Thomaz Furtado Tavares Ferreira / BRASIL DE ANCELOTTI – A OBSESSÃO POR NEYMAR E OUTRAS REFLEXÕES SOBRE A CONVOCAÇÃO

Publicado em: 29/05/2026 às 05:40

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No mês em que o futebol se tornará o principal assunto ao redor do mundo, o craque Chris Hunt  aborda como a paixão atua nos torcedores, criando momentos antológicos, dentro e fora dos campos. E Victor Cordeiro sobre a seleção brasileira. 

Tabelinha sensacional.

 1 – Thomaz Furtado Tavares Ferreira
Chris Hunt

Se você jogou futebol na escola ou em um clube amador, provavelmente teve pelo menos um momento de ouro — um momento em que você atuou com uma compreensão perfeita e instintiva do jogo. O meu aconteceu quando eu tinha 16 anos. Eu estava jogando pelo time da minha escola nos EUA, em uma partida contra um rival há muito esquecido. Nosso ponta esquerda estava correndo pela lateral com a bola, e enquanto eu corria em paralelo a ele, eu sabia — eu sabia com absoluta certeza — que ele cruzaria a bola para mim e eu marcaria. Não havia tempo para hesitar. A bola veio voando em minha direção, na altura do meu peito. Eu me abaixei o suficiente para cabeceá-la e a desviei para o outro lado do gol, em direção à trave oposta. Quando uma bola de futebol bate na sua cabeça em alta velocidade, sua visão fica embaçada, então eu não consegui acompanhar a trajetória da bola. Mas eu a ouvi bater na rede e deslizar para a grama.

Para um jogador de futebol profissional, meu momento de ouro — meu único momento de ouro, pois eu não era um grande jogador — mal se qualificaria como rotina. Quantas vezes Roberto Firmino, Hugo Ekitike ou Virgil Van Dijk converteram um cabeceio com a mesma naturalidade de quem escova os dentes? Quantas vezes Sadio Mané, Mohamed Salah ou Luis Díaz marcaram gols de forma mais espetacular, driblando defensores e enganando um goleiro indefeso? Quantas vezes Trent Alexander-Arnold, Thiago Alcântara ou Dominik Szoboszlai deram um passe perfeito para um companheiro que só ele podia ver? Se você acompanha a Premier League inglesa, a melhor liga de futebol do mundo, sabe que todos esses jogadores atuaram pelo Liverpool Football Club nos últimos cinco anos. Eles são meus heróis. Sou torcedor do Liverpool.

Por que sou torcedor do Liverpool? Essa é uma boa pergunta. Não sou de Liverpool. Nem mesmo sou inglês. Não sou torcedor do Liverpool porque meu pai torcia para ele, ou porque meu irmão torcia contra, ou porque seus jogadores visitam crianças doentes em hospitais. Tornei-me torcedor do Liverpool por causa de um barman irlandês no Brooklyn.

Aconteceu assim. Há uns 20 anos, com o aumento da cobertura televisiva do futebol europeu nos EUA, comecei a assistir aos jogos da Premier League nos fins de semana. Logo percebi que aproveitaria mais as partidas se tivesse um time para torcer. Decidi escolher um clube que tivesse chances de ganhar o título da liga ou, pelo menos, terminar a temporada entre os quatro ou cinco primeiros colocados, garantindo assim uma vaga na Liga dos Campeões — o principal torneio de clubes da Europa. Isso significava escolher um entre meia dúzia de times ingleses: Manchester United, Manchester City, Chelsea, Tottenham Hotspur, Arsenal ou Liverpool. Mas qual deles? Por vários motivos, nenhum me empolgava. Manchester United? Arrogante demais. Manchester City? Financiado por sheiks do petróleo. Chelsea? Financiado por um oligarca russo. Tottenham? Não sabia por quê, simplesmente os detestava. Arsenal? Quase sempre decepcionava seus torcedores. Liverpool? Os Beatles cresceram lá, mas nenhum deles torcia para o clube, então devia haver algo de errado.

Eu estava perdido.

Certa noite, por volta dessa época, fui jantar com minha família em um restaurante perto de casa, no Brooklyn. Enquanto esperávamos por uma mesa, fui até o bar e pedi uma margarita. Não sou de beber muito, e aquele drinque tinha tequila suficiente para encher um aquário. Logo me senti tonto e tagarela. Percebi que o barman tinha sotaque irlandês. Perguntei se ele era fã de futebol. Ele me olhou como se fosse a pergunta mais estranha que já tinha ouvido. “Claro”, respondeu. Perguntei para qual time ele torcia. Ele disse que os irlandeses torcem para dois: um na liga escocesa — Celtic, se forem católicos, Rangers, se forem protestantes — e um na Premier League. Ignorando o assunto potencialmente perigoso da sua religião, perguntei: “Para qual time da Premier League você torce?“. Ele respirou fundo. Obviamente, só havia uma resposta possível para aquela pergunta, e o americano idiota com a margarita não sabia disso. Finalmente, ele disse: “Liverpool”. “Pronto, acabou“, pensei em meio à minha névoa alcoólica. “Eu nunca caminharei sozinho.”

Isso é do hino dos torcedores do Liverpool, “You’ll Never Walk Alone” (Você Nunca Caminhará Sozinho), que é cantado fervorosamente em seu estádio, Anfield, antes de cada partida. Eu me lembrava bem dele da minha adolescência, quando era um grande sucesso no rádio na voz de uma banda de Liverpool chamada Gerry and the Pacemakers. Os Reds, como os jogadores do Liverpool são conhecidos por causa da cor de seu uniforme, têm uma base de fãs enorme e apaixonada, mas eu só entendi o porquê depois de me comprometer com uma vida inteira de agonia e êxtase com seu amado time.

O Liverpool Football Club tem uma história brilhante. Desde sua fundação em 1892, tem sido um dos dois times de maior sucesso da Inglaterra, juntamente com seu grande rival, o Manchester United. Os dois clubes conquistaram um recorde de 20 títulos do campeonato inglês cada um. Além disso, o Liverpool ganhou mais troféus em outras competições nacionais e em torneios europeus do que qualquer outro time inglês. Isso inclui seis campeonatos europeus de primeira divisão — o dobro do segundo colocado, o Manchester United.

Mas, na época em que me juntei à orgulhosa multidão de torcedores do Liverpool, o clube já não reinava absoluto no futebol inglês. Não vencia o campeonato nacional desde que a primeira divisão foi reorganizada como Premier League inglesa (EPL, na sigla em inglês) em 1992. O Manchester United dominou os primeiros anos da EPL, mas aos poucos cedeu a hegemonia ao Manchester City, cuja aquisição por um xeique de Abu Dhabi em 2008 lhe deu petrodólares suficientes para comprar os melhores jogadores do mundo. O Liverpool, por sua vez, quase faliu em 2010, e seus donos foram forçados a vender o clube para uma empresa americana, o Fenway Sports Group, que era dona de um tradicional time de beisebol, o Boston Red Sox. A Fenway seria muito boa para o Liverpool — depois de um tempo.

Inicialmente, Fenway tentou trazer para o futebol inglês a abordagem frugal e baseada em estatísticas que havia funcionado no beisebol. Em vez de comprar artilheiros caros, o Liverpool buscaria jogadores mais baratos que, estatisticamente, criassem mais chances de gol. Mas isso não funcionou na Premier League. As contratações prudentes do Liverpool não melhoraram os resultados do clube. Fenway teria que gastar mais dinheiro para contratar os jogadores que levariam os Reds de volta ao seu antigo patamar.

O Liverpool não inundou repentinamente o mercado de transferências com dinheiro, nem abandonou completamente a análise estatística. Mas começou a gastar com mais liberalidade: US$ 21 milhões pelo atacante Roberto Firmino em 2015. US$ 45,5 milhões pelo ponta-esquerda Sadio Mané em 2016. US$ 47 milhões pelo ponta-direita Mohamed Salah em 2017. Então, o clube recebeu uma quantia inesperada que lhe permitiria gastar ainda mais: o Barcelona comprou o meio-campista dos Reds, Philippe Coutinho, por incríveis US$ 192,7 milhões. Com esse dinheiro, as novas aquisições renderam US$ 39 milhões pelo meio-campista Fabinho em 2018. Um recorde do clube – US$ 90 milhões pelo zagueiro Virgil Van Dijk em janeiro de 2019. Um total de US$ 211 milhões (o maior valor entre todos os clubes da Inglaterra) em transferências no verão de 2019, incluindo US$ 72 milhões pelo goleiro Alisson Becker, um recorde mundial para a posição. Depois, US$ 53 milhões pelo atacante Diogo Jota em 2020 e US$ 57 milhões pelo ponta Luis Díaz em 2022.

Os bons resultados vieram rapidamente: os Reds foram finalistas da Liga dos Campeões em 2018. Ficaram em segundo lugar na Premier League em 2018-19. Venceram a Liga dos Campeões em 2019. E foram campeões da Premier League em 2019-20. Na temporada 2021-22, o Liverpool esteve muito perto de se tornar o primeiro clube a conquistar a mítica “quádrupla”: a Premier League, a Liga dos Campeões e os dois torneios nacionais da Inglaterra — a Copa da Inglaterra e a Copa da Liga. Os Reds venceram as copas inglesas, terminaram em segundo lugar na Premier League por apenas um ponto e perderam a final da Liga dos Campeões por uma margem mínima, 1 a 0.

Os novos jogadores foram apenas metade da razão para esse sucesso estrondoso. A outra metade foi o técnico Jürgen Klopp, contratado em outubro de 2015. O alemão irrefreável — o messias que levaria o Liverpool de volta à Terra Prometida — ajudou a identificar e recrutar novos jogadores, moldando-os em uma unidade perfeita e inspirando-os a jogar um futebol ofensivo implacável. Klopp percorria a lateral do campo, gritando instruções, pressionando os árbitros sobre faltas não marcadas, incentivando os torcedores a demonstrarem seu apoio aos seus jogadores e abraçando-os ao mandá-los para o campo ou ao retirá-los de lá. Ao final de cada partida, ele liderava os torcedores do Liverpool em comemoração, erguendo o punho com alegria. Seu estilo de gestão era estimulante, mas tão frenético que só poderia levar à exaustão. Após nove anos, Klopp estava esgotado e, mesmo com dois anos restantes em seu contrato, saiu ao final da temporada 2023-24.

Torcer para o Liverpool durante os anos de Klopp foi emocionante e enlouquecedor. A linha alta e agressiva dos Reds os tornava uma ameaça constante de gol, especialmente com atacantes rápidos e habilidosos como Mané, Firmino, Salah, Jota e Díaz. Mas também os expunha a contra-ataques devastadores que transformavam vitórias do Liverpool em empates ou derrotas. Em seu auge, os Reds jogavam um futebol ofensivo de tirar o fôlego e uma defesa sufocante. Van Dijk patrulhava a linha defensiva com maestria, antecipando e interceptando todos os ataques adversários. Se um oponente conseguia finalizar, Alisson espalmava a bola. Os laterais do Liverpool, Andy Robertson e Trent Alexander-Arnold, avançavam como Dani Alves em seus melhores momentos. Fabinho, Jordan Henderson, Georginio Wijnaldum e Thiago Alcântara controlavam o meio-campo e alimentavam os atacantes, cujos cortes rápidos em direção ao gol aterrorizavam os defensores. Salah recebia passes longos de Alexander-Arnold na ponta direita, driblava para dentro e chutava com a perna esquerda no ângulo. James Milner converteu pênaltis com precisão, superando goleiros indefesos. Mas quando os Reds foram descuidados e deixaram os adversários ultrapassarem sua linha alta para marcar gols evitáveis, meus gritos assustaram os esquilos nas árvores do lado de fora do nosso apartamento.

Isso acontecia nos fins de semana, durante os jogos da Premier League. No meio da semana, enquanto o Liverpool jogava na Liga dos Campeões, eu ficava grudado na televisão com a mesma dedicação obsessiva, alternando entre gritos de triunfo e lamentos de desespero. Um dia, eu estava tão absorto em um jogo que esqueci de buscar minha filha na escola — um pecado mortal do qual ela ainda me lembra sempre que precisa de um favor.

Nunca fui a Anfield para um jogo, mas meu irmão e eu colocamos isso na nossa lista de coisas para fazer antes de morrer. Enquanto isso, assisti à final da Liga dos Campeões de 2018 em Lisboa, onde eu estava de férias com minha família. Encontrei um bar irlandês (naturalmente) onde o jogo estava sendo transmitido na TV e me acomodei com uma cerveja (nada de tequila, Deus me livre) para assistir ao jogo entre Liverpool e Real Madrid. Quase todos os frequentadores do bar torciam pelos Reds, o que tornou o desastre que se seguiu mais suportável. O jogador mais violento do futebol, o zagueiro do Real Madrid Sergio Ramos — que detém o recorde da Liga dos Campeões em cartões amarelos, com 39 e quatro vermelhos — tirou Salah do jogo logo no início, agarrando seu braço, derrubando-o e deslocando seu ombro. Após um primeiro tempo sem gols, o goleiro do Liverpool, Loris Karius, cometeu um dos maiores erros da história da Liga dos Campeões: rolou a bola direto para o atacante do Real Madrid, Karim Benzema, que facilmente a colocou na rede dos Reds. Depois que Mané empatou a partida com um gol fácil, Gareth Bale colocou os Blancos novamente na frente com um golaço de bicicleta. Mané quase empatou novamente, acertando o travessão do Real Madrid, mas então Bale selou a vitória com um chute de 40 metros que inexplicavelmente passou pelas mãos de Karius. Após a partida, foi revelado que Karius havia sofrido uma concussão aos 48 minutos, pouco antes de passar a bola para Benzema. Como Karius sofreu a concussão? Em uma colisão com — quem mais? — Ramos.

O Liverpool conquistaria a Liga dos Campeões no ano seguinte, derrotando o Tottenham pelo título, e chegaria a mais uma final europeia sob o comando de Klopp, em 2022. Novamente, o adversário seria o Real Madrid. Novamente, o primeiro tempo terminaria sem gols. Os Blancos finalmente venceriam quando Vinícius Jr. marcou o único gol da partida. Pelo menos Sergio Ramos não jogou, então ninguém se machucou.

Klopp saiu no verão de 2024, mas deixou para trás uma equipe forte, incluindo novas contratações valiosas, como o ponta Cody Gakpo e os meio-campistas Alexis Mac Allister, Dominik Szoboszlai e Ryan Graveenbergh. Os Reds terminaram a última temporada de Klopp em terceiro lugar na tabela da Premier League. Não se esperava que eles saíssem muito melhor no ano seguinte; presumia-se que os jogadores precisariam de tempo para se adaptar ao novo técnico, Arne Slot. Mas algo maravilhoso aconteceu: os Reds conquistaram o título de 2024-25 com facilidade. Slot os fez jogar de forma um pouco mais conservadora, concentrando-se mais na posse de bola e reduzindo os riscos da linha alta, e transformou Graveenbergh em um volante, dando ao clube o camisa 6 que precisava após a saída de Fabinho. O Liverpool garantiu o título com quatro rodadas de antecedência.

A temporada de 2025-26 tem sido tão surpreendente quanto a anterior — mas não de uma forma positiva. No verão passado, o Liverpool gastou uma fortuna, mais de 400 milhões de dólares, em novos jogadores, incluindo dois laterais, um meio-campista ofensivo e dois atacantes. Recuperou parte do dinheiro vendendo vários jogadores, incluindo Luis Díaz, e economizando no contrato de Alexander-Arnold, que saiu de graça para seguir seu sonho de jogar no Real Madrid. Reforçado por esse sangue novo e caro — incluindo duas estrelas consagradas, o meio-campista Florian Wirtz e o atacante Alexander Isak — esperava-se que o Liverpool conquistasse o título da Premier League pelo segundo ano consecutivo. Mas os ganhos da equipe não compensaram as perdas. Os Reds jogaram um futebol tímido e desorganizado. Seus jogadores novos e antigos não se entrosaram. A defesa sofreu muitos gols. Salah errou nos passes precisos de Alexander-Arnold e praticamente parou de marcar. O ataque sentiu falta da velocidade e da astúcia de Díaz na ala esquerda, e é impossível exagerar o quão traumatizados os Reds ficaram com a perda de seu popular atacante Diogo Jota, que morreu em um acidente de carro no verão de 2025. Humilhantemente, o Liverpool perdeu para todos os três times recém-promovidos da liga — em casa! Em seguida, veio uma série de lesões (incluindo a de Isak, que quebrou a perna). Isso levou Slot a usar um rodízio de jogadores cada vez menor, que ficavam tão cansados ​​no final das partidas que sofriam gols nos acréscimos. O Liverpool chegou a cair para a 11ª posição na tabela da Premier League. Os torcedores pediam a cabeça dos heróis da temporada passada. Nem mesmo Salah, o jogador mais amado de todos, escapou dos vídeos online cruelmente engraçados de um torcedor furioso: Torcedor do Liverpool acertando cada Red – e Arne Slot – na cabeça com uma frigideira.

Assisti a tudo do sofá da minha sala, gritando de frustração tantas vezes, que minha esposa desceu para ver se eu estava bem. Vi o Liverpool jogar uma semana como campeões e na semana seguinte como crianças. Os Reds pareciam jogar o seu pior contra os piores times da liga, desperdiçando vantagens pouco antes do apito final. Foram eliminados da Copa da Liga, da Copa da Inglaterra e da Liga dos Campeões. No final de abril, era matematicamente impossível para eles repetirem o título da Premier League. A única coisa que conseguiram foi se classificar para a Liga dos Campeões do ano seguinte – na última semana da temporada, no mesmo dia em que o Arsenal finalmente parou de partir o coração de seus torcedores e conquistou o título da liga.

Houve, é claro, alguns momentos de ouro: cobranças de falta brilhantes de Szloboszlai que curvavam para o ângulo do gol como chutes de Roberto Carlos em seus melhores momentos. Jogadas fulminantes de Rio Ngumoha, de 17 anos, o veloz ponta-esquerda do futuro do Liverpool. Golaços do atacante francês Hugo Ekitike, o camisa 9 que o Liverpool sentia falta desde a saída do pistoleiro Luis Suárez em 2014. Mesmo assim, em termos de defesa, a do Liverpool foi desastrosa.

Mas, para citar o clichê mais antigo do esporte, sempre há a próxima temporada. Estou tentado a abandonar meu time e torcer para outro? Nem pensar. Fiz um compromisso com o Liverpool em um momento de embriaguez há duas décadas, e não vou voltar atrás.

Tenho um cunhado brasileiro, torcedor fanático do Atlético Mineiro, que tem uma grande tatuagem de um galo estilizado na panturrilha. Já fantasiei em ter um pequeno Liver Bird, a criatura alada mítica que simboliza o Liverpool, tatuado no meu pulso. Duvido que algum dia farei isso. Mas penso nisso.

2 – BRASIL DE ANCELOTTI – A OBSESSÃO POR NEYMAR E OUTRAS REFLEXÕES SOBRE A CONVOCAÇÃO
Victor Cordeiro

Foto: Thiago Ribeiro/AGIF

No último dia 18, o Brasil e o mundo finalmente conheceram os 26 jogadores que terão a missão de buscar o tão sonhado hexacampeonato para a seleção mais vitoriosa do futebol mundial. A lista anunciada por Carlo Ancelotti trouxe um final feliz para muitos brasileiros após a campanha efusiva feita nos últimos meses em prol da convocação de Neymar para disputar sua quarta Copa do Mundo. Mas e para quem não esteve envolvido nessa mobilização digna de eleições presidenciais? Antes de trazer meus comentários a respeito, vamos aos nomes dos convocados:

Goleiros: Alisson (Liverpool), Ederson (Fenerbahçe) e Weverton (Grêmio);

Defensores: Alex Sandro (Flamengo), Bremer (Juventus), Danilo (Flamengo), Douglas Santos (Zenit), Gabriel Magalhães (Arsenal), Ibañez (Al-Ahli), Léo Pereira (Flamengo), Marquinhos (PSG) e Wesley (Roma);

Meio-campistas: Bruno Guimarães (Newcastle), Casemiro (Manchester United), Danilo Santos (Botafogo), Fabinho (Al-Ittihad) e Lucas Paquetá (Flamengo);

Atacantes: Endrick (Lyon), Gabriel Martinelli (Arsenal), Igor Thiago (Brentford), Luiz Henrique (Zenit), Matheus Cunha (Manchester United), Neymar (Santos), Raphinha (Barcelona), Rayan (Bournemouth) e Vini Jr. (Real Madrid).

É importante resistirmos à tentação de comentários saudosistas quando olhamos para essa lista. Alguns clichês se tornaram quase que inevitáveis para os fãs nostálgicos do futebol brasileiro, entre os quais me incluo. Falas sobre a falta de talentos, sobre a limitação da geração atual, falta de amor à camisa, entre outras. A verdade é que o futebol mudou bastante no mundo todo e deve ser analisado a partir desse novo prisma, com uma lente adaptada para isso, e não com as lentes analógicas de 25 anos atrás. 

De uma Seleção que possui nomes como Endrick, Raphinha e Vinícius Júnior (sem contar outros que ficaram de fora devido a lesões, como Rodrygo e Estevão), não se pode dizer que falta talento. Concordo, no entanto, que o nível dos nossos laterais principalmente está bem abaixo do que nos acostumamos, em uma posição na qual sempre fomos referências mundiais, desde os tempos de Nílton e Djalma Santos.

Sobre o famigerado “amor à camisa”, vivemos em um mundo de atenção constantemente disputada e, consequentemente, dispersa. Nesse contexto ultra midiatizado, o futebol não é diferente de qualquer outra área. Os jogadores muitas vezes estão bastante presentes nas redes sociais, a publicidade invadiu a rotina deles de forma quase que intermitente e sua capacidade de impactar o consumo, os hábitos e opiniões de milhões é assombrosa num nível nunca antes visto. Mas será mesmo que essas distrações tiraram o amor e o orgulho em representar a camisa mais famosa do esporte mundial? Para quem assistiu aos vídeos dos convocados e familiares reagindo à lista de Ancelotti, fica difícil acreditar.

Mas tem um ponto que realmente me intrigou nos últimos tempos. A proporção que a expectativa em relação à presença ou não de Neymar na Copa do Mundo tomou me parece ter extrapolado bastante o debate sobre o que o craque poderia ou não entregar dentro das quatro linhas.

Há 6 anos, no início da pandemia, escrevi um texto sobre o “divórcio” entre os brasileiros e sua Seleção, arriscando uma explicação para os motivos do distanciamento de inúmeros fãs da Amarelinha que em outros tempos mobilizava tanto toda a nação. Uma das causas que me parecia importante para isso era a ausência de um grande ídolo nacional na equipe, de alguém que fosse capaz de aglutinar toda a energia de um povo para torcer pelo seu sucesso. Citei alguns nomes de outras décadas não tão distantes, como Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Jogadores que mostraram ao mundo de diferentes modos a essência do brasileiro por meio do seu talento futebolístico. Desde que os dois Ronaldos saíram dos holofotes, no entanto, as expectativas se concentraram em Neymar. Nos gramados ele dava indícios desde o início da carreira de que tinha totais condições de ser o sucessor desses nomes históricos. Apesar de não ter trazido o título mundial, seu desempenho com a camisa da nossa Seleção também correspondeu ao que se esperava dele, ultrapassando Pelé e se tornando o maior artilheiro em partidas oficiais pelo Brasil. Mas algo sobre a sua personalidade, sua postura fora de campo e seu modo de lidar com as críticas parecia colocar uma barreira entre ele e muitos torcedores. Talvez um excesso de vaidade, talvez a imaturidade de uma figura que cresceu blindada em meio aos seus parças e à sua grande rede de apoio e fãs incondicionais. O fato é que Neymar não conseguiu ao longo de sua carreira ser tão unânime quanto esses outros nomes.

Desde a escrita daquele texto, o cenário mudou um pouco. Vinícius Júnior se consolidou de vez como um dos grandes craques do futebol mundial e o Brasil finalmente voltou a ter um representante eleito como melhor do mundo pela FIFA, o que não acontecia desde a escolha de Kaká, em 2007. Apesar disso, seu desempenho na Seleção ainda não correspondeu ao que se espera dele. Neymar, por sua vez, começou a década jogando muita bola no PSG, mas logo passou a estar mais associado a polêmicas e a lesões do que a grandes atuações, e essa tem sido a toada dos últimos 3 anos, nos quais não vestiu a Amarelinha. Curiosamente, a idolatria em torno dele parece ter aumentado significativamente nesse período. A comoção em prol da sua convocação, com grande parte do país comemorando-a como se fosse um gol na Copa, me pegou desprevenido.

Se o valor de Neymar no mercado foi reduzido em mais de R$ 1 bilhão desde o seu auge, se o craque não tem conseguido ser protagonista nem mesmo no futebol brasileiro, se a última atuação dele pelo Brasil foi no final de 2023, o que poderia explicar um aparente aumento tão súbito na adoração ao jogador? Para mim, como citei anteriormente neste texto, a resposta passa por questões que vão muito além do futebol.

Bem mais do que uma referência esportiva, Neymar se tornou um ícone pop, cultural e até mesmo político para muitos brasileiros. Sua figura mobiliza paixões difíceis de explicar se não nos debruçarmos sobre o contexto atual do nosso país e do mundo. O “menino Ney” é símbolo de uma adolescência eterna, de uma juventude inesgotável e destituída de quaisquer compromissos que fujam do lúdico e do entretenimento. A ele não é exigido qualquer compromisso social, uma postura exemplar como referência que é para milhões de crianças e pessoas das mais diversas idades, um profissionalismo compatível com a grandeza que ele representa para o esporte, nem a maturidade emocional digna de um homem adulto de 34 anos. Não, ele se garante com muito menos. Nos últimos anos, vimos que não se demanda dele nem sequer os gols, passes e dribles que encantaram o mundo anos atrás. Neymar é Neymar porque gosta de participar de lives e ficar jogando Poker, CS ou outros jogos on-line até altas horas da madrugada, porque é debochado, porque organiza grandes baladas e é amigo de todo tipo de celebridades, porque é politicamente incorreto, porque é contra essa “cultura do mimimi” e não quer levar nada a sério, mas também não suporta qualquer crítica que recebe e não leva desaforo pra casa. Ele se tornou uma projeção de uma masculinidade distorcida que é almejada por milhões de homens de todas as idades. Em uma sociedade construída pelo masculino e para o masculino, Neymar alcançou uma posição quase divina na pirâmide social moderna. Com a polarização política no país e o avanço de discursos extremistas, o craque conseguiu atingir no imaginário popular uma condição que nunca tinha atingido esportivamente, mesmo no auge da sua carreira. Tornou-se intocável, acima de qualquer crítica, inimputável.

Diante disso, foi difícil me entusiasmar com a convocação dessa seleção, por enxergar que os fatores esportivos pela primeira vez em uma Copa pareciam estar em segundo plano. Mas gostar de futebol em tempos de monopólio das “Bets”, extorsão legalizada (basta ver os preços que serão cobrados para quem quiser acompanhar os jogos nos Estados Unidos) e projetos de gestão cada vez mais elitistas dos clubes é, sobretudo, conseguir estar em paz com um certo nível de hipocrisia. E se tem um evento que é capaz de me anestesiar dessa forma é uma Copa do Mundo.

Portanto, resta agora torcer para que a experiência e a sabedoria de Ancelotti sejam suficientes para conseguir administrar todo o complexo emaranhado de sentidos que estão por trás da sua equipe. Como era de se esperar, as notícias já começaram quentes desde a apresentação dos jogadores na Granja Comary, com a divulgação de que o suposto edema muscular de Neymar, anunciado pelo Santos, na verdade se trata de uma lesão de grau 2 na panturrilha do jogador, que necessitará de 2 a 3 semanas para recuperação. Vamos ver como o elenco conseguirá se blindar em meio a esse contexto conturbado. A Copa já está batendo na porta e passou da hora da bola voltar a ser a grande protagonista quando falamos de Seleção Brasileira.

Chris Hunt

Chris Hunt nasceu em Dallas, Texas, e cresceu em Caracas, Venezuela. Depois de formado em História em Nova Iorque, ficou nesta cidade e trabalhou como editor nas revistas Travel & Leisure e Sports Illustrated do Grupo Time Warner. Casado com Andréa, mineira de BH, curte a vida de aposentado viajando, lendo e tocando violão.

Victor Cordeiro

Victor Cordeiro é belo-horizontino, formado em Comunicação Social pela UFMG. Jornalista e publicitário, acredita fortemente na força das palavras e da Educação. Cruzeirense fiel, é apaixonado por futebol, música, cinema e, principalmente, pela cultura nacional. Ama discutir esses e outros temas, seja em uma mesa de bar com os amigos ou em seus textos reflexivos na internet.

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