“O DESERTO DOS TÁRTAROS” E O CORROSIVO PASSAR DO TEMPO

Publicado em: 30/06/2026 às 07:30

Atualizado em: 30/06/2026 às 11:09

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Giovanni Drogo logo após formar-se na Academia Militar é enviado para o Forte Bastiani, erguido frente ao deserto para proteger o território ao norte contra uma pretensa invasão dos tártaros, como ocorrera em tempos longínquos. Havia o temor de que uma nova invasão pudesse ocorrer, embora a História não fosse clara sobre o que acontecera realmente. 

Pelo fato de se acreditar que possa ter sido fortaleza que impediu as invasões em passado remoto, o forte teve muito prestígio e servir nele era considerado uma honra e caminho para  carreira militar de sucesso. Com efeito, mais por crença do que por avaliação racional, os militares imaginavam que em algum momento os tártaros voltariam a atacar e os oficiais e soldados que servissem lá seriam glorificados por repelir as invasões. Para Drogo, seria o início de uma carreira brilhante, “… o começo de sua verdadeira vida.”

Percebe rapidamente, porém, que o forte tão almejado não fazia parte de qualquer estratégia de defesa, sem relevância para os objetivos militares. Por não contribuir com qualquer ação militar,  o cotidiano dos seus ocupantes era preenchido por rituais vazios, cerimônias estéreis e muita  burocracia inútil. Assim, seria inevitável o tédio se tornar o companheiro mais constante.  

Drogo, então, percebe que deverá voltar à cidade rapidamente, mas acontecimentos banais, exigências irrelevantes, fatos insignificantes, tudo serve para postergar sua partida. Paralelamente, sem que se identifique de forma clara, ele desenvolve uma esperança difusa e sutil que lhe induz a pensar que algo deverá acontecer no deserto à sua frente. A invasão dos bárbaros do norte poderá ocorrer a qualquer momento. O leitor sabe de antemão que a invasão jamais acontecerá, que é apenas uma ilusão criada mente para enganar os habitantes do forte para que não fiquem insanos de vez. Baseado na fantasia que a mente lhe oferece, Drogo decide continuar e esperar o dia que vencer a batalha e receber toda a glória merecida. O dia em que as renúncias de quase tudo seriam compensadas e sua existência triunfal. Ele não se importa de esperar por este dia inesquecível. Ele demonstra querer acreditar nesta quimera e, com ela, começa a acompanhar o avanço irreversível do tempo. Adota todos os hábitos e participa das solenidades que no início não via sentido e que agora passaram a fazer parte da sua vida. Cada vez mais se convence que aquele é o seu mundo e que não conseguirá viver fora dos muros da fortaleza. A espera simplória da guerra é um alento e, dessa forma, abraça conformado a realidade estática, sentido imóvel a vida passar, e o futuro glorioso escapar com o passar dos dias iguais. 

“O tempo entretanto corria, marcando cada vez mais precipitadamente a vida com sua batida silenciosa, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. “Pare, pare!”, se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam, inertes, acaba-se arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca.”

O Deserto dos Tártaros, obra prima de Dino Buzzati lançado em 1940, é uma potente alegoria sobre o passar do tempo, a brevidade da vida e a ameaça do comodismo, que nos impõem viver sempre na espera, ao invés de tomar decisões que podem ser difíceis mas são fundamentais para a vida ser digna de ser vivida. Com a lembrança de que um dia iremos morrer e talvez não realizemos expectativas possíveis. É uma viagem pela alma humana e como impulsos incompreensíveis à razão podem impedir que as potencialidades funcionem. 

Em vários momentos iremos perceber como as questões de Drogo se parecem com as nossas e reavaliá-las a partir da sua perspectiva. Metáfora sobre o passar do tempo e o que desejamos para a nossa  existência. 

Esperando o inimigo que nunca chegou, no final Drogo percebe, com melancolia, que o inimigo real estava dentro dele. Mas já era tarde demais. 

“ … todos lá dentro pareciam ter-se esquecido de que em algum lugar do mundo existiam flores, mulheres sorridentes, casas alegres e hospitaleiras. Tudo ali dentro era uma renúncia, mas para quem, para que misterioso bem?”

“No fim, cabe-nos sempre aquilo que merecemos.”

O DESERTO DOS TÁRTAROS –   AUTOR: BUZZATI, DINO | TRADUZIDO POR: AURORA FORNONI BERNARDINI | TRADUZIDO POR: HOMERO FREITAS DE ANDRADE | PREFÁCIO POR: UGO GIORGETTI

Editora:  NOVA FRONTEIRA

Páginas:  176

O DESERTO DOS TÁTAROS (Il Deserto dei Tartari) filme dirigido por Valerio Zurlini e música de Ennio Morriconi foi lançado em 1976 com elenco estelar: Jacques Perrin, Giuliano Gemma, Jean_Louis Tritignant, Vittorio Gassman, Max von Sydow, Philippe Noiret, Fernando Rey, Francisco Rabal e mais uma turma de peso.

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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