OS TEMPOS E AS GERAÇÕES (CONCLUSÃO)

Publicado em: 31/08/2026 às 12:54

Atualizado em: 31/08/2026 às 14:09

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A Persistência da Memória, Salvador Dalí

Se no último quarto do século passado o tempo já mostrava sinais de aceleração, estima-se que, a partir dos anos 2000, a velocidade em que as coisas acontecem passou a seguir uma progressão exponencial. Não se trata apenas de percepção subjetiva: a transição da modernidade para a chamada hipermodernidade é um fenômeno real, tema central de estudos nas áreas da sociologia, da psicologia e da neurociência, sustentados por teorias e observações científicas que explicam como a tecnologia e a cultura mudaram nossa relação com o cronômetro.

O sociólogo alemão Hartmut Rosa defende que a tecnologia não nos deu mais tempo livre; pelo contrário, ela impôs à nossa rotina uma aceleração social sem precedentes. A sensação é de que o presente encolheu devido às mudanças tecnológicas, sociais e profissionais que ocorrem em medida superior à nossa capacidade de absorção. A instantaneidade digital promovida pela internet de banda larga e, posteriormente, pela onipresença dos smartphones eliminou a espera. O tempo de latência, intervalo necessário ao processamento psíquico e emocional, não existe mais. No entanto, o cérebro humano ainda depende dos mesmos mecanismos biológicos ancestrais de esforço, repetição e repouso para consolidar a memória. Sem essa pausa, criamos uma cultura do imediatismo e da efemeridade, em que o futuro é antecipado e o passado é rapidamente descartado, de tal forma que a informação desaparece antes mesmo de termos decodificado o seu real significado.

Essa dinâmica ganha contornos ainda mais fluidos sob a ótica do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor da teoria da Modernidade Líquida. Argumenta esse estudioso que as estruturas sólidas do passado se desfizeram. Sem planos de longo prazo – como carreiras de uma vida toda ou instituições sociais estáveis –, nossa existência transformou-se em um conjunto de experiências episódicas e conexões voláteis. Deixamos de ver o tempo como uma linha contínua para vivenciá-lo como um fluxo fragmentado de estímulos incessantes.

 GERAÇÃO Z, NASCIDOS de 1997 a 2012

“Como não tens experiência das coisas do mundo, todas as coisas com alguma dificuldade te parecem impossíveis. Confia no tempo, que geralmente dá doces saídas a muitas dificuldades amargas.”

(Miguel de Cervantes, Don Quixote)

A Geração Z, hoje com idade variando de 14 a 29 anos, carrega uma marca histórica inédita por ser a primeira a crescer integralmente imersa na arquitetura da internet. Para esses adolescentes e jovens adultos, a tecnologia transcende a condição de ferramenta utilitária para se transformarem em uma extensão da própria identidade e sociabilidade. Eles compartilham com os Millennials. Certos valores essenciais, como consciência socioambiental, a preferência por modelos de trabalho flexíveis, a rejeição à rigidez corporativa, o respeito à diversidade e a busca por propósito e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. No entanto, também há uma diferença fundamental entre as duas: os Millennials são os pioneiros digitais, mas guardam na memória como a vida acontecia sem internet e ainda sabem operar na desconexão por terem vivenciado a transição do mundo analógico para o digital; a Geração Z, por sua vez, é composta por nativos digitais, ou seja, nasceram e cresceram com smartphones e redes sociais integrados à rotina, vivendo em um estado de hiperconexão permanente, em que o conceito de ficar totalmente offline é praticamente inexistente

Nesse cenário, a Geração Z transita como protagonista natural, submetendo-se a alterações neurológicas importantes no cérebro. Esse tema provocou debates acalorados na comunidade científica. De um lado, gerou enorme repercussão o alerta, no mínimo polêmico, do diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França (Inserm), Michel Desmurget, neurocientista francês, exposto no livro de sua autoria, A Fábrica de Cretinos Digitais. Ele sustenta que, pela primeira vez na história moderna, os filhos apresentam um Quociente de Inteligência (QI) inferior ao de seus pais devido ao uso excessivo de dispositivos digitais (smartphones, tablets e videogames). Segundo o estudioso, o tempo gasto em telas substitui atividades essenciais para o desenvolvimento cerebral, como a leitura, a interação social e o sono de qualidade, com prejuízo para a linguagem, a concentração, a memória e a capacidade de pensamento crítico dos jovens.

Mais recentemente, o advento da Inteligência Artificial generativa (como o Chat GPT) parece intensificar ainda mais o quadro, com estudos do MIT e Microsoft sugerindo que a delegação cognitiva pode reduzir a capacidade de aprendizado.

Em contraponto, uma ala expressiva de psicólogos e neurocientistas atenua esse controverso ponto de vista. Para esses, a inteligência humana não está em declínio, mas em processo de ajuste às novas conjunturas ambientais resultantes de métodos de comunicação cada vez mais inovadores. Os cérebros das novas gerações estão sendo, pois, reconfigurados, otimizando habilidades como o processamento rápido de informações visuais, a tomada de decisão em ambientes dinâmicos e flexibilizando-se para responder a cada etapa tecnológica que surge.

Todavia, toda essa mutação comportamental pode gerar consequências severas à saúde mental. O esforço adaptativo exigido da Geração Z e da subsequente Geração Alpha (nascidos a partir de 2013) tem se manifestado no aumento expressivo de diagnósticos de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), depressão e Síndrome de Burnout precoce.

Sempre houve perguntas aparentemente sem resposta e, por vezes, as complexidades enfrentadas parecem intransponíveis. Contudo, a humanidade, sob diferentes circunstâncias, soube superar períodos de crise, por mais absurdos que parecessem. O jovem contemporâneo não é menos capaz; ele apenas responde neurologicamente a um cenário radicalmente diferente, sujeito a estímulos antes inimagináveis. Cada época histórica teve sua própria ruptura com o passado. A novidade da nossa era é a super aceleração cronológica e informacional, que gera a constante e angustiante sensação de escassez temporal.

Há, nesse sentido, um desafio social e civilizatório próprio da atualidade: a construção de uma saúde mental equilibrada, tendo como premissa uma abordagem que acolha as potencialidades do universo digital, mas que devolva urgentemente à existência as bases estruturantes do pensamento e da cognição humana.

Do ponto de vista pedagógico, diante do esgotamento da digitalização radical, um recuo estratégico começa a tomar corpo como medida de prudência e sobrevivência cognitiva. Desde 2023, a Escandinávia – liderada pela Suécia – iniciou um movimento de revisão crítica ao reintroduzir livros físicos e a caligrafia em suas escolas, após anos de imersão absoluta em tablets. Os países nórdicos redescobriram a importância do papel impresso e da escrita à mão, reconhecendo o valor científico do suporte físico para a ampliação da capacidade de concentração, da compreensão da leitura e da alfabetização profunda. Essa abordagem não defende o anacronismo ou o abandono da tecnologia; consiste, sim, em estruturar um sistema com metodologias híbridas, de modo a contemplar as ferramentas virtuais e superar suas deficiências, restituindo às salas de aula princípios vitais como o tempo contemplativo, a atenção sustentada, o esforço intelectual e a profundidade do conteúdo.

O Zeitgeist que moldou a Geração Z imprimiu nela uma busca por soluções ao esgotamento sistêmico de um mundo em crises crônicas e sobrepostas. O aparente desinteresse ou distanciamento percebido em seus membros pelas gerações anteriores não reflete passividade; expressam, fundamentalmente, uma estratégia ativa de sobrevivência emocional e preservação psicológica. Trata-se de uma mudança cultural profunda na gestão de energia, do tempo e das expectativas de futuro, manifestada na forma de ação concreta e controle sobre a própria vida.

Nascidos em meio a eventos e transformações abruptas de grandes proporções – como a pandemia de Covid-19, a instabilidade econômica e, sobretudo, a hiperconexão –, os representantes dessa geração posicionam o próprio bem-estar e o equilíbrio entre as esferas pessoal e profissional no centro de suas prioridades. Sob essa perspectiva, o trabalho é visto estritamente como um meio de subsistência, e não como um propósito fim da existência, estabelecendo limites claros contra demandas que extrapolam o contratado. Eles são altamente criteriosos sobre como empregar seu tempo e energia, configuração que se manifesta também em seus hábitos de consumo. Diante de um custo de vida inflacionado e da retração imobiliária global, adotam uma postura de ceticismo em relação aos métodos tradicionais de geração de patrimônio, preferindo investir na vivência do presente, uma vez que o futuro é incerto.

Adicionalmente, mostram-se avessos a tensões sociais, optando, por conveniência e auto preservação, pela retirada de situações de conflito. Evitam debates exaustivos nos ambientes digitais e adotam o distanciamento deliberado como resposta ao estresse, utilizando recursos da própria tecnologia – como bloqueios, restrições de perfil e o silenciamento de notificações.Frequentemente, exibem um característico olhar fixo e desinteressado para expressar sua rejeição ao que consideram inadequado ou de mau gosto – comportamento muitas vezes rotulado como apático ou desdenhoso.

Por fim, buscam estabilidade e pertencimento por meio de um refúgio nostálgico na estética e na cultura pop dos anos 2000, uma era anterior à dominância massiva dos algoritmos e das redes sociais. Essa imersão visa criar uma bolha de segurança psicológica, idealizando um período percebido como mais confortável, otimista e inteligível. Nesse aspecto, o resgate de mídias físicas, da moda vintage e de tecnologias analógicas os envolve em uma sensação de controle e previsibilidade diante das ameaças econômicas, geopolíticas e climáticas que ameaçam o presente.

GERAÇÕES ALPHA, NASCIDOS DE 2013 ATÉ O PRESENTE

“O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”

(Fernando Pessoa)

Não existe um consenso quanto ao ano que delimita o nascimento da Geração Alpha. Nas Literaturas sociológica e de mercado, duas referências cronológicas principais são utilizadas: 2010 e 2013. A primeira adota um critério eminentemente tecnológico, relacionando-se ao surgimento dos smartphones modernos, das redes sociais predominantemente visuais e, fundamentalmente, ao lançamento do primeiro iPad, que revolucionou a interface humana com as telas digitais. A segunda prioriza o comportamento social e os impactos sócio-históricos na memória afetiva e cognitiva infantil. Por uma questão de coerência metodológica, adota-se aqui o ano de 2013 como o marco inicial.

Analisar uma geração cujos membros mais velhos estão completando apenas 12 ou 13 anos impõe limitações metodológicas. As bases teóricas da Ciência Histórica e da Sociologia geralmente exigem que os sujeitos objeto de estudo tenham atingido a maioridade civil, política e econômica. Esse distanciamento temporal e geracional é indispensável para que as dinâmicas sociais se consolidem e permitam uma análise factual, e não meramente especulativa.

Feitas essas ressalvas, é inegável considerar que o desenvolvimento identitário dessa geração foi profundamente impactado pela pandemia de COVID-19 (2020-2022) – o evento mais definidor da fase inicial de sua infância. A pandemia antecipou a digitalização em suas vidas: o isolamento social transformou telas em janelas para a escola, para a família e para o lazer, moldando sua percepção de espaço, socialização e higiene. Trata-se de um fenômeno global cujos desdobramentos psicológicos e educacionais ainda estão sendo mapeados. Portanto, por se tratar de um grupo composto majoritariamente por crianças e pré-adolescentes que ainda não ingressaram no mercado de trabalho ou na esfera pública decisória, qualquer diagnóstico atual sobre a Geração Alfa deve ser interpretado com estrita cautela e tratado como hipótese preliminar.

Adicionalmente, a sua transição para a alfabetização coincide com o boom da Inteligência Artificial Generativa (como o Chat GPT), tornando a IA uma ferramenta natural de interatividade. São nativos digitais puros. A comunicação por vídeo, emojis, comandos de voz e avatares virtuais é mais intuitiva para eles do que o texto escrito tradicional. Acostumados com o metaverso e jogos de construção de mundos (como Roblox e Minecraft), eles enxergam a identidade e a propriedade de forma fluida. O virtual e o físico se mesclam, compondo uma única realidade integrada. Inteligentes e impacientes, buscam respostas imediatas via busca visual ou assistentes de voz; por isso, o modelo educacional passivo de sentar e ouvir gera forte desengajamento.

Criados por Millennials mais velhos ou por membros iniciais da Geração X, tendem a crescer em lares menores (filhos únicos ou com apenas dois irmãos) e com pais que priorizam a saúde mental, a parentalidade positiva e a diversidade. Essa característica ressalta a importância de os pais estarem presentes, não necessariamente para explicar ou dar sentido às coisas. O sentido, muitas vezes, é uma construção intelectual que projeta um futuro ou tenta racionalizar o passado; a presença, por sua vez, acontece inteiramente no agora – sem garantias, mas com uma intensidade insubstituível. Embora os Alphas mais velhos estejam apenas entrando na adolescência, as projeções demográficas e econômicas já os apontam como a força de consumo mais poderosa da história até a década de 2030.

Parece ser consensual que a educação desse contingente exige metodologias ativas, gamificação — uso de estratégias, lógicas e elementos de jogos — e foco em habilidades socioemocionais, já que o conhecimento técnico estará automatizado pela IA. Muitos deles atuarão em profissões que ainda não foram criadas, focadas em sustentabilidade, engenharia de dados, ética de IA, bem-estar cibernético e economia criativa descentralizada.

No mundo ocidental, a história demonstra que os métodos de ensino evoluíram continuamente para atender às demandas de sobrevivência, controle social e produção de cada época. Na Pré-História, a educação tinha caráter estritamente prático, baseada na imitação e na transmissão oral de habilidades vitais e comunitárias. Mais tarde, a Grécia Antiga introduziu o conceito de Paideia – a busca pela excelência humana por meio da formação integral do cidadão. Esse modelo transformou o aprendizado em um exercício dinâmico de retórica, filosofia e diálogos orais, visando preparar o indivíduo para a vida política da pólis (cidade, comunidade). Na Roma Antiga, o modelo inicialmente focado nos valores familiares e agrícolas assimilou o padrão cultural grego, com ênfase na oratória, direito e retórica para a atuação política na República e no Império.

Posteriormente, a Idade Média introduziu um ensino dogmático e centrado na Escolástica – corrente filosófica que buscou harmonizar a fé cristã e a razão. Sob essa lógica, o intento intelectual restringia-se à memorização, à cópia minuciosa de manuscritos e à obediência estrita às autoridades eclesiásticas. Esse cenário mudou drasticamente com o Renascimento e o Iluminismo. O ressurgimento do comércio, a invenção da prensa de Gutenberg e a ascensão da ciência experimental destronaram o monopólio clerical. A partir de então, passou-se a valorizar a observação direta, a experimentação e a análise crítica, concebendo o aluno como um ser racional e autônomo, capaz de investigar o próprio mundo.

Com o advento da Revolução Industrial, surgiu a necessidade premente de alfabetizar a população em massa. Esse novo formato visava tanto suprir a demanda por mão de obra fabril quanto moldar cidadãos disciplinados e obedientes ao Estado. Instituiu-se, assim, um modelo educacional prático: de ensino simultâneo, padronizado, fragmentado em disciplinas isoladas e rigidamente dividido por séries etárias.

No século XX, impulsionada pelos avanços da psicologia do desenvolvimento humano e pela consolidação de regimes democráticos, a pedagogia buscou a formação de cidadãos críticos. Esse período foi marcado pela ascensão da Escola Nova, ou Escola Ativa – cujas referências teóricas incluem, entre outros, Piaget e Montessori – que promoveu a aprendizagem ativa, o desenvolvimento de projetos práticos e o fomento à autonomia. O professor deixou de ser o detentor exclusivo do saber para atuar como facilitador, reposicionando o estudante no centro do processo educativo.

Por último, a contemporaneidade consolida a Era Digital. Esta nova fase é caracterizada pelo ensino híbrido, pelas metodologias ativas e pela personalização intensa do aprendizado – transformações profundas impulsionadas pelas novas dinâmicas econômicas, políticas e tecnológicas globais.

A abundância de informação na internet e a rápida automação do mercado de trabalho demandam métodos de ensino híbrido, sala de aula invertida – em que o aluno estuda o tema novo antes do encontro na escola, por meio de vídeos ou textos, e usa o tempo na escola para fazer tarefas e tirar dúvidas, ou seja, deixa-se de apenas ouvir e passa-se a pesquisar e pensar – e o uso de plataformas adaptativas – sistemas digitais que mudam o conteúdo sozinhas para atender ao ritmo de cada aluno –, com foco em competências digitais, pensamento crítico, resolução de problemas e letramento midiático – entendimento sobre como as mídias funcionam, quais são seus objetivos e de que maneira constroem a realidade. O conhecimento, dessa forma, não está mais retido na escola. O ensino se adapta ao ritmo individual do estudante por meio de Inteligência Artificial, centrando-se na curadoria de dados em vez da memorização.

Mas essa adaptação envolve, certamente, um enorme desafio de gestão escolar na busca de limitar a hiperconectividade. O uso excessivo de celulares tem gerado distrações, conflitos e queda na aprendizagem. Escolas brasileiras e instituições ao redor do mundo estão implementando restrições, como o recolhimento de aparelhos celulares, diante da constatação de que a infância e a adolescência estavam sendo silenciosamente sequestradas por fluxos ininterruptos de notificações, curtidas e algoritmos projetados para o vício digital.

Além do controle de smartphones nas escolas, o uso de redes sociais por crianças e adolescentes sofreu uma profunda transformação jurídica com o advento do ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), sancionada em 17 de setembro de 2025 e vigorando a partir de 17 de março de 2026. A nova legislação retirou a exclusividade da responsabilidade parental e estabeleceu um regime de responsabilidade compartilhada, obrigando as empresas de tecnologia a adotarem restrições técnicas rigorosas para a proteção de menores em plataformas como Instagram, TikTok, YouTube e jogos online. Entre as principais determinações, estabelece-se que usuários menores de 16 anos não podem manter contas autônomas, sendo obrigatória a vinculação de seus perfis ao de um responsável legal. Adicionalmente, fica proibida a validação de maioridade por simples clique, exigindo-se que as plataformas implementem métodos confiáveis de verificação de idade – tais como estimativa etária por inteligência artificial, envio de documentos como o CPF ou análise comportamental. Os provedores também devem oferecer recursos simplificados para o monitoramento do tempo de tela, o bloqueio de mensagens de adultos não autorizados e a desativação da geolocalização. Por fim, a legislação proíbe terminantemente a coleta de dados de menores de idade para fins de perfilamento comportamental ou direcionamento de publicidade comercial.

Cérebros em formação são naturalmente vulneráveis a estímulos de recompensa rápida, o exato mecanismo explorado pelas redes sociais para reter a atenção do usuário. Ao expor mentes imaturas a esse ciclo compulsivo, tem-se como resultado alarmantes ocorrências de ansiedade, depressão infantil e isolamento. A escola, antes um refúgio para o aprendizado e para a convivência social, tornava-se um espaço de corpos presentes e mentes ausentes, capturadas pelo magnetismo das telas. A desconexão forçada não prejudica a modernização do ensino; pelo contrário, ela restabelece as condições mínimas para que ele ocorra naquilo que mais importa: o foco e a profundidade cognitiva. A atenção fragmentada por notificações paralelas não proporciona a absorção de conteúdos complexos ou o desenvolvimento de raciocínio lógico. Além disso, o ambiente virtual desregrado nas escolas potencializava o cyberbullying, estendendo as agressões digitais para os corredores e pátios, sem que haja o devido suporte emocional ou mediação de conflitos.

Críticos da proibição costumam evocar a necessidade de educar para o ambiente digital em vez de proibir, alegando que o banimento afasta os jovens da realidade tecnológica. Contudo, essa visão ignora a assimetria dessa força: o poder de persuasão das Big Techs sobre uma criança não é compensável por meio de recomendações abstratas, mas sim contido por barreiras estruturais. Proibir o celular no período letivo e limitar as redes sociais a menores não significa negar-lhes o futuro, mas assegurar que os jovens tenham um presente saudável o suficiente para garantir adultos mentalmente sãos. Ao silenciar as telas nas instituições de ensino, volta-se a ouvir o barulho essencial dos recreios: o diálogo face a face, a brincadeira espontânea e a construção de laços afetivos reais.

Tentar escrever a história dos Alphas neste momento pode nos levar a uma versão corrompida pela falta de distanciamento crítico. Estamos imersos nos mesmos eventos que eles e, sem o recuo do tempo, corre-se o risco de não se saber separar o que é um modismo passageiro do que é uma mudança estrutural na psique coletiva de seus membros. Muitas características a eles hoje atribuídas – como a impaciência, a dependência dos pais ou o aprendizado lúdico – são, na verdade, características universais das crianças. Só poderemos conhecer, de fato, como será o comportamento de seus integrantes quando eles começarem a tomar decisões de modo independente, com seus próprios recursos e responsabilidades.

Chegamos ao fim desse passar de olhos despretensioso sobre as gerações com as quais os Boomers puderam conviver para, além dos estereótipos, tentar entender o contexto de quem veio antes e depois, no intuito de, assim, estabelecer com todos, sob a empatia essencial, o necessário exercício do diálogo sem julgamentos.

Para fechar, um trecho da composição Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, para todas as gerações.

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo,
Tempo, tempo, tempo, tempo,
Não serei, nem terás sido,
Tempo, tempo, tempo, tempo.
Ainda assim, acredito
Ser possível reunirmo-nos,
Tempo, tempo, tempo, tempo,
Num outro nível de vínculo.

Aluísio Rassilan Braga

Aluisio Rassilan Braga nasceu em Peçanha. Arquiteto formado pela UFMG, foi presidente do IEPHA/MG. Também trabalhou na UEMG, como assessor da Reitoria e chefe de Planejamento Físico e Obras. É autor da publicação Patrimônio e Comunidade e colaborador da cartilha ABC do Patrimônio. Atuou em diversos conselhos e programas voltados ao patrimônio, turismo e qualidade do habitat. Atua como profissional autônomo.

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