Começo essa conversa com a história do título: “A Baixada das Moças”. Meu pai sempre teve o sonho de escrever um livro que narrasse as histórias da velha Colina. Dizia com convicção que esse seria o nome da obra.
Curioso com a origem do título, perguntei-lhe o motivo. Ele me respondeu que, de fato, a cidade nasceu onde existia essa tal baixada. Era um lugar que, além de uma casa, abrigava um curral onde os pioneiros da colonização paravam para pernoitar e descansar seus cavalos. Era a Baixada das Moças.
Suponho que fosse uma área geograficamente situada numa depressão, próxima a algum córrego. Quando ele me contou essa história, imaginei que a tal baixada ficava ali pelos lados do famigerado “Buracão” — que, aliás, merece um capítulo especial. E por que o Buracão? Ora, porque era uma baixada e tinha um córrego que passava por ele. Na minha mente, Colina nasceu ali, embora alguns teimem em dizer que a cidade brotou perto do pontilhão da estrada de ferro.
Discussões sobre o berço da cidade à parte, o nome “Baixada das Moças” veio porque ali vivia uma família que hospedava os tropeiros e lhes fornecia comida. As moças, no imaginário popular, indicavam que os moradores tinham filhas — quantas, com que idade, como viviam… Meu pai dizia que isso era assunto para outra conversa. Como nunca mais tivemos essa conversa, ele levou o mistério consigo.
Mas convenhamos: é lógico e até romântico imaginar que a cidade nasceu de um entroncamento de tropeiros. Afinal, muitas cidades da região surgiram assim — entre uma parada e outra, entre um café e outro.
Lembro-me de Colina já com o Buracão tendo adquirido fama de buraco tenebroso. A cidade floresceu com a chegada da estrada de ferro, em 1909. A região já cultivava café e precisava da ferrovia para levar a produção até Santos, onde seria exportada. Em troca, vinham os gêneros alimentícios e utensílios que não se encontravam por ali: açúcar, sal, temperos, enxadas, enxadões. Tudo chegava no embalo do café que partia.
O comércio foi chegando aos poucos e povoou os lados onde, mais tarde, se construiria uma passagem sob a linha férrea, ligando os dois lados da cidade que nascia. Por isso, chamaram de pontilhão. E até hoje é assim.
Um dos maiores desafios da minha infância era atravessar o pontilhão por cima dos trilhos. A sensação de estar no alto e ver lá embaixo a rua batida de terra fazia o coração pulsar. Que aventura! E mais emocionante ainda era quando chovia muito: a água empoçava lá embaixo e nem carro, carroça, cavalo, bicicleta — nem gente! — conseguia atravessar. Ver aquele “mundão” d’água era uma alegria sem preço. Até que um prefeito, cujo nome me escapa, construiu um sistema de escoamento. O pontilhão nunca mais encheu. Para nossa tristeza.





