BIKE – FESTA TIRADENTES.

Publicado em: 31/07/2026 às 06:06

Compartilhe

Ocorreu neste ano entre os dias 24 e 28 de junho. 

Ignorante que sou no assunto, pensei que bike era nome inglês para bicicleta,ou melhor, abreviatura para bicycle, que é bicicleta mesmo, sem dúvida. 

Ocorre que a língua tem dinâmica própria e incontrolável, de modo que bike, no cotidiano, encampou a ideia de motocicleta, também. 

Vejam a contradição: bike, de bicicleta, pode ser motocicleta, mas motoqueiro não pode ser motociclista, nem a pau. O amigo que nos alimenta e traz comida e outras coisas é motoqueiro. O piloto de moto que leva a loira na garupa é motociclista, e não se discute. Assunto encerrado. 

Como moro em São João Del Rei, vou sempre a Tiradentes. 15 minutos de carro.

Vinícius, grande amigo, dono de uma Halley FAT BOY, do tipo que Jô Soares tinha,  foi à bike festa e me convidou para uma cerveja. 

Pra lá fomos.

Pra resumir, Tiradentes deve ter por volta de 10 mil habitantes, número que é multiplicado várias vezes nesse tipo de evento.

Parei o carro na entrada da cidade, numa área de terra cercada, que deram o nome de estacionamento. Pois fui andando para encontrar o amigo e sua mulher. Gosto de caminhar e contemplar o movimento. Cidade lotada, motos de todos os tipos, quanto maior, melhor, a prosperidade está no tamanho. Algumas são tão grandes que duvido que o piloto não precise de escadinha para subir.

As motos pequenas, de 125 ou 150 cilindradas, fazem-se presentes. Mas como o que importa é aparecer, vão com o escapamento aberto, embreagem apertada e acelerador no máximo.

DESVIO 1-

 Albert Camus e seu absurdo ficariam… absurdados.

 E o marido de Simone de Beauvoir, antes amigo de Camus, teria refeito a tese: não é a existência que precede a essência. É a aparência, a exposição, a visibilidade que dá significado à existência e, portanto, à dignidade de uma vida. Tristes trópicos.

Voltemos aos motoqueiros e suas loiras em grandes motos.

DESVIO do DESVIO

Camus e Sartre romperam, em suma, por um criticar e o outro apoiar a extinta União Soviética. Simplifiquei, eu sei. Paciência.

Antes de ver Vinícius e sua Ester, fomos encontrar Raimundo e sua Maria, perto da rodoviária. Gazebos pequenos e grandes, quitandas e tendas a vender quase tudo. Eu queria pastel de queijo com guaraná e, ato contínuo , pastel de carne com Coca. Questão de harmonização.

DESVIO 2

Na faculdade toma latão de cerveja. Após a formatura, inicia-se o processo de refinamento besta e, com ele, a leitura de, no máximo, dois manuais sobre vinho. Com o latão de cerveja comia-se de tudo, pão com ovo, coxinha velha, qualquer coisa barata. Com o aculturamento burguês e aquele plus de prosperidade,  vem a taça de vinho, a inclinação para o nariz, a avaliação do líquido com certa seriedade no semblante e a confirmação positiva. Mas o garçom, um estraga prazer, entrega a rolha ao indivíduo em ascensão social e…putz, o que fazer com ela?  Eis a questão. Uns cheiram, outros põem no bolso. 

Mas naquela mesa, naquele lugar e naquela hora rola um vocabulário próprio que busca harmonizar elementos: “dialogar aromas, tons frutados, notas marcantes”…e por aí vai.

O dinheiro como simulacro de refinamento.

Encontramos Raimundo e a esposa e fomos para a fila do pastel. Vi muitos molhos de pimenta sobre o balcãozinho. Apontei para uma extra forte e disse: “não use esta, é forte demais“. 

Raimundo riu e me confrontou: “vim do Maranhão, cara”. “Fui criado com açaí e tambaqui. Minha mãe punha pimenta na minha mamadeira”.

E tacou pimenta no pastel.

De início, seus olhos ficaram vermelhos e contaminaram todo o rosto. Depois, as lágrimas brotaram sem parar. O nariz escorreu e os lábios incharam. Parecia esse tal preenchimento que as mulheres fazem por aí no lábio superior. 

“Tá tudo bem Raimundo?”

“Tranquilo”, ele respondeu quase sem voz, o som saíndo recalcado na inspiração(não expiração) e foi quase correndo ao banheiro químico.

Voltou chupando pedras de gelo de um copo grande. 

DESVIO 3

Coriolano é a peça de Shakespeare que melhor trata a questão do orgulho. O general romano não cede, perde e reconhece o erro tarde demais.

Quando Raimundo voltou do banheiro, metade do pastel estava lá com a pimenta. Pois eu lhe passei o pratinho e ele, coriolanamente, encarou o resto do pastel, chorou de novo, o nariz escorreu como antes,e ele disse mais uma vez inspirando: ” Beleza”.

Fui comprar outro pastel, de carne, agora. Na fila um motoqueiro na minha frente.

DESVIO 4

Como é o protótipo de um motoqueiro/motociclista de Tiradentes? 

Jaqueta de couro, calça de couro, corrente presa à calça e todo os paramentos e apetrechos que dão a um ser vivo a qualidade de pertencimento a um grupo. 

DESVIO 5

Roberto K. Merton, sociólogo, provavelmente foi o cara que mais se aprofundou no conceito de grupo de referência. A força do pertencimento traz conforto mental e é alienante. E chato, também. Emburrecedor.

Ali estava um motociclista na fila do pastel, mas parecia um pouco aéreo. Fiquei na dúvida: pergunto ou não?

Perguntei: “amigo, você está nesta fila?

E ele, surpreso, respondeu:

“Eu? Na fila? Estou? Não sei.”

Rimos juntos e perguntei se ele aceitaria um pastel e ele respondeu que sim.

Essa parte da história termina aqui, meio que abruptamente. Tantos desvios já devem ter cansado o(a) atento(a ) leitor(a), de modo que os acontecimentos seguintes ficarão para outra oportunidade.

Djalma França

DJALMA FRANÇA nasceu em Belo Horizonte, com pai de Peçanha e mãe do Serro. Formado em Contábeis, Administração e Direito. Pós graduado em Engenharia de Tráfego e em Direito Tributário. Mestrado em Administração. Fez carreira na secretaria de estado de fazenda. Lançou o livro de contos "histórias anunciadas".

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *