PRIMEIRO DE MARÇO: UMA RUA DIVIDIDA EM DUAS (CONCLUSÃO)

Publicado em: 31/08/2026 às 12:45

Atualizado em: 31/08/2026 às 12:45

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Rua das Bananeiras vista das Bancadas Paisagem da cidade, rua 1o. de Março a esquerda

Continuando o périplo pela rua Primeiro de Março, subimos pelo lado esquerdo de quem caminha na direção da Bomba. Logo vemos duas casas emblemáticas para mim, moradias de dois inesquecíveis joãos, primeiro o João Sabino, marido da Ermita e pai do Vico, do Du e da Marise. Ali eu e meu grande amigo atleticano ouvimos incontáveis jogos do Galo, vibrando com alegria nas vitórias. A seguinte casa, sempre cor de rosa nos meus pensamentos e sonhos, pertenceu ao segundo João, o Madeira, casado com Dona Laurinha Vilarino, casal sempre alegre, amigo dos amigos, frequentado por animados e ruídosos companheiros de truco: –  “Truuuucooooo!! – Vale seeeeisss!!!” – “Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah…”

De volta ao lado direito da rua, me lembro muito vagamente do Budé, um ferreiro que morou em casa próxima à da família Souto, Dona Biquita e Seo Joaquim, que primeiro moraram ali. A casa que foi dos Souto, antiga, antes e depois deles se fez ao longo dos tempos residência de diversas outras familias, entre estas a de Maria de Lourdes Alexandre, hoje casada com o Nadinho, bem como a do Sr Ari Medeiros Braga, que ali também viveu, ao tempo em que o Braguinha, a Mara e o Pitu eram bem pequenos e dificultavam bastante o retorno do pai deles ao Banco no depois do almoço, Seo Ari precisando recorrer à assustadora figura do Lobo Mau para conseguir fazê-los retornar com Dona Tereza: “O lobo mau já subiu lá pro alto da pedreira, Geraldo?” Meu avô, espírito sempre farrista,, respondia depressa:  – “Ainda não, Ari. Pois não é que o danado ainda está aqui embaixo no terreiro, feito um doido, caçando menino pequeno pra comer com angu?!” Era a senha capacitada para permitir a Dona Tereza um retorno imediato com os três levados…

Às vezes me parece que minha memória falha lamentavelmente, por exemplo naquele trecho logo acima da casa do João Madeira, ali eu só me lembrando com nitidez de uma empresa de torrefação de café montada pelo Carrinho França, o Antônio Xexé trabalhando lá com ele. Já não sei dizer se verdadeiramente mais de uma casa foram erguidas naquele trecho ou se o Geraldão, meu colega de Banco, a Aldinha Vieira e o Sr Antônio Cardoso residiram em momentos diferentes na mesma…

Deixando para trás profundas dúvidas essenciais importantíssimas, subo agora o morro, voltando a topar com casas emblemáticas. À direita a primeira delas, a de Dona Silvia Vilarino, irmã de Dona Laurinha e mãe da Braguinha, da Ruth, da Ivone, do Geraldinho e da Fátima. A outra, um sobrado, pertenceu à Dona Maria do Messias. Sr Messias _ Messias Luís de Moura _ foi um soldado dos tempos antigos, amigo de meu avô e, por consequência, de meu pai, a quem alugou uma de suas casinhas, erguidas logo acima, no mesmo correr do de sua casa, para que ele, papai, iniciasse sua nova vida ao lado de minha mãe. Casados, foram morar ali, onde nascemos eu e minha irmã natimorta. Natural de Caratinga, Sr Messias era pai dos rapazes Sebastião e Maximino. Assim era pronunciado _ Maximino _ mas eu acho que ele em verdade se chamava Maximiano. Infelizmente o Cartório da Elza não pôde me auxiliar, Maximino não tendo sido registrado em Peçanha…

Na outra casinha de Seo Messias, meia-parede àquela onde nasci, ao tempo em que mamãe era casada com meu pai, viveu ali ao lado Sá Mariquinha Mãe de Sudário, tornada especial amiga. Tempos mais tarde, morou ali outra Maria, também transformada em grande amiga da minha mãe, as duas viúvas de soldado, aquela do Sr Nelson: Sá Maria Mãe do Xexé. Sá Maria foi uma pessoa querida, muito presente nas nossas vidas ao tempo de minha meninice, ela tendo falecido no exato período do ano de 1980 em que nascia minha filha Maria Fernanda. Sá Maria de Seo Nelson foi a responsável por ter se formado em nosso terreiro um grande plantel de galinhas. A coisa teve seu nascedouro num dia qualquer em 1967, eu buscando aplicar na perninha quebrada de pequena franga de propriedade dela, Sá Maria, os frescos conhecimentos adquiridos ainda naquela manhã em aula do professor Vandir. Felicíssimo, coberto de glória, consegui restaurar os movimentos da franguinha. Ganhei-a de presente… Acima da casa de Dona Silvia, mais confusão em minha mente, eu só conseguindo me lembrar de que naquele trecho morou Jair, um tímido guarda que serviu como segurança no BB durante o tempo em que trabalhei lá…

Senhor Viriato. Francisco Viriato da Rocha, falecido em 1973, ele forneceu seu nome à segunda metade da antiga Rua Primeiro de Março. Singela homenagem prestada por Peçanha àquele discreto veterinário, homem admirado e estimado, pai querido de família numerosa: Nonô, Waltinho, Quifinha, Geraldinho, Cordélia, Antônio, Cici, Arnaldo, Sãozinha, Davi e Carlito. Seo Viriato e Dona Lilita, parte do Peçanha que nunca morre… Antes da casa deles, o grande espaço de um terreno que se faz acidentado. Ao fundo, em terras que pertencem à Escola Estadual – o Campinho da Bomba… Seguindo agora para além da casa de Seo Viriato, mais e mais para o alto, poucas lembranças: as Lourenço, poteiras, a residência do Zequinha do Louro, o local onde moraram ou ainda moram o Sávio Gandra, a Zica, sua esposa e os filhos… Subindo um pouco mais, a memória me traz Seo Geraldo Amaral, Dona Efigênia, Neném, Jesus, Zezé… Um pouco mais acima ou seria ali mesmo?! – uma das ramificações dos Guimarães. Já não me lembro exatamente quem eram as pessoas… Terminando a rua. A casa de um parente meu, Zezé do Teodomiro, marido da Zezé do Seo Juquita, ambos os pais da Claudia, do Marcos e do craque Leitão…

 Somos chegados ao fim da Rua Primeiro de Março, o término do trecho que passou a se chamar Francisco Viriato da Rocha. Daqui deste alto uma visão linda para mim…  O Peçanha. O Cruzeiro da Bomba logo ali atrás, eu continuo encarando o Peçanha, lá embaixo e ao longe…

Eh, Peçanha!

Rubens Geraldo Bispo

Rubens Geraldo Bispo é peçanhense desde 1954, tendo saído de Peçanha em 1982, embora Peçanha nunca tenha saído dele. Pai de três filhos, é atleticano, roqueiro e formado em Letras pela Universidade Federal de Viçosa, cidade onde mora e que está crescendo para cima. Aposentado em 2007, desde então escreveu três livros: "Nietzsche & Outros Assuntos", "Embusteiros" e o "Guia Para Principiantes Ao Livro de Urântia"

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