A porta da cozinha abria para uma varanda onde uma enorme parreira fazia as vezes de pára-sol. Mesa de madeira oval, com dez lugares marcados, e algumas poltronas tecidas em palha compunham a decoração do espaço íntimo e acolhedor.
O almoço era servido rigorosamente às 11 horas, e o café da tarde às 14. E era depois desse café que a bisavó, chamada de Mãe Vina, se sentava na poltrona para fazer crochê.
Ela já estava com seus muitos anos e mantinha a beleza da pele de quem se bronzeia e não desbota, mesmo dentro das roupas pretas que eram sua segunda pele. Os olhos muito azuis e os cabelos muito brancos completavam o conjunto. Tinha orgulho desses cabelos e os hidratava aplicando pedaços de toucinho de porco. Dava bons resultados.
Dos treze filhos paridos, somente seis vingaram: dois homens e quatro mulheres. A vida andava em ordem, como Deus quer, até que a tragédia bateu à sua porta. A filha mais velha morreu em um dos agostos do desgosto, aos 24 anos, deixando um viúvo e quatro filhos pequenos. Partiu levando o quinto na barriga.
Antes que pudesse assentar a tristeza, o filho que carregava o nome do pai, muito belo e promissor, também morreu aos 24 anos, na noite de Natal.
Dali por diante fez-se noite em seu viver, e o que restou foi uma mulher muito dominadora, que queria controlar o mundo para que ele não levasse mais nenhum filho.
Essa rigidez que a vida lhe impôs só era quebrada quando os pontos se entrelaçavam e as correntinhas criavam formas. Surgiam quadrados grandes que viravam colchas coloridas. Brincava com as cores como se elas dessem vida à sua vida incolor. Cobria todas as camas da casa e começava tudo de novo.
Até que um dia os novelos de linha preta foram protagonistas. Não teceu colcha, e sim um manto. Enrolou-se nele e assim se foi.
Fim





