauta, oboé, clarinete, piano, percussão e artista de som (música eletrônica). Certamente, mais de mil obras foram compostas para o Ensemble Recherche. Nessa carreira de 40 anos, algumas colaborações com compositores se destacam pela longevidade e a qualidade do trabalho, que se estendem por décadas e resultam em obras que resistem ao tempo e continuam relevantes.
Determinadas interpretações e gravações do grupo, além das obras escritas para o Ensemble Recherche, são históricas. A ex-violinista do ensemble, Melise Mellinger, que se aposentou em 2024, costuma dizer que “ela é um pedaço da história”. Atualmente, o Ensemble Recherche passa por uma mudança de gerações: alguns músicos estão no grupo há quase 40 anos, outros, como eu, há 3 anos. Para entrar no grupo, fiz uma audição em setembro de 2022. Minha prova durou duas horas. Toquei obras solo e em combinação com os instrumentos do ensemble. Após ser selecionada como a melhor candidata, passei por alguns meses de estágio probatório.
O mais importante no meu trabalho é o entrosamento musical com os meus colegas instrumentistas. Não basta ter grande domínio do instrumento, é preciso saber interagir com os colegas no dia a dia e no palco. O que torna o Ensemble Recherche especial é sua capacidade de ser um excelente time: ninguém é mais importante que o outro em nosso grupo. Não trabalhamos com regente nem temos um líder. É um sistema democrático de fazer música. Às vezes, o processo de ensaio é mais lento por causa disso, pois é preciso dialogar para encontrar soluções musicais que agradem a todos. Não é fácil! Mas é um processo que todos nós apreciamos. Somos nove solistas, com diferentes personalidades e ideias, trabalhando com o objetivo comum de obter o melhor resultado possível com o material musical com o qual estamos trabalhando no momento.
No Ensemble Recherche, somos uma GbR (Gesellschaft bürgerlichen Rechts), que pode ser traduzido como “sociedade de pessoas”. Nossa GbR dispõe de apoio financeiro da cidade de Freiburg im Breisgau e do estado de Baden-Württemberg. O nosso prédio, o Ensemblehaus, foi construído para o Ensemble Recherche e a Freiburger Barockorchester pela associação Stiftung Baden-Württembergische Ensemble-Akademie para esses dois grupos artísticos de importância internacional. Nossa GbR tem quatro funcionários: um diretor artístico e uma diretora financeira, que são responsáveis pela dramaturgia e finanças do grupo, e duas pessoas responsáveis pela gestão de projetos do Ensemble. Trabalhamos em Freiburg im Breisgau, nossa cidade, mas frequentemente temos concertos e trabalhos pedagógicos no exterior. Além dos concertos, é muito importante na minha área trabalhar com jovens compositores e instrumentistas para auxiliar o desenvolvimento das próximas gerações de artistas. Com o Ensemble Recherche, já realizei concertos, workshops e palestras na Alemanha, Áustria, Grécia, Portugal, Eslovênia, Polônia, Finlândia, Suécia, Itália, Japão, Coreia do Sul, entre outros.
Além de trabalhar no Ensemble Recherche, também faço parte de um trio de cordas especializado em música contemporânea, com a formação de viola, violoncelo e contrabaixo, chamado catinblack ensemble. Nesse trio, sou responsável por grande parte da gestão do grupo, incluindo captação de recursos, desenvolvimento de programas e todo tipo de burocracia para a existência do trio. É difícil para o artista conciliar a produção com a realização de um concerto ou projeto. O catinblack existe há apenas três anos, mas já realizou gravações no IRCAM, em Paris, com Chaya Czernowin, um grande nome da música contemporânea atual. O grupo também ministrou um curso na Universidade Harvard, em 2025, para compositores que fazem doutorado na área de música, e tem concertos planejados para 2026, na Alemanha, Bulgária e no Azerbaijão, além de projetos com o SWR Experimental Studio para 2027.
Atualmente, leciono como professora substituta na Hochschule für Musik Karlsruhe, também na minha área específica: música contemporânea”.

Sofia mora numa cidade florida, bucólica: Freiburg, em Breisgau. Sua casa está localizada em uma região de arte e cultura.
Pergunto-lhe sobre viver num país de clima tão frio e costumes tão diversos. Ri, e responde que sente-se perfeitamente integrada à vida cotidiana. Insisto e ela nos mostra alguns aspectos que o turista dos trópicos notaria imediatamente:
No verão as pessoas realmente saem de casa, ela diz. Aproveitam os parques e usam as piscinas públicas. Fazem piquenique em família, às vezes todos nus, o que é visto como um comportamento normalizado. Dançam nas ruas.
As mulheres alemãs se vestem como querem, independente da idade e não atraem olhares curiosos ou de reprovação. No trato diário, as relações são mais frias, se comparado aos brasileiros, chegando a parecer rudes.
Na Alemanha não existem leis para direitos aos idosos, como no Brasil. Mas quando necessário muitos, por vontade própria, mudam-se para casas de longa convivência. São locais bem estruturados, com conforto e assistência e com ampla adesão social.
O custo de vida é bem mais barato que no restante da Europa e, mesmo com a alta dos preços, viver na Alemanha é mais acessível do que em outros países do continente.
Ela vem ao Brasil anualmente rever a família e, às vezes, estende a visita a Peçanha, cidade de seus avós paternos. O violão também é companheiro constante. No repertório, a fina flor da música brasileira: Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
Dos estrangeiros aponta a musicista islandesa Björk como sua preferida.
Sofia ainda pratica natação, gosta de cinema e dança forró.
Ah, um forró “maneiro”! Bem brasileiro.
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Links / Audio e vídeo de algumas apresentações:
Enno Poppe (*1969)
Laub, for flute, oboe, clarinet, piano, violin, viola and cello (2022/24)
ensemble recherche:
World Première, 12 May 2024, ACHT BRÜCKEN ’24
Yair Klartag (* 1985)
Music of the Sefiras (2023)
Instrumentation: Flute, Oboe, Clarinet, Piano, Percussion, Violin, Viola, Cello and Tape
First performance by Ensemble Recherche – 03.02.2024, Stuttgart (Germany)
Heinz Holliger (*1939)
Trema für Viola solo (1981)
VIDEO https://www.youtube.com/watch?v=VE_zxmHEe5Y
Luciano Berio (1925-2003)
Sequenza VI per viola sola (1967)
VIDEO https://www.youtube.com/watch?v=J7aHlT2wXIw
Helmut Lachenmann (*1935)
Streichtrio Nr. 2 Mes Adieux (2021/22)
Live-Aufnahme von Trio Recherche
Festival Ultraschall Berlin 21.01.2023
AUDIO https://on.soundcloud.com/V2BEJt7HMwpWCtDz8
Vito Žuraj (*1979)
INNEN (2024);
Musica Nova Helsinki / Ensemble Recherche & Helsinki Chamber
Hainbach (*1978) e Ensemble Recherche
Retold (2024)
ARCHIPEL | Brigitta Muntendorf | Stephanie Thiersch | Sou Fujimoto
Jonah Haven (*1995)
being-sent (2023)
catinblack ensemble





