A comédia é sempre um gênero que aguça os olhares à espera da diversão, mas causa um certo receio quanto ao nível da abordagem. E é aí que captura a curiosidade do espectador.
Quando o tema está ligado ao casamento e a inúmeras obrigações que subjazem o acordo da felicidade eterna a diversão é garantida. E, não é diferente aqui, nesse embate precioso dirigido por Olivia Wilde, talentosa atriz que se junta a Seth Rogen, Edward Norton e Penélope Cruz na formação de uma dupla de casais dispostos a novas possibilidades de consenso em torno de apimentar a relação.
O ideal romântico, herdado dos séculos XVIII e XIX, que define o amor como paixão eterna e avassaladora, capaz de trazer completude a uma pessoa, não considerou o esforço cotidiano, o tédio e a negociação diária como fatores decisivos à convivência.
Então, olhar para o mundo à sua volta à procura do padrão ideal torna-se inevitável. Brincar de “voyeur”, espionando a mulher distraída que anda nua pelo apartamento ou se deparar com os seios da vizinha, a te espionarem dentro do elevador, pode estabelecer conexões que justifiquem um encontro de casais: para jantar.
O Convite é uma adaptação do filme Sentimental (2020), do roteirista espanhol Cesc Gay. O roteiro (americano) de Will McCormack e Rashida Jones é muito eficaz na forma como utiliza irritações domésticas como elementos humorísticos cheios de camadas dramáticas. A trilha sonora de Dav Hynes, composta principalmente de cordas de violoncelo, confere às falas mais comuns tons de certo suspense.
Agora revisto pelo olhar de uma mulher (The Invite, 2026, EUA), a questão da monogamia ganha o verniz da modernidade. Precisa de revisão e, até certo ponto, uma delicada condescendência, ao tornar público a dificuldade em naturalizar uma relação que não é consumada há praticamente um ano. O que surpreende os dois convidados que aparentemente fazem sexo, um tanto estridente, que ilumina a fantasia, desperta a inveja e destrói a paciência de seus vizinhos.
Lembrando muitas vezes as obras dos mestres Mike Nichols e Woody Allen o tema da fidelidade, um tanto incômodo nessas circunstâncias, começa subliminarmente a transformar a promessa de uma grande noite, numa sequência de erros que provoca o riso, o alívio e a identificação do espectador.
Há farpas para todo lado. As três partes da estrutura psíquica: o instinto, o eu consciente e a moral social são estilhaçados quando a sex-simbol – a personagem de Penélope Cruz – agora imbuída de sua função profissional como psicanalista, perde a eroticidade e a paciência. Ao ver desperdiçadas suas técnicas para trazer conteúdos ocultos à tona, decreta como irrecuperável o casamento de seus vizinhos.
É aí, que o olhar feminino e delicado da diretora, opta por um caminho menos previsível. Inverte as expectativas e reorganiza o caos ao indicar para o espectador que a possível felicidade ou o aconchego de uma serena convivência pode estar mais perto do que abrir a porta do apartamento ao lado.
O Convite – Direção: Olívia Wilde. Elenco: Penélope Cruz, Edward Norton, Seth Rogen, Olívia Wilde. (2026, EUA). Nos cinemas ou em breve no Streaming.





