O ÔNIBUS VOADOR

Publicado em: 31/07/2026 às 06:07

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O passado e o presente murcham — eu os preenchi, eu os esvaziei.
E prosseguir para preencher minha próxima dobra do futuro.
(Walt Whitman)

Na porta de casa aguardamos o ônibus da Viação Tereza Cristina. A casa em que moramos logo depois de nascer é o ponto mais remoto da viagem, onde a memória alcança. Percorremos os caminhos pavimentados pelas lembranças até chegar próximo às últimas etapas do percurso. Após tantos anos, o bagageiro estará abarrotado de malas contendo sofrimentos, alegrias, emoções, e alguns objetos remanescentes juntados com desvelo. Contornos de fatos que não se apagaram de todo, segredos não revelados à época e agora não fazem sentido, miudezas antigas e saudades, muitas saudades. Resíduos de impressões catados no percurso, como a simpatia que nossos pais recitavam, pedindo a Santa Luzia tirar o cisco do olho, enquanto moviam levemente o dedo sobre a pálpebra. Ao terminar, o cisco havia sumido. 

O ponto de partida é o mesmo lugar onde começamos entender o mundo. A família e os vizinhos conversavam nos finais das tardes, os adultos nas cadeiras de palhinha distribuídas no passeio, as crianças em volta. A avó bem velhinha – hoje as avós não ficam velhas – vestia roupa de lã preta, do luto do marido, nunca mais trocada por outras cores. Sempre teve um  coque, feito com o que sobrou da trança, outrora bem maior, quando o cabelo, cheio e longo, batia na cintura.

O pai enrolava o cigarro de palha escolhida no paiol de milho com o fumo de rolo da venda do Zé Luiz do Seu Juca Feliciano, seu compadre. Ato contínuo, iria acender o isqueiro binga, redondo, feito de metal amarelo, com algodão molhado de fluido Shell. Entre baforada e outra, ele e as pessoas que paravam para um dedo de prosa conversavam sobre a campanha política.

Tecendo roupas de frio, como a blusa copiada do galã do filme  exibido no Cine Flórida, as mulheres aproveitavam para discutir os vestidos que usariam no Baile de Réveillon do Clube Cacique. Revista Manequim à mão, escolhiam os modelos que a Alaíde e a Clélia iriam fazer.

Nos bercinhos vindos juntos das bonecas Estrela, que abriam e fechavam os olhos e choravam quando virassem de lado, as irmãs se preparam para fazê-las dormir. Ao lado, os meninos conduziam seus carrinhos de madeira levando carga de caixas de fósforos vazias. Eram feitos pelo Gó, do Seu Maury Vitor. Nunca mais vimos carrinhos tão bonitos como aqueles.  

Se algum artista quisesse pintar aquela cena, encontraria ali todos os elementos da vida como deveria ser: conexões entre pessoas, tempo fluindo sem urgência, nenhuma incumbência imediata, opção ao que  realmente importava. Ambiente povoado de cores, ruídos, cheiros, gostos. A mobília que nunca foi mudada, os cantinhos com algum objeto despercebido, crianças em seus movimentos. Pessoas montavam o dia a dia em conjunto, organizando a vida com delicadeza. 

No futuro deixaríamos para trás as comidas, a água quente saindo da torneira, a gente que nos protegia, passando segurança. A segurança afetuosa que iriamos procurar pelo resto da vida. Procuramos o aconchego e a sensação de pertencimento  nos demais lugares em que habitamos, mas nunca funcionaram como naquela época. 

Esse lugar e seus laços foi o primeiro presente que a vida nos ofereceu – os familiares que ajudaram a solidificar as bases que nos mantiveram de pé.

Poucas quadras abaixo da casa localizava-se a escola – chamada de Grupo Escolar. Apesar da pequena distância, eram mundos completamente diferentes, convivendo com pessoas novas, gostando ou não. Muitas situações antecipavam o que viria, funcionando como amostras de futuro. Aprendemos matérias que devem ter sido úteis, como nomes de países distantes, rios, serras, as cordilheiras nos mapas do Atlas, quilômetros entre a Terra e a Lua. Nada, porém, que suplantasse as lições do mundo real. 

Bons professores, alguns expunham vara de marmelo ao lado da mesa, que nunca foram usadas. Não havia maldade no gesto deles, a vara amarelada funcionava como amuleto para lembrarmos do dever de casa, de copiar o ditado, não pintar na aula ou brigar com colegas. Ela impunha respeito e certa humilhação devido a impossibilidade de reagirmos, imediatamente esquecida nas peladas do futebol do recreio. Geralmente de excelente nível, o professor tinha prestígio e a carreira atraia  pessoas qualificadas. 

Um dia deixamos a escola a que nos apegamos quase como o segundo lar, com a constatação  de que saímos bem melhores de quando entramos. Ensino para a vida, não somente para ser promovido nos finais de ano. 

Tivemos sorte, novamente. Desta vez com a família escolar.   

A mesma sorte não teve quem veio depois. O quadro de madeira sobre o cavalete, pintado de preto para realçar o giz branco, foi substituído pelo de concreto verde, parte da parede. A destruição do quadro negro alcançou o prédio prédio inteiro, arrancado junto com a sua alma e um pedaço da nossa. Outro prédio foi erguido no lugar, sem identidade, semelhante  às centenas espalhadas pelo país. O espaço impessoal refletiu na criatividade imprescindível à participação coletiva. Depois do novo ordenamento, o amontoado nas salas não favorecia a boa educação, a troca de experiências. O ambiente escolar se transformou em local de transmissão de verbos, equações matemáticas, próclises e mesóclises, tarsos e metatarsos, nomes das capitais dos países. As salas não funcionavam mais como extensão dos seus habitantes. Pareciam as salas de espera dos aeroportos, clínicas de saúde, repartições públicas, onde permanecemos para alguma função específica e nem lembramos depois de sair. Nessa configuração, aos professores cabia preencher planilhas, concordar com os questionamentos dos pais, atender as inúmeras conveniências para não prejudicar o faturamento da instituição. Tarefas que dificultavam interagir com os alunos, ensiná-los razoavelmente, contribuir com a formação do adulto. 

Seguindo viagem, em cada lasca do tempo reaparecem paisagens longínquas. As mesmas paradas antigas, às vezes breves, no bar do Seu Tatão Campos, na Serra do Cipó. Outras vezes, bem mais longas, como o período na Pensão do Seu Quinquim Tenente, no alto da ladeira da rua Elói Mendes, divisa dos bairros Horto e Sagrada Família.                            

Cada vez mais longe de onde partimos,  passageiros esperavam nos pontos. Eles entravam, faziam-nos companhia até descerem adiante, com despedidas emocionadas pela certeza de que os seus lugares permaneceram vagos.    

Restos que respiram

(Yuleisy Cruz Lezcano)

São os restos, sombras vivas,
ecos que o tempo não consome,
fragmentos de um corpo ausente,
rastros de um suspiro antigo.

Na secura da forma,
sem dentes, sem alento,
alguém chama um anjo adormecido,
uma mãe que cruza um umbral.

O olhar, esse farol tênue,
pergunta na penumbra,
se desfaz no ar denso,
retorna ao segredo sem nome.

Sobre a madeira adormecida,
o casaco suspenso no esquecimento,
o chapéu, guardião silente,
a caligrafia, um traço de alma.

Nesses restos inanimados,
habita o pulso do eterno,
o fôlego que não se rende,
a sombra que ainda respira.

Se alguma tarefa do organismo não funciona adequadamente ele remete o aviso através de dor, febre ou outro sintoma. Se é a tarefa  da mente que está com problemas, devido a motivos internos ou externos, os sintomas se encaminham para raiva, mágoa ou diversas manifestações negativas. São avisos de que devemos mudar o contexto para voltar à estabilidade. Ou seja, não são ruins em si, cumprem as suas funções. Se não existissem estaríamos sempre à beira do abismo.

A forma de resolver ou apaziguar o sentimento negativo é trabalhar nos motivos corretos. Tentar eliminar o sofrimento inútil seria de grande ajuda. O sofrimento fabricado por nós, sem uma causa substancial.

O que vivemos nesse extenso e profundo itinerário se torna parte de nós. Conviver com pessoas emocionalmente ricas, por exemplo, é uma oportunidade extraordinária, com suas  posturas fundamentais ao nosso modo de ser.

As pessoas com quem convivemos na intimidade ficam cravadas em nós. É mais do que memória, deixam tantas impressões que se tornam parte da gente.  (Monja Coen)

Pessoas quentinhas, que ensinaram-nos a lidar com os sintomas enviados pelo corpo ou pela mente. Sem dramas, auto ajuda, pastores, coaches, impostores e os inúmeros picaretas que nos aguardam em cada esquina. 

As pessoas que contribuíram para a vida ser possível.

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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