ANITTA NÃO É  SANTA, MAS A SANTA LHE ADORA!

Publicado em: 31/08/2026 às 12:44

Atualizado em: 31/08/2026 às 12:44

Compartilhe

LARISSA DE MACEDO MACHADO era uma adolescente de 16 anos, moradora de Honório Gurgel, na zona norte do Rio de Janeiro que cursava Técnico em Administração, que cantava na igreja, que fazia aulas de dança e que havia publicado nas redes sociais um vídeo cantando. O vídeo chegou até Renato Azevedo, o Batutinha, produtor ligado à produtora e gravadora Furacão 2000. Impressionado com a voz e a presença de palco da garota, ele a convidou para fazer testes.

Assim nasce a Anitta.

O nome artístico foi inspirado na personagem Anita, protagonista da minissérie Presença de Anita, exibida pela TV Globo em 2001. A própria cantora já explicou que se identificava com a personagem por ela representar a possibilidade de ser muitas mulheres ao mesmo tempo. 

Sua primeira fase profissional esteve fortemente ligada ao funk carioca. Vieram músicas em trabalhos que ajudaram a construir sua presença nos bailes e DVDs da Furacão 2000. Depois chegaram Bang!, Versions of Me, Me Gusta, Vai Malandra e Envolver, que, em 2022, alcançou o primeiro lugar no ranking global do Spotify e ampliou ainda mais sua projeção internacional.

Anitta passou a circular onde poucos artistas brasileiros conseguem permanecer de forma consistente no mercado internacional.

Foi indicada duas vezes ao Grammy Awards. Em 2023, concorreu a Artista Revelação com Envolver. Em 2025, foi indicada a Melhor Álbum Pop Latino com Funk Generation. Não venceu nenhuma das duas categorias, mas a segunda indicação teve um significado especial: Funk Generation colocou o funk carioca no centro de seu projeto internacional, assumindo como identidade musical um gênero muito estigmatizado no próprio Brasil. 

E, por muito tempo, falar de Anitta era falar de estratégia, hits, sensualidade, coreografias, números, internacionalização e também das críticas ácidas de grupos conservadores, que chegaram a reduzi-la à imagem da “cantora do bumbum de fora”. Ela seguiu, entretanto, como uma das brasileiras de maior projeção internacional na música pop.

Aos 33 anos, Anitta nos traz  uma reflexão sobre aquilo que pode existir para além de “conquistar tudo o que se deseja”.

A resposta talvez esteja em EQUILIBRIVM II, seu nono álbum de estúdio, que reúne 17 faixas e participações de nomes como Maria Bethânia, Alceu Valença, Mart’nália, MC Tha, Mestrinho, Alexandre Carlo, Brô MC’s, Katú Mirim, Letícia Fialho, King Saints e Grupo Ofá, entre outros. É um encontro de diferentes gerações, territórios e linguagens da música brasileira. 

O álbum é majoritariamente cantado em português e percorre diferentes sonoridades brasileiras, passando por samba, forró, bossa nova, reggae, funk e MPB. A única faixa em espanhol  está em “Azul”, releitura da canção de Djavan.

Anitta já provou que consegue cantar fora do Brasil. Em EQUILIBRIVM II, porém, parece cantar para dentro não apenas de si mesma, mas de um Brasil cultural, espiritual, ancestral, ligado à natureza, à fé, à estética e à identidade.

O conceito do projeto nasceu de uma reflexão pessoal e espiritual da cantora, alimentada por experiências vividas em um retiro e posteriormente transformadas em música, imagem e linguagem audiovisual. O resultado é um trabalho que aproxima diferentes manifestações da cultura brasileira e coloca a espiritualidade no centro da narrativa. 

EQUILIBRIVM II chega para mostrar que muitos Brasis cabem dentro de uma só artista.

O candomblé, religião de Anitta é uma tradição que historicamente enfrenta preconceito e intolerância religiosa, aparece no projeto não como mero elemento decorativo, mas relacionado à experiência pessoal da cantora. A presença de referências às religiões de matriz africana exige responsabilidade, especialmente em uma sociedade marcada pelo racismo religioso. Neste trabalho, elas são apresentadas dentro de uma narrativa que valoriza ancestralidade, liberdade e convivência.

Representar elementos religiosos em uma obra pop exige cuidado. E é justamente aí que o projeto ganha força: a espiritualidade não aparece apenas como cenário, mas como parte da construção artística e pessoal de Anitta.

Essa volta ao interno, à casa, não significa que Anitta tenha abandonado aquilo que construiu. Significa, talvez, que incorporou novas camadas à sua essência pop.

O lançamento do álbum veio acompanhado de um projeto audiovisual que transforma as canções em uma narrativa visual, unindo música, imagem, performance e figurino. E este último merece atenção especial.

Os figurinos foram construídos a partir da moda brasileira e de diferentes técnicas e linguagens artesanais. Entre os nomes envolvidos estão o estilista mineiro Ronaldo Fraga, que participa da construção visual do projeto com peças que dialogam com o trabalho artesanal brasileiro. Um dos looks, que aparece em “Deus Mãe”, foi confeccionado pela crocheteira do Vale do Jequitinhonha, Mariane Sampaio e do estilista Luiz Cláudio do Apartamento O3, com um vestido autoral amarelo ouro.

A presença do crochê, dos bordados, dos trabalhos manuais e de outros elementos da produção artesanal brasileira amplia a proposta de EQUILIBRIVM II: não se trata apenas de vestir Anitta, mas de vestir uma ideia de Brasil.

É uma escolha importante em um momento em que a moda artesanal brasileira deixa de ser vista apenas como tradição e passa a ocupar espaços de grande visibilidade na cultura pop.

A EQUILIBRIVM Tour começou em 1º de agosto, em Porto Alegre, e passa por São Paulo, Fortaleza, Niterói e Salvador. São cinco cidades e seis apresentações, já que São Paulo recebe dois shows. 

A escolha de apenas cinco cidades deixou muitos fãs na expectativa de que a turnê seja ampliada e chegue a outros lugares do país e em Belo Horizonte, inclusive.

Talvez seja justamente essa a grande mudança provocada por EQUILIBRIVM II: depois de passar anos mostrando ao mundo o que uma brasileira poderia conquistar, Anitta parece querer  mostrar ao mundo e a nós mesmos de onde ela vem.

Falar de Anitta me trouxe uma imagem que considero instigante: ela é uma mistura de “Vai Malandra” com “Valei-me, Nossa Senhora!”

É nessa mistura, aparentemente improvável, que está o equilíbrio.

Anitta não é  Santa, mas a Santa lhe adora!

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *