Ah, o Passado! Especialmente indomado quando sua distância temporal coincide com a distância física imposta pelo afastamento do ser que experimenta tais fenômenos, distanciado de sua Terra… Extraordinários a sua força e o seu encantamento… A Rua Primeiro de Março! Dividida em duas hoje em dia, ela nasce como Dr. Carlos da Cunha ao pé da Avenida dos Bragas, e termina como Rua Francisco Viriato da Rocha lá no alto, junto do Cruzeiro da Bomba…
Em seu nascedouro como Dr Carlos da Cunha, descendo tínhamos de um lado Sr Ivo Guimarães e Dona Celi, de outro Sr Jovem Aguiar, Joventino Fernandes de Aguiar, nascido em 1902 (depois explico por que sei de tal detalhe), fabricante do mais delicioso requeijão que em toda minha vida eu experimentei… Sr Jovem Aguiar e Dona Docarmo. A casa seguinte, no lado esquerdo de quem desce, teve, primeiro que eu me lembro, a família de Seo Mateus Pinguim, sua esposa de cujo nome não consigo mais me lembrar, e as meninas Mirtes e Vevé. Depois morou ali a família de Seo Helvécio Laje. E por derradeiro, para mim, Sr Nozinho Vieira e sua esposa, Dona Geralda… Do outro lado, o direito de quem desce, Sr Guena e Dona Quifinha, Agenor e Izinha bem como a família Miranda. Também por ali moraram a gente do Agenario e do Valtinho Dias, a Nivalda, um ramo dos Cardoso…
Quero pensar que a fragilidade de minha memória arrostando distância de cinquenta, sessenta anos não vá comprometer a narrativa. Espero que assim seja. Retornando ao lado esquerdo da rua, do ponto de vista de quem desce, agora um histórico pormenor para mim: em fins dos anos 60 Dr Ruy Braga adquiriu uma pequena casa que pertenceu à Dona Eponina, se não me engano, e a transformou em escritório de advocacia. Ali eu trabalhei com ele, com o Toinzim do Sica, seu irmão Zezé e o Geraldinho de Seo Viriato, todos naquelas alturas recém-formados, eu chegando em março de 1972 e ficando com eles até princípios de 1974, quando me tornei professor… Logo abaixo no mesmo sentido moraram Dona Dasdores e o Sr Geraldo Lopes, depois a família de Sr Lourival Vieira. Acho que tinha mais gente neste lado da rua, mas só consigo me lembrar do saudoso Sr Antônio do Eliazinho e Dona Helena, com seus muitos filhos – Socorro, Dirce, Márcio, Nonoca, Carlinhos, Lili e Lulu. Carlinhos era magricela e os amigos de sua idade, entre estes eu, o chamávamos Carlinhos Sabiá. E costumávamos entoar: “Sabiá de borreira!” Ele respondia, sem se alterar: “Eu cago, tu cheira!”…


Prosseguindo no lado esquerdo, um sobrado onde, primeiro que eu me lembro, moraram Neneco meu primo, sua esposa Doca e as filhas Lamor e Verinha. Neneco não era filho de minha tia-avó Verônica, como muitos pensam, ele era sobrinho dela, filho de uma irmã mais velha de nome Maria José, tratada por Cota, que morreu de parto, não sei dizer ao certo se no nascimento do Neneco ou de outro irmão. Tia Verônica teve seus próprios filhos, Ismar e Dutinho.
A mulher do Neneco, Doca, falava para minha mãe que, sempre que me via apontar lá em cima, vindo da escola, ela saia da janela para não ver os tombos que eu espalhafatosamente tomava, caindo naquelas pedras enormes do calçamento daqueles tempos. Quando eu subia para o Grupo Escolar era um comportamento exemplar a ser visto e notado, devagar como todo mundo, circunspecto. Na volta, no entanto, as empinadas descidas me atraindo, não havia como andar direito. Era sempre desembestado, quase voando. Resultado: incontáveis tombos, os joelhos de contínuo machucados, uma lástima… Mas me lembro de que um dia fui vencedor sobre aquela forte compulsão ao galope contínuo: de início cai um tombo defronte a casa de Dona Celi. Continuei correndo, entusiasmado, inalterado. Cai de novo, à altura da Pensão de Seo Efigênio Santiago. Ainda não de todo abatido, me ergui devagar e com dor, prosseguindo na correria. Pouco depois novo tombaço, agora entre as casas de Dona Cota Gomes e do Sr Dirceu Garcia. Aí desisti. Deixei por fim, de correr, segui andando em passo normal até minha casa… Não tenho a certeza, mas acho que este procedimento velocista perdurou apenas ao longo do primeiro ano no primário.
Retornando ao sobrado onde moravam Neneco e Doca, mais tarde, mas ainda nos anos 60, ele passou a ser a residência de uma senhora de nome Chana, Sebastiana, se estou enganado, tia do Sr Lori. Seo Lori era filho do Sr Joaquim do Lucindo, um assobiador em tempo integral. Depois de Dona Chana morou ali a família do Sr Nozinho Aiala. Me perco um pouco no lado direito da rua, só me lembrando do Sr Vicente Gandra, sua esposa Dona Gininha, professora, e os filhos Maria Tereza, Fátima, Zitinha, Sávio, Bosco e o outro, um terceiro homem, cujo nome, fascinante para mim, eu não consigo esquecer e faço questão de repetir: Alphonsus Caetano Afonso Gandra… Conheço detalhes deste tipo por ter trabalhado nos anos de 1969 e 1970 no Cartório da Elza Andrade…
Do outro lado da esquina, duas casas inesquecíveis, a da Senhora Neusa Ceolin e a da pensão do Sr. Efigênio Santiago – Figênio Tiago. Era casado com Dona Maria e tiveram um filho, Sebastião – Tãozinho do Figênio Tiago. Que por sua vez era casado, morava fora e tinha uma bonita filha, morena, com a qual brinquei o Carnaval de 66. Namoramos. Tínhamos 11 anos. A gente falava “pular carnaval”. A gente pulou, dançou, brincou na matinê do Cacique, mas eu, vexame completo, não consigo me lembrar do nome dela… Aff!… Na pensão vivia também o bombeiro Zé Minhoca ou Zé Moela… No outro lado, minha lembrança abrange apenas a partir da casa do Francino e de Dona Sinhá, Francino era um pedreiro dos mais conceituados. Não me lembro de quem mais morou ali durante o restante de minha vida em Peçanha… Três famílias viviam naquele corredor: Dona Conceição, mãe de meu amigo e colega de escola, João Afonso. João Afonso de Paula Neto. Eu tinha três amiguinhos com uma certa coincidência de nomes: João Afonso, Afonso Passos, filho de Seo Diolino, e João Paulinho, o João Paulo Renan Fernandes, filho da professora Dona Olga. Moraram também naquele lado da rua Dona Antonina, mãe do Sálvio Miranda e grande amiga de minha mãe, o Sr Jader Cunha e a família de Edenia Vieira, onde posteriormente residiu Dona Flor de Maio…
No meu tempo de menino e rapaz só existia na continuação as casas de Dona Aguida e de Dona Saninha. Dona Saninha, Senhor Dirceu, Ju, Gilberto, João Bosco (o Quitão), Zito, César e o Roberto, que Deus o tenha, bem como ao João Bosco… Me disseram que ali naquela casa, hoje tombada como Patrimônio, viveram também a Sra Maria Rassilan e o Sr Pedrinho Vieira, assim como a família do Sr Paulo Renan, pai de Dona Olga… Dona Aguida foi professora ao tempo de sua juventude, viúva em segundas núpcias dele, do Sr Quintiliano Souto. Vivia ali com duas irmãs suas, Dona Mariquinha e Dona Perciliana. Dona Mariquinha era cega e constantemente se via assaltada em seu prato por Dona Perciliana que, gordona, sorrateiramente, buscava lhe subtrair nacos de carne à hora do almoço. Desconfiada, Dona Mariquinha se fazia indócil e reclamava em altos brados… No outro lado, duas figuras imortais: Dona Ângela e Dona Tiana. Me lembro da mãe delas, Sá Maria do Honório, falecida quando eu era bem menino. Muita saudade. Lourdes, Zé Rodrigues, Dona Ná, Célia, Maria Augusta… Terminando o trecho da Primeiro de Março que passou a se chamar Dr Carlos da Cunha, temos aqui uma casa que retém particular história para mim… Naquele casarão de esquina, moraram Dona Biquita Claudino e Seo Joaquim Souto, pais do Zé Guarani, da Izinha, da Maria Elizia, da Nega, da Lúcia, do Antônio, da Socorro. Ali naquela casa Dona Biquita experimentou a tremenda dor da perda de seu filho caçula, o César…
Antes ali viveu a família do Sr Deca Medeiros e da Sra Cota Gomes, avós de uma brilhante aluna minha, hoje esposa do Cláudio Miranda… Ei-nos chegados à particular história minha, história que eu não vi acontecer, apenas dela tendo notícias por intermédio de papos de família… Ali residiu, no início dos 50, o Comandante do Destacamento Policial de Peçanha, Sr Cabo Benjamim, tio do editor do Echo, Wilson Oliveira. Sr Cabo Benjamim era casado com a Sra Paixão, filha de Seo Gabi da Cachoeirinha, pai do alfaiate Darcy e da Dodoca. Meu pai, o soldado Geraldo Alexandrino Bispo, amigo e subalterno, pediu ao Cabo Benjamim o favor de levar a meu avô, o pedreiro Geraldo Pereira, uma carta onde era pedida em casamento sua filha Juju…
Chegamos ao fim da rua Dr Carlos da Cunha. A partir de agora estaremos na Rua Francisco Viriato da Rocha, a segunda metade da antiga Primeiro de Março, que continuará na segunda parte. No Echo de agosto, que não é o mês do desgosto.





